O amigo sem rostoO condutor do autocarro da Junta de Freguesia encontrava-se inexplicavelmente enfermo.
Ainda mais inexplicavelmente, convalescia na minha própria cama, vigiado por mim e por um amigo sem rosto, como se de um presépio sem vaca e jumento se tratasse.
E sem Virgem, já agora. Que nenhum de nós é desse género.
Acto contínuo, aventurava-me por aquele extremo do bairro de casebres. Ali onde ainda podia distinguir o pinhal que, já se sabe, esconde os prédios que nunca existiram mas onde frequentemente entro.
O miúdo apareceu com uma faca na mão. Queria não sei o quê. Apanhou um valente cagaço quando me comecei a rir e lhe disse para ter juízo, que se não guardasse a faca, o mais certo era levar um tiro na testa. Mostrei-lhe o sítio de onde lhe vinha o perigo. E desapareceu.
Quando vinha a sair do beco onde este encontro ocorrera, vi ao longe o começo da operação.
Acabei por ser interceptado mais à frente. De carro desligado com o agente da autoridade encostado à porta do condutor, lá fui de ladeira abaixo até ao entalhe da paragem de autocarro. Ainda esbocei uma graçola por causa do servo-freio, esquecendo-me que o meu interlocutor vestia um colete com letras nas costas.
Fui então depois remetido para as instalações.
Foi aí que encontrei de novo o amigo sem rosto. Estava ao pé de uma juíza e de uma procuradora. As duas interessantes. Ali ficámos em amena cavaqueira com a senha na mão, à espera de vez.
Não sei se houve jogo.