É, como todos sabem, a impossibilidade em futebol. Achar que não mas esperar que sim.
É porém, baseado em números a que acedi, o meu alvitre.
O Sporting não chega lá.
Pelo menos nos últimos sete campeonatos (quantos mais serão para trás?), nenhuma equipa logrou superar a diferença para o primeiro tal como estava este ano à 15ª jornada.
Lamento, meus caros confrades sportinguistas, mas este ano a coisa não vai lá.
Oxalá me engane, oxalá os números se modifiquem.
“Carlos! Carlos! Não se importa de vir aqui..?”
Entrei.
“Ó Carlos, veja lá esta chatice. A minha televisão não está boa.”
Sentado num divã, a meio da sala, em frente a dois aparelhos sintonizados no mesmo canal, o meu senhorio balnear, Zé Povinho escanhoado, virou a cabeça e saudou-me, piscando-me o olho.
Na certa, referia-se às confidências que me fizera, instalado no banco à esquina da casa, protegido do sol quase poente mas ainda abrasador.
O problema era na televisão dela, confirmou.
A dele, colocada mesmo ao lado, embora mais pequena, tinha uma imagem perfeita.
Ela dizia-me: “Já viu? Foi logo a minha que se avariou. Se ainda tivesse sido a dele...”
Compreendi a dificuldade dela em observar as imagens em ponto mais pequeno também em virtude das confidências que me fizera sobre a doença dos olhos de que sofria.
“Vamos lá ver.” – dizia eu esperançado no milagre técnico dito português – a pancadinha no lugar certo.
Verifiquei a ligação da antena. Liguei e desliguei a ficha e continuava tudo igual. Abri a caixinha do sintonizador e zás, a imagem melhorou.
Grandes agradecimentos.
Saí.
No dia seguinte, o meu amigo e senhorio lá se confessou:
“Ela não quer ver a minha. E eu cá também não quero ver a dela.”
A senha eu tinha. Era o número 384.
Quando chegou a minha vez, lá entreguei o envelope e disse "Azul".
O homem do balcão colocou a carta no prato da balança, olhou para o remetente e para o destinatário, fez uma pausa e indicou o valor da franquia.
Puxei do dinheiro e paguei.
Quando iniciava o movimento de rotação para ceder o lugar ao 391, fui travado pelo funcionário que me estendia um maço de papéis.
"É uma publicidadezinha." - disse-me.
Aceitei, convencidíssimo de que se tratava da contra-senha.
Entre os diversos papéis do maço, estou agora a tentar descobrir as pistas mais úteis para completar a próxima missão.
Talvez em letra muito, muito pequena encontre um "Good luck, M!"
Ainda me vi do lado de dentro da janela.
Da casa grande que ordenava o largo.
Já não nos tempos do seu esplendor, mas numa fase em que já tinha sido dividida em três.
Por isso, quando a grafonola ecoou na minha memória, que não podia ter, de acontecimentos do início do século passado, foi fácil olhar a janela aberta e adivinhar o fonógrafo a difundir a música.
Quase setenta anos depois, não estranhava assim que os carros se passeassem com altifalantes, distribuindo panfletos.
Nesse início de século, os panfletos eram ainda inúteis. Riscos em papel sem sentido para a maioria.
Mas a música já embalava os votos.
O major passou uns dias em que não ouviu as suas músicas preferidas.
Um dos sonhos do escriba é ler.
Ler umas páginas que alguém há-de lançar das janelas de um comboio.
Páginas soltas, de cuja arrumação dependa a obra.
Sem saber quem as lançou, embora sabendo que lhe eram destinadas.
Já elegeu um sítio onde as esperará.
Fica ao fundo desta imagem. Embora não seja identificável, a linha férrea está lá.
Cortando em duas partes certa fatia de terra, de que o escriba certo dia se enamorou.
Um destes anos, a casa estará lá. E ao fundo do quintal, num dia de Outono, verá cair as folhas. por MCV às 17:15 de 22 janeiro 2004
Há quem tenha opinião sobre qual era o nome do jogador que envergou a camisola 2 da equipa de Alguidares de Baixo, no último domingo, frente à sempre difícil equipa de Chouriçal da Serra. É difícil convencer essa pessoa de que se trata de um facto observável e incontornável: foi o Joaquim Francisco. Toda a gente o sabe. Ora aqui é que a porca torce o rabo. Quanto tempo será necessário para que tal facto passe a ser objecto de opinião histórica? Já não haverá ninguém vivo ou confiável. Não haverá a unanimidade de café em torno do nome de Joaquim Francisco, pois a maioria dos olhos que o viram já seguiram o destino que os há-de comer. Não haverá boletim de jogo. Não haverá fotografias. Não haverá video caseiro. Deixará assim de ser um facto. Será uma hipótese histórica. Qual será a duração de um facto? por MCV às 15:03
Experiências
O que um processador faz a uma imagem de televisão:
Ouve-se falar muito nos e-books e no seu insucesso face aos livros puros e duros.
A magia das folhas de papel, etc.
Pela parte que me toca, posso dizer que tenho lido poucos livros aqui. Também não me resolvi a imprimir um só que seja. Tenho alguns em stand-by, na versão disco rígido do belissimamente encadernado na estante para vizinho ver.
Mas tal como a maioria dos que por aqui andam há uns aninhos, tenho lido muita outra coisa: páginas temáticas, jornais, revistas, blogues, etc.
Provavelmente o que me afasta dos livros é o mesmo que faz com que o burro arreie na grande recta, o caminho visível a percorrer.
Há porém uma coisa em que estou convencido que os écrans batem o papel – nas paciências.
Partindo do princípio de que a maioria dos que perdiam tempo a sós com um baralho de cartas tem acesso a uma maquineta, quase me convenço de que já não voltam a baralhar e a dar de novo. Agora é mais rato e clique.
Não tenho qualquer base de observação para sustentar este disparate. É um mero alvitre.
Mas ainda hoje descobri que a expressão displicente (e sentada) do meu novo fornecedor de jornais, tabaco e revistas não se deve à atenção que dá à contabilidade da loja. É outra coisa que ele procura resolver.
Uma das frases mais habituais no discurso actual sobre a emigração e a imigração, é mais ou menos esta:
"Se Portugal foi um país de emigrantes, agora tem que acolher bem os imigrantes, também."
Confesso que não entendo a ligação.
E depois ponho-me a pensar:
"Se os Estados Unidos foram um país de imigrantes, agora têm todo o direito de começar a enviar emigrantes para todo o lado."
O que dirão as mesmas cabeças a uma frase destas?
Cruzes, canhoto.
Mas não há dúvida que é uma frase bonita, a primeira. Mas o mundo não se fez com frases bonitas, muito menos com boas intenções.
Faz-se como se faz. Com pressões e resistências, equilíbrios e catástrofes.
Para quem ainda se recorda, o disparate mais propalado em 2002 foi a suposta viragem à direita em França, a propósito da distribuição dos votos na 1ª volta das presidenciais.
Deu o que deu, tumultos um pouco por toda a parte. O habitual cortejo de manifestantes porque sim.
Há sempre nestas coisas quem saiba aproveitar as massas e induzi-las em erro, é a história do homem.
Em 2003, foi a história das armas do Iraque. Deu o que deu, matou quem matou, e ainda está a dar.
As diferenças são:
No caso do Iraque, as armas existiram e entraram na Guerra do Golfo (para quem se lembra, a Guerra do Golfo foi aquela que decorreu pelos anos 80 e só foi substituída nos écrans pela guerra civil jugoslava).
Em França não houve viragem à direita. É uma questão de comparar os números da eleição com os da anterior, em 1995.
As armas do Iraque não se encontraram. Mas o saldo foi de uns milhares de mortos e continua. Saber se Saddam Hussein era pior ou melhor do que muitos outros que envelheceram tranquilos, é outra questão. Sem resposta, a meu ver.
Em França, não tendo havido nada senão o equívoco e a manipulação dos simples, o saldo foi bem menor, algumas escaramuças que alastraram a outros países e eventualmente alguns mortos relacionados.
Pretextos faltam para libertar energia. Pretextos faltam para tomar posições. Pretextos faltam para justificar o que não é justificável, a natureza humana.
Foi assim e assim há-de ser, por muito tempo.
Perde tempo quem pensa encontrar razões e coerências nas atitudes do homem.
M. e P. olhavam para norte, da porta de serviço.
Como dois cavaleiros de western que se deslocam até perto da cerca para travar curtas palavras e depois se voltam rumo ao horizonte.
Ali estavam, rebobinando cada um para si as ásperas palavras que haviam trocado algumas vezes durante a obra.
Agora a certeza do dever cumprido.
Depois de terem lutado contra o tempo e contra as adversidades, de se terem degladiado, depunham as armas.
Era o tempo de respirar fundo e partir para outra. Começar tudo outra vez.
P. disse que afinal o ministro já não viria para a inauguração.
M. rematou que isso não teria qualquer importância, embora desconfiando que ao outro o facto não seria indiferente.
P. entre um sorriso amarelo e um derradeiro olhar para a pilha de restos de obra que ainda não tinham seguido o destino competente, disse calmamente que os jornalistas o tinham ido entrevistar.
Depois, mostrando os primeiros sinais de desilusão, virou-se para o interior do edifício e concluiu:
"Tudo o que queriam saber era quantos quilómetros de tubagens aqui instalámos!"
A repetição do mesmo disparate na imprensa é uma recorrência.
Não parece haver ninguém no circuito que se aperceba da enormidade que está a retransmitir.
Eu gostava de saber como é que se determinou que a bomba de ontem em Bagdade era de 500 Kg.
(eu sei que é comummente usada uma comparação com o poder destrutivo de x Kg de TNT, mas isso não passa de uma escala do tipo da de Mercali) por MCV às 16:40
Nos extremos da cidade. Cresci no extremo oriental da urbe. Atrás de mim, o campo. Searas de tantos em tantos anos, papoilas todos os anos.
Vastas vistas sobre o território, moínhos no topo de colinas.
Agora estou do outro lado. Também no extremo. Uns palmos de terra e a auto-estrada. Do lado de lá das faixas de rodagem, a pequena aldeia de outrora, apresenta agora aspecto de cidade, ela também.
Nunca soube muito bem qual era a minha qualidade: se rústico, se suburbano, se urbano.
Uma mistura das três, é o mais certo.
Vou mantendo as minhas janelas a oriente e a ocidente. Na mesma cidade, amanheço e anoiteço com o sol. A oriente, a manhã, as minhas recordações, os meus livros, um rádio velho e o que resta da paisagem rural. A ocidente, a tarde, as televisões, os computadores, a auto-estrada e as torres de 15 andares.
Nos meus pesadelos mais brandos e reais, vejo os meus montes rodeados de urbanidade.
Juntamente com os anúncios de futuras alunagens, que já referi, há outra notícia.
Eu sei que esta sofre dos síndromas ClonAid, Antinori e de outros efeitos desmobilizadores.
Mas por alguma razão estranha, suscita-me mais confiança desta vez.
Que vai nascer algures um destes dias um ser humano clonado parece que ninguém duvida. Ou ainda haverá cepticismo entre os “esclarecidos”?
Se será desta, não sei. O que sei, todos sabemos, é que quando se aponta o farol em determinada direcção quase sempre se chega lá.
É verdade que há questões para as quais o farol está há muito apontado e parecem por ora inalcançáveis – veja-se o caso do teletransporte. Que também parece ser um campo onde ainda há muita pedra para partir. Muito conhecimento prévio e necessário em falta.
Sucede que parece haver uma espécie de manto de desalento sobre determinadas matérias que faz com que escasseiem recursos, humanos e materiais, na sua investigação. Mas um dia atinge-se a praia.
Não é o caso da clonagem. A expectativa é grande. Há resultados na sala ao lado.
Um destes dias, há notícia.
E é importante.
Quando o homem se lembra de uma coisa...
O progresso roubou-nos a memória.
É a velha questão da frequência do aparecimento e desaparecimento das landmarks ser superior à frequência dos ciclos de vida humana, assunto de resto largamente escalpelizado.
Mas o facto é que, se por um lado, temos oportunidade de ver as mudanças, por outro a nossa memória sente as perdas.
Muito embora eu e os meus amigos de infância há muito não desfrutássemos dos encantos do lugar onde crescemos, que nos proporcionava campos de futebol quase exclusivos, árvores para subir, veredas para descer, searas para nos escondermos em tiroteios de boca, recantos para escondermos arcas de tesouro inverosímeis, tudo isso à porta de casa, em plena urbe, muito embora esse tempo já fosse há muito, sinto a falta desses lugares.
Das centenas de árvores que existiam no talude ferroviário, não resta uma única.
Dos metros quadrados de terra onde travámos as nossas batalhas, onde fizemos correr os berlindes e de onde pretendíamos impressionar as donzelas que pressentíamos atrás de janelas, resta muito pouco.
Não sei quem baptizou a árvore do Stingray. Talvez alguém que misturou a forma do periscópio com a da escada em espinha. O certo é que era uma espécie de pinheiro a que tinham sido cortadas não cerce as pernadas mais baixas. Pelo generoso número de pernadas que a imponente árvore já tinha decepadas, se atingia um nível elevado em que as pernadas intactas proporcionavam excelente esconderijo e toca de emboscadores.
Por ser das mais longínquas (o que eram as distâncias nesses tempos...), não era das mais usufruídas, mas o seu nome era sempre dito com respeito.
Contavam-se os degraus que cada um subira. Ninguém lograra alcançar o topo, tocar no cume. Um risco que não corríamos.
Nunca algum de nós partiu um braço, uma perna, um dedo que fosse nestas e noutras andanças.
Às vezes, uma pedrada numa disputa entre ruas era mais funesta.
É da árvore do Stingray que me lembro hoje. E da excessiva protecção que se dá hoje às crianças também. O mundo estará assim tão diferente?
As feiras, um pouco por todo o lado, fizeram o seu aggiornamento e agora dão-se ares.
Já há alguns anos que o bicho da curiosidade me impele a ir a uma delas.
Para mim, que às vezes tenho a pretensão de ser imune à publicidade, este é um bom exemplo de que o não sou.
Gosto de feiras como muita outra gente. Sei há muitos anos que o Almanaque Borda d’Água fornece indicações precisas dos locais e dos dias onde se realizam.
Então porque razão só agora que elas são profusamente anunciadas na rádio e na televisão é que me disponho a lá ir?
Não faço ideia. Mas a contradição depois toma conta de mim. Então se estas coisas são assim tão divulgadas, não será o caso de haver enchentes insuportáveis? Deve ser o caso – e fico-me.
Já aconteceu com a Fatacil dos primeiros tempos. Cheguei a preparar-me para a jornada certa vez, mas algo de imprevisto fez-me arrepiar caminho.
Depois, bastou um amigo fazer-me um relato da confusão de gente que era, para perder a vontade.
Feiras, decididamente, são um problema insolúvel.
A feira dos Bentos ainda será maravilhosa?
Feira do Fumeiro de Montalegre aqui por MCV às 12:09