15/02/2014

Tristezas à beira-mar

Impelido por um inusitado apelo à organização organizada (pois que a minha organização é desorganizada), vi-me hoje à tarde a tombar livros das estantes.
De um exemplar da 6ª edição de “Tristezas à beira-mar” de Pinheiro Chagas sai-me um postal ilustrado a mim endereçado lá pelos alvores da década de sessenta. Não me recordo nem de haver folheado tal livro nem de ter recebido e consequentemente lido tal postal.
O postal não tem selo, pelo que a ter sido expedido foi-o dentro de um envelope. E não está datado, pelo que, tendo sido expedido, deve ter vindo anexo a uma carta de adultos.
O tema que aborda é que é muitíssimo curioso. Para um postal de avó para neto.
Alterações climáticas


do arquivo online do Diário de Lisboa do acervo da Fundação Mário Soares

Também calhou a um sábado o 15 de Fevereiro de 1941. Bem lembrado aqui.

13/02/2014

Discriminação

Não sou nada sensível aos costumes do politicamente correcto. Antes pelo contrário.
O que não significa que não repare em algumas clamorosas contradições entre o espírito da coisa e o resultado final.
O espírito da coisa é, na RTP, uma variante do “ai, os coitadinhos”. Não se pode falar disto sem dizer que não se tem nada contra, daquilo sem fazer elogios despropositados, do outro sem pôr a cara à banda e olhos em alvo.
O resultado final é, por vezes, desastroso.
Há agora ao sábado um concurso onde adrede se procura o ignorante ou o burro para responder errado ou dizer que não sabe. A julgar que não há ali qualquer tipo de encenação, é pelo aspecto da pessoa que passa na rua que se presume a ignorância ou a burrice. Nada mau para uma televisão com um espírito tão “ai, os coitadinhos”. Tão politicamente correcta.

10/02/2014

A esbelta glutona, o Tour às avessas, os mauros e o palácio das portas de plástico



Ela era uma espécie de Ivete, imensa e magra.
Disputava o trono com Ercília, mais nova.
O palácio ficava ali na Fontes, mais ou menos onde era o Monte Carlo.
Tinha uma loggia fechada por portas transparentes de plástico.
Foi isto no dia em que rebentou o caso do Tour, em que vimos claramente visto o Peugeot azul e amarelo acelerar contra a corrente e em que eu quis de imediato ver as imagens do helicóptero que se distinguia logo acima. Uma carnificina, foi o que pensei ao ver o carro desaparecer na curva já com muitos outros no seu encalço.
Voltaram. O carro azul e amarelo chiava pela descida. Ia ser apanhado.
Entretanto, na Fontes, talvez antes de L’Étoile, um bando de levantinos em triciclos de mercadorias, forçava o caminho para se opôr à passagem da caravana.
Decidi mandar fechar a loggia. Ao julgar perceber num dos polícias o reconhecimento da ameaça que aqueles constituíam. Talvez uma bomba.
Deixei o meu subalterno a comandar as operações na porta d’armas e voltei para junto de Ivete, que se consumia de expectativas.
De uma janela lateral, observava as operações na praça. A polícia parecia ter reposto a ordem e ter a coisa controlada. Já não se ouviam as vozes finas das crianças transportadas nas caixas de carga dos triciclos.
O homem que me era familiar, de cadeira de rodas, dava-me recomendações e conselhos jurídicos. Eu explicava às visitas que ele ainda conduzia o seu Mercedes 180, apesar da quase invalidez e da idade muito avançada.
Depois de fazer mais uma ronda com os olhos pelo salão, pedi-lhe escusa.
Encalhei na secretária do porteiro, que estava a impedir a escadaria do vestíbulo. Ainda pensei passar por baixo dela, quando verifiquei que era praticável a passagem entre o vão e a dita.
Lá estava o meu subalterno a conferenciar com um amigo. A rua em paz.
Disse-lhe que faltava um painel de plástico transparente no arco do topo norte, porque o estava a ver ali na sala vestibular, a fingir de expositor de livros.
Ele disse-me que reparasse bem. O arco estava fechado. O plástico transparente é que estava imaculado. Não se dava por ele.
Posto que assim era, dei as ordens finais para fechar as portas.
Recolhemos ao salão.
O homem dos conselhos tinha saído pela garagem, na certa usando o elevador. Deixara em cima de uma mesa um folheto amarelo dobrado com um papel incluso.
Nesse papel, escrevera um nome. Em maiúsculas.

09/02/2014

O génio dos sonhos peremptórios

Como qualquer grande oráculo não previu o menos provável.
Embora possa ainda ter razão no resultado.

O estádio da Luz não tem quarenta anos de uso como tinha o José Alvalade na altura em que se desprenderam pedaços de betão da pala.
Ali, ou há projecto deficiente ou deficiente execução e falha da fiscalização ou aconteceu qualquer coisa que deteriorou a cobertura e os responsáveis da manutenção deixaram passar.
O que não se admite é que com as rajadas que se registaram tenha havido ruptura nos elementos da cobertura.
O que não se admite é que tenham evacuado tão tarde as bancadas. Só um golpe de sorte evitou que houvesse danos pessoais no episódio desta tarde.

NOTA: Um sintoma do desnorte e da loucura que se vive manifestou-se hoje na rádio – não sabiam as pessoas que relatavam os acontecimentos de onde vinham os detritos que caíam no campo.
Disse o génio dos sonhos peremptórios