Degraus
Faltam-me uns degraus para ascender à indiferença olímpica à estupidez, cuja não herdei de meu Pai.
Ele expressava, sem o dizer, que é desnecessário queixarmo-nos dos dados de um problema. Diria assim mesmo se o tivesse dito – desnecessário.
Ora eu não cheguei lá.
Coisa que me faz suficientemente estúpido para ver negada a ascensão a tal patamar.
Lamento-o (lamento esse que não é mais do que uma queixa para dentro), mas é assim.
A estupidez quando admitida em certos cargos pode ser desastrosa. É inutil aprofundar o tema.
A estupidez não é coisa que desapareça com o tempo numa cabeça. Fica para sempre. Não há saber que lugar não ocupe que possa abrir as paredes estreitas de uma mente.
A estupidez não é crime nem contravenção. Não é culpa nem responsabilidade do seu portador.
O uso da estupidez em certas funções é sempre culpa e responsabilidade de outrem.
Daquele que podendo ver, escolheu um cego.
Na maior parte das dificuldades impostas pelo trato do Estado ao cidadão está, no fim da linha, um bronco.
Um bronco que lá foi posto por outros broncos que o acharam notável e que foi tacitamente aceite por quem conseguiu ver a qualidade de bronco e se deixou estar.
É pois a cobardia dos capazes, a sua omissão, que permite a duplicação sucessiva de mal iluminados em cargos de responsabilidade.
Haverá alguns capazes que com isso lucram. O grosso da coluna perde.
É aquela minha velha história do
Pinhal da Azambuja.
E depois há situações onde é muito improvável que alguém lucre alguma coisa.
Vejamos este caso:
Um indígena marca uma consulta no SNS pela internet.
A marcação pouco depois é rejeitada por e-mail.
O indígena escolhe outra data.
A marcação pouco depois é aceite por e-mail.
Subentende o indígena que, se por alguma razão, a consulta não fôr possível será avisado a seu tempo por e-mail ou SMS, dado que o seu número de telefone lhe foi solicitado aquando do registo.
Decorridos quinze dias sem novas do SNS, mete-se o indígena ao caminho para chegar com certa antecipação ao local de atendimento, cujo lhe é estranho há tempo suficiente para se poder dizer desconhecido.
É o indígena atendido por prestimosa e simpática funcionária a qual o informa, não sem um certo pesar na expressão, que a sua consulta não terá lugar.
Diz a senhora que as marcações pela internet têm erros destes. Marcam consultas que não há.
E diz ainda que o indígena houvera de ter sido informado pelo telefone, caso o número respectivo estivesse atribuído, coisa que não está.
Não atalha o indígena contra a senhora dizendo que o número está no registo e que o e-mail também.
Mas diz-lhe do que sucedera quando obteve, por mudança de residência, o cartão de cidadão, não
o de Isabelino, que jamais seria chamado ao caso, mas o dele próprio. Que lhe haviam dito que todos os registos que sobre ele constassem no âmbito civil, fiscal e hospitalar seriam de uma penada actualizados, sem que ele mexesse uma palha do chapéu.
A senhora, ainda pesarosa, terá dito pois. E marca-lhe ali mesmo, de papel passado, uma consulta para um dia destes.
O indígena chega a casa e reclama. Manda a reclamação por e-mail. Vem rejeitada.
Escolhe um outro endereço do SNS e reenvia. Vem rejeitada.
Escolhe um terceiro. Vem rejeitada.
O indígena escreve um post e publica-o ainda antes de obter uma satisfação. Está pelos cabelos. Que já não tem.
A reclamação afinal foi aceite. Quer o indígena dizer que não veio rejeitada.