O peixinho das alvíssarasA bifana sabia-lhe a memória.
A memória de sons de estrada. De motor, de atrito de pneus, de ar pelas janelas abertas, de vozes como só elas soavam dentro de um carro em andamento.
As paredes do restaurante, indefinidas entre a madeira e o tijolo como se num sonho indistintas, rescendiam a essa memória misturada nos sentidos.
Julgava poder afirmar que jamais entrara naquele local. Não enquanto se lembrasse de tal.
Mas tinha a memória povoada de avistamentos daquela conhecença. Centenas de vezes passara naquela estrada, olhara aquela bizarra construção, quase sempre guardada por uma escolta de camiões abandonados na berma.
J. veio à porta, contemplou o parque de estacionamento agora quase vazio onde se destacavam as letras NU no flanco do jipe, iluminadas por uma solitária lâmpada exterior.
Reviu, na sua já toldada apreciação, os acontecimentos do dia.
A chegada alvoroçada de R., as mamas oliudescas da secretária de direcção, o magnífico petisco na cave manhosa. Reviu e adjectivou cada passo.
De como se tinha montado a missão a Ceuta, imprimido e colado no jipe as folhas com as letras, desencantado os capacetes azuis no fundo do armazém e de como havia mal escolhido a parte que lhe cabia da tripulação, de tudo isto fazia uma sopa que acompanhava na memória o paladar mostardento da bifana.
Talvez tivesse feito um esgar para rasgar a febra com os dentes.
Olhava o poeirento terreiro tentando adivinhar a leste os primeiros alvores.
Nada naquele momento, sequer a aventura que os outros três desmontavam em cavaqueira uns metros ao lado, propondo-se ainda desagravar o Infante Santo, lhe sugeria a possibilidade do peixe das alvíssaras.
Só uns anos depois, sentado na esplanada dos grelhados, enquanto o patrão se afadigava com a travessa, de mesa em mesa, é que juntou as duas coisas.
A missão a Ceuta borregara ali ao km 49 da E.N.10.
O peixinho das alvíssaras idem aspas.
imagem adaptada de http://www.autonavigator.ru/
por MCV às 12:30 de 22 julho 2006 
LP Não sei se era ele. Mas pareceu-me que sim.
Apareceu pela manhã e soltou primeiramente as suas habituais imprecações.
Poupo-vos às enormidades que pronunciou.
Depois sentou-se, acalmou, fumou uns quantos cigarros, oferecendo-me sempre o maço, esperando que eu declinasse, já que sabe que eu há pouco mais de um ano mandei o vício ao tapete mais uma vez, e disse:
Foda-se, não percebes nada disto!
Isto é assim - disse, com todas as certezas deste mundo debaixo do braço - tu queres escrever quatro posts em um mas falta-te a arte.
Então vejamos. Os pontos são os seguintes: a moça persegue-te nos sonhos.
Persegue, sim.
Pois, mas no final é à
Costa dos Esqueletos que aportas.
Claro. Querias o quê, LP?
Que não fosses parvo, Manel. Às vezes - e ria-se - és uma besta!
Ok, ok, deixa-te de comentários.
Então, diz-me lá, que história é essa da moça não te deixar dormir?
Não me deixa - não! É, antes pelo contrário, nos sonhos que me assola.
Huuuuuu - estou a ver, uma fixaçãozinha.
Talvez, sei lá, já não digo nada. Ontem apareceu como irmã do Espanhol, hoje como a viandante. De feições diferentes.
É o Diabo, companheiro, tenta-te com quantas caras tem.
O Diabo, o cara..., é mas é uma fixação com uma mulher, pá!
E sabes com quem?
Sei. Uma mistura da moça de beige com a selecção feminina do Resto do Mundo.
É pouco para uma definição por compreensão. E pouco é para uma identificação.
Será!
Tens a certeza de que não queres usar um dos meus textos para encher chouriços?
'Péra aí, pá. Isto ainda não chegou a esse ponto. Respeito quem aqui costuma vir ler o que escrevo, ver o que fotografo.
Ah, agora os meus textos são uma falta de respeito! Belo!
Mas diz lá, isso da G3 e da moça. Conta lá.
Ui, é uma longa história. Posso começar pelo primeiro caso. Aparentemente não relacionado.
Ela apareceu com um fulano alourado. E outro casal. Vinham num carro pequeno e andavam de companha comigo e com uma prima.
Nesse dia, eu tinha comprado uma carrinha Ford Escort mk III, azul escura
[1].
E claro que ela aparecia estacionada em todo o lado a que eu chegava com o meu carro velho. Para ter a oportunidade de mudar de veículo em plena fuga.
E apesar das tentativas para a convidar para me acompanhar, ela seguia sempre o louro embora logo estivesse a meu lado, enlevadíssima. Era dada aqui como sendo irmã do Espanhol. Mas eu que conheci as irmãs dele Espanhol sei que não era nenhuma delas. Mesmo assim, relatei-lhe a vez que lá estive em casa e a forma como havia conhecido o pai dela.
Mas já te digo, pá, que o pior veio a seguir.
Estás a ver um editor de imagem em que combinas, com uma certa transparência, três imagens diferentes?
Pois bem, a acção decorria num atelier de um antigo alfaiate leiriense, na garagem do último piso daquela banda de prédios que a gente sabe e num certo bar de ingleses no Algarve - tudo num só ambiente.
Aí, havia um frenesi de abalada. Era para irmos não sei onde, em bando.
Lembro-me de ter telefonado à primeira das forasteiras a dizer que não ia. Ela respondeu-me que nesse caso também não saía de casa.
Não me recordo foi se telefonei à forasteira-dois. O certo é que, se tentei, não o consegui. Isso fez com que ela aparecesse, como combinado.
A primeira coisa que lhe disse foi: A forasteira-um não vai nunca acreditar que eu não fiz de propósito.
O facto de entrementes ter entrado no comboio-autocarro, armado conspicuamente de G3
[2], reforçando a segurança do Presidente e ostentando os meus galões, é despiciendo.
A seguir é que sim, desembarcado que fui à porta do café e logo a discutir com os demais as questões de segurança que eles levantavam tal como a ouvir as indicações que me forneciam, cheguei ao ponto de me resolver a levar a forasteira-dois (doravante referida como "a moça") a sentar-se comigo na mesma mesa do Manel onde ocorreu o
episódio da Idade da Glaciação, e a ter com ela demorada entrevista.
Aqui sim desenvolveu-se um acentuada ternura pela moça.
A G3 encostada à parede do fundo, completamente desarmado, ouvi longamente a sua exposição, alheado dos acontecimentos que se desenrolavam em redor.
Este desarmamento desarmou-me. Fixei-me nela.
Quando finalmente nos levantámos e que ela pediu a outra das minhas primas permissão para ir a casa dela mudar de roupa, um dos anciãos veio por um conselho e convidei-o a sentar-se comigo na mesma mesa. Foi quando não vi a espingarda.
Eu sabia que naquela parede
[3] em particular as G3 desenvolviam a camuflagem ao ponto de se tornarem intangíveis, mas cri que era antes coisa do Manel. Acertei.
Deu a sua habitual justificação e entregou-me a arma. Já eu me retirava - ignorando o ancião - quando reparei que a arma que ele me entregara era uma espécie de caricatura de G3 feita de arame grosso
[4].
Com toda a calma, expliquei-lhe que se tratava de uma arma e não de um brinquedo.
Ele voltou à casa de banho, de onde retirara a primeira, e mostrou-me uma G3 sem cano e sem carregador. Eu ri-me e disse-lhe para procurar melhor. À terceira foi de vez, devolveu-me a arma.
Saindo para a rua, tropecei na moça, já de roupa nova.
De volta ao balcão do Manel, entre duas bicas, ela disse-me:
Fazes bem em procurar os tais olhos. Eu faria o mesmo.
LP sorriu, desenhou uma pirueta e, puxando do enésimo cigarro, disse. Quais disse? Escreveu:
Sou, então, desde que caldeus e visigodos se reuniram em torno da caldeirada penicheira, bacharel em pernas de donzela e meus meio-inimigos não mais me perdoarão por ter denunciado a solicitude com que o benjamim de entre eles se ofereceu para restaurar a veleidade pagã no seio da hipocondríaca nação a que todos estamos ligados.
Viro-me pois para a heresia descontente das sabatinas ao sol-pôr e já não apelo para o Supremo Tribunal porque tal não me diz nada.(30-4-80)
Eu repliquei - julgo que de viva voz.
Duas coisas, meu Caro, duas coisas. Esta noite foi um ver-se-te-avias de abrir e fechar portas de cafés-museus ali para a zona de Belém. Ver de plano alto uma ampla zona a sudoeste onde se identificava um edifício que trazia um certo desgosto. E sair da tal praça de onde se só se podia sair sendo-se mimo. E tentar entrar no tal beco completamente preenchido pelo camião-escavadora cuja articulação se conformava com a topologia do sítio.
E esta tarde, no mundo de Alice, uma segunda versão de
La Nuit. Parecida, muito parecida, com uma pessoa que não conheço. Mas em bom. Em muito bom. Até me passou a mão pelo pelo, no primeiro round.
E ele disse qualquer coisa que me pareceu I rest my case. Achei estranho. Sei que não é muito de línguas estrangeiras.
por MCV às 04:04 de 20 julho 2006 
A Operação Cratos
imagem da Sky NewsO caso, velho de quase um ano, da morte do electricista Jean Charles de Menezes é exemplar do que é meter os pés pelas mãos e não saber sair com um mínimo de dignidade de um lamentável caso de erro policial.
É que um caso destes tem todas as características para poder ser exemplar no bom sentido, não obstante a tragédia que envolve.
Bastava para tanto que assim estabelecido o erro e o mau procedimento policial, de imediato se passasse, em nome de toda a comunidade, a encontrar uma forma de ressarcir, tanto quanto isso é possível, os familiares da vítima. E a explicar-lhes que ninguém seria processado por tal erro. E a dar a isso e à indesmentível inocência do desgraçado electricista o devido destaque. Com todos os custos que isso pudesse ter. Sempre em nome da Nação e da sua defesa. Um caso de Estado.
Tudo isto deveria pois ter sido encarado como um lamentável erro decorrente de uma situação-limite, em que estavam em jogo muitas mais vidas humanas. E que, obviamente, tratando-se de um erro não poria em causa nem a necessidade de adoptar procedimentos semelhantes no futuro nem a preparação da polícia para situações tais.
Pois foi exactamente o contrário que fizeram.
Às primeiras horas, ainda insistiam que o homem era um terrorista.
Depois questionaram, vezes sem conta, todo o procedimento (admite-se e requer-se mesmo que o façam na reserva das instituições respectivas e que identifiquem procedimentos incorrectos e elementos policiais incompetentes).
Permitiu-se até criar um espírito contrário a acções semelhantes.
O imbecil fardado que apareceu a dizer, em directo, na TV que as ordens não eram para disparar a matar mas sim para incapacitar de imediato, sempre que possível com tiros na cabeça, apenas mostrou nos limites do absurdo, e perante a incredulidade do jornalista, o nível que a coisa assumiu e a qualidade dos protagonistas.
Chegaram agora à conclusão de que não vão processar criminalmente ninguém! Um ano depois decidem algo que era suposto ter sido dito de imediato.
Pior, vão abrir um processo absurdo por uma espécie de violação de garantias de segurança.
É a mentalidadezinha dos novos tempos.
A incapacidade de chamar os bois pelos nomes.
A terceira via.
por MCV às 21:34 de 17 julho 2006 