A estrada do sul
Em tempos, esta teria sido a altura de rumar ao sul. Em outros tempos ainda mais longínquos, ainda faltaria um mês.
Em tempos, cumprir-se-ia o ritual da pré-travessia em Belém ou no Cata-que-Farás.
Esperar na fila. Mais dois ferries e é a nossa vez.
Depois, as manobras devidamente comandadas para encaixar a viatura no meio dos camiões.
Se era dia de águas agitadas, o mais certo era presenciar um encosto e um espelho partido. E os habituais lamentos.
Uma vez de novo em terra, era ir pela E.N.10 passando pelas terreolas de casinhas baixas até se entrar em estrada aberta, depois do Fogueteiro, e pouco depois se avistar a chama no topo das chaminés dos altos fornos.
Depois havia o entroncamento de Coina, com a respectiva bomba de gasolina e uns armazéns.
Seguiam-se as terras de Azeitão. O café da bifurcação, as caves, a garagem da João Cândido Belo, a subida em recta da serra, a capela lá no alto, e a descida em curvas até se passar pela fonte e se entrar numa sequência de rectas até à cidade do Sado.
Lá estava a Boîte, em grandes letras, à entrada.
Trajecto pelo centro e passagem sob a linha do Sado, praça de touros à direita e já se saía.
Depois, no lugar das Pontes, umas quantas casas e novamente a estrada.
Águas de Moura. Bomba de gasolina com belos arcos em betão e ponte da Marateca.
E.N. 5. Rectas e condado de Palma.
Mais rectas e a várzea do arroz. Sobe-se para Alcácer e desce-se para lá entrar.
Café Sado. A ponte cujo mecanismo levadiço parecia já não funcionar.
E.N. 120. Depois a recta de todos os perigos. Bermas de areia, pinheiros rentes. Muito antes do Chinita e de quaisquer outros pontos de paragem.
Em Grândola, depois da primeira curva em vinte e tal quilómetros, o depósito da água e o Paraíso do Alentejo com as suas bombas de gasolina, que ainda lá estão.
Na 259, ainda se passava por Canal Caveira, também muito antes do cozido aparecer num pátio improvisado, e caso a passagem de nível estivesse fechada, lá se fazia o corta-mato por debaixo da ponte ferroviária, rentinho ao encontro. Barro seco no leito estival.
Mas de Grândola em diante, já era o deserto. Raro era encontrar outro carro na estrada.
Mais uns dois ou três dias e já torrava ao sol. Em praias desertas.
Com os anos, com a ponte, com o aumento do tráfego, as novas rotas desertas de fugir aos engarrafamentos.
Depois da 264 chegar ao Algarve, depois de chegar também a Ourique.
Depois de todas as variantes, depois do velho sonho, tantas vezes ouvido nesses tempos, da ponte do Montijo, depois da auto-estrada finalmente ter passado o cabo das Tormentas, ironicamente chegando aos meus sítios, cinco dias depois do meu adeus, já não vou.
Já não vou para sul.
imagem de
por MCV às 18:03 de 31 julho 2004 
A mulher-cobra
Ainda me vejo naquela tenda com Miss Maura (tambores) a deixar-se conhecer assim que descerraram a caixa onde habita.
Não me recordo se Miss Maura (exclamações) disse do que se alimentava.
Recordo-me do turbante violeta de Miss Maura (suspiros).
Ainda me vejo a tentar perceber se alguém se convencia da sua maldição.
Soube que uma mulher vagamente parecida com Miss Maura comprara uma caixa de Omo lá na loja.
imagem conseguida depois de roubar partes aqui, ali e acolá
por MCV às 07:45 de 30 julho 2004 
O jornalismo especial de corrida
O jornalismo especial de corrida é aquela variante em que o jornalista corre atrás da notícia, para um lado qualquer do país, fora do seu mapa mental.
Quando lá chega, não sabe onde está.
Aí, começa a reportagem. Os exemplos são diários.
Tome-se o caso do incêndio de São Barnabé. Depois de ter passado a fronteira dos reinos, o que fez ainda na segunda-feira, passou a ser dois.
Um em Almodôvar, outro em Loulé. Depois tão depressa volta a ser um como dois de novo.
Até no site do
SNBPC, parece que são dois.
Ninguém nesta terra saberá interpretar uma carta?
(actualizado às 10:25 de 29/07/04 - o último comunicado do
SNBPC, de 28/07/04, 19:20, ainda não acessível na rede quando este post foi escrito, já refere um só incêndio)
por MCV às 23:59 de 28 julho 2004 
O Inferno (ainda)
Era para escrever sobre o que vi hoje, pela madrugada, entre serras.
Mas face a tanto disparate, lido e ouvido, guardo-me para tempos mais serenos.
Era uma visão dos infernos.
Posto de vigia do Mu
por MCV às 21:40 de 27 julho 2004 
Lenda ou não, aqui ou ali
865 anos se passaram, desde o dia 25 de Julho de 1139. Com os devidos ajustes, é certo.
Andando entre montados e carrascos, onde sinais desses tantos anos poucos há, como se tudo estivesse em tempo de cónios, romanos ou árabes, só me acode Sá de Miranda:
Que farei quando tudo arde?
Inda que o fogo tenha em todos esses séculos sido o exutor das pragas, o guardião final. Haja memória. Mesmo que Portugal esteja no fim.
por MCV às 23:13 de 25 julho 2004 