A primeira vezHá uma coisa que faço sempre por não confundir, tanto mais que a critico amiúde. É a prestidigitação que pretende mostrar interesses particulares como sendo de toda a gente.
Aquela coisa de um tipo a quem estão a ir ao bolso e quer que achem, quando não acha ele mesmo, que o prejuízo é nacional.
Sou um produtor de cortiça de pequena escala.
Isso faz de mim interessado neste caso e um potencial prejudicado.
E o caso é o seguinte:
Ouvi agora na televisão e presumo que tenha uma base verídica, a julgar pela conversa de um dos entrevistados, que se irá promover uma campanha de reciclagem de rolhas, através da moagem das ditas e com os lucros resultantes dessa operação – matéria-prima a custo zero – a financiar não sei o quê ambiental. O costume.
Esta parece que tem ou pretende ter maior envergadura, visto estar a ela associado o maior grupo industrial do sector.
Pelo meio, reconhece-se que para a actual campanha propagandística contra o aumento da produção de CO
2, os montados são um óptimo elemento, dada a utilização e transformação que dele fazem.
Suponhamos, por absurdo, que esta campanha faz algum sentido e que, nesse caso, os montados são um elemento inestimável para regular os níveis de CO
2.
Suponhamos que uma grande parte da quantidade das rolhas produzidas pela indústria é do tipo rolha natural – 100% cortiça. Não conheço estes números. Baseio-me numa amostra representativa apenas do meu consumo de vinho.
Suponhamos ainda que os resíduos de cortiça em forma de rolha natural são de fácil degradação no meio, o que vai de encontro às ideias genéricas dos tipos que aparecem nestas campanhas.
A ser tudo isto verdade, o facto de se desperdiçarem rolhas não é ambientalmente grave, de acordo com os cânones em vigor.
Ora, por cada rolha a reciclar que entra como matéria-prima na indústria, há uma “rolha” vinda directamente do montado que fica à porta, que fica na pilha, que fica na árvore, que faz baixar a renda do produtor, desincentivando a conservação dos povoamentos de sobreiro.
Se os meus pressupostos estão certos e se de facto os montados são uma riqueza a proteger em termos ambientais, então esta é uma medida que tem o exacto efeito contrário.
Ou será que me enganei nalgum passo?
É a primeira vez que faço aqui uma defesa dos meus interesses particulares.