De boas intenções
Vi ontem
uma reportagem sobre a interrupção de fornecimento de música a pessoas internadas nos cuidados paliativos, por falta de financiamento.
Apareciam umas senhoras a tocar e a cantar. Sem financiamento, deixariam de o fazer.
A reportagem era pornográfica. Mostrava alguém em condições muito débeis numa cama de hospital. Coisa escusada.
Suponhamos que a música é algo que se torna paliativo para quem está em condições tais. São precisas umas senhoras que tocam e cantam? Não há aparelhos de reprodução em formatos suficientes para tal fim?
Continuemos a supôr que a música é paliativo. Será a música que agrada e sempre agradou a quem está doente ou a música e as vozes das senhoras?
Deixemos de supôr que a música é paliativo. Para quem está em tais condições, pode ou não ser mais uma inconveniência? Com um particular toque e uma particular voz ou com qualquer toque e qualquer voz.
Parece-me isto uma espécie de boas intenções daquelas de que queremos distância. Ou, dado que se fala em financiamento, não será só um negócio?
Outro assunto (do mesmo telejornal): Para a RTP, o elevador de Santa Luzia (a tontinha quereria dizer Santa Justa ou sabe lá ela...), hoje inaugurado do outro lado do vale,
ardeu no incêndio de 1988.
Não há portanto naquela redacção uma criatura que seja capaz de corrigir estas e outras enormidades.
por MCV às 00:11 de 11 junho 2015 
Manual
O homem tem um manual de procedimentos na cabeça e é crente. Nem percebe que tem lá o manual instalado. Fala-me com entusiasmo de irracionalidades que não abrange. Diz mesmo que o mundo agora (desde que ele se apercebe) é muito mais racional.
Os manuais de instruções dividem o mundo. Entre os que os elaboram e aqueles a quem se destinam.
O grande triunfo desta massificação é, à semelhança do que aconteceu com as religiões, que o comandado pelos procedimentos não se apercebe de que é comandado. De que existe uma cartilha.
por MCV às 23:55 de 07 junho 2015 