Cartão de crédito Escrevi aqui
há dois anos e meio que me tinha sentido mal julgado por não ter cartão de crédito.
É claro que não se pode medir a opinião pública ou a pública avaliação, subsumindo a partir de um imbecil qualquer. Que foi o que fiz em tal ocasião, ainda que pretendendo ser irónico.
Daí para cá, não se deu o caso de ter voltado a ser olhado de alto a baixo por não ter uma tal coisa na carteira.
Convém dizer também que não tenho a preocupação do parecer, mas que me aborrece tropeçar em explícitas avaliações alheias. O prejuízo acaba por ser mais da irritação do que do resto.
Dito isto, não é que dou ontem com um cartão de crédito emitido em meu nome, todo bem embrulhadinho, com as devidas taxas de juro bem explicadas, na minha caixa do correio?
Já não posso dizer que não tenho um.
Não faço a menor tenção de o devolver ao meu banco. Fica aqui no meu museu. Virgem até morrer por evaporação de solventes.
por MCV às 01:22 de 15 junho 2007 
O melhor amigo do homemAndo aqui há tempos com esta atravessada.
Pensava eu que o melhor amigo do homem era o cão. Pensar não será bem. Meteram-me isso na cabeça e eu não me livrei em tempo de tal ditame. Depois, o cão parece ter acompanhado o homem por tantos séculos que lá ganhei algum lastro para alicerçar uma ideia que me tinham impingido. Sabemos bem como são estas coisas.
Mas o certo é que, à medida que fui vivendo e convivendo, esbarrei com crenças díspares. Que de alguma forma beliscaram aqueloutra.
Vem um e diz, acabadinho de fechar a cerca do gado: "
O melhor amigo do homem é o arame!" e logo me dou conta de que muitos mais o acompanham nesse suspiro.
Chega outro, a modos que atrasado, bate os dedos no capot quente e exclama: "
O melhor amigo do homem é o automóvel!" e dá-se o caso de ouvir depois a outros que tais, sentença igual.
Estou debaixo de uma viga aparentando descaso de manutenção e logo ouço a quem parece abraçar carlingas de um só amplexo, lagrimita ao canto do olho: "
O melhor amigo do homem é o betão!" e afinal há inúmeros mais que assim o dizem.
Também já ouvi discussões em que o fiel amigo vem à baila. E vai-se a ver é o bacalhau.
Com tudo isto, vejo seriamente abalada a minha crença mesmo que me recorde das intensas lambidelas com que o meu querido cão me agraciou.
Será que há por aí mais colégios, mais agremiações, deputações, confrarias que venerem a amizade unívoca de uma qualquer outra entidade material ou imaterial? A haver, qual seria esse amigo? Esse melhor amigo.
E não ando à cata de nomeações. O que quero é certezas.
por MCV às 05:51 de 14 junho 2007 
Das noites taisSubir por escadas ancestrais, becos e ginjas.
Apreciar as fêmeas de alto a baixo.
Beber outra, fingir atacar o sapato e mais outra.
Agarrá-las pelas costas, à falsa-fé, e levá-las pelo braço, entoando Marselhesas.
Trocá-las por cigarros, mais acima.
Orientar pelo cheiro.
Roubar febras e até o abano.
Não pagar rodadas de cerveja.
Palmilhar São Tomé pelos telhados.
Ver os conhecidos tresmalhar o gado a custo junto.
E beber outra, ao virar da esquina.
Entrar em Medicina usando o abano, salvo o conduto.
Que eram mais sardinhas no pátio das traseiras.
Terminar cantando, sempre cantando.
Sempre os mesmos, à porta de casa.
A manhã quente.
Como a caldeira.
por MCV às 23:47 de 12 junho 2007 
O ponto Foz Coa da discussão técnico-políticaÉ onde estamos a chegar.
Recordam-se dos protagonistas?
E do chorrilho de asneiras que então se ouviu?
E da ideia de desgoverno que dali saiu?
Estamos quase lá.
por MCV às 22:41 de 11 junho 2007 
O estranho silêncio das máquinas de escreverDiz a lenda que à volta daquele andar da Almirante Reis os vizinhos, com razão, protestavam contra o teclar metálico das dactilógrafas que, altas horas da noite, ultimavam apresentações de cálculos e memórias descritivas, a partir da letra mais ou menos legível da engenharia.
Talvez ainda soassem os carretos das Brunswiga, aproximados a duas casas decimais.
Hoje, falece-nos esse rumor quando adentramos as escriturarias onde há muito os alpacas se transformaram em gestores de produto ou coisa que o valha. Mais dados a debitarem sonoramente um chorrilho de linhas de um qualquer certificado manual de curso de formação do que a devolverem o rolo à posição de ponto parágrafo.
É uma falta poética, essa.
Mesmo que os nossos tímpanos tenham ganho com a troca.
por MCV às 02:52 de 10 junho 2007 