Os tempos e os modos
Nunca exijo coerência a um interlocutor a menos que o veja exigi-la a outros.
E, isso infelizmente, é o pão nosso de cada dia.
Eu já disse aqui que não sou coerente. A única coerência que pressinto é a da minha sobrevivência. Em sentido lato, a dos outros. Dos mais próximos para os mais longínquos.
Nunca me regi por cartilhas, tirei chapéu a líderes, idolatrei figurões. Quem sabe não o venho a fazer?
Mas não o tendo feito até agora, sou pelo menos poupado ao T'arrenego e às lágrimas de crocodilo.
Uma das coisas que observo com curiosidade é a parcialidade disfarçada de objectividade na defesa de certas figuras e no ataque a outras.
Sou muito redutor nestas coisas. Face a determinados conflitos, há sempre a propensão de tomar partido. Nada de novo nisso.
E quando se trata de guerras, acho que vale tudo. Considerações morais à parte, que essas levam a uma discussão infindável. E se as guerras se pudessem resumir ao tipo que quer conquistar a casa do outro sem a ela ter direito (teríamos que ver o que é que isso quer dizer), e à resposta do acossado, também eu não hesitaria em tomar partido, se a coisa se desenrolasse nas minhas barbas. Não vou a tanto quando é do outro lado da floresta. Bem sei que às vezes, em vez das barbas de molho é melhor pegar no extintor.
Não tomando partido, é-me indiferente que se matem criancinhas com mísseis ou com bombas em mochilas. São mortes de crianças. Ponto.
Tomando partido e estando até envolvido na luta, sou como qualquer outro, as minhas valem sempre mais do que as deles.
Agora, não me atrevo é a encadear longos argumentos para justificar a barbárie. Não quero fazer de mim mais estúpido do que o que sou, pois sei que os outros não são estúpidos.
É aqui que estranho (ou talvez não) que se subtraia à história de Arafat o seu passado guerrilheiro.
Confesso que nesta luta, não tenho campo. Há demasiada culpa de terceiros envolvida nas origens desta guerra. Se nos situarmos num plano objectivo, é mais uma guerra. Por território. Baixas de ambos os lados são baixas de guerra, importa pouco se vêm dos céus ou se viajam de autocarro os ventos da morte. Cada um luta com os meios que tem. São assim as guerras.
Mas para aqueles que acham que o terrorismo é uma guerra à parte, que tanto batem no peito quando se cometem atrocidades, que não há terrorismo bom e mau, etc., é bom lembrar a História.
Ela não começou nem hoje, nem na segunda metade dos anos 40, nem há 2000 anos atrás.
E o passado de Arafat é o do guerilheiro que esteve, com outros, por trás da génese de um certo tipo de terrorismo de cariz rácico e religioso, no passado século XX e do qual temos hoje novas versões. O terrorismo não foi inventado nessa época, mas foi seguramente reinventado. Tratou-se de actos de guerra? Pois tratou.
Mas qual é a diferença entre esses actos e os que tanta gente hoje condena?
Eu confesso que não vejo nenhuma.
Como, repito, não vejo diferença entre a criança morta pelo míssil "inteligente" e a que morreu num autocarro por via de uns cartuchos de dinamite ou outro explosivo qualquer.