A falta de eficáciaNada de surpresas, portanto.
A tradicional falta de eficácia que, mesmo com os alemães de rastos e nas lonas, não deu a volta.
Continua a ser uma das melhores selecções do mundo a portuguesa. Se fosse mais racional, poderia ser campeã de qualquer coisa.
por MCV às 20:51 de 19 junho 2008 
Sem surpresa (vol. 2)Qualquer
dos posts que escrevi nos finais das primeiras partes dos jogos que vi se aplicaria agora.
Apenas acrescentando que há adversários que são paredes para nós. E são quase sempre os mesmos.
O facto de a coisa se repetir por três vezes deve querer dizer que há uma certa regularidade.
Talvez Ronaldo passe a bola na segunda parte.
por MCV às 20:51 
Em busca de coisas perdidasNesta coisa de causa-efeito, é estultícia atrevermo-nos a estabelecer essa relação muito para além das convenções. E mesmo dentro delas...
Já aqui me demorei a esse propósito.
Por isso, não sei a causa mas conheço o efeito. E o efeito é que aqui há uns tempos, me dei conta de que almejava possuir um
Cristo-Rei de plástico. Daqueles que se viam antigamente, já sem um braço, por essas prateleiras da vida.
Também sem causa de mim conhecida, aquela coisa de certa vez querer buscar o
Cabo Verdeão.
Quis matar ontem ambas as instâncias.
E, se ao Cabo Verdeão ainda foi possível entrever naquele vislumbre que é característico das visões verdes – como o
famoso raio crepuscular, já do adereço plástico não houve pista nem rasto.
Um dia, quem sabe, encontro um já reformado.
E talvez passe já à
bexiga sonora.
por MCV às 18:19 
A faixa do meioEstou convencido de que, se perguntássemos, aos tipos que usam a faixa do meio da auto-estrada com três faixas, quando a da direita está desimpedidíssima, qual a razão por que o fazem, não saberiam responder.
Estou convencido de que, se perguntássemos, aos tipos que têm blogues que pesam mais do que 25MB, qual a razão de tanta informação junta, não saberiam responder.
Estou ainda convencido de que a ambos escapa as consequências de uma e de outra coisa. Grave a primeira, insignificante ainda que chata a segunda.
Não me perguntem como cheguei eu a convencer-me de tal. Escapa-me essa razão.
por MCV às 22:53 de 17 junho 2008 
A tabuada e os protestosAo contrário da recitação da tabuada, em que o que conta é a letra, nos protestos populares o relevante é a música. A letra é desprezável.
por MCV às 18:10 
Quimeras da juventudeQuando comecei a interessar-me por política, andava a coisa para ser o fim do regime marcelista.
Discutíamos às noitadas, à porta do café, de que lado viria o golpe fatal. Como toda a gente fazia, decerto, em outros lugares e em outras circunstâncias.
Mais tarde, quando a revolução deixou o país à deriva, e a necessitar de tratamento de choque, a minha preocupação era não a de ver melhorias mas a de perceber sinais que apontassem para o estabelecimento de uma base firme a partir da qual, fosse possível construir uma economia, desenvolver o país. Nem que para isso as coisas tivessem então que piorar ainda mais.
Nunca tive, como já aqui disse, a
quimera de mudar o mundo, ideais fantásticos ou coisas do género. Limitava-me a coisas mais banais, a de fundar as coisas em terra firme.
Vejo agora que a minha quimera era igual à dos idealistas.
E vejo mais, que ainda persiste.
Ainda hoje tenho esperança de ver alguém pôr isto com os pés na terra. Nem que a coisa tenha que piorar mais um bom bocado.
por MCV às 17:35 
LxHá uma relação entre civilização e cheiro a mijo.
Enquanto não conseguimos – os homens, a ciência e a técnica - estabelecer a objectividade do que disse acima, talvez através da comparação de diversas épocas, lugares e odores, avanço com a comparação subjectiva da Lisboa que fedia nos anos 60 da minha infância e que depois se foi lavando pelos 70 e 80 para piorar muito na década passada.
Lisboa fede em dias como o de hoje. Está urinada em todas as esquinas.
Passo por um troço do caminho de sempre, desse sempre sessentista, depois de render homenagem a uma memória com apenas dez anos.
Na Feira, tratam-me por senhor doutor. E ponho-me a pensar o que haverá na minha presença física que leve alguém a graduar-me. Talvez não seja no porte nem no atavio, mas na folha A4 onde apontei livros a comprar. Senhor doutor, esse livro foi retirado porque estava cheio de gralhas. Compre a 3ª edição.
Não faço ideia da revolução que sofreu a revisão dos livros. Verifico que há editoras em que gralhas e erros de palmatória são presença obrigatória de há uns tempos para cá.
Recentemente, ofereceram-me um livro que abria com um troço da árvore genealógica da Casa Real de Portugal. Tinha tanta asneira que logo ali pensei terminar a leitura.
A temperatura está
amêndoa. Magnífica. Apetece andar pelo parque, independentemente dos livros. Cruzo-me com dois pares de olhos. Voltarei mais tarde ao primeiro par.
Há um cheiro bom aqui. Qualquer coisa que me faz andar com o radar às voltas. Vejo enfim a fila para a tenda. E sopeso a hipótese de me render também. Resisto, porque me digo o que realmente me apetece comer.
Depois de devidamente carregado, empreendo a retirada. A temperatura, a luz, os aromas do parque dificultam a empresa. Mas passo pelo pindérico falo e encaro, pela primeira vez, com olhos de ver, as edificações que nasceram nas laterais do parque, a norte. Encolho os ombros para dentro e volto a encarar as artérias mijadas onde não há vivalma. Tal é a raridade que acabo por cumprimentar um polícia de guarda a instalações do Estado.
Na gare, sento-me no banco contrário ao cais que me interessa. Observo o absurdo da decoração e ocorre-me a máxima de Loos no meio de outras discussões que travo comigo sobre os constrangimentos que um projecto sofre em função do mijo. Do cheiro a mijo. Como projectar para quem mija na rua. Lembro-me agora, enquanto escrevo isto, de uma chapa que certa vez vi o meu Pai mandar soldar numa ponte. Não impede que mijem, mas estorva muito – dizia-me.
É mais ou menos nesta altura que vejo a moça vistosa – assim capa de revista e tal, que trava e se senta ao meu lado. Quando divisei bem a que a perseguia, ocorreu-me um jogo de palavras. A primeira era deslumbrante e vistosa. A segunda, discreta, era o sonho em pessoa.
123. Foi o número que me ocorreu. Mas depois vi que era absurdamente grande. Talvez 17 seja mais realista como o número de mulheres absolutamente divinas com que nos cruzamos na vida. É aqui que entra outra vez o par de olhos lá de trás. Podia ser que me desmentisse, dado significar assim dois avistamentos num só dia. Mas não. Nem o par de olhos se pode incluir nesse círculo essencial das visões da tentação nem o acaso de, a incluir-se, num só dia acontecer uma carambola extraordinária deita por terra a curteza do número.
Talvez um dia consigamos – os homens, a ciência e a técnica - estabelecer a objectividade do que disse acima. Agora aqui em cima. Saber o que é uma feminil tentação divina e quantas vezes um homem a experimentou, em média, em cada época, local e meio social.
Afinal interpelam-me. Se era aquele o cais para Alverca.
Eu, que andava ocupado em arquitecturas do mijo e que me sentara num banco do cais que não me interessava, é que haveria de saber!
Acho que me tomaram pelo homem que via passar os comboios, visto ali ter permanecido, à chegada do cavalo de ferro.
Ou por um burro carregado de livros.
Os comboios suburbanos são hoje de novo uma experiência neo-realista. Como o foram no tempo em que havia cachos de passageiros pendurados nas portas, há vinte anos.
por MCV às 02:31 de 15 junho 2008 