O comboio
Creio que o comboio não será indiferente à maioria dos que já o viram.
A mim não o é, seguramente. Como não o será aos velhos que ainda se reúnem, onde isso lhes é permitido, a vê-los passar.
Conheci pessoas, algumas da minha idade, que só quase adultas o viram pela primeira vez. O comboio e o mar, acrescentam por vezes. E colocam-nos a ambos em pé de igualdade no deslumbramento.
O comboio nasceu-me. Estava nos meus pais, nos meus avós, bisavós. Ao lado de uma casa onde cresci, audível em silvo e em atrito nos carris, nas noites da outra onde me fiz.
Estava por ali,
fugindo nas terras da família, roubando o nome do Monte de um bisavô.
Estava por detrás da escola. Estava ao atravessar a linha todas as manhãs, todas as tardes, para cá e para lá.
Estava nas tragédias da gente que ali ficava para sempre, trazida pelo suicídio ou pelo fado, deixada debaixo de um oleado, horas sem conta, à nossa vista de miúdos curiosos da morte.
Estava nas viagens. Nas ambulâncias militares com grandes cruzes vermelhas que dele se viam ali em São Domingos de Benfica, apeadeiro morto e enterrado há muito. Nas mudanças geológicas das paredes cavadas antes de Campolide. Nas entranhas do túnel. Nos quiosques da estação.
Nos bilhetes. Nos horários desactualizados que arrematei há uns anos a um velho amigo que mos cedeu com agrado, a troco de um aperto de mão.
No apito de partida, nas bandeiras, nos petardos de paragem raramente ouvidos.
No cheiro das travessas e do metal. Nos armazéns de mercadorias, escuros e aromáticos também. Etiquetas de todas as proveniências que imaginar se possam.
Nos abrigos de madeira, nas calçadas com nome, nos edifícios de projecto idêntico.
Nas locomotivas.
Nos comboios de quase luxo, com sinetas para a segunda leva do jantar e respectivos bifes com mostarda abanando a compasso em cima da mesa.
Nos sons da buzina ao passar das estradas canceladas.
Nas descidas das vertentes do desaterro da linha. Na
árvore do Stingray.
No túnel entre medronheiros, em terras do meu Tio.
Nas idas de bicicleta a ver passar e parar o Rápido. Nas bifanas da estação comidas no horário do comboio correio. No dito, com os militares a dormir na cochia (em vez de coxia).
Nas noites do último. No afugentar de El-Rei.
Nas mãos do louco que se interpôs em abraço entre mim e a morte, a troco de um maço de cigarros e de um outro ingente abraço.
E no final,
chegando a casa, sempre a casa. Quando os cumprimentos na gare semelhavam
a apoteose e a searas secas, à espera da debulha*.
E, talvez,
um dia ao fundo do quintal uma vez mais passe o comboio.
Os próximos dias serão aqui de consagração do cavalo de ferro.
*SG,
"Seara seca", 1985
por MCV às 23:57 de 28 outubro 2006 
Eleições IIA esse
concurso entre vivos e mortos, do qual se diz que os mortos estão a levar a palma aos vivos,
prometi ou não voltar fazendo campanha. Aí está:

É uma senhora.
Aturou o Zé Povinho uma vida inteira (dizem).
Bastam estas duas alíneas para merecer o meu voto.
imagem original do Museu Bordalo Pinheiro
por MCV às 02:03 de 27 outubro 2006 
Eleições ISe o meu
velho amigo benfiquista V.H. me encontrar daqui por uns tempos, à mesa do café, é bem capaz de dizer que, por estes dias, Luís Filipe Vieira ganhou a Luis Inácio da Silva.
por MCV às 01:57 
IsabelleEle há mistérios. Se não era a
mesma, era o Diabo por
ela.
Na bomba de gasolina.
De Peniche.
Ontem ao cair da noite.
por MCV às 22:59 de 26 outubro 2006 
Pergunta Uma maldade que se não pode fazer a este governo, bem como se não poderia fazer a todos os outros que contribuíram para este desfecho, é perguntar qual é a vantagem para Portugal de vender Cabora Bassa.
Pobre, triste País que tais políticos alberga.
por MCV às 20:50 