A sentinelaA primeira coisa que vi, que vimos, quando o carro dobrou a esquina foi a posição de à-vontade da sentinela.
Destacava-se na linha do edificado do espaço-canal, para usar uns termos dos livros.
Havia uma certa convexidade na pose que lhe acentuava interesse.
Demorámo-nos a inspeccionar o fim da rua. Vimos o que restou da indústria pesada, entrámos no café onde dormitava o dono e onde os poucos clientes aproveitaram a nossa presença para pedirem mais cerveja sem se responsabilizarem pelo sobressalto do justo.
Demorámo-nos a ver mais coisas. O J.J. dizia que nunca tinha andado por aquela Lisboa.
Foi assim que, já esquecidos das formas que víramos ao virar, nos encaminhámos para a estação.
O soldado de guarda era um soldado da Guarda. Era cabrito e bonito, o soldado.
Quando passei por ele, soldado, dei pela primeira vez na vida as boas tardes a uma sentinela.
O soldado bonito fez um sorriso desarmante, deu um passo à frente, bateu os tacões, fez continência e retribuiu-me o voto.
Após uma ligeira vénia, continuei rua abaixo.
O J.J. tinha ficado para trás, apreciando qualquer coisa.
Esperei que se reunisse a mim e censurei-o – então não deste as boas tardes à senhora?
Eu?! Ela tinha cara de poucos amigos!
Talvez, meu caro. E talvez eu seja um desses poucos.
E prosseguimos, já com a mira na estação de caminho-de-ferro.