O truque das cartasNão pude deixar de espreitar.
O homem, todo encafuado num preparo para enfrentar a chuva, estava rodeado de crianças.
O íman era um baralho de cartas.
Sendo pouco provável que com tal público se preparasse uma vermelhinha, haveria de haver qualquer magia por ali.
Foi há pouco, aqui ao pé da porta, ao abrigo do temporal.
William Roberts, The Card Trick (óleo sobre tela), c. 1968
© The Estate of John David Roberts
Queria ilustrar isto com outro truque de cartas, mas estranhamente não o encontrei.
por MCV às 18:33 de 29 setembro 2007 
La mort e outras personagensMuito raramente ando de transportes públicos. Já houve tempo em que o fazia todos os dias.
Por isso hoje reconheci no comboio uma série de personagens – o cego adormecido, a mulher do pokémon, a do livro empinado, as secundárias de qualquer noite de estroinice e mais umas quantas de menor importância.
Mas a que mais se destacou foi a moça com cara de morte.
Era ela mesmo, num qualquer filme francês, ali mesmo à minha frente.
Olhei-a nos olhos. Se dúvidas houvesse...
por MCV às 23:38 de 27 setembro 2007 
O homem que imergia em champagne e que há pouco morreu por engano Fui lá a negócios. A casa do homem. Ou ao seu despacho.
Não tinha muito que saber a sala do dito.
Uma banheira com grades tipo cama de criança cheia de champagne. O próprio lá dentro, irrepreensivelmente vestido, de flor na botoeira.
Ao lado apenas uma caixa de cartão, encetada, talvez de meia dúzia. Um pouco atrás um pequeno frigorífico de onde retirava gelo e baldes arrefecidos. Mais afastada, a pilha de baldes usados e um número de garrafas vazias fazia notar a ausência de empregados.
Depois de tratada a nossa questão e era intrincada a coisa, embora resolvida num ápice, contemplou-me com uma garrafa nova. Os gestos que fez, de dentro do berço, pareceram-me naturalmente maquinais. Torceu à direita alta, abriu a porta do frigorífico, tirou um balde, abriu o congelador, tirou gelo, inclinou-se a bombordo e fez mais um rasgão no cartão da caixa. Retirou a garrafa e colocou-a no balde. Depois fez o improvável, semi-mergulhou o balde no leito da cama, deixando entrar champagne do molho para dentro dele, balde.
Acendeu um charuto que tirou juntamente com os fósforos de onde não percebi e deixou-se ficar à espera da minha pergunta.
E eu fi-la. Pedindo desculpa por ser indiscreto após a formalidade do nosso acordo, perguntei quantas garrafas bebia por dia, sem me referir às que gastaria com o caldo.
Ah, umas quatro a cinco caixas por semana – respondeu-me displicente.
Fiz as contas rapidamente. Se as caixas fossem como esta, de seis garrafas, dava um número entre vinte e quatro e trinta garrafas por semana. A dividir por sete... achei pouco.
Saindo da banheira, explicou-me a forma como era tratado pelo fornecedor francês, era uma coisa quase
just in time, sem falha alguma desde o começo.
Face ao que me acabara de dizer e isto referia-se à parte da conversa que aqui não posso mencionar, perguntei-lhe se nada temia.
Mostrou-se tão ou mais displicente do que ao servir-me ou ao dar-me o número de caixas – Não!
Foi nessa altura que julguei ver no olhar que alvejava ao meu lado esquerdo, para lá da janela que estava nas minhas costas, um ligeiro estremecimento.
Virei-me. Divisei, quase escondidos pelo altíssimo muro do pátio, dois helicópteros ao longe. A um longe de meio minuto talvez.
Os helicópteros! – exclamei. Não pareceu ser isso o que o incomodava.
Acerquei-me da janela. No pátio, avistei um Fiat 127 que tinha um cão na chapeleira. Era um cão a sério, de carne e osso, que me fitava, embora eu estivesse uns bons cinco andares acima.
O tipo que estava ao volante iniciou uma manobra de saída do carro mas ficou a meia haste, com parte do corpo de fora mas a cabeça dentro, talvez dando ordens ao cão.
Divisei ainda uns outros tipos suspeitos, uma espécie de TP21 da Polícia e ao voltar-me vi que o homem se tinha transfigurado. Estava assustado, enfim.
Reparei então que a porta que dava para o exterior não tinha nenhum tipo de fecho. Era apenas a mola que a mantinha encostada.
Precipitei-me para ela, ainda pensando no que haveria de usar para a trancar.
Ainda não a tinha atingido quando ela abriu, ligeiramente. Com pouca força impedi que abrisse. Olhei pela fresta e vi uma cara de rapazola com cabelo espesso que me interpelava. Queria falar com o
boss e eu não o deixava. Porquê?
Está aqui um rapaz que lhe quer falar, disse.
Ele, já reconhecendo a voz, disse que a mandasse entrar. Era afinal uma mulher. Ginândrica e com voz rouca, de homem.
Entabularam rápida conversação e eu percebi que ela não estava a par do perigo.
Saímos. O meu guarda-costas aguardava-me ao fundo de uma rampa.
Fomos para uma espécie de varanda de onde avistávamos os remates circulares das coberturas das varandas do Ritz. Recordo-me de ter enquadrado com as mãos a 90 graus, o céu azulíssimo e estes círculos de betão amarelecido, pairantes.
Depois de esperarmos algum tempo, fui ver se alguém se aproximara do escritório. Nada.
Resolvemos então sair em direcção às garagens. Optámos por fazê-lo pela nave central que era em planta um rectângulo vazado de vértices arredondados. Em cada piso havia uma galeria a toda a volta, com cerca de dois metros de largo e que comunicava com os pisos restantes por uma esbelta rampa da mesma largura e que era lançada a meio dos lados menores da projecção em rectângulo, de um para o outro.
Assim que me debrucei, vi imediatamente os homens que corriam pelas laterais.
O meu guarda-costas surgiu com uma espécie de carro eléctrico de bagagens das estações ferroviárias e fez-nos subir aos três.
Das várias peripécias que se seguiram até eu perceber que os homens estavam no encalço de outrem não há nem conta nem espaço para as narrar, apenas que o
boss e a moça com ar de rapazola se precipitaram no vazio, mortos por engano.
Os verdadeiros caçadores chegaram depois.
E eu já só tinha uma bala no carregador. Usei-a bem.
E ainda fiz melhor, canalizando uma energia domada através das paredes para derrubar o segundo contendor. Eram só dois, afinal.
por MCV às 06:15 de 26 setembro 2007 