A praia tinha imenso espaço.
Na realidade, não era uma praia, eram diversas praias.
Quando digo que tinha espaço, digo-o no sentido inverso ao das unidades de densidade b/g.a. (nº de banhistas / nº de grãos de areia), logo:
g.a./b era um número de ordem de grandeza muito considerável (1014).
Isso provavelemente fazia com que cada núcleo familiar ou de amizades tivesse o seu lugar marcado e não houvesse nunca conflitos pela posse de território. A coisa era muito pacífica como cabe ser qualquer vilegiatura.
Mas os tempos mudaram e dos tempos sem electricidade, que ainda gozei, à massificação e a um número incrivelmente baixo de g.a./b (1010), foi o que se viu.
Primeiro veio a electricidade, depois os acessos melhoraram, a seguir o turismo de massas, abriu-se a caixa de Pandora.
Algures na fase de colonização os índios recuaram.
Eu, porém, mantive-me fiel ao local onde sempre tinha desfrutado do famoso banho do sol a pino, onde tinha comido as minhas maçãs-reineta e onde me tinha enlevado com o longínquo som da juke-box da barraca dos gelados.
É claro que me vi rodeado de sétimos de cavalaria (ainda não se tinham lembrado da 101ª aero-transportada), mas a coisa teve as suas compensações, para além da barbatana cheia de água que a tal desconhecida me lançou - ele há desejos que se expressam de forma violenta, mas mais à tarde já me veio pedir um naco do meu Delicô.
Vi-me assim obrigado a não perder um único episódio do "Simplesmente Maria" que os rádios dos vizinhos debitavam aí pela uma da tarde.
Ouvi o homem nortenho que, esperando ansiosamente o cunhado, dizia à mulher: "Bou ber se os beijo!".
Percebi o que queriam dizer os três rapazes que gritavam: "Cada um à sua!". Por sinal, havia uma que não era nada má.
Mas acabaram por me expulsar.
Entretanto, apercebi-me que havia ainda um núcleo de índios resistentes auto-denominado de "Sangue azul" que lutava contra a invasão dos colonos, designados por "Shelltox" (faço aqui um parentesis de indignação por ter constatado que a Shell apagou das suas memórias este utilissimo produto. Não há dúvida que reescrever a história é um passatempo politicamente correcto). Não sei se o sangue se terá tornado da celestial côr em virtude do dito Shelltox, é um caso a apurar.
Mas a verdade é que é debalde o esforço para reconquistar o histórico palmo de areia a que tínhamos direito e que de bom grado cedíamos, um dia por ano, por ocasião da degola de S. João Baptista, quando os montanheiros traziam o arroz de frango para a beira-mar.