19/04/2006
18/04/2006
Melanie (Miss U)
Posso dizer que a primeira vez que ouvi falar no VE Udson foi no dia a seguir à sua morte. Mas, de facto, sabia vagamente da sua existência através de uns mapas que fotocopiara uns dias antes. A suposta falta do H chamara-me a atenção.
Não era normal que um VE chegasse a Portugal sem eu o detectar. Logo se havia de dar com o Sr. Udson.
Horas mais tarde, um recibo de ordenado escrito em inglês foi quanto bastou, mostrado de relance, para alcançarmos, eu e a minha colega, a zona internacional do aeroporto.
Já lá estava a vice-cônsul.
Posso acrescentar que, apesar da hora, meia-hora bastou para que eu considerasse seriamente uma ou várias deslocações ao consulado. Certo de ser muito bem recebido.
Mas tudo isso se esvaneceu de pronto quando ela se dirigiu a mim, que era o que ostentava a folha de papel onde a minha colega insistira que eu colocasse um ponto no I maíusculo - "M?SS UDSON".
Foi um abraço, claro. Mas o mais estranho foi a espécie de cumplicidade que se seguiu. Eu, a bem dizer, sabia pouco o que fazer em circunstâncias tais. Mas ela procurava-me com o olhar de cada vez que algo lhe era dito e lhe suscitava algumas dúvidas.
Nessa altura, já eu sabia que não era possível arranjar-lhe um lugar para o Porto num avião ainda nessa tarde. Possível talvez fosse, como tudo o é, mas uma secreta esperança de a conduzir ao Porto deve ter feito com que não usasse mais nenhum truque ou até talvez a influência que a vice-cônsul poderia pôr a funcionar.
A minha colega mandou fazer uma reserva no comboio. Eu próprio lá fui depositar Melanie, certificando-me de que a viagem correria da melhor forma possível. E fiquei no cais, como se jamais acenasse.
Quando cheguei ao escritório, já a minha colega falara com o director mais uma vez. E fez-me uma pergunta. Por que raio não tinha eu levado Miss Udson ao Porto de carro?
Posso dizer que a primeira vez que ouvi falar no VE Udson foi no dia a seguir à sua morte. Mas, de facto, sabia vagamente da sua existência através de uns mapas que fotocopiara uns dias antes. A suposta falta do H chamara-me a atenção.
Não era normal que um VE chegasse a Portugal sem eu o detectar. Logo se havia de dar com o Sr. Udson.
Horas mais tarde, um recibo de ordenado escrito em inglês foi quanto bastou, mostrado de relance, para alcançarmos, eu e a minha colega, a zona internacional do aeroporto.
Já lá estava a vice-cônsul.
Posso acrescentar que, apesar da hora, meia-hora bastou para que eu considerasse seriamente uma ou várias deslocações ao consulado. Certo de ser muito bem recebido.
Mas tudo isso se esvaneceu de pronto quando ela se dirigiu a mim, que era o que ostentava a folha de papel onde a minha colega insistira que eu colocasse um ponto no I maíusculo - "M?SS UDSON".
Foi um abraço, claro. Mas o mais estranho foi a espécie de cumplicidade que se seguiu. Eu, a bem dizer, sabia pouco o que fazer em circunstâncias tais. Mas ela procurava-me com o olhar de cada vez que algo lhe era dito e lhe suscitava algumas dúvidas.
Nessa altura, já eu sabia que não era possível arranjar-lhe um lugar para o Porto num avião ainda nessa tarde. Possível talvez fosse, como tudo o é, mas uma secreta esperança de a conduzir ao Porto deve ter feito com que não usasse mais nenhum truque ou até talvez a influência que a vice-cônsul poderia pôr a funcionar.
A minha colega mandou fazer uma reserva no comboio. Eu próprio lá fui depositar Melanie, certificando-me de que a viagem correria da melhor forma possível. E fiquei no cais, como se jamais acenasse.
Quando cheguei ao escritório, já a minha colega falara com o director mais uma vez. E fez-me uma pergunta. Por que raio não tinha eu levado Miss Udson ao Porto de carro?
16/04/2006
15/04/2006
14/04/2006
13/04/2006
12/04/2006
11/04/2006
10/04/2006
Tabaco
Eu apoiaria sem reservas a indignação com que alguns aplaudem - é isso mesmo a indignação com que aplaudem - a lei de que se fala agora sobre o tabaco sse (se e só se) fosse prevista a pena de morte para todos os que na estrada causam acidentes com mortos. Já dava de barato os feridos graves.
Já fui fumador, sim. Hoje não fumo.
Eu apoiaria sem reservas a indignação com que alguns aplaudem - é isso mesmo a indignação com que aplaudem - a lei de que se fala agora sobre o tabaco sse (se e só se) fosse prevista a pena de morte para todos os que na estrada causam acidentes com mortos. Já dava de barato os feridos graves.
Já fui fumador, sim. Hoje não fumo.
A(s) moça(s) das Caldas
O que há de facto de relevante para dizer, começar a dizer, desse dia é que a minha tia estava defunta. Soube-o não por carta, telefone, aerograma ou de viva voz, soube-o simplesmente.
Mas mais tarde haveria de ouvir a voz lamentosa da minha prima.
Soube também que o vulto da casa do Largo, aquela casa que fora dos meus avós paternos e que agora fora dividida em duas, falecera também. Isto, sim, dito de viva voz por uma prima também parente do vulto.
Mas havia a festa do Lopes. A festa que o Lopes dava para comemorar acho que o pau-de-fileira da fábrica que era dos outros, meus amigos também, mas que não tinham nada a ver com o Lopes, a não ser o facto de ele lhes ter construído a fábrica.
À festa, eu não podia faltar, obviamente.
Quando me ia deslocar a cada um dos velórios, fui interceptado por um outro primo, accionista da inaugurada, que fazia questão que eu fosse verificar isto e mais aquilo. Disse-lhe que não, que era amigo do Lopes e confiava nele. Se ele tinha alguma queixa, que a fizesse directamente. Eu lá estaria, depois, se ele quisesse, para dar opinião para os dois ouvirem.
E a coisa prosseguiu, sem mais delongas, a caminho da festa.
Havia grupos e grupos. Não sei por quê, as pessoas dividiam-se como dizem que o fazem nos congressos partidários. O grupo de Évora, o grupo de Cabeção, o grupo do Escoural, o grupo de Estremoz, o de Borba, o de Elvas e o mais decisivo, claro, ainda que o não soubesse então, o das Caldas da Raínha.
Da festa toda, por junto e atacado, lembro-me de termos saído para ir ao velório da casa do Largo e de lá a coisa se encontrar assim distribuída: daquelas salas à esquerda de quem entra, uma era de senhoras e tinha um tapete de Arraiolos no chão e sofás verdes de aeroporto.
A seguinte era de homens e escura. Uma versão aumentada da minha velha mesa de cozinha de lá trazida no tempo antigo, ocupava o centro. À volta, os homens sentados. Apenas reconheci um. Aos outros, todos mais novos, retirava-lhes o parentesco pelas feições.
A sala do fundo, a que corresponderia grosseiramente a antiga casa de jantar, era a câmara ardente. O vulto encontrava-se depositado numa mesa idêntica à atrás não descrita (depois direi como é a minha - a dos meus avós - velha mesa de cozinha, mas digo já que é escura) com a diferença de que, na parte central, um entalhe permitia que o vulto descansasse não sobre a mesa mas num recesso dela. Estava coberto integralmente por o que parecia ser um tecido de veludo grosso, azul acinzentado escuro, quase de reposteiro.
Reconheci nessa roda, pois os homens distribuíam-se de igual forma à volta da mesa, o mesmo indivíduo da sala anterior. Perguntei-lhe por dois nomes, dos donos da casas em que se subdividia agora a antiga morada de meus avós. Respondeu-me que estavam provavelmente a descansar ou na festa da fábrica. Fiquei mais descansado.
Recuei para a posição da sala feminina, onde apesar de tudo ainda reconhecia algumas caras, as que me haviam acompanhado e outras mais.
Foi então que reparei que havia uma abertura na parede norte que permitia olhar para a chamada zona baixa da casa. Uma zona onde ficava a grande sala e de onde se acedia depois, subindo novamente, a um quarto de costura e, por outro lado, descendo mais um pouco a um quarto que nunca percebi muito bem para que servia, mas onde me deixavam sempre estender a minha tenda.
A minha familiaridade com a casa foi questionada pela Isabel. Eu espantei-me que ela não soubesse, não se lembrasse, de que aquela casa fora dos meus avós. Disse-lhe quais mais tinham sido deles, ela só se lembrava da que fora mais tarde de um tio meu.
De volta à festa, havia forte animação, já com sequelas combinadas para o dia seguinte. Eu já estava adstrito a uma delas, que metia um chibo.
Acho que foi mais ou menos na altura em que estava o Lopes a explicar-me do chibo que elas passaram à nossa frente. Quem são? - perguntei-lhe. Das Caldas.
Confesso que não me veio à cabeça perguntar-lhe que raio fazia ali um grupo de moças das Caldas. E a razão era simples, o grupo era encantador e eu fiquei embasbacado.
O Lopes chamou-as com a bruteza habitual, nicknamed Porthos, portesidade.
Elas aproximaram-se cheias de sorrisos. E ele: Aqui o Manel diz que vocês são muita boas.
Elas riram-se, claro. Eu não me desfiz. Mas reparei e bem no olhar dela.
Depois de dar mais duas voltas ao casão, falando com este e com aquele, tropecei outra vez no grupinho.
Disse-lhes então que tinha total confiança no Lopes, tudo o que ele dizia era verdade. Tinha o meu primo accionista ao lado, claro.
Continuei com mais copos e linguiça.
A coisa deu-se quando tive a consciência de que andava com os olhos à procura dela. Pior. Quando a alcancei, dei-me conta de que me fixava também.
Dei um salto como se estivesse sentado num muro. Ela riu-se. Já não nos largámos pelo resto da festa.
Dizia eu lá atrás que da festa lembrava-me disto e daquilo. É mentira. Só me lembro mesmo dela. E do que se seguiu.
Ela disse-me então que já sabia que eu no dia seguinte ia ao chibo. Era pena. Mas talvez nos encontrássemos depois.
Ora e o que se seguiu conta-se de uma pe(r)nada. Eu e a Chica chegámos a casa quase à mesma hora. Não sabendo eu que ela andava por ali, fiquei entusiasmado ao vê-la a fazer o caminho do muro, para entrar pela porta das traseiras. E, com a maior das naturalidades, fomos para a mesma casa de banho. Perguntei-lhe onde é que ela ia dormir, enquanto ela descobria uma magnífica perna direita. Mas corrigi. Perguntei onde é que não íamos dormir. Começámos a percorrer os quartos. Quase todas as camas ocupadas. Ela lembrou-se do quarto onde costumava dormir, como se fosse uma descoberta brilhante. Eu disse-lhe que os novos donos tinham derrubado aquela ala, mais uma barbaridade, já que vinha pelo menos do século dezoito. Depois, de repente, lá veio a habitual incomodidade com o facto de ainda ocuparmos a casa, depois de ter sido vendida. Passou-me quando vi uma cama livre...
Chegados do chibo, passando pelo topo sul do Rossio, por cima da Tendinha, onde fica aquele hotel com a designação Ritz e sua imponente escadaria que rivaliza em altura com o Teatro Nacional ou talvez com os Estaus, no topo oposto, lá estava a minha prima, chorosa.
Parámos, eu e o João e mais dois ou três que a não conheciam tão bem, para a consolar um pouco. Por toda a praça cintilavam os anúncios luminosos armados nos telhados.
O porteiro disse qualquer coisa sobre estarmos sentados nas escadas. A minha prima disse que era hóspede e ainda mais uns impropérios e que ele fosse mas é ver dos assobios para os táxis.
O porteiro encolheu os ombros e virou costas, descendo a cartola.
E assim ficámos ali a carpir as mágoas, a curtir os copos e a olhar para a praça.
Quando finalmente nos dispusemos a retirar, ela recolhendo e nós na certa, a caminho de qualquer bar, avistámos o grupinho a atravessar a praça, perto daquela pirâmide de vidro que arremeda não a do Louvre mas uma das fontes da Plaza El Pilar.
Verifiquei que os meus companheiros também se entusiasmaram. Beijámos as moças e a minha, a quem beijei no fim, disse: Granda pontaria! Mas eu calculava que os apanhássemos a esta hora. Olha, aproveitámos e fomos ver o filme do...
Agarrámos nelas e fomos para a tal discoteca em poço. A das portas à Get Smart. Já não duvidava que ela era a mulher dos meus sonhos.
No dia seguinte, uma arruada qualquer fez-me sair dos carris mais uma vez. Uns copos sabe Deus onde e o mesmo paramento na escadaria do Ritz, a acabar a ronda. A minha prima chorosa, recortada contra as traseiras do quartel do Carmo.
Eu mais de olhos pregados na praça do que qualquer outra coisa. A pensar em dois dias seguidos de oportunidades perdidas.
Nada.
Quando nos levantámos, íamos todos de monco caído.
Já na estação, enquanto em vez de subir, descíamos as escadas, divisámos o grupo a sair de trás de um daqueles pilares revestidos a mármore.
Não cheguei a cumprimentar as outras. Nem ela os meus amigos.
Fomos de mão dada por ali acima, e na gare, até ao fim do cais. Inventámos aí um banco para nos sentarmos.
Disse-lhe que ou era para sempre ou não era nem mais um minuto. Ela abriu muito os olhos e concordou. E que devíamos partir imediatamente para sul.
Eu repeti e ela disse que não, baixando os olhos.
Perante o meu quase terror pânico, abraçou-me e disse que eu tinha passado o teste.
Vá lá um homem perceberas mulheres os sonhos. As mulheres de sonho. A mulher dos seus sonhos.
Isso. Vá lá um homem perceber a mulher dos seus sonhos.
O que há de facto de relevante para dizer, começar a dizer, desse dia é que a minha tia estava defunta. Soube-o não por carta, telefone, aerograma ou de viva voz, soube-o simplesmente.
Mas mais tarde haveria de ouvir a voz lamentosa da minha prima.
Soube também que o vulto da casa do Largo, aquela casa que fora dos meus avós paternos e que agora fora dividida em duas, falecera também. Isto, sim, dito de viva voz por uma prima também parente do vulto.
Mas havia a festa do Lopes. A festa que o Lopes dava para comemorar acho que o pau-de-fileira da fábrica que era dos outros, meus amigos também, mas que não tinham nada a ver com o Lopes, a não ser o facto de ele lhes ter construído a fábrica.
À festa, eu não podia faltar, obviamente.
Quando me ia deslocar a cada um dos velórios, fui interceptado por um outro primo, accionista da inaugurada, que fazia questão que eu fosse verificar isto e mais aquilo. Disse-lhe que não, que era amigo do Lopes e confiava nele. Se ele tinha alguma queixa, que a fizesse directamente. Eu lá estaria, depois, se ele quisesse, para dar opinião para os dois ouvirem.
E a coisa prosseguiu, sem mais delongas, a caminho da festa.
Havia grupos e grupos. Não sei por quê, as pessoas dividiam-se como dizem que o fazem nos congressos partidários. O grupo de Évora, o grupo de Cabeção, o grupo do Escoural, o grupo de Estremoz, o de Borba, o de Elvas e o mais decisivo, claro, ainda que o não soubesse então, o das Caldas da Raínha.
Da festa toda, por junto e atacado, lembro-me de termos saído para ir ao velório da casa do Largo e de lá a coisa se encontrar assim distribuída: daquelas salas à esquerda de quem entra, uma era de senhoras e tinha um tapete de Arraiolos no chão e sofás verdes de aeroporto.
A seguinte era de homens e escura. Uma versão aumentada da minha velha mesa de cozinha de lá trazida no tempo antigo, ocupava o centro. À volta, os homens sentados. Apenas reconheci um. Aos outros, todos mais novos, retirava-lhes o parentesco pelas feições.
A sala do fundo, a que corresponderia grosseiramente a antiga casa de jantar, era a câmara ardente. O vulto encontrava-se depositado numa mesa idêntica à atrás não descrita (depois direi como é a minha - a dos meus avós - velha mesa de cozinha, mas digo já que é escura) com a diferença de que, na parte central, um entalhe permitia que o vulto descansasse não sobre a mesa mas num recesso dela. Estava coberto integralmente por o que parecia ser um tecido de veludo grosso, azul acinzentado escuro, quase de reposteiro.
Reconheci nessa roda, pois os homens distribuíam-se de igual forma à volta da mesa, o mesmo indivíduo da sala anterior. Perguntei-lhe por dois nomes, dos donos da casas em que se subdividia agora a antiga morada de meus avós. Respondeu-me que estavam provavelmente a descansar ou na festa da fábrica. Fiquei mais descansado.
Recuei para a posição da sala feminina, onde apesar de tudo ainda reconhecia algumas caras, as que me haviam acompanhado e outras mais.
Foi então que reparei que havia uma abertura na parede norte que permitia olhar para a chamada zona baixa da casa. Uma zona onde ficava a grande sala e de onde se acedia depois, subindo novamente, a um quarto de costura e, por outro lado, descendo mais um pouco a um quarto que nunca percebi muito bem para que servia, mas onde me deixavam sempre estender a minha tenda.
A minha familiaridade com a casa foi questionada pela Isabel. Eu espantei-me que ela não soubesse, não se lembrasse, de que aquela casa fora dos meus avós. Disse-lhe quais mais tinham sido deles, ela só se lembrava da que fora mais tarde de um tio meu.
De volta à festa, havia forte animação, já com sequelas combinadas para o dia seguinte. Eu já estava adstrito a uma delas, que metia um chibo.
Acho que foi mais ou menos na altura em que estava o Lopes a explicar-me do chibo que elas passaram à nossa frente. Quem são? - perguntei-lhe. Das Caldas.
Confesso que não me veio à cabeça perguntar-lhe que raio fazia ali um grupo de moças das Caldas. E a razão era simples, o grupo era encantador e eu fiquei embasbacado.
O Lopes chamou-as com a bruteza habitual, nicknamed Porthos, portesidade.
Elas aproximaram-se cheias de sorrisos. E ele: Aqui o Manel diz que vocês são muita boas.
Elas riram-se, claro. Eu não me desfiz. Mas reparei e bem no olhar dela.
Depois de dar mais duas voltas ao casão, falando com este e com aquele, tropecei outra vez no grupinho.
Disse-lhes então que tinha total confiança no Lopes, tudo o que ele dizia era verdade. Tinha o meu primo accionista ao lado, claro.
Continuei com mais copos e linguiça.
A coisa deu-se quando tive a consciência de que andava com os olhos à procura dela. Pior. Quando a alcancei, dei-me conta de que me fixava também.
Dei um salto como se estivesse sentado num muro. Ela riu-se. Já não nos largámos pelo resto da festa.
Dizia eu lá atrás que da festa lembrava-me disto e daquilo. É mentira. Só me lembro mesmo dela. E do que se seguiu.
Ela disse-me então que já sabia que eu no dia seguinte ia ao chibo. Era pena. Mas talvez nos encontrássemos depois.
Ora e o que se seguiu conta-se de uma pe(r)nada. Eu e a Chica chegámos a casa quase à mesma hora. Não sabendo eu que ela andava por ali, fiquei entusiasmado ao vê-la a fazer o caminho do muro, para entrar pela porta das traseiras. E, com a maior das naturalidades, fomos para a mesma casa de banho. Perguntei-lhe onde é que ela ia dormir, enquanto ela descobria uma magnífica perna direita. Mas corrigi. Perguntei onde é que não íamos dormir. Começámos a percorrer os quartos. Quase todas as camas ocupadas. Ela lembrou-se do quarto onde costumava dormir, como se fosse uma descoberta brilhante. Eu disse-lhe que os novos donos tinham derrubado aquela ala, mais uma barbaridade, já que vinha pelo menos do século dezoito. Depois, de repente, lá veio a habitual incomodidade com o facto de ainda ocuparmos a casa, depois de ter sido vendida. Passou-me quando vi uma cama livre...
Chegados do chibo, passando pelo topo sul do Rossio, por cima da Tendinha, onde fica aquele hotel com a designação Ritz e sua imponente escadaria que rivaliza em altura com o Teatro Nacional ou talvez com os Estaus, no topo oposto, lá estava a minha prima, chorosa.
Parámos, eu e o João e mais dois ou três que a não conheciam tão bem, para a consolar um pouco. Por toda a praça cintilavam os anúncios luminosos armados nos telhados.
O porteiro disse qualquer coisa sobre estarmos sentados nas escadas. A minha prima disse que era hóspede e ainda mais uns impropérios e que ele fosse mas é ver dos assobios para os táxis.
O porteiro encolheu os ombros e virou costas, descendo a cartola.
E assim ficámos ali a carpir as mágoas, a curtir os copos e a olhar para a praça.
Quando finalmente nos dispusemos a retirar, ela recolhendo e nós na certa, a caminho de qualquer bar, avistámos o grupinho a atravessar a praça, perto daquela pirâmide de vidro que arremeda não a do Louvre mas uma das fontes da Plaza El Pilar.
Verifiquei que os meus companheiros também se entusiasmaram. Beijámos as moças e a minha, a quem beijei no fim, disse: Granda pontaria! Mas eu calculava que os apanhássemos a esta hora. Olha, aproveitámos e fomos ver o filme do...
Agarrámos nelas e fomos para a tal discoteca em poço. A das portas à Get Smart. Já não duvidava que ela era a mulher dos meus sonhos.
No dia seguinte, uma arruada qualquer fez-me sair dos carris mais uma vez. Uns copos sabe Deus onde e o mesmo paramento na escadaria do Ritz, a acabar a ronda. A minha prima chorosa, recortada contra as traseiras do quartel do Carmo.
Eu mais de olhos pregados na praça do que qualquer outra coisa. A pensar em dois dias seguidos de oportunidades perdidas.
Nada.
Quando nos levantámos, íamos todos de monco caído.
Já na estação, enquanto em vez de subir, descíamos as escadas, divisámos o grupo a sair de trás de um daqueles pilares revestidos a mármore.
Não cheguei a cumprimentar as outras. Nem ela os meus amigos.
Fomos de mão dada por ali acima, e na gare, até ao fim do cais. Inventámos aí um banco para nos sentarmos.
Disse-lhe que ou era para sempre ou não era nem mais um minuto. Ela abriu muito os olhos e concordou. E que devíamos partir imediatamente para sul.
Eu repeti e ela disse que não, baixando os olhos.
Perante o meu quase terror pânico, abraçou-me e disse que eu tinha passado o teste.
Vá lá um homem perceber
Isso. Vá lá um homem perceber a mulher dos seus sonhos.
Insólito
Neste blogue - Eu e Minhas Artes - por enquanto, o único link sob a designação de blogs, aponta para o H Gasolim Ultramarino.
Não conheço a autora. E como não tem caixa de comentários, aqui fica o agradecimento e a referência.
Neste blogue - Eu e Minhas Artes - por enquanto, o único link sob a designação de blogs, aponta para o H Gasolim Ultramarino.
Não conheço a autora. E como não tem caixa de comentários, aqui fica o agradecimento e a referência.
07/04/2006
O Capataz
Tenho ali aos pés da cama um capataz e uma mala cheia de gente estúpida.
À mala não a comprei nem ma ofereceram. Veio parar-me às mãos em virtude de uma troca.
Há suficientes anos para não restar disto mais do que uma pálida memória, avistei, do alto de umas dunas fronteiras ao mar, na companhia de alguém a quem queria ainda impressionar, depois de séculos de conhecimento mútuo, como se diz agora, avistei, dizia, um barco cheio de mortos.
Acto contínuo, dei disso conta à única pessoa que me podia ouvir: "Olha um barco cheio de mortos!"
Ela passou por trás de mim, colheu mais três daquelas perfumentas flores d'areia e continuou a andar para norte, afastando-se de mim e dos outros, que se tinham atrasado lá para trás.
Ora, ainda nada refeito do caso, entrei dias depois numa loja da especialidade e disse ao homem que queria trocar a minha observação.
Depois de por assim dizer observar a minha observação, disse-me:
"Tem que a trocar por uma do mesmo género. E hoje só tenho aqui esta" - apontou para uma mala vermelha.
"Ainda ontem dispensei uma banheira cheia de vinho tinto e uma écharpe cheia de nódoas. Talvez amanhã tenha cá um homólogo cheio de sintomas. Quer experimentar a passar amanhã?"
Não sei o que fazer com o capataz.
Tenho ali aos pés da cama um capataz e uma mala cheia de gente estúpida.
À mala não a comprei nem ma ofereceram. Veio parar-me às mãos em virtude de uma troca.
Há suficientes anos para não restar disto mais do que uma pálida memória, avistei, do alto de umas dunas fronteiras ao mar, na companhia de alguém a quem queria ainda impressionar, depois de séculos de conhecimento mútuo, como se diz agora, avistei, dizia, um barco cheio de mortos.
Acto contínuo, dei disso conta à única pessoa que me podia ouvir: "Olha um barco cheio de mortos!"
Ela passou por trás de mim, colheu mais três daquelas perfumentas flores d'areia e continuou a andar para norte, afastando-se de mim e dos outros, que se tinham atrasado lá para trás.
Ora, ainda nada refeito do caso, entrei dias depois numa loja da especialidade e disse ao homem que queria trocar a minha observação.
Depois de por assim dizer observar a minha observação, disse-me:
"Tem que a trocar por uma do mesmo género. E hoje só tenho aqui esta" - apontou para uma mala vermelha.
"Ainda ontem dispensei uma banheira cheia de vinho tinto e uma écharpe cheia de nódoas. Talvez amanhã tenha cá um homólogo cheio de sintomas. Quer experimentar a passar amanhã?"
Não sei o que fazer com o capataz.
"Ai-pode"
Já aflorei aqui o problema que me assola, chegando até a cometer a heresia de me comparar a Arquimedes. Mas pronto, o que eu queria mesmo era um daqueles gravadores que a malta usava antigamente. Com aquelas cassettes de brincar. Para ver, se de facto, não deixava apodrecer certas ideias parvas que surgem e ó, é vê-las a dar às de Vila Diogo. Apodrecer é bom de ver aqui é deixá-las mas é fugir. O homem não sabe o que diz, não sabe o que escreve.
Mas, porra, é isso mesmo.
É por não saber, não saber já as palavras que brotaram da fonte e que, lá onde o fizeram, pareceram fazer algum sentido ou nenhum, que me faz falta o registador.
Possa eu ter o discernimento para o ligar e para as proferir, sonoras, sem que entrem em desalinho.
Agora, é claro, se a coisa fosse já em digital era logo melhor. Daqui a uns tempos, o reconhecimento de voz fica disponível em português e então é que é vá roupa.
Por falar nisso, aqui há um porradão de anos havia um utilitário que permitia ensinar (tipo escola primária) ao computador a escrever as palavras que ouvia. Isso perdeu-se ou ainda existe?
Já aflorei aqui o problema que me assola, chegando até a cometer a heresia de me comparar a Arquimedes. Mas pronto, o que eu queria mesmo era um daqueles gravadores que a malta usava antigamente. Com aquelas cassettes de brincar. Para ver, se de facto, não deixava apodrecer certas ideias parvas que surgem e ó, é vê-las a dar às de Vila Diogo. Apodrecer é bom de ver aqui é deixá-las mas é fugir. O homem não sabe o que diz, não sabe o que escreve.
Mas, porra, é isso mesmo.
É por não saber, não saber já as palavras que brotaram da fonte e que, lá onde o fizeram, pareceram fazer algum sentido ou nenhum, que me faz falta o registador.
Possa eu ter o discernimento para o ligar e para as proferir, sonoras, sem que entrem em desalinho.
Agora, é claro, se a coisa fosse já em digital era logo melhor. Daqui a uns tempos, o reconhecimento de voz fica disponível em português e então é que é vá roupa.
Por falar nisso, aqui há um porradão de anos havia um utilitário que permitia ensinar (tipo escola primária) ao computador a escrever as palavras que ouvia. Isso perdeu-se ou ainda existe?
05/04/2006
02/04/2006
Vistas curtas
A vista curta é ela própria uma parábola.
É ela que nos impede de ver que as vistas são curtas. Parábola e quase paradoxo.
Pode até sê-lo no sentido geométrico, imaginando uma superfície que nos oculte parte do universo e que tenha uma secção parabólica, quando cortada por um plano alfa (alfa não, beta* - diria com ar sério um dos meus amigos).
Mas nesse caso, não seria curta, seria empalada. Com palas.
Pois bem, deixemos o disparatado intróito e passemos ao que interessa.
Ando divertido com esta polémica entre darwinistas e criacionistas. Não que esteja a par de todos os sucessos, mas suficientemente a par para sorrir benevolente com os disparates proferidos por uma e outra parte.
Ando igualmente divertido com os que se referem ao determinismo como se fosse algo que se liga às segundas, terças e quintas e se desliga nos outros dias. Não faz noites e tira férias na Páscoa.
Ando divertido com isto tudo. E mais me divirto quando as notícias me chegam pela televisão ou pela rádio.
Por alguém que tenta contar uma história sem a perceber minimamente.
*por alguma razão que me escapa, não consigo colocar aqui alfas e betas de lei.
A vista curta é ela própria uma parábola.
É ela que nos impede de ver que as vistas são curtas. Parábola e quase paradoxo.
Pode até sê-lo no sentido geométrico, imaginando uma superfície que nos oculte parte do universo e que tenha uma secção parabólica, quando cortada por um plano alfa (alfa não, beta* - diria com ar sério um dos meus amigos).
Mas nesse caso, não seria curta, seria empalada. Com palas.
Pois bem, deixemos o disparatado intróito e passemos ao que interessa.
Ando divertido com esta polémica entre darwinistas e criacionistas. Não que esteja a par de todos os sucessos, mas suficientemente a par para sorrir benevolente com os disparates proferidos por uma e outra parte.
Ando igualmente divertido com os que se referem ao determinismo como se fosse algo que se liga às segundas, terças e quintas e se desliga nos outros dias. Não faz noites e tira férias na Páscoa.
Ando divertido com isto tudo. E mais me divirto quando as notícias me chegam pela televisão ou pela rádio.
Por alguém que tenta contar uma história sem a perceber minimamente.
*por alguma razão que me escapa, não consigo colocar aqui alfas e betas de lei.
01/04/2006
28/03/2006
Obsessão
Por alguma razão que estarei muito longe de apurar, ando há dias com uma estranha obsessão com este local. Que conheço de por ele passar, mas ao qual nada me liga. É uma espécie de chamado.
Um destes dias, lá irei. Ao café da curva antes da ponte.

imagens de
http://ortos.igeo.pt/ortofotos/ e
http://www.igeoe.pt/igeoearcweb/igeoesig/default.asp
Por alguma razão que estarei muito longe de apurar, ando há dias com uma estranha obsessão com este local. Que conheço de por ele passar, mas ao qual nada me liga. É uma espécie de chamado.
Um destes dias, lá irei. Ao café da curva antes da ponte.
imagens de
http://ortos.igeo.pt/ortofotos/ e
http://www.igeoe.pt/igeoearcweb/igeoesig/default.asp
22/03/2006
21/03/2006
Não sou de Dias
Com Dê grande, desses que...
Já ontem foi o equinócio e a luz baterá sobre a minha secretária, tão logo as nuvens a desvelem.
Mas como sou incoerente, vamos à Árvore e à Poesia:
Da Árvore, que aqui se mostra, já disse o que acolá se pode ler.

E da Poesia, venha o meu caro amigo SG, esse que se julga poeta:
Tempo gasto
Já gastei os últimos cartuchos
Que um sentimento perdurador me permitira guardar
E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
Sobre pinheiros de beira-praia.
Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
E do marulhar das searas e do mar.
Já a estrada que tinha significados de ti
Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos
contidas.
Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Com Dê grande, desses que...
Já ontem foi o equinócio e a luz baterá sobre a minha secretária, tão logo as nuvens a desvelem.
Mas como sou incoerente, vamos à Árvore e à Poesia:
Da Árvore, que aqui se mostra, já disse o que acolá se pode ler.
E da Poesia, venha o meu caro amigo SG, esse que se julga poeta:
Tempo gasto
Já gastei os últimos cartuchos
Que um sentimento perdurador me permitira guardar
E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
Sobre pinheiros de beira-praia.
Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
E do marulhar das searas e do mar.
Já a estrada que tinha significados de ti
Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos
contidas.
Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Alguns factos ocorridos
Enquanto...
Cristininha surgiu do nada, é claro. Cem por cento compatível.
Os únicos contras eram a idade, talvez dezasseis, segundo rumores nunca esclarecidos e o namorado com cara de...
No meio da festa e da indizível confusão que se espalhava pelas ruas, não mais nos largámos.
Que não soubessem de nós era o que menos nos importava.
A certo ponto e, depois de já ter esquecido a minha passagem anterior pelas ruas de Paris, onde um número absurdo de couves lombardas e repolhos apareciam pendurados de postes de iluminação e de qualquer outro local susceptível, ficando assim à altura das passantes.
E digo as passantes porque só passavam lindíssimas parisienses ora loiras ora morenas e todas sem excepção se referiam às verduras como chittes. Só havia desacordo quanto às vantagens de as ter assim penduradas em tão grande número em todos os boulevards. Algumas faziam um esgar de incómodo, outras achavam graça e davam-lhes piparotes.
Dizia eu que, já tendo esquecido Paris, me deparei com o meu velho e fiel amigo, agora presuntivo cunhado, todo ele em rigores de matrimónio.
Fiz-lhe um reparo sobre o desalinho das espessas sobrancelhas, como se isso fosse importante. E notei a textura irrepreensível do tecido da sobrecasaca. Disse-me que tinha mais de cem anos, mas que lá em casa tinham um método ímpar de conservar o vestuário de qualidade. Julgo mesmo que mo chegou a descrever.
Para além disso, piscou o olho a mim e à irmã e disse que o passarão andava por aí à nora.
Resolvemos então pedir dispensa da cerimónia.
Depois de toda essa felicidade, chegava o momento da separação. Ela tinha que, impreterivelmente, apanhar o comboio das sete. Eu pedia-lhe por tudo que ficasse. Que amanhã seguiríamos de carro, evitando o trânsito do fim de semana. Que não podia ser. Que não tinha onde dormir.
E, de repente, a estação começou a encher-se. Ou já estaria talvez cheia, nós é que estávamos pouco atentos. Gente e mais gente que fazia filas para a única bilheteira. Filas para um só guichet. Claro que eram os retirantes da festa somados com os mochileiros do sudoeste, estranhamente não bradando pela Elsa.
Então, ao pé de onde ficava antigamente a curva do balcão, e onde se vê no chão a notável obra que algum mestre pedreiro fez com o padrão dos mosaicos de forma a acompanhar a dita curva, ela acedeu.
Corremos para minha casa. Para escolher os carros e dividir as pessoas por eles - era na época em que eu comprava tudo o que andasse e fosse barato, e às vezes não sabia bem onde é que deixava cada um.
Um dos que estava numa das primeiras esquinas era de casa. O impressionante desse tempo é que eu carregava sempre as chaves de todos os carros e talvez também a documentação.
Foi nesse que chegámos à porta. Lá estava mais um, cor de café com leite. E, na garagem, deviam estar ainda mais dois.
Não foi difícil convencer a família a albergar Cristininha por uma noite. O problema era só meu. E dela.
Dito isto, num hotel do Porto, enquanto a Maria entrava e saía do quarto a rir-se e a trazer informações do exterior, o meu Pai insistia em pintar a cabeça da vaca de madeira*, e talvez avivar-lhe os lábios, para assim poder sentá-la num banco do metro. A Maria era de opinião que, se lhe serrássemos os pés, ela cabia num saco grande.
Ninguém queria fazer isso.
*à escala 1:1, também dita escala natural.
Enquanto...
Cristininha surgiu do nada, é claro. Cem por cento compatível.
Os únicos contras eram a idade, talvez dezasseis, segundo rumores nunca esclarecidos e o namorado com cara de...
No meio da festa e da indizível confusão que se espalhava pelas ruas, não mais nos largámos.
Que não soubessem de nós era o que menos nos importava.
A certo ponto e, depois de já ter esquecido a minha passagem anterior pelas ruas de Paris, onde um número absurdo de couves lombardas e repolhos apareciam pendurados de postes de iluminação e de qualquer outro local susceptível, ficando assim à altura das passantes.
E digo as passantes porque só passavam lindíssimas parisienses ora loiras ora morenas e todas sem excepção se referiam às verduras como chittes. Só havia desacordo quanto às vantagens de as ter assim penduradas em tão grande número em todos os boulevards. Algumas faziam um esgar de incómodo, outras achavam graça e davam-lhes piparotes.
Dizia eu que, já tendo esquecido Paris, me deparei com o meu velho e fiel amigo, agora presuntivo cunhado, todo ele em rigores de matrimónio.
Fiz-lhe um reparo sobre o desalinho das espessas sobrancelhas, como se isso fosse importante. E notei a textura irrepreensível do tecido da sobrecasaca. Disse-me que tinha mais de cem anos, mas que lá em casa tinham um método ímpar de conservar o vestuário de qualidade. Julgo mesmo que mo chegou a descrever.
Para além disso, piscou o olho a mim e à irmã e disse que o passarão andava por aí à nora.
Resolvemos então pedir dispensa da cerimónia.
Depois de toda essa felicidade, chegava o momento da separação. Ela tinha que, impreterivelmente, apanhar o comboio das sete. Eu pedia-lhe por tudo que ficasse. Que amanhã seguiríamos de carro, evitando o trânsito do fim de semana. Que não podia ser. Que não tinha onde dormir.
E, de repente, a estação começou a encher-se. Ou já estaria talvez cheia, nós é que estávamos pouco atentos. Gente e mais gente que fazia filas para a única bilheteira. Filas para um só guichet. Claro que eram os retirantes da festa somados com os mochileiros do sudoeste, estranhamente não bradando pela Elsa.
Então, ao pé de onde ficava antigamente a curva do balcão, e onde se vê no chão a notável obra que algum mestre pedreiro fez com o padrão dos mosaicos de forma a acompanhar a dita curva, ela acedeu.
Corremos para minha casa. Para escolher os carros e dividir as pessoas por eles - era na época em que eu comprava tudo o que andasse e fosse barato, e às vezes não sabia bem onde é que deixava cada um.
Um dos que estava numa das primeiras esquinas era de casa. O impressionante desse tempo é que eu carregava sempre as chaves de todos os carros e talvez também a documentação.
Foi nesse que chegámos à porta. Lá estava mais um, cor de café com leite. E, na garagem, deviam estar ainda mais dois.
Não foi difícil convencer a família a albergar Cristininha por uma noite. O problema era só meu. E dela.
Dito isto, num hotel do Porto, enquanto a Maria entrava e saía do quarto a rir-se e a trazer informações do exterior, o meu Pai insistia em pintar a cabeça da vaca de madeira*, e talvez avivar-lhe os lábios, para assim poder sentá-la num banco do metro. A Maria era de opinião que, se lhe serrássemos os pés, ela cabia num saco grande.
Ninguém queria fazer isso.
*à escala 1:1, também dita escala natural.
20/03/2006
19/03/2006
Cavalaria Mecanizada
A propósito de dois comentários recentes a posts sobre o meu fiel companheiro de jornadas, um do Bekx, aqui, e outro do Bic, acolá, aproveito para dar mais um acrescento à imagem aqui postada já vai tempo.

Ainda falta um deles. Dos que mais me levaram por montes e vales. Depois há uma outra lista, que ainda farei aqui e que é a dos diferentes modelos que já me passaram pelas mãos. E são muitos.
A propósito de dois comentários recentes a posts sobre o meu fiel companheiro de jornadas, um do Bekx, aqui, e outro do Bic, acolá, aproveito para dar mais um acrescento à imagem aqui postada já vai tempo.

Ainda falta um deles. Dos que mais me levaram por montes e vales. Depois há uma outra lista, que ainda farei aqui e que é a dos diferentes modelos que já me passaram pelas mãos. E são muitos.
17/03/2006
Homenagem
A um cromo da bola

cromo editado por Distribuidora de Publicações, Lda., Lisboa, São Paulo e Recife, copyright da Palirex, Papelaria, Livros e Revistas, Lda.
Não é irónica. É sincera. Todos os dias desaparece gente boa. Este homem e o seu cromo fizeram parte da minha infância.
Para além de ser um dos Lisbon boys.
A um cromo da bola
cromo editado por Distribuidora de Publicações, Lda., Lisboa, São Paulo e Recife, copyright da Palirex, Papelaria, Livros e Revistas, Lda.
Não é irónica. É sincera. Todos os dias desaparece gente boa. Este homem e o seu cromo fizeram parte da minha infância.
Para além de ser um dos Lisbon boys.
16/03/2006
O escape de Portimão
O pretexto era a nova companheira de quarto da R. Ou talvez não, não são precisos muitos pretextos para ir jantar a Portimão.
Eu acho até que só ia beber café ao Texas Bar e acabei lá para os lados da Rocha. Foi o que deve ter acontecido.
Pormenor de somenos: durante a travessia da serra, aquilo que parecia uma pequena fuga no escape, transformou-se num som artilhadão.
Mas como sempre tive sorte com estas coisas, encontrei logo o J. mailas moças na esplanada por baixo do apartamento. E, de facto, a noviça era um mimo. Tudo à medida. Finlandesa daquelas. Só o som do carro é que a deve ter assustado.
Vai daí, é claro que o J. me levou logo a comer... carne. Pior, frango à Guia. Não é possível demovê-lo, isso já eu sei e sabia. Também agora mais valia mas é pensar na mocinha.
E assim foi. Antes da janta, subimos e eu pedi para tomar banho.
Ouvi uns barulhos e a porta a bater.
Quando saí da casa de banho, vi a moça com uma toalha à volta do corpo. Ia-me passando. Mas pronto. Nada de aventureirismos. Lá lhe perguntei por eles e ela disse que tinham ido comprar qualquer coisa.
Desse dia, não houve assim nada de especial a assinalar.
Dia seguinte, era sábado. As moças trabalhavam na Rocha até ao fim da tarde. Fomos lá antes de almoço e já o caso parecia o motor de um Ferrari.
Entre as brincadeiras com uma opulentíssima bartender que operava mesmo ao lado do escritório finlandês e a necessidade de resolver a questão do escape, ganhei nessa altura eu.
O inevitável taxista a quem pedimos indicação, lá nos deu as pistas.
A oficina era muito à antiga.
E o homem fez o trabalho em três tempos. Não levou caro. Um escape todo novo.
Reparei que o J. estava com a pulga atrás da orelha. Não sei se foi pela cara que o mecânico fez quando depois de nos perguntar de onde éramos, recebeu a resposta: do Alentejo, eu e da zona de Aveiro, ele. E perguntou como é se ia dali para Portimão!
Já que o J. é mais carne, lá me lembrei de subir até à Água da Sola, ao presunto.
Assim que saímos do carro, o bicho abaixou-se e disse-me: porra, estava com medo que o gajo não tivesse posto um escape.
A coisa correu bem. Apareceu uma excursão de inglesas balzaquianas que até o dono da casa, que entretanto se posicionara como quem ver o circo pegar fogo já se dava ao luxo de dizer qual era para o J. e qual era para mim.
Lembrei-me disto agora porque esta cena passou-se há doze anos e o escape foi hoje remendado pela primeira vez.
O pretexto era a nova companheira de quarto da R. Ou talvez não, não são precisos muitos pretextos para ir jantar a Portimão.
Eu acho até que só ia beber café ao Texas Bar e acabei lá para os lados da Rocha. Foi o que deve ter acontecido.
Pormenor de somenos: durante a travessia da serra, aquilo que parecia uma pequena fuga no escape, transformou-se num som artilhadão.
Mas como sempre tive sorte com estas coisas, encontrei logo o J. mailas moças na esplanada por baixo do apartamento. E, de facto, a noviça era um mimo. Tudo à medida. Finlandesa daquelas. Só o som do carro é que a deve ter assustado.
Vai daí, é claro que o J. me levou logo a comer... carne. Pior, frango à Guia. Não é possível demovê-lo, isso já eu sei e sabia. Também agora mais valia mas é pensar na mocinha.
E assim foi. Antes da janta, subimos e eu pedi para tomar banho.
Ouvi uns barulhos e a porta a bater.
Quando saí da casa de banho, vi a moça com uma toalha à volta do corpo. Ia-me passando. Mas pronto. Nada de aventureirismos. Lá lhe perguntei por eles e ela disse que tinham ido comprar qualquer coisa.
Desse dia, não houve assim nada de especial a assinalar.
Dia seguinte, era sábado. As moças trabalhavam na Rocha até ao fim da tarde. Fomos lá antes de almoço e já o caso parecia o motor de um Ferrari.
Entre as brincadeiras com uma opulentíssima bartender que operava mesmo ao lado do escritório finlandês e a necessidade de resolver a questão do escape, ganhei nessa altura eu.
O inevitável taxista a quem pedimos indicação, lá nos deu as pistas.
A oficina era muito à antiga.
E o homem fez o trabalho em três tempos. Não levou caro. Um escape todo novo.
Reparei que o J. estava com a pulga atrás da orelha. Não sei se foi pela cara que o mecânico fez quando depois de nos perguntar de onde éramos, recebeu a resposta: do Alentejo, eu e da zona de Aveiro, ele. E perguntou como é se ia dali para Portimão!
Já que o J. é mais carne, lá me lembrei de subir até à Água da Sola, ao presunto.
Assim que saímos do carro, o bicho abaixou-se e disse-me: porra, estava com medo que o gajo não tivesse posto um escape.
A coisa correu bem. Apareceu uma excursão de inglesas balzaquianas que até o dono da casa, que entretanto se posicionara como quem ver o circo pegar fogo já se dava ao luxo de dizer qual era para o J. e qual era para mim.
Lembrei-me disto agora porque esta cena passou-se há doze anos e o escape foi hoje remendado pela primeira vez.
15/03/2006
Actualidades
O túnel é outro, mas a actualidade mantém-se.
Faz-me aflição esta comum confusão entre alhos e bugalhos feita por pessoas que deviam ser responsáveis.
Estará o país entregue mesmo só aos medíocres?
O túnel é outro, mas a actualidade mantém-se.
Faz-me aflição esta comum confusão entre alhos e bugalhos feita por pessoas que deviam ser responsáveis.
Estará o país entregue mesmo só aos medíocres?
14/03/2006
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