O andar-modeloHá lições que se menosprezam.
Muito antes de ter ouvido, na madrugada da rádio, o reformado do caminho-de-ferro que gabava o local onde teria lugar, uns dias depois, o convívio de ouvintes.
Muito antes de o ouvir descrever as peripécias da viagem exploratória, que fizera com o habitual desconto para ferroviários, na mira de saber se o local era adequado para aí se deslocar mais a esposa.
Muito antes de ter percebido o contentamento que exalava pelo facto de lá ter estado antes dos outros.
Muito antes disso tudo, já eu sabia que certas visitas exploratórias valem o tempo que nelas se investe.
Mas sabendo-o, também o ignorei dessa vez.
Estava tudo tratado. Não, a gente não volta nessa noite. São muitos copos, estradas perigosas, depois também não há táxis. Não, a gente não volta.
E se fôr para vir de comboio, já se sabe que só de manhã. Então o melhor é falar com o Fernando. Talvez ele nos desenrasque.
E o Fernando desenrascou, claro.
Posta de parte a ideia da sala de condóminos do prédio onde ele morava - ouve-se tudo, as paredes da cave fazem de caixa de ressonância, não pode ser - lembrou-se de nos dar a chave do andar-modelo do último prédio em acabamentos.
A verdade é que a distância da festa ao belíssimo prédio de apartamentos era aí de uns três quilómetros.
Uns eram propulsionados, outros traccionados. Mas ainda assim a viagem lá se fez em boa ordem.
O chiu à porta do prédio dado por mim em voz alta(!) era mais um sinal de respeito para com o Fernando do que para com a vizinhança. Não morava ninguém naqueles prédios, só sacos de gesso, latas de tinta, azulejos às caixas, vassouras, vêdês, rolos de cabo eléctrico.
Talvez o álcool já se tivesse evaporado com o percurso, talvez o dia não tardasse muito a nascer, o certo é que dormir, ninguém dormiu.
Meia horita depois, lá iam eles por cima da ponte de Santo Amaro, à procura do cavalo de ferro.
Ninguém se queixou.
Mas, na cara de alguns, via-se o peso do embuste.
Estavam convencidos de que o andar-modelo estava mobilado e pronto a habitar.