13/04/2008

As pernas das meias e o não-galanteador

Há frases que nos saem da boca quando menos esperamos. Algumas delas são assassinas.
Não que seja aquela coisa de “disse sem pensar, desculpa lá!”. Que isso é um dos maiores disparates que se sedimentou no argumentário popular. Ninguém diz coisa alguma que não esteja na cabeça, na qual não tenha já pensado.
É mais o despropósito, a inadequação ao tempo e ao modo.
Uma das que ainda hoje me atormenta, quase um quarto de século depois, não tanto pelo impacto que teve, mas mais pelo ridículo por que eu próprio passei de imediato no meu espelho, saiu-me numa réplica a uma afirmação inesperada.
A primeira vez que vira aquela mulher fora umas escassas horas antes. Achara-a morfologicamente interessante, muito interessante até.
Talvez tivesse trocado com ela duas ou três frases, antes de nos metermos ao caminho - vou eu à frente, que sei o caminho – motoristas de serviço que ambos éramos.
E eis que estávamos a almoçar a dois, algures em parte certa.
Já não me recordo do que a terá levado a dizer tal coisa. Mas disse. Disse que as pernas que se viam nas tampas das caixas de certa marca de meias de senhora eram da mãe dela.
Disse isso e disse mais qualquer coisa antes que eu tivesse retorquido.
E retorqui, claro, da forma mais desastrosa:
“Sem galanteio, tem então a quem sair!”
Mas sem galanteio porquê, minha besta? – disse-me o grilo, de imediato.
E não achas que foste assim vulgarinho? – continuou.
Muito embora não saiba muito bem a quê ou a quem atribuir o facto de não me ter oferecido para a acompanhar a casa no final do dia, certo de que a oferta não seria desprezada, ainda hoje culpo o grilo. E ele, a mim.
Lembrei-me disto por causa desta caixa ou lembrei-me da caixa por causa disto. Já não sei bem. Mas esta senhora não era a mãe dela. Era de outra marca.

11/04/2008

Memórias (II)

Ao iniciar esta série de posts, tinha em mente pedir a ajuda dos leitores na identificação e recuperação de memórias que me são caras.
O caso para que peço a vossa colaboração é este:
Há cerca de quarenta anos, para mais, vinham cá ter a casa uns magníficos calendários escandinavos com uma esplêndida fotografia para cada mês.
Havia fotografias a preto-e-branco e a cores. Não me recordo se coincidiam no mesmo ano ou se havia anos cinzentos e anos coloridos.
Das minhas infrutíferas pesquisas na rede, uma suspeita: a de que se tratasse das séries “Splendor of Norway” ou “Splendor of Sweden”, por esplêndidas serem as imagens.
Mas nada sei sequer sobre a data da primeira edição.
Gostava mesmo era de, a existirem, conseguir ver edições de há quarenta e tal anos e ver se sim, se era um destes títulos.
Alguém me pode ajudar?

09/04/2008

Já que andamos numa de Laboratório

Porque não verificar os cálculos estruturais, incluindo da cobertura, do armazém que se viu destruído hoje pelo tornado?
Para que velocidade de vento estava calculada a dita cobertura?

Aqui há uns anos caiu um nevão mais intenso em Bragança.
Inúmeras coberturas cederam ao peso da neve.
Os edifícios mais antigos escaparam.
Alguma coisa isto deve querer dizer.
Horizonte perdível

A segunda guerra do Iraque

Há exactamente cinco anos, as tropas americanas entraram em Bagdade.
Nesses dias trocava amiúde impressões com um tipo que estava mais ou menos a meio do caminho entre Lisboa e a capital do Iraque.
Nos dias que antecederam a tomada, traçámos e trocámos caricaturas do que seria a situação futura.
Numa delas, lembro-me de lhe ter dito que os americanos conseguiriam sitiar Bagdade mas que teriam dificuldade em lá entrar.
Via a coisa como uma cidade entrincheirada em que os sitiantes usariam de uma panóplia de Stans de Monkey Island gesticulando no meio de grandes carrões americanos usados “for sale”, de tendas de comida de plástico (incluindo os hot dogs de carne de porco), de feéricos sete-sete-setes piscantes e o mais que fosse, na tentativa de replicar o cavalo de Tróia.
E que seria interessante ver o número de barracas tais a aumentar com o tempo, enquanto o cerco durasse.
Enganei-me nisso rotundamente.
Quem não se enganou foi o marine entrevistado por David Chater.

08/04/2008

Azenhas do Mar, 2006

Se os chineses se benzessem

Talvez alguns de entre eles verificassem agora que haviam partido o nariz.
O Tempo e o tempo


espólio Campos Vilhena - autor desconhecido

Deste Abril arremeda o de 1981. Com 3 dias de avanço, mais coisa menos coisa.
O calor a que se seguiu a chuvada.
Arremedará muitíssimos outros anos, decerto. Mas deste lembro-me bem.

Encontrei o teu nome ontem na rede pela primeira vez. Numa página do Instituto de História Contemporânea.
Posso dizer que tinha, no instante anterior, uma certeza inconsciente de o encontrar.
Afinal (outra vez)*

Não é de uma ponte que se trata. É de pelourinhos. Tantos que eles são.
Ficou demonstrado o disparate da fotomontagem tantas vezes brandida. E assim demonstrada a incapacidade crítica de todos quantos a brandiram.
Ficou a perceber-se porque é que uma ponte assim só pode sair no Poço do Bispo (a que é dita no Beato) e uma ponte assado só pode sair no Beato (a que é dita em Chelas)**.
Ficou a perceber-se porque é que não pode ser frito ou cozido.
É que não há lóbis que os defendam. As pontes só podem ser de tirantes e só podem sair daquelas partes.
E fica sempre esta ideia de gente pouco capaz.
Isso é que é o mais grave.


*Ouvindo o debate em “Prós e Contras”.
**Todo o mérito ao homem que escreve com a Bic Laranja e que comigo travou argumentos sobre designações absurdas.

07/04/2008

A colecção Pirata na Rede



Pertenço ao grupo dos que sentem ser insuportável ler um livro no écran do computador, conquanto consigam ler com satisfação textos curtos e sem seguimento como os dos blogues.
Uma análise aprofundada da coisa, com um número de casos pessoais que permitisse tal, seria decerto interessante para estabelecer limites a partir dos quais...
Pertenço igualmente a mais dois grupos. O dos amantes do livro e o dos que fazem contas às coisas e têm por isso hábitos de consumo muitíssimo frugais, ao nível do pesadelo de qualquer vendedor.
É por tudo isso e mais uns pós, que posso afirmar que os livros da colecção Pirata na Rede saem caros.
Ele é a mão d’obra que tem que procurar, carregar em memória e formatar à medida exigida, um livro escolhido que esteja disponível na rede.
Que tem ainda que arranjar um algoritmo eficiente para comandar a impressora na feitura dos cadernos de ene páginas e brochar o resultado. Com gaze esterilizada e tudo.
E que engendrar uma capa à altura dos acontecimentos, imprimi-la, colá-la em cartolina e aplicar-lhe um autocolante transparente para resguardo.
Ele é depois o material - as folhas de papel, a tinta, a cartolina, o autocolante, a linha, a gaze e a cola.
Sai carote. Mas é uma satisfação. Só falta a guilhotina daquelas a sério para aparar as bordaduras, mas isso é quase de borla. Só se gastam solas.

06/04/2008

Portugal, 2008

A leitura, a hermenêutica e a semiótica



Está este sinal C1 – sentido proibido – implantado num troço de rua que serve uma biblioteca municipal.
Faz referência à leitura e aos veículos que a servem.

Mas o caso é que, ao contrário do que prevê a convenção – neste caso o Código da Estrada e sua regulamentação – não usa uma placa adicional 10a para assegurar a excepção à regra. Antes, talvez para poupar dinheiro, usa o campo vermelho do sinal.
E ainda a atribui, a excepção, a “carros itinerantes”.
Afinal a leitura só por si...

05/04/2008

Andrades


imagem do site do FCP

Uma coisa que me ocorre hoje é saudar os portistas.
Não é vulgar ganhar-se um campeonato com uma supremacia tão declarada.
Será ainda viva a donzela abandonada no Estádio do Lima?
Afinal

Ainda ontem se decidiu tomar a decisão decidida e já hoje temos ante-projecto!
Assim ainda antes do Santo António está a ponte construída!

Mantenho o que disse sobre as fotomontagens.


imagem da SICN

04/04/2008

Ainda sobre a ponte

A quantidade de fotomontagens que apareceram para ilustrar o ”monstro no meio do rio”, independentemente do que poderá de facto ser o impacto visual de uma ponte no local previsto, é ilustrativa sim da mesma ignorância e da mesma estupidez que aceita como bom um qualquer rosto para Tutancamon.
Quando a ponte estiver construída de acordo com um projecto que se verá como é, espero ter ainda cópias destas fotomontagens.

Esta fotomontagem da velha Ponte sobre o Tejo tem diferenças com o então construído. Mas são poucas. Dá uma ideia muito, muito aproximada do resultado final.


fotomontagem do projecto vencedor do concurso in "A ponte Salazar", GPST, Lx, Julho de 1966

03/04/2008

A ponte

O facto de me ter encontrado a maior parte do dia do sol em parte incerta, parte incerta para mim, não me permite a conclusão de que a próxima ponte, ou uma das próximas, a lançar sobre o rio Tejo será entre Chelas e o Barreiro. Neste preciso momento, entrego-me às delícias da teclação para vos dar conta do meu estado d’alma enquanto espreito os gloriosos cavaleiros das riscas verdes e brancas a trocarem os olhos aos protestantes de Glásgua.
Dito isto, e parecendo-me que houve mais uma decisão sobre o caso de se ter decidido tomar a decisão de a construir, uma dúvida avassala-me:
Como irá a insigne cabeça classificar, ordinalmente, a nova obra d’arte? A terceira, como dizem os demais, a segunda como alvitram alguns outros ou a quinta, como coerentemente deveria fazer?
Circulações

Às vezes, há uma ciência que cai sobre o mar.
Apenas sobre o mar.
Uma ciência quase cega.
Cega pela luz refractada em nuvens baixas.
Sobre o mar, apenas sobre o mar.
Da praia, confundimos as hipóteses com comboios bombardeados.
Comboios de navios, porque a ciência cai às vezes sobre o mar.
Só. A ciência cai só. E só sobre o mar.

SG, inéditos, 2008

30/03/2008

Motivos para deserdar alguém (mais um da série de)

Ouvi-lo dizer que não aprendeu assim.

29/03/2008

A empena desportiva

Ao ouvir um destes dias falar em “verdade desportiva” ocorreu-me que não há hoje (ou a minha ignorância não me permite sabê-lo) uma palavra que signifique o desporto tal como ele era.
Usando o bom português de antanho talvez pudéssemos ir por folga, folgança, folguedo.
O caso é que não se pode usar desporto para significar desporto.
Um destes dias fui surpreendido por um casal a fotografar uma rua. O enquadramento era alto pelo que a parte feminina do dito casal entendeu que eu lhe fotografava a empena do prédio, interpelando-me a propósito. Quando lhe disse que não tinha nada a ver com obras ou com orçamentos, quis saber por que raio lhe fotografava então a empena.
Por desporto, minha senhora.
E ela: Humpf! Por desporto!...
Acho que lhe adivinhei a resposta, pois já a recebi de costas.

27/03/2008

Portugal, esta tarde



Aceitam-se palpites sobre esta localização em forma de kmz com erro a menos de 10m.

25/03/2008

Das divisões do Mundo (episódio n+4)

O Mundo também se divide entre os que, ao ouvirem “Stars and stripes forever” de John Philip de Sousa, de imediato dizem, com os olhos marejados: “A banda do Barreiro a passar a Ponte sobre o Tejo!” e os outros, os incontáveis outros.

23/03/2008

Sobre a Escola

A autoridade dos professores é como toda a autoridade que é exercida sobre quem tem pouca capacidade de avaliar as vantagens e as desvantagens dessa autoridade, é facilmente perecível.
No meu caso pessoal, que vale o que vale, que é uma experiência entre muitas dos que andavam no Liceu em 1974, vi-a soçobrar de um dia para o outro.
Nesse final de ano lectivo, os professores tornaram-se incapazes de se fazer respeitar. Não todos, mas muitos.
O corpo discente sentiu a fraqueza do outro lado e pô-lo à prova. Não havia força para impôr respeito. Chegou-se mais tarde ao ponto de ter a tropa na escola, ocupando-a, colocando um militar na direcção.
De então para cá, até há uns dez anos, o respeito foi em parte recuperado. Mas a escola nunca mais foi a mesma.
E nos últimos dez anos, degradou-se de novo de forma galopante.
O que preocupa ainda mais é que episódios como o que esteve nas notícias na semana passada sejam aparentemente uma espécie de surpresa para o público.
Daquilo há todos os dias nas escolas. Todos os dias.

21/03/2008

A brincar

Anda há alguns dias a passar na RTP um anúncio das Estradas de Portugal, E.P..
Se algum benemérito o pagou, aqui termina a minha argumentação.
Se foi o erário público – há uma mania de considerar as empresas públicas alheias aos bens nacionais – então alguém anda a brincar com o nosso dinheiro.
A ser assim, e é claro que este não é caso único porque há milhentos exemplos de filmezinhos publicitários com igual desplante feitos por outras entidades públicas, a única coisa que ainda posso acrescentar é:
A publicidade às estradas é, de facto, uma ideia genial!


imagem da RTP

20/03/2008

Mais uma biblioteca de Alexandria que se vai

A primeira vez

Há uma coisa que faço sempre por não confundir, tanto mais que a critico amiúde. É a prestidigitação que pretende mostrar interesses particulares como sendo de toda a gente.
Aquela coisa de um tipo a quem estão a ir ao bolso e quer que achem, quando não acha ele mesmo, que o prejuízo é nacional.

Sou um produtor de cortiça de pequena escala.
Isso faz de mim interessado neste caso e um potencial prejudicado.

E o caso é o seguinte:
Ouvi agora na televisão e presumo que tenha uma base verídica, a julgar pela conversa de um dos entrevistados, que se irá promover uma campanha de reciclagem de rolhas, através da moagem das ditas e com os lucros resultantes dessa operação – matéria-prima a custo zero – a financiar não sei o quê ambiental. O costume.
Esta parece que tem ou pretende ter maior envergadura, visto estar a ela associado o maior grupo industrial do sector.
Pelo meio, reconhece-se que para a actual campanha propagandística contra o aumento da produção de CO2, os montados são um óptimo elemento, dada a utilização e transformação que dele fazem.
Suponhamos, por absurdo, que esta campanha faz algum sentido e que, nesse caso, os montados são um elemento inestimável para regular os níveis de CO2.
Suponhamos que uma grande parte da quantidade das rolhas produzidas pela indústria é do tipo rolha natural – 100% cortiça. Não conheço estes números. Baseio-me numa amostra representativa apenas do meu consumo de vinho.
Suponhamos ainda que os resíduos de cortiça em forma de rolha natural são de fácil degradação no meio, o que vai de encontro às ideias genéricas dos tipos que aparecem nestas campanhas.
A ser tudo isto verdade, o facto de se desperdiçarem rolhas não é ambientalmente grave, de acordo com os cânones em vigor.

Ora, por cada rolha a reciclar que entra como matéria-prima na indústria, há uma “rolha” vinda directamente do montado que fica à porta, que fica na pilha, que fica na árvore, que faz baixar a renda do produtor, desincentivando a conservação dos povoamentos de sobreiro.
Se os meus pressupostos estão certos e se de facto os montados são uma riqueza a proteger em termos ambientais, então esta é uma medida que tem o exacto efeito contrário.
Ou será que me enganei nalgum passo?

É a primeira vez que faço aqui uma defesa dos meus interesses particulares.

18/03/2008

Lisboa, 2007

Lisboa, 2007

Fazendo jus

José Sócrates apareceu a anunciar uma reforma comarcã.
Assim à primeira vista, parece que aquilo a que é costume chamar-se justiça precisaria de tudo menos de uma tal reforma.
Precisaria de gente mais capaz, antes de tudo.
Gente mais capaz a legislar, gente mais capaz a aplicar as leis, gente mais capaz ao longo de todo o processo.
Aceitando ainda assim que é válido o projecto ora apresentado, estranha-se é a forma ligeira como se fala em experimentá-lo.
Não que as experiências-piloto sejam algo a evitar. Fiquei foi com a ideia de que tal como as reformas da saúde e da educação a coisa é para navegar à vista, sem grande estudo prévio e por isso sem grande capacidade de antecipar o que acontece quando se move uma alavanca, quando se alteram estas ou aquelas condições.
Mostra tudo isto muito pouca inteligência. E isso sim, não é nada que não se previsse.
Os apelos à calma e o dinheirinho

Ouço que a União Europeia apelou à calma no Tibete.
Não me consigo lembrar de muita coisa mais patética e imbecil do que um apelo à calma.

Ouço que as instâncias que têm interesses nas Olimpíadas afastam a hipótese de boicote. Claro, o dinherinho.
Sabemos todos qual é a “mola real”. Eu sei que é utópico que, ainda que de vez em quando, se pudesse admitir qual é ela.

A velha mulher há-de morrer sábia.

17/03/2008

Causas e efeitos

Se tivéssemos a omnisciência, haveria de haver quem escalpelizasse os mecanismos que mantêm erecto o castelo de cartas do capitalismo.
Assim, há uns tipos que se entretêm a dizer umas baboseiras com ar grave e engravatado, barris de petróleo, crise do crédito fácil, conflitos armados, recentramento da economia global, advento do oriente, etc.
E se um destes dias o castelo cai?
O nível intelectual da coisa

Começa a ser assustadora a quantidade de relatórios, de estudos, de pareceres que tem erros de palmatória em quadros, em gráficos, em cálculos, em valores.
É quase impossível ler um que não esteja pejado deles.
Isto dá uma imagem do nível a que estamos a chegar.
Governos

Pertenço ao grupo dos que consideram Alberto João Jardim muito mais inteligente do que a caricatura que tão bem compõe, ao mesmo tempo que consideram José Sócrates muito menos inteligente do que a imagem que dele se reflecte na imprensa.

15/03/2008

O psicólogo em que entroncava o Sérgio

Não sei se as habituais escadas rolantes impraticáveis de íngremes e em poço estreitíssimo se os habituais elevadores acanhados se as habituais escadarias apertadas foram antes ou depois de encontrar o homem que se queixava ao psicólogo.
Era ali aos meus olhos o deslumbramento de ver com eles um apoio psicológico. Um verdadeiro apoio psicológico. Eu era o elemento neutro, um protonarrador consentido, invisível, inaudível e inodoro.
O homem que eu não conhecendo, conhecia, era afinal amigo do Sérgio. Quando depois me falou nele, de imediato lhe dei conta das aventuras que havíamos partilhado, vai para trinta anos. E que nunca mais o vira.
Foi esse o repto que não fiz mas que ele levou a peito.
Em menos de nada, o Sérgio ali estava.
Depois, lá fomos para um entroncamento na Marginal e, pela noitinha, cumprimentávamos como se velhos amigos fossem, perfeitos desconhecidos. A inversa também era verdadeira – se bem que a reciprocidade aqui seja quase (mas só quase) óbvia, o facto é que havia uma grande diferença, consoante a iniciativa fosse nossa ou dos (des)conhecidos que passavam.
Rio Tejo, 2007

14/03/2008

Cartaz

Eu sei que este é um cliché mais do que batido.
E eu próprio sou um dos que duvida que o turismo seja a "indústria" que falece ao País.
Ainda assim, olhada a fotografia, resolvir armar-me em mercador de nadas.

13/03/2008

Estação C.F. do Poceirão, 2007

O humor parelho

Já não sei há quantos anos foi que, entre músicas na taverna do Fernando*, ela me devolveu, com selo de concordância, uma sentença que eu lhe segredara talvez vinte anos antes:
“Aquilo que me disseste certa vez sobre ser decisivo que os sentidos de humor sejam parelhos...”
Pois bem. A isso, e sem que ela me leia – a probabilidade é desprezável – ajunto agora uma outra coisa decisiva. Algo que então não me preocupava, não tinha em conta, mas que agora tenho – a classe. Uma mulher sem classe é insuportável.
Se ela me lesse agora, decerto concordaria não em género mas em caso.


* com publicidade e tudo, que o sítio merece e o Fernando também.

12/03/2008

Índices

Outro índice que dá a inversa da qualidade intelectual de uma franja é a frequência com que os seus elementos descobrem a existência da pólvora e o fazem com palavras inglesas.
Algés, 2008



No sovaco da cobra

11/03/2008

Filosofias

Vi e ouvi agora mesmo dois tipos diferentes.

Um, que eu preconceituosamente posso dizer que era um homem do povo, transmontano – e eu, alentejano, gosto muito de Trás-os-Montes e das suas gentes – respondeu assim a quem lhe perguntou se não pedia o reembolso da despesa (ou parte dela) que fizera com o transporte até ao ponto do serviço nacional de saúde onde foi atendido: Não. O Estado já tem muita despesa.

Outro, que eu preconceituosamente reputo de técnico – e os técnicos para mim são como toda a gente, de uns gosto, de outros não – dizia, com um ar que eu preconceituosamente reputo de maravilhado, que se pode hoje em dia ter num elevador um algoritmo simples que calcula uma moda, moda essa que se refere por exemplo ao género musical preferido dos elevandos, desde que estes tenham o dispositivo que o elevador reconhece e, é claro, autorizem o escrutínio das suas frequências musicais.

Talvez por gostar muito de Trás-os-Montes e das suas gentes...
Cem mil e um

Dando cumprimento a uma frase promissória que escrevi.

No tempo em que estas coisas mais importavam, nos anos setenta, havia uma forma expedita de contar os manifestantes na rua – era o velhíssimo método do olhómetro que se traduzia quase sempre por dar o resultado de cem mil e um e suas variações. Um à frente e para aí cem mil atrás, como no dito popular.
Bem vistas as coisas, ainda que as técnicas de hoje possam ser diversas, o olhómetro é ainda o instrumento utilizado.
Depois cada um tem o seu – dá a coisa, para a manifestação de sábado, desvios de 20% ou de 25% consoante se tome como base os 100 000 ditos da Fenprof ou os 80 000 ditos da Polícia*. Nunca se sabe que mecanismos de contagem e estimativa são utilizados para lá chegar.
Sabendo que só a estultícia e a baboseira levam a que se produzam certezas em matéria tal, detive-me a fazer algumas contas que deixo à vossa consideração:

Observei as imagens dos três canais de televisão.
Há uma sequência de imagens de helicóptero na SIC que dá uma panorâmica do percurso da manifestação em alguns segundos, a que se pode chamar instantânea. Segui-a a partir dos Restauradores.
Dessa sequência retive a porção dos arruamentos a jusante que a manifestação ocupava nesse instante e uma ideia aproximada das densidades em marcha e em parada, obtida por contagem em alguns casos e por estimativa noutros.
Vi também imagens da Avenida da Liberdade e do Marquês, reportadas a outro momento.
Assim, pondo de parte apenas as artérias adjacentes ao Marquês de Pombal, onde se concentraram os manifestantes, usei a seguinte tabela em que as densidades estimadas majoram o observado:



Se partirmos do princípio (incerto) que, à hora da sequência de imagens da SIC, onde já havia, pelo máximo, 35 000 pessoas no Terreiro do Paço, todo o trajecto da manifestação ainda estava com uma densidade de 0,7 pessoas por m² (majoração do que se viu nas imagens) e do princípio (incerto) que não variou consideravelmente ao longo do tempo a percentagem de ocupação das vias pela manifestação, então o número a que chegamos é, arredondando ao milheiro, 62 000 pessoas.
A diferença entre esta estimativa e os números “oficiais” pode estar ou não em pessoas ainda nas imediações do Marquês de Pombal (Fontes Pereira de Melo) ou em ruas não incluídas no trajecto e que acabaram por acorrer ao Terreiro do Paço ou até naquelas que já teriam abandonado o local.
É claro que o número de autocarros e a sua lotação dão, depois de multiplicados, um minorante para o intervalo em que este número cai.

Este cálculo não é afirmativo. Dá apenas uma ideia de aonde pude chegar, com os dados de que todos dispúnhamos, sem intrincadas elaborações e com erro grosseiro.
É o meu olhómetro, afinal. Nada mais do que isso.


*Não li jornais sobre o assunto. Não sei se estes números foram corrigidos.

09/03/2008

Rio Tejo, 2008

Irritações

Uma coisa que me irrita supinamente nos blogues é a música obrigatória.
Quase sempre aos berros.
Para quem, como eu, gosta de navegar à noite, ouvindo baixo e em fundo algum canal de televisão, é um sobressalto ter que desligar as colunas numa correria, quando estas coisas começam a berrar, porque é claro é mais rápido fazê-lo do que ir à procura do local onde se pode terminar o ruído.
Cada um sabe de si e do que quer propor aos outros.
A mim irrita-me a sério.

08/03/2008

O crime organizado

Mas quem é que se alarmou com o facto dos últimos crimes serem fruto de organizações criminosas, senhor Procurador?
O corpo docente (II)

É claro que a selecção das entrevistas de rua pode ser feita de forma a dar esta ou aquela impressão a quem vê uma sequência delas.
Mas é também claro que existe um número de professores que parece não ter ou não saber que razões tem para se manifestar.
O facto de constituírem a esmagadora maioria dos entrevistados pode ter a ver com o que disse acima. Ou não.

Conto ainda desenvolver o tema da contagem do número dos que se manifestaram.

05/03/2008

O corpo docente

Talvez por ter já pertencido à classe é que este protesto dos professores não me diz nada.
Bem sei que os segundos de tempo televisivo são o que são, ainda assim não se ouve ali uma ideia, uma razão.
É tudo muito porque não. Sem se assumir que se luta por interesses corporativos.
Falta de cabeça

Muito esforço, muito empenho, mas pouquíssima cabeça, logo pouca eficácia.
O Porto desta noite.
Há tempos que não via tantos minutos de um jogo de futebol.
Futebol Clube do Porto

Espero e acredito que o Porto vai continuar em frente na Liga dos Campeões.
Há muito que é o único clube português capaz de façanhas.
Portugal, 2006

A ver vamos

A ver vamos se é ou não.

04/03/2008

Restos de colecção (66)



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Má fé

Só mesmo de má fé se pode dizer que o país está em risco de ser atingido por uma série de asteróides.
Só vozes arregimentadas por interesses muito obscuros podem afirmar que nunca se viu uma praga de gafanhotos tão arrasadora como a que nos assola os campos.
Macedo de Cavaleiros, 1991

02/03/2008

Dia de encierro


mapa do RAC

O mapa que escolhi este ano apontava para uma clara supremacia verde.
O palpite que me soava aos ouvidos era de fartura de golos.
Até agora, parecem furados os dois.

Quanto ao encierro, há muito que me pergunto se a agressividade da juventude mentecapta não poderia ser canalizada para fins mais úteis.
Marketeer

Ouvi agora na SIC N um tipo chamar marketeer a Dom Afonso Henriques.
Ainda bem que ele não ouviu!
Portugal, 2006

01/03/2008

Tolerância

O burro enxota as moscas com o rabo e abanando as orelhas.
As sociedades em dissolução são tolerantes com os vermes que as destroem.
Medvedev

Vi um destes dias uma peça em que se comparava a incapacidade da senhora Clinton de pronunciar o nome do futuro ocupante do Kremlin com a dos vulgares, entrevistados na rua.
Medvedev é um nome que ainda há uma década atrás era repetido nas páginas de desporto e nessa época não me recordo de existir esta impossibilidade de articulação.
O certo é que também não vi então entrevistas de rua pedindo que repetissem o nome ou a primeira-dama dos E.U.A. a comentar as actuações do tenista.
Estas coisas da televisão são assim mesmo. E a memória curta também.
Queluz, 2008



Breaking news

29/02/2008

Do Google

Não são estas as pesquisas que mais me interessam.
As que mais me interessam são as que se assemelham a alguém agarrado a uma lista telefónica como se fosse um espelho, espelho seu e pede: dá-me o número de telefone do António que ia sair com a Manela.
No entanto, são curiosas:

o que sao folhas dactilografadas

o riso e a proporção directa

Coisas da última hora.
Coitado do António

Sou dos que não consideram as vantagens de enviar e receber SMS. Devo receber uns dez por ano e enviar zero – a combinação cartão pré-histórico / telefone recente nem sequer me deixa fazê-lo.
Não sendo quase uma festa quando recebo um – que a coisa tende mais a ser um aborrecimento – não posso deixar de lhe prestar atenção, por ser coisa rara.
Hoje recebi o que passo a transcrever na íntegra, respeitando a grafia e os espaços:

OLA ANTONIO! DESCULPE, MAS NAO POSSO IR AO YAT BEN. TENHO KE FICAR ATE MAIS TARDE,AJUDAR MEU SOBRINHO NA CLINICA. GOSTAVA DE IR MAS... ELE PEDIU ME. VA E DIVIRTA-SE. 1 BEIJO DA MANELA

Juro que a primeira coisa que me ocorreu é que se tratava de má publicidade.
Mas não me cheira que seja, embora com o meu gesto, se eu estiver agora enganado, esteja a dar uma ajudinha à divulgação.
Coitado do António!
Ocasião perdida

Pelo que se ouve, pelo que se lê, perdi uma boa ocasião para me documentar.
Reconheço que há muito vou colhendo aqui e ali provas de competência ou de incompetência dos políticos que temos. Dos políticos e dos responsáveis do sistema judicial. E dos outros que, não sendo nem uma coisa nem outra, influem na marcha das coisas mais do que eu.
Baseio-me numa trivialidade: homens inteligentes jamais proferem certas afirmações, jamais concebem um silogismo absurdo, jamais dão provas de ignorância atrevida e sentenciosa; homens estúpidos jamais conseguem estribar-se em fundamentos e raciocinar habilmente a partir deles.
Basta, portanto, colher aqui ou ali uma prova de uma coisa ou de outra e catalogar o respectivo orador. Que feio que é catalogar as pessoas! Mas eu faço-o.
Pelos vistos, dizia, perdi hoje uma boa ocasião para me documentar.
Há tempos que a ARTv me anda a fazer erisipela. Mas, caramba, quando é assim tão mau – a acreditar no que dizem – até dispõe bem.
O amigo Bic Laranja refere-se a outro caso. Tudo a pedir Danny Kaye.
Alfouvar, 2006

Perguntas que, às vezes, se fazem

Eu sei que sou um simplista.
Mas gostava de ter um conjunto de boas respostas para o facto do Estado português queimar drogas às toneladas, segundo o próprio anuncia, ufano, aos quatro ventos.
Que outros bens apreendidos também se incineram?

28/02/2008

A vitória

“A vitória está nas nossas mãos e, sobretudo, nos vossos pés!”

Luís Filipe Vieira, discursando hoje no aniversário do SLB.
O cemitério de Carnide

Eu devo ser um tipo muito fora da norma: no mesmo dia, assisti a três enterros no cemitério de Carnide.
Fui acompanhar um dos mortos e vi, à porta da parada, dois cortejos em fila de espera.
Soube ontem que o local é impróprio para inumações e que os enterramentos ali estão praticamente suspensos.
Vi e ouvi na reportagem uma senhora dizer que “os antigos sabiam melhor do que nós escolher os locais para os cemitérios”.
Quanto a mim, casos destes só deixam duas hipóteses: uma profunda estupidez ou uma aldrabice qualquer.
Inclino-me sempre para a primeira hipótese. Sempre.

Notícias velhas sobre o caso:
No JN; no DN.
Lisboa, 2006

27/02/2008

Restos de colecção (65)



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Há um porradão de anos já, quando estes horários começaram a desaparecer dos escaparates, encontrei por detrás da bilheteira um velho amigo.
Perguntei se os iam deitar fora. Deu-me um rolo deles em resposta. Daqui lhe agradeço, embora ele já não possa saber que o faço mais uma vez.

26/02/2008

O muro da 117

Num dos lados da 117, o esquerdo*, há um muro desde que me conheço. Ali no troço entre Queluz e Belas.
A função do muro não é estrutural. É um muro de divisão, entre a estrada e o campo. Como o são a maior parte dos muros que existem por esse país fora.
No dia 18, a estrada inundou com a forte precipitação que se fez sentir.
Diz-se que havia uma fila de carros parados com receio de atravessar o lençol de água que se formara.
Diz-se que as pessoas presentes no local faziam o que podiam para evitar que os menos conscientes se metessem a atravessá-lo.
Uma coisa é certa, a pressão da água – da estrada para fora desta – arrastou o muro e com ele levou um carro que não devia estar a circular naquele momento naquele ponto.
Querer responsabilizar agora as autoridades pelo acontecido apenas pode ter um caminho – responsabilizá-las por não terem encerrado a estrada e com isso impedido os inconscientes de por ela se aventurarem. Com o risco de pagarem com a vida.
Mas não se deveria também responsabilizar as autoridades por darem licença de condução aos inconscientes?
Ou teremos que ter, afinal, um polícia a cada esquina?


*As estradas, como os rios, têm margem esquerda e direita. Porque têm um sentido, o da marcação quilométrica.

25/02/2008

Conta-me como foi*

Sou apreciador da série da RTP, copiada da espanhola.
Como em tudo na vida, é-me difícil dizer o que me atrai ali.
Mas nunca poderia ser o facto de me identificar com o Carlitos – apesar da idade ser parelha – por a voz off me mostrar uma caricatura demasiado atrasada de uma mente com nove anos. Nove anos digo eu que era a minha idade em 68 (já vamos em 69, me parece) e pode bem ser a idade do Carlitos.
Ainda assim, apesar de haver ali mais caricatura do que realidade, sou fã.
Pode ser que hajam os habituais anacronismos, as chapas de matrícula em plástico quando no tempo elas eram ainda quase todas em metal e muita outra coisa que escapou aos aderecistas, como é costume.
Mas eu gosto de ver.


*título de série da RTP
Pinhel, 2000