Há frases que nos saem da boca quando menos esperamos. Algumas delas são assassinas.
Não que seja aquela coisa de “disse sem pensar, desculpa lá!”. Que isso é um dos maiores disparates que se sedimentou no argumentário popular. Ninguém diz coisa alguma que não esteja na cabeça, na qual não tenha já pensado.
É mais o despropósito, a inadequação ao tempo e ao modo.
Uma das que ainda hoje me atormenta, quase um quarto de século depois, não tanto pelo impacto que teve, mas mais pelo ridículo por que eu próprio passei de imediato no meu espelho, saiu-me numa réplica a uma afirmação inesperada.
A primeira vez que vira aquela mulher fora umas escassas horas antes. Achara-a morfologicamente interessante, muito interessante até.
Talvez tivesse trocado com ela duas ou três frases, antes de nos metermos ao caminho - vou eu à frente, que sei o caminho – motoristas de serviço que ambos éramos.
E eis que estávamos a almoçar a dois, algures em parte certa.
Já não me recordo do que a terá levado a dizer tal coisa. Mas disse. Disse que as pernas que se viam nas tampas das caixas de certa marca de meias de senhora eram da mãe dela.
Disse isso e disse mais qualquer coisa antes que eu tivesse retorquido.
E retorqui, claro, da forma mais desastrosa:
“Sem galanteio, tem então a quem sair!”
Mas sem galanteio porquê, minha besta? – disse-me o grilo, de imediato.
E não achas que foste assim vulgarinho? – continuou.
Muito embora não saiba muito bem a quê ou a quem atribuir o facto de não me ter oferecido para a acompanhar a casa no final do dia, certo de que a oferta não seria desprezada, ainda hoje culpo o grilo. E ele, a mim.
Lembrei-me disto por causa desta caixa ou lembrei-me da caixa por causa disto. Já não sei bem. Mas esta senhora não era a mãe dela. Era de outra marca.
