06/06/2008

Nariz

Independentemente do que diz a literatura, digo eu que, na dobra do meio-século, o que mais me aviva a memória é o cheiro.
Mesmo agora entrou-me aqui pela janela do escritório um cheiro a maresia.
Mas não uma maresia qualquer. Uma maresia antiga, de casas com quintais divididos a canas. Com polvos a secar nas ditas secas e nada de energia eléctrica.

04/06/2008

Covas de lobo

Há algum tempo fiz aqui referência à aversão ou ao temor que me suscitavam os call centers.
Tive recentemente uma experiência inenarrável com a ZON TvCabo. Experiência essa que eles fazem questão em prolongar no tempo, mesmo depois de eu a ter dado por encerrada, com anedotas atrás de anedotas.
Substanciei assim o meu processo contra os ditos. De uma forma que me leva a suspeitar que, para além das notas que pude ler numa revista (Sábado, 213, 29/05/08, p.110) um destes dias a propósito das óbvias filtragens e endereçamento que sofrem as chamadas que lá chegam, em função da origem, há um tecto para o Q.I. dos atendedores. E é, salve-se a linguagem aeronáutica, um tecto baixo. Muito baixo.
A utilização destes idiotas na linha da frente funciona assim à laia de covas de lobo. Quem neles cai, dificilmente progride. É uma táctica como outra qualquer.
Resulta. Resultou eficaz comigo.
Nunca mais ligarei para tais sítios.
Barac bac bac

É a fala do dia.
Estação C.F. de Beja, 2005

01/06/2008

E a falta do resto

Esta história da bancada que ruiu em Santiago e a forma como invariavelmente os jornalistas não percebem a notícia que estão a dar ou são incapazes de dela extrair o relevante é demonstrativa da falta de tarola com que nos debatemos e nos leva para baixo. Muito para baixo. Com o inominável ensino a ajudar.
Os jornalistas preocuparam-se como sempre em saber se o espectáculo estava licenciado. Parece que não estava, ouvi-os dizer. Como se isso fosse determinante ou até importante para o desfecho.
Ninguém – que eu ouvisse - aflorou o óbvio. Uma bancada, qualquer que ela seja, seja em que sítio e para que propósito fôr, deve estar calculada para suportar muito mais do que o peso dos humanos que comporta em sobrelotação – é aquela coisa básica da engenharia. É claro que se lá puserem resmas de papel ela pode vir abaixo. Mas estará calculada para pessoas, ainda que penduradas umas nas outras, que é o seu propósito.
E pode estar bem calculada e mal montada. Carece da supervisão de quem sabe uma montagem tal. Mais uma vez o óbvio.
Posto isto, há acidentes. Claro que há. Às vezes quase improváveis. Não me parece que tenha sido o caso aqui.
Depois, há aquela ideia com que fiquei – ainda que o caso não tenha sido grave – da investigação. Pode ser que esteja enganado e que tenha sido enganado pelos jornalistas, mais uma vez. Mas uns quantos guardas republicanos a tirar fotografias à coisa, antes de a removerem do local parece-me ridículo. Para não dizer o que penso.
Estação C.F. do Oriente, 2007

31/05/2008

A falta de autoridade

O caso de Matosinhos é mais um – apenas mais um – sintoma da falta de autoridade.
Quando toda a gente percebe que vai haver violação da lei, os responsáveis assobiam para o lado.
São tão maus, tão maus, estes protagonistas.
Estação C.F. de Campolide, 2008

30/05/2008

A ortogonia do tempo

Depois de ter apreciado a forma como o mobiliário de sequeiro reage às agruras da humidade quase de maresia e depois de me ter havido com o eco das badaladas agora em mísero pé-direito urbano, de gavetinhas de betão, urgia acertar as horas.
Um exercício que seria talvez bom (e talvez tenha sido corriqueiro) para os estudantes do secundário quando aprendem (se é que aprendem) o movimento pendular.
No fundo é acertar o espaço-tempo à nossa medida. Aparafusadamente.

27/05/2008

Uma razão

Há alguma razão forte para que se possam divulgar na imprensa as identidades das pessoas que faleceram no atropelamento no Terreiro do Paço em Novembro do ano passado e não se possa divulgar a identidade de quem as matou?
Se por um acaso, há uma razão relacionada com a segurança dessa pessoa, duas questões se levantam:
Porquê com esta pessoa em particular e não com todas as outras que matam?
A não divulgação na imprensa impede que quem se sinta ofendido pela criatura possa eventualmente localizá-la?
E a questão final: Há alguma razão para que quem morreu de tal forma na via pública tenha o seu nome nas notícias? Qual é ela?
As grandes questões universais – episódio q+5

Para que QI estará apontada a telenovela que passa à hora do almoço na RTP? Muitos graus abaixo de cão, é certo que é.

26/05/2008

Maio, Marte e os crentes

Este tempo de Maio é uma espinha cravada no pensamento dos simples.
Nos simples que para tudo invocam as alterações climáticas e a culpa do Homem.
A culpa do Homem pecador (vide os supostos novos pecados vaticanais e a sua apressada divulgação acrítica).
Este tempo fresco que contraria as vontades dos terroristas do ambiente.

A Marte, rapidamente e em força.
Quando andamos por aí a explorar as vizinhanças mais ou menos próximas, o primo objecto não é a procura de vida, é a angariação de um local onde possamos continuar.
É o δ entre o tempo em que a vida humana entra aqui no limiar da extinção e o tempo em que encontrarmos tal lugar que está em causa.
Uma equação cuja solução nos escapa neste instante.

Os crentes. Os mesmos crentes que acreditam numa coisa, numas coisas, pois devem ser coisas no plural, chamadas de alterações climáticas – como se houvesse um perene climático de repente posto em causa – serão ou não os que acreditam que hoje chegou a Marte uma nave tripulada à distância?
Quanto à primeira crença, o que se põe em questão é a existência do tal perene climático que justificaria nomear uma ou mais alterações agora a ocorrer.
Toda a nossa informação – a acreditada e a observada – nos diz que não há perenes.
Quanto à segunda: quantas serão no mundo as pessoas que têm a informação suficiente para afirmar que sim ou não, pousou uma nave em Marte hoje, à primeira hora de Portugal continental?
Quando

Quando não se consegue que o Primeiro-Ministro entenda uma coisa, é porque está mal explicado*.


*O já aqui citado Edgar Cardoso dizia nas aulas que Duarte Pacheco dizia nas aulas que quando não se consegue explicar uma coisa a um polícia é porque está mal explicado.
Catástrofes

Na História Universal, se fosse possível estabelecer tal coisa, identificar-se-ia em todas as épocas e em cada civilização, em cada sociedade, em cada instante, uma ideia modal sobre o futuro próximo.
Identificadas essas ideias prospectivas, imaginemos que haveria uma forma de quantificar o desvio entre elas e a realidade conhecida dos anos seguintes.
Sendo isto possível, nos pontos de catástrofe esse desvio atingiria os seus máximos.
Ocorre-me que estamos em época em que o desvio se aproxima de um desses máximos.
Ocorre-me que o mundo de daqui a menos de dez anos será algo que hoje nos escapa.
O nível da charlatanice

Há-de haver uma relação entre o nível intelectual de uma sociedade e a quantidade de tempo de antena pago pelos contribuintes que é concedido aos charlatães e aos destituídos.
A velha pescadinha de rabo na boca.
Motivos para deserdar alguém (mais um da série de)

Ouvi-lo pronunciar uma de duas palavras: gourmet e degustação.

25/05/2008

Ficha crítica

Fui ontem ao Museu do Oriente.
Deram-me uma folha para preencher com a minha opinião em cruzinhas, sobre alguns aspectos da coisa.
O relevante das minhas queixas não se encontrava contemplado lá. Não a entreguei no fim.
Mas há quatro aspectos que me chamaram a atenção.
O primeiro, ainda na rua, foi o estranho arranjo que esconde parcialmente a porta do museu e proporciona águas estagnadas e fétidas.
O segundo, no átrio, foi a desmesurada fila de espera para os bilhetes que me pareceu desligada do controle do número de visitantes em cada momento.
O terceiro foi a deficientíssima iluminação das legendas.
O quarto foi o tamanho da letra escolhido para as ditas legendas em alguns casos.
O Museu tem algumas peças interessantes e a entrada não é cara. Corrigir tudo isto parece fácil.

22/05/2008

Os livros que ninguém leu

Certas notícias destravam pensamentos banais, que já ocorreram a milhentos outros, que estão descritos na literatura, que estão descritos nos compêndios, mas que, e até apesar de nos já terem passado pela mente, tomamos como novos.
Novos para nós, novos para nós num dia cinzento, morno e vazio de Maio.
Velhíssimos para uma parte do mundo. Inalcançáveis para a grossa parte do mesmo mundo, aquela que ignora existir uma fantasia universal. Ou, não ignorando tal, não sabe que há quem se dedique a instrui-la. Como se isso saber tivesse alguma importância. Falha argumentação.
Isto porque ouvi há pouco que na história fantástica dos homens, nas histórias inventadas pelos homens, há episódios que fazem referência a outros. Uma banalidade, portanto.
Uma banalidade que suscita, me suscitou, a divisão entre a fantasia e a realidade. Sabermos nós qual é uma e qual é outra. Como se houvesse uma implicação lógica entre estas ideias. Triste raciocínio.
Logo, dessas histórias todas que se contaram, que se escreveram em pedras, em telas, em livros, no cinema e no mais que se seguirá, ocorreram-me todas as que se contaram, se escreveram e se filmaram, mas nunca ninguém ouviu, leu, viu.
Escrevi livros lá em cima porque o dia hoje é cinzento, morno e vazio.
Banal e triste. Como estas linhas cheias de nada.

20/05/2008

Vila Nova de Milfontes, 2007

As informações de trânsito

Já aqui me tenho referido à completa incapacidade de acerto do pessoal que dá as informações de trânsito quando se trata de referir o número de qualquer estrada nacional.
Na RTP, já lá vão dois episódios nos últimos minutos em que é referido o “forte de São João da Barra”. A ignorância nunca é de mais!

19/05/2008

18/05/2008

Taça

O jogo foi fraco.
O Sporting jogou mais do que o Porto.
O Porto entregou-se ao jogo violento.
O árbitro foi caseiro. Stop.

15/05/2008

Se

Este blogue deixar de ser actualizado nos próximos dias ou semanas, há uma altíssima probabilidade de tal se dever à falha da máquina, que vem apresentando significativos sinais de cansaço e de inadequação às modernas exigências dos sistemas e da rede.
O homem, por seu turno, apresenta igualmente significativos sinais de enfado face ao exposto.
Cabeças

Pergunto-me o que terão na cabeça as pessoas que entoam cerimoniosamente a expressão “planeamento fiscal agressivo”.

14/05/2008

As apostas

Antes do jogo começar – a final da taça UEFA – disse o que previa para o jogo. Trivial acerto.
Agora digo aqui – não aposto que não tenho como – que Mourinho quando voltar ao activo ainda contrata um dos moços que esteve nesta final.
Última hora

A SIC N passou, ininterruptamente, no noticiário das 5, o seguinte rodapé de última hora:
“Fumo a bordo: Primeiro-Ministro admite que errou e diz que decidiu deixar de fumar."

Nada disto é extraordinário. Antes, bifurca-se em dois bons exemplos – daqueles quase académicos – de duas coisas, de duas qualidades:
Independentemente de ser verdade ou não, é exemplar da qualidade do jornalismo actual.
A ser verdade, e a ter alguma sustentação a sugestão implícita de causa-efeito, é exemplar da qualidade de fundamento das decisões do Primeiro-Ministro.
Nada a que não estejamos já habituados. Mas é triste.

12/05/2008

A supremacia do Futebol Clube do Porto

Há algumas considerações objectivas que se podem fazer a propósito da diferença de pontos entre o campeão e o segundo classificado neste campeonato ora terminado.
Pegando no historial da prova, que foi disputada a duas voltas desde 1934-35 por um número par de clubes compreendido entre 8 e 20, pode estabelecer-se uma razão entre os pontos obtidos pelo campeão e o total de pontos possíveis; entre os pontos obtidos pelo segundo classificado e o mesmo total.
Como até 1994/95, eram atribuídos dois pontos por cada vitória e daí para cá, passaram a ser três, é necessário comparar, de igual para igual, as percentagens obtidas este ano com todas as outras desde essa época e usar uma transformada da percentagem obtida este ano, consideradas as vitórias como dois pontos apenas, para comparar com todas as percentagens anteriores àquela época.
Feito isso, verifica-se que o campeão nacional em 36,5% das vezes obteve percentagem igual ou superior à do FCP este ano. Mais do que um em cada três campeonatos. Nada de especial, portanto.
Quanto ao segundo classificado, apenas uma vez desde 1934-35 obteve tão poucos pontos em função do total possível, como esta época. Foi há três épocas quando o Porto acabou em segundo lugar com 60,8% dos pontos possíveis, atrás do Benfica.
Conclui-se daqui que a supremacia revelada deve-se mais à quebra dos antagonistas do que à superioridade daqueles.
Quanto à diferença de percentagens entre o primeiro e o segundo, apenas por duas vezes foi maior do que este ano. Em 1950-51 e 1972-73.


Webliografia: Jorge Miguel Teixeira; http://desportoluso.no.sapo.pt/Camphist.html
Barra do rio Tejo, 2008

11/05/2008

À Benfica

Desde há mais de trinta anos que o meu directo opositor encarnado é o meu velho amigo J.d’.
Com toda a sorte de disputas que isso originou, sanadas logo ao virar da esquina.
Como o tempo passa.
Esta tarde, enquanto nos detínhamos a observar o movimento nas margens do Tejo, convidei-o para ir à Luz ver o último jogo do Rui Costa. Não quis ir. Diz que não dá dinheiro para peditórios que tais.
Um caso sério


imagem da RTP

Esta mulher é um caso sério. Um caso muito sério.
Assim de repente, sem consultar cartapácios ou googlar palmarés, ocorre-me que se trata do atleta português mais categorizado de sempre.
Para além dos feitos, é agradável ouvi-la. Daquelas pessoas que atrai pela simplicidade, por uma qualquer volta na ponta.

10/05/2008

O dia das efemérides

Talvez que o dia 10 de Maio seja o dia em que mais coisas relevantes na minha vida coincidem em comemorar-se. Mesmo sem se tratar de aniversários de pessoas, à excepção de...
Há de facto um esmagamento por recordações as mais diversas. Boas e más.
Porém, parece que todas elas se dissolvem como pérolas em vinho.
Hoje, ocorre-me uma face risonha e bonita debruçada de uma coincidência.
De um comboio que passou, se deteve e o qual não apanhei a não ser anos depois.
É o que me ocorre.
O eixo da Terra

Num zapping, cacei um especialista que, usando o dedo, dizia que, descontada a Lua (se ela não existisse), a conjugação precessão/nutação sofreria significativas alterações e teríamos numa escala de dezenas de milhar de anos o eixo da Terra apontado ao Sol, o que provocaria o derretimento dos gelos polares e a acumulação de outros gelos na zona equatorial.
Ora digo eu – com o mesmo simplismo com que ouvi tal e descontando a crítica da primeira conclusão, para a qual ninguém pode dar cabal suprimento – que, se o eixo da Terra apontasse ao Sol, digamos que com o pólo norte da Terra apontado ao Hélio e usando a nomenclatura habitual, verificava-se sim que o hemisfério sul ficaria permanentemente nas trevas e que a acumulação de gelo se daria no pólo sul e de forma menos acentuada em todo o hemisfério meridional, enquanto todo o hemisfério norte seria diurno e com pico de incidência dos raios solares no pólo. É o que decorre desta suposição. Não percebo como é que haveria acumulação de gelos no equador e derretimento no pólo sul.
Há qualquer coisa que me escapa no saber de alguns especialistas.
Mas também pode ter sido um lapso. Um pequeno colapso, como diria um amigo meu.
Canha, 2007



Já este ano, um dos fotógrafos do Expresso apanhou um ângulo quase igual a este.

08/05/2008

Os cromos da bola

Diz que os homens chegam a uma idade em que compram um descapotável e só querem moças novas.
Tenho um amigo que roga a todos os santos que lhe avisem quando estiver a ser ridículo.
Tenho um outro que comprou uma moto e trocou de mulher – o único que eu me lembre que substituiu a cara-metade.
Isto sem se saber muito bem o que é ser ridículo, é coisa que se deslinda bem no caso das moças novas. São elas que se riem dos velhos que as perseguem.
Eu, sem querer ser imune à ridicularia e sem querer ser melhor do que os demais, virei-me para os cromos da bola.
Num lance, vítima da argúcia comercial do meu habitual fornecedor de totolotos, vi-me de caderneta na mão a procurar por carteirinhas de cromos. Há quase quarenta anos que não o fazia. Fui ver e ainda o Eusébio jogava no Benfica com o Zé Augusto, o Coluna, o Jaime Graça, o Torres e o Simões.
A questão essencial que se me colocou foi esta: como é que estes gajos sabem quais são os eleitos do Sr. Scolari? Será por serem eles mesmos italianos?
Depois, lembrei-me que já antigamente os cromos não correspondiam às selecções. Eram só os cromos, os cromos da bola.
Ainda assim, à cautela, ouvi hoje o Sr. Scolari na RTP. Quatro dos cromos foram confirmados. Não fui assim tão enganado pelo meu fornecedor de jornais e revistas.
Logo eu, que nem ligo muito à bola.


Caderneta de cromos da Panini, alusiva ao Euro2008 (clicar para aumentar).

05/05/2008

As doze badaladas do relógio

Há algum tempo percebi que os objectos têm o seu lugar.
E que isso não é objectivo, é antes subjectivo.
Este relógio, cujas badaladas podereis ouvir aqui (clicando em baixo), esteve sempre ligado a uma parede de quatro que faziam a sua caixa de ressonância.
Objectivamente, milhões de outros relógios em milhões de outras paredes parecerão a elas pertencer.
Subjectivamente, hoje foi a primeira vez que o ouvi tiquetaquear, badalar em outro poiso.
Antes não o tivesse feito.

Portugal, 2008

03/05/2008

Restos de colecção (67)


foto do Magazine da Morrison-Knudsen Company, Inc., Novembro de 1964

(em clicando, verão ampliado)

01/05/2008

Guess what

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Lisboa, 2007

30/04/2008

O Dia de Maio

No Dia de Maio, é a água que se procura. É o chibo comido na ribeira, é a volta pelos pegos e pelas barragens.
Para mim, é a saudade de uma surpresa.
De um adiamento que se adia. O do tempo de se rever a feira dos Bentos.
O pé a fugir-me para a serra...

28/04/2008

125 quilo visitas

A ver se faço promoção à casa.

Carros

Houve um tempo em que não se vendia em Portugal um modelo de automóvel que eu não conhecesse. Estava sempre ao corrente das novidades.
Hoje e quem diz hoje diz há muitos e bons anos, e muito por causa dos modelos vindos do Extremo Oriente, perco o fio à meada. Não fiz a conta a quantos modelos diferentes saem agora por ano e quantos saíam nos anos 60. É provável que a minha dificuldade tenha a ver com isso e com a diversificação de interesses que vem com a mudança de idade.


fotografia em http://shalala-boheme.or.tv/4822_epi.html

Esta imagem caiu-me aqui a propósito de um lance onírico.
Não vou revelar por ora a origem dela, apenas digo que não me pertence.
Guardo-me para quando alguém adivinhar que modelo é este e talvez então contar o que me levou a ela.
Se entretanto ninguém acertar ou mesmo ninguém palpitar, amanhã direi onde a encontrei.


adenda sempre a tempo:
Acertou o homem da Bic Laranja - é um Renault 3 e cacei esta imagem aqui.

26/04/2008

As primeiras pedras

Nas casas, no sentido de património comum a uma família, há objectos que são simbólicos e sobre os quais se edifica. As primeiras pedras.
Sempre julguei serem basilares numa casa uma pedra pomes e uma pedra d’amolar.
Na casa dos meus pais, lá estavam elas, afectiva e efectivamente arrumadinhas cerca uma da outra.
O certo é que não sei delas. Nem duma nem doutra.
A pedra d’amolar é relativamente fácil de arranjar, basta passear na praia e escolher um bom arenito.
Já a pedra pomes é mais difícil de substituir.
Pensando bem, hoje já não se emborneiam as mãos como outrora. Já não se muda o óleo aos carros na garagem. Já não se mete a mão na mecânica dos cavalos de lata como antigamente. Já nem sequer nos rebentam nas mãos as esferográficas ou se desabrem os continentes da tinta permanente.
A pomes faz assim menos falta.
E, claro, há para a função das duas, milhentas outras fórmulas e instrumentos mágicos.
Mas eu sou mais pela tradição. Sou da idade da pedra.
Não sei para que digo isto, se inda hoje fui de chocalho tapado ali à feira comprar uma “pedra” daquelas dos chineses para amolar as facas.

25/04/2008

Cabo Espichel, 2008

INCI

Do Imposto Nacional para a Convivência com Imbecis deverão sair os fundos para:
Reparar edifícios públicos calculados pelos ditos e que entram em colapso.
Reparar edifícios particulares magicados pelos ditos que depois exigem subsílios quando estes entram em colapso.
Indemnizar as vítimas dos ditos sempre que estes tomam decisões compatíveis com o seu quociente de inteligência.
O mais que couber em alínea d).
Congresso

23/04/2008

Os preconceitos estúpidos

Há pouca coisa que mais me irrite do que a minha estupidez.
Estupidez a minha ao irritar-me com a minha estupidez – goza da propriedade telescópica esta asserção – mas é assim. Irrito-me, pronto.
Chegado a penates, vejo as horas aqui no canto do écran, onde tenho uma espécie de bateria globetrotter de relógios, como era uso de redacções e serviços estratégicos.
Qualquer coisa não batia bem. Mirei o relógio que hoje, por acaso, ostentava no pulso e havia um desfasamento de vinte e tal minutos. Que raio, o relógio nunca me falhara. É de uma qualidade admirável para brinde publicitário, posta à prova em oito anos e apenas soçobrando à falta de pilha. Teria eu inadvertidamente mexido nos ponteiros?
Lá o acertei pelo do sistema operativo.
Foi então que liguei a televisão, no canto do écran oposto ao do relógio.
Estavam as horas certas com o relógio imputável.
Irritei-me com a minha estupidez, com o preconceito de ter imediatamente posto a confiança do lado da máquina mais evoluída, em detrimento da mais elementar. E mais ainda, por tudo isso ter cilindrado o meu relógio mental no qual deposito uma confiança quase inabalável, apenas se batendo com a bússola que está ao lado.
Qualquer coisa aconteceu portanto aqui no PC enquanto andei lá por fora, enquanto mirei montras há anos tapadas com páginas de necrologia que me suscitaram uma rápida reflexão sobre as diferentes formas de lidar com a publicidade da morte no nosso país, que há no norte e no sul.
E com o eco que um anúncio de morte deixado numa montra a amarelecer faz dessa notícia.
Até da forma dos caixões – secção longitudinal horizontal rectangular no meridião e e em hexágono irregular no setentrião – me lembrei.
E com mais milhentas considerações poéticas sobre o caso que a nada levam a não ser a prosaicos versos brancos.
Há um prenúncio de morte nesta máquina. A minha imagem virtual um destes dias desaparece às mãos de um processador, de uma memória. São estes os nomes das coisas. Reais ou virtuais?
Como me irrito com a minha estupidez!

21/04/2008

20/04/2008

Sporting

Uns dias a rir outros não.
Os sonhos

Para quem se lembra deles ou para quem se dá ao trabalho de os ditar em fresco para um aparelho, como é o meu caso ultimamente, são um manancial de surpresas.
Durante uns tempos coleccionei sonhos despovoados, sem gente, sem animais.
Agora parecem-se mais com coisas plausíveis, mas poucas vezes lhes entrevejo pontos de ligação com a realidade que eu conheço e vivo.
Aqui há coisa de ano e meio, tive um sonho que aqui tentei descrever sob o nome d’“O palácio dos dois zz”.
Para além das duas personagens conhecidas e bem identificadas e tão longínquas nas minhas relações, tudo o resto não me dizia nada.
Havia a referência a Mafra e a habitual distorção topológica e era tudo.
Hoje, leio o que escrevi e apenas baseando-me no que está reduzido a escrito, evitando confundir falsas memórias com os acontecimentos, verifico que há ali demasiadas notas de um futuro – que é agora o presente – demasiadas notas com que me cruzei por estes dias, sem ter ido à procura delas.
Não me recordo de ter alguma vez passado por tal sensação.

18/04/2008

PSD



Tenho Passos Coelho na conta de um homem inteligente.
Nunca o ouvi dizer uma barbaridade que fosse e já o ouvi desenvolver raciocínios que só estão ao alcance dos capazes.
Para variar, não é mau que se candidate.
Porém, nem sempre ou quase nunca um homem inteligente é o melhor político.
Não se trata de levar naves a Marte, trata-se de governar um povo.
Mas é (seria) uma satisfação não ter que ouvir (des)arrazoados imbecis.
O alerta

Ou o aviso encarnado.
Foi o que se viu.
E o que se previu.
Capotamento

No meu tempo, capotar era ficar de patas para cima ou passar por esse estado.
Hoje, qualquer veículo tombado, com as patas para o lado, está capotado.
A semântica...

Alerta vermelho

Quais serão os critérios para estes alertas meteorológicos?
Algum existirá. Com base em previsões que são quantificações, presumo.
Mas não me parece serem certeiros. Atentemos neste de hoje. Se fará algum sentido.
Um dia virá em que ninguém acreditará...

17/04/2008

Menezismo silente

Tinha aqui uma nota para publicar, datada de Dezembro em que me interrogava:
O que é que se passa com a voz do Dr. Luís Filipe Menezes, desde que foi eleito presidente do PSD? Passa-se algo com a voz dele ou os microfones são todos diferentes e os jornalistas também, visto que o tom das perguntas permanece o mesmo?
Cinco



E ainda há quem diga que sabe a causa das coisas.

16/04/2008

Os verdes e os vermelhos - parte III de 2007/2008*


imagem daqui


* em jogos oficiais, se não me falha a memória.
O acordo

É claro que a língua e a sua evolução não é ciência certa.
Pensar que o é, é que é rotundo disparate.
A ortografia, contudo, é convencional. Só que, sendo convencional, influencia a língua, introduzindo nela factores de modificação.
Penetrar nos meandros das transformações que a língua sofrerá num futuro mais ou menos longínquo, é estultícia, dada a complexidade dos mecanismos e o número de factores em jogo.
Quando ouço estes mestres ditos da língua, quando os vejo arrazoar, a primeira coisa que me ocorre é sujeitá-los a uma elementaríssima prova de raciocínio, a demonstração – por um método qualquer que seja – do teorema de Pitágoras. Apenas isso.
Há alguns, poucos, que dão mostras de conseguir superar o teste.
Eu e os meus preconceitos...

A pena

A pena que foi aplicada ao tipo que andou por ali mas nada fez, nada tira ao que escrevi.
Antes corrobora. Porque é facto.

14/04/2008

Auto-retrato a 120 km/h

Um país de doidos

As sociedades parecem ter evoluído juntamente com o Homem.
O Homem evoluiu de acordo com uma directriz que desconhecemos em absoluto. O mais perto que podemos chegar dela é para dizer que se apurou para sobreviver – é o que nos parece.
E o que parece também ser o caso das demais espécies vivas, ainda que saibamos que algumas soçobraram.
As sociedades a partir do somatório das cabeças, grosseiramente dito.
Há depois a questão misteriosa dos valores.
Temos, ainda, cada um de nós um ideal de sociedade, de justiça, de conforto, de bem. E com vista no qual, às vezes pensamos que nos aperfeiçoaremos com o tempo. Sendo que cada pessoa terá o seu ideal, haverá diversíssimos pontos de contacto entre os valores de cada um e os do seu próximo.
Creio que tudo isto é coisa perecível e que um dia virá em que os valores sejam mais uma coisa arrumada nas prateleiras do pensamento mágico.
Mas, por enquanto, enquanto ainda os cultivamos, há coisas que dificilmente se entendem ou só se entendem à luz de uma sociedade comandada por mentecaptos, sujeita a uma teoria do coitadinhismo em que as regras de civilidade não são para cumprir, que o criminoso é sempre mais coitado do que a vítima, em que não há nem pode haver castigo para a prevaricação, a menos que... E é esse a menos que que é incerto, que é sujeito às modas que ora se inculcam ao povoléu ora o dito inventa a partir da tal evolução a que estão sujeitos os seus elementos.
E digo que são mentecaptos não por concordar ou discordar do que teorizam. Digo-o porque vejo serem incongruentes os edifícios teóricos que esboçam, por não serem capazes de lhes preverem as mais básicas das consequências e por depois se queixarem das regras que explícita ou implicitamente criaram.
As notícias de ontem e de hoje dão conta, a serem verdadeiras, de duas situações paralelas que bem ilustram este desnorte.
Diz-se que os persistentes não-pagadores de impostos vão parar à cadeia. Não me oporia se não ouvisse a seguir que os tipos que mataram um desgraçado à pancada e o abandonaram numa espécie de fundo de um poço, apanharão – apenas um deles – no máximo uma qualquer pena suspensa.
A ser isto verdade, este é apenas mais um sinal do que é há muito uma certeza. Estamos entregues a mentecaptos, cheios de teorias sociais que, de resto, são completamente incapazes de compreender.

13/04/2008

As pernas das meias e o não-galanteador

Há frases que nos saem da boca quando menos esperamos. Algumas delas são assassinas.
Não que seja aquela coisa de “disse sem pensar, desculpa lá!”. Que isso é um dos maiores disparates que se sedimentou no argumentário popular. Ninguém diz coisa alguma que não esteja na cabeça, na qual não tenha já pensado.
É mais o despropósito, a inadequação ao tempo e ao modo.
Uma das que ainda hoje me atormenta, quase um quarto de século depois, não tanto pelo impacto que teve, mas mais pelo ridículo por que eu próprio passei de imediato no meu espelho, saiu-me numa réplica a uma afirmação inesperada.
A primeira vez que vira aquela mulher fora umas escassas horas antes. Achara-a morfologicamente interessante, muito interessante até.
Talvez tivesse trocado com ela duas ou três frases, antes de nos metermos ao caminho - vou eu à frente, que sei o caminho – motoristas de serviço que ambos éramos.
E eis que estávamos a almoçar a dois, algures em parte certa.
Já não me recordo do que a terá levado a dizer tal coisa. Mas disse. Disse que as pernas que se viam nas tampas das caixas de certa marca de meias de senhora eram da mãe dela.
Disse isso e disse mais qualquer coisa antes que eu tivesse retorquido.
E retorqui, claro, da forma mais desastrosa:
“Sem galanteio, tem então a quem sair!”
Mas sem galanteio porquê, minha besta? – disse-me o grilo, de imediato.
E não achas que foste assim vulgarinho? – continuou.
Muito embora não saiba muito bem a quê ou a quem atribuir o facto de não me ter oferecido para a acompanhar a casa no final do dia, certo de que a oferta não seria desprezada, ainda hoje culpo o grilo. E ele, a mim.
Lembrei-me disto por causa desta caixa ou lembrei-me da caixa por causa disto. Já não sei bem. Mas esta senhora não era a mãe dela. Era de outra marca.