Os preconceitos estúpidosHá pouca coisa que mais me irrite do que a minha estupidez.
Estupidez a minha ao irritar-me com a minha estupidez – goza da propriedade telescópica esta asserção – mas é assim. Irrito-me, pronto.
Chegado a penates, vejo as horas aqui no canto do écran, onde tenho uma espécie de bateria
globetrotter de relógios, como era uso de redacções e serviços estratégicos.
Qualquer coisa não batia bem. Mirei o relógio que hoje, por acaso, ostentava no pulso e havia um desfasamento de vinte e tal minutos. Que raio, o relógio nunca me falhara. É de uma qualidade admirável para brinde publicitário, posta à prova em oito anos e
apenas soçobrando à falta de pilha. Teria eu inadvertidamente mexido nos ponteiros?
Lá o acertei pelo do sistema operativo.
Foi então que liguei a televisão, no canto do écran oposto ao do relógio.
Estavam as horas certas com o relógio imputável.
Irritei-me com a minha estupidez, com o preconceito de ter imediatamente posto a confiança do lado da máquina mais evoluída, em detrimento da mais elementar. E mais ainda, por tudo isso ter cilindrado o meu relógio mental no qual deposito uma confiança quase inabalável, apenas se batendo com a bússola que está ao lado.
Qualquer coisa aconteceu portanto aqui no PC enquanto andei lá por fora, enquanto mirei montras há anos tapadas com páginas de necrologia que me suscitaram uma rápida reflexão sobre as diferentes formas de lidar com a publicidade da morte no nosso país, que há no norte e no sul.
E com o eco que um anúncio de morte deixado numa montra a amarelecer faz dessa notícia.
Até da forma dos caixões – secção longitudinal horizontal rectangular no meridião e e em hexágono irregular no setentrião – me lembrei.
E com mais milhentas considerações poéticas sobre o caso que a nada levam a não ser a prosaicos versos brancos.
Há um prenúncio de morte nesta máquina. A minha imagem virtual um destes dias desaparece às mãos de um processador, de uma memória. São estes os nomes das coisas. Reais ou virtuais?
Como me irrito com a minha estupidez!