10/01/2009

Das coisas coetâneas

Dos acontecimentos que marcaram o mundo próximo há cinquenta anos perfeitos ontem, dois mereceram aqui a minha atenção.
De um deles já dei nota este ano.
Do outro, nunca falei demoradamente.
Na madrugada de 9 de Janeiro de 1959 foi varrida do mapa uma aldeia leonesa.
Uma barragem deficientemente construída ruiu, inundando o vale em que se inscrevia e revolvendo o povoado, uns quilómetros a jusante.
Os números dizem que terão morrido 145 dos seus 550 habitantes. Um quarto da população.
Madrugada, escuridão, enxurrada e frio fazem o quadro horrível que riscou do mundo dos vivos tanta gente de uma vez só.
Desde que tive conhecimento de tal ocorrência coeva, que se me criou a vontade de um dia lá ir observar aquelas pedras.
Não foi no meio século. Um dia será.


Mapas topográficos de Espanha do IGN
Neve

O que se passa nas estradas portuguesas quando neva a sério é apenas o espelho da sociedade em que nos tornámos.
Sem ninguém capaz de tomar decisões simples.
Com pouca gente capaz de avaliar os riscos.

08/01/2009

Alterações climáticas

Neste grupo de gente que teoriza sobre aquilo a que chama alterações climáticas – como se o clima fosse uma constante e sendo-o, se visse de repente alterada – e que se entretém a prever as maiores catástrofes, ainda não entrevi argumentos fortes.
Esta coisa do frio baralha-os todos. É estar atento às enormidades que dizem.
Quanto a Portugal, é uma chatice o relatório preliminar do IM reconhecendo que 2008 teve a média das temperaturas mínimas, médias e máximas abaixo da média 1971-2000.

06/01/2009

A antiguidade é um rosto

Hoje, passei a integrar a era dos cartões de plástico. Estou agora completamente plastificado.
A antiguidade que se lê no meu rosto confirmei-a, como se preciso fosse, pela boca da funcionária do IMTT – a sua carta não está informatizada. Ainda é daquelas escritas à mão?
É, sim, minha senhora.
Era.

Como gatos a bofe

Foi a sensação que me transmitiu o atiranço dos entrevistadores a Sócrates.
Tão sofregamente que se espalharam ao comprido.
Chegou a dar a ideia que era mau de mais para ser verdade.

03/01/2009

Aí vão eles

Mais uma vez.


imagem da Ramattan via Sky News
A artistagem

A artistagem é aquela franja de artistas e quejandos bonzinhos e mentecaptos que passam o tempo a fazer apelos à paz, ao entendimento e à felicidade de todos.
Nem um só dessa franja era capaz de governar uma sociedade recreativa. Mas têm ideias sobre tudo e sobre todos, desde que seja para sermos todos felizes.
E ao terceiro dia

Veio o Sol.

01/01/2009

Havana



É conhecida dos que me lêem há mais tempo a minha ligação à revolução cubana.
A essência dessa ligação tem a ver com a coincidência no tempo. Com um pormenor afinal. Fidel não entrou em Havana senão por alturas do meu primeiro grito, ao contrário do que repetem hoje os burros do costume. Coisa de horas entre uma coisa e outra.
Mas há mais.
Num mundo com tendência actual para a uniformização, é bom que existam contrapontos. Que existam formas diversas de viver em sociedade.
Há sempre aquela utopia triste de a cada um o seu regime. Há, com toda a certeza, uma porção da população cubana insatisfeita. Não faço ideia se é minoritária ou maioritária.
Há com toda a certeza insatisfeitos em todas as sociedades. Em maior ou menor grau. Em maior ou menor número.
Nunca pus os pés em Cuba embora de há muito alimente essa ambição.
Era talvez lá que gostaria de estar para a semana. Quando, sim, se comemorarem os cinquenta anos não da revolução mas da entrada de Fidel em Havana.
Papéis de música

Houve um tempo em que cálices de Porto no casarão avoengo dos colaterais pousavam sobre o grosso pano da camilha.
Ouvia-se o Concerto. O Concerto.
Talvez subentendido o desejo de cartear.
Acima de tudo, os papéis. De música.

31/12/2008

2009



Não me recordo de alguma vez ter sentido esta aversão à mudança de ano.
Não tem isto nada a ver com as nuvens negras com que, em todo o lado, se vê casado o ano que aí vem.
É uma coisa mesmo pessoal. Ligada com a derivada negativa que a minha função ostenta, ano após ano. Em outros tempos chamou-se a isto decadência. Sem eufemismos.
Por mim, ficava tudo nesta congelada degradação de 2008.
Por que raio há-de um homem ter em conta uma data onze dias depois do solstício?
1958

50 anos



Não sei se há se não há na literatura uma história contada de um prédio de rendimento de Lisboa, dos arrabaldes.
Cinquenta anos dessa história.
Vejo-me hoje enredado nisso, mercê da teimosia em abrir portas à memória.
O caixote que de lá trouxe é demasiado pesado. Começa a ser demasiado pesado.
Restam três mulheres viúvas e a filha de uma delas por lá. No talhão 2 da rua D.
1958

A coisa mais terrível ou uma das coisas mais terríveis de quem se deixa envelhecer é a tendência para evocar memórias que essa lassidão promove.
Tanto mais quando ao afastamento da juventude e da força acresce o de outros meios, o chamado caminhar de cavalo para burro.
Lá por ter consciência do cilício que uso, não me abstenho de remexer no baú.
1958 é o ano em que me fiz. Apareci por cá nos primeiros dias de 59, quando Fidel chegava a Havana. E, tal como ele, preparei ao longo de 58 essa chegada.
Nos 50 anos dessa data, tenho que anotar o fechar de portas que aqui anunciei vai para uns anos também. Portas que estiveram abertas durante exactos 50 anos. Desde esse ano de 58.



50 anos depois, fechei a porta da casa onde me fiz. Deixei a rua da minha infância, olhei pela última vez da minha janela os horizontes largos que me proporcionou e que vi povoarem-se de casas nesse entretempo.
Na rua, julguei divisar os meus amigos correndo de calções atrás da bola, emboscados algures de rifle em riste, talvez no óculo da escada do prédio do canto, talvez atrás do único carro estacionado.
Do alto, vi aviões de guerra em manobras intimidatórias e um êxodo quase bíblico por campos e estradas.
Senti ali o cheiro das manhãs e o ruído das tardinhas.
Os gritos dos meus colegas de escola no recreio.
Fiz um horário dos comboios a desoras pelos seus apitos de marcha e pelo respectivo doppler.
Entrevi a morte que ali, antes de metade da jornada, veio ao fim da tarde de um dia quente de Primavera.
Há um ror mais de coisas que são tão importantes agora. Umas esquecem-se de propósito, outras não se ousa dizê-las, outras ainda têm a distinção da memória sorrida, sem pretensões.
Tudo isso revi, senti, toquei. Este ano de 2008 pela última vez. Exactos 50 anos depois de a porta ter sido aberta.


Também o guarda-redes na fotografia fez 50 anos em 2008

29/12/2008

PR

Subscrevo tudo o que PR disse.
Talvez as consequências a tirar tivessem que ir um pouco ou mesmo muito mais longe.
As pessoas boazinhas

Para além dos apelos à paz, há outra coisa que me dá volta ao estômago quando se trata destes episódios de guerra entre Israel e a Palestina – é a quantidade de pessoas boazinhas que diz que há violação disto e daquilo, atrocidades estas e aquelas. Mas só o diz de um lado, com a camisola vestida, embora o faça em nome de organizações supostamente neutras e com o chamado espírito humanitário. De pacotilha.

28/12/2008

Sintomas

Um sintoma da educação, da instrução geral é o número exageradíssimo de pessoas que acorre às urgências hospitalares por dá cá aquela palha.
Como diria o meu velho J.d’ é muito difícil educar um povo.

27/12/2008

A2, 2008

A ouvir

Os dirigentes palestinianos. Ou quem fala por eles.
Colocam-se sempre num papel subalterno em relação aos israelitas.
Os israelitas podem parar a agresssão. Eles não.
É a impotência assumida, declarada e reafirmada.

26/12/2008

O leme e o burro

Se a Natureza quisesse que os burros segurassem o leme, ter-lhes-ia dado outra morfologia externa, me parece.

25/12/2008

Queluz, 2008

Notas de um herege em terras cristãs

E ao quinquagésimo Natal, notou finalmente que, nos presépios canónicos, o Menino Jesus só é colocado depois da Missa do Galo.

24/12/2008

Dizer bem

Ontem, fui muito bem atendido em duas repartições diferentes do Estado.
Atendido por quem sabia o que estava a fazer. O que é algo de extraordinário para mim.
E com simpatia.
Isso fez-me esquecer o tempo de espera numa delas. Umas três horas entre a recolha da senha e o atendimento.
E fez-me esquecer que me apercebi de que um acessório de informática de custo irrisório do qual não há sobresselente, pode – no caso não aconteceu mas esteve quase – comprometer o expediente todo.
Mas eu queria mesmo era elogiar as funcionárias que me atenderam.

20/12/2008

Portugal, 2008


(clicando, auditarão a foto)
Grau zero

Sabemos, confirmamos que atingimos o grau zero da inteligência quando há uma reportagem de mais de um minuto num canal de televisão (SIC N) a falar de uma casa com cisterna onde se aproveita a água da chuva.
Ao dono da casa chama-se mesmo visionário.
A tudo isto chamar o quê?

19/12/2008

AR

Nem uma contagem de votos conseguem fazer como deve ser.
Sem se baralharem.
Não são capazes de mais nem melhor.
Em tempos pagámos um sistema de voto electrónico.

18/12/2008

Razões

Inversamente proporcional à inteligência é o tempo que cada um demora a dar razão a outrem, quando é caso disso.
A lata

Ladrões encartados toda a vida existiram.
A novidade destes dias é a lata com que pedem ressarcimento de lucros cessantes.
Começam a arriscar a cabeça em demasia, a meu ver.
Algés, 2007

17/12/2008

Iluminar o caminho

Das coisas que mais são o espelho da inteligência de cada um, conto o indicar dos caminhos como uma das mais evidentes.
Independe de instrução, cultura. É apenas a capacidade de explicar e de se colocar no lugar do outro.
Restos de colecção (71)


in Ministério das Obras Públicas - Plano Comemorativo - 1966 (clicar para ver mais amplo)

15/12/2008

Motivos para deserdar alguém (mais um da série de)

Ouvi-lo utilizar a expressão verdade desportiva.

14/12/2008

Diário

Ontem à noite, alguém interpretou na RTP o papel de meu Avô.
Fiquei sem saber quem.
Restos de colecção (70)


in Ministério das Obras Públicas - Plano Comemorativo - 1966

Beja

11/12/2008

Há quantos anos?

Já não sei bem há quantos anos o meu velho J. d’. mantém comigo uma espécie de aposta sobre a cidade onde se iniciará o grande incêndio da civilização ocidental.

09/12/2008

ASAE Na reportagem feita pela SIC a propósito da história do momento, da carne de porco imprópria para consumo, vê-se, supostamente nas instalações da ASAE, uma folha de Excel. A forma como a coisa é apresentada nessa folha dá uma ideia do gabarito intelectual de quem a elaborou. Ao nível da terceira classe mal tirada. Alguém acredita que aquela soma não é feita à mão, atento o resultado e a forma das parcelas? Mas é assim em todo o lado. Infelizmente. A ASAE precisa talvez de certificar os seus funcionários. Como soe dizer-se. Mas é assim em todo o lado. Infelizmente. Só que estes são os repressores. E dão estes exemplos da mais completa inépcia mental. imagem da SIC, obtida em página já inexistente
Kaspar Hauser

Há, se a memória não me atraiçoa, uma cena de Kaspar Hauser, o filme, que ontem vi a partir do centro da dita.
Nela, em vez do caixão havia uma sósia da raínha de Inglaterra que, caminhando curvada e arritmadamente, mal equilibrando um chapéu azul, acenava do meio do cortejo. Para mim. Eu a pensar se não seria o derradeiro aceno.
Lisboa, 2008

Em casa

04/12/2008

Os naipes orquestrados



Trinta anos.
Trinta anos desde a leitura da frase ilustrada acima.
Quantos deles esquecido do contexto próximo que a enleava.
Suponho que quem leu o mesmo livro, não pode deixar de saber que baralho ilustrei eu.
A culpa dos homens

A culpa talvez não possa não ser senão dos homens.
Porque são eles e só eles que sabem o que é a culpa.
Há quem defenda que outros animais – os cães são os mais nomeados, parece-me – também a conhecem.
Como ainda não conseguimos trocar ideias e conceitos com eles ou com qualquer outra espécie de ser vivo, animal ou vegetal, ficamos sós e a sós com ela.
Estão os clássicos e os menos clássicos cheios de alusões à culpa. Ou estarão, que a minha ignorância enciclopédica não me permite ser assertivo. Ainda assim, atrevo-me a colocar mais uma interrogação sobre o assunto: se a culpa é sempre, só e irrevogavelmente, dos homens por que raio se anda a perder tanto tempo com essa questão quando se fala das ditas mudanças climáticas?
Há, afinal, alguma culpa que não seja dos homens?

03/12/2008

Check-in ou coisa que eu ainda não tinha visto embora não deva ser singular

A farmácia estava prestes a fechar - mirei primeiro o ponteiro dos minutos antes de empurrar a porta - e dei com ela cheia de bagagens que três mulheres tentavam manipular.
Inquiriram-me do balcão sobre as minhas necessidades ao que repliquei estarem as senhoras à minha frente.
Percebi pelo sorriso que afinal estavam ali apenas para pesar a bagagem - uma das malas deu duas arrobas bem pesadas.

30/11/2008

Os simples

A fácies da boçalidade para as câmaras de televisão.
Pondo absurda e desnecessariamente em risco a vida dos outros.
Não será possível educar, instruir os simples?

Afinal, foi apenas um nevão.
Um destes dias morre gente. Por inaptidão pura e simples. É afinal a selecção natural. Darwiniana.
Porto, 2008

27/11/2008

Esforço, Dedicação, Devoção e Glória!



Quando não há nenhuma glória e eventualmente pouco dos outros três.
Sempre Sporting!

26/11/2008

C.M. 1098 de Torres Vedras, 2005

Ainda me lembro das olimpíadas de Lake Placid

Designei o teu sorriso
Como sinal de bonança em invernias.
Dessas invernias que a lareira cimentava
E em que me apetecia recitar
Entre dois copos de bagaço
E em que me apetecia cantar
E descansar, no teu regaço!
Designei a tua voz como silêncio solene
Quebrado num templo escolhido.
E ouvia-te embalar-me como se ouve
A chuva cantarolar nas vidraças.
E o Inverno ria-se de nós,
Deixando-nos por ali a sós
No seu e nosso conchego.
A maravilha não é um dom de fadas
E de histórias infantis,
É um preceito do amor,
Que embora escondido,
Às vezes nos faz feliz!


1985

SG, "Dizeres do Sul", 1993


Desencantei um SG piegas para esta noite de frieza. Talvez ele não me perdoe. Até pela relativa incorrecção do título.

25/11/2008

Confusões

Não me dei conta de que alguém tivesse posto em causa, beliscasse sequer, a honestidade do Presidente da República.
Já o mesmo não posso dizer que não tivesse acontecido ao seu critério. Critério de escolha.
Chuva e frio

Pode a coisa avaliar-se através dos dados do IM, que infelizmente não estão à disposição do público sem pagamento como estão os do INAG, de que me socorro amiúde.
Mas sem avaliação que não seja a falível que me vem dos sentidos e da memória, direi que é a segunda vez em tempos recentes que vejo, que sinto a concomitância da chuva e do frio tal como a sentia há muitos, muitos anos.
Atrevo-me a dizer, com a mesma subjectividade e falibilidade que têm a memória e os sentidos, que durante décadas, aqui nestes arrabaldes de Lisboa, uma e outro não formaram par.

24/11/2008

Abracadabra

Captando o programa* da RTP “Cuidado com a Língua!”, ouço que a palavra ABRACADABRA era exibida em amuletos, da forma que segue em ilustração, para que pudesse ser lida em todos os sentidos.



Uma asneirola, em todos os sentidos!
Coisa ruim para quem pretende dar lições aos outros.


corrigenda: não é "em todos os sentidos", mas "em vários sentidos".

* por enquanto ainda só está disponível o programa da semana passada. Já lá está o programa de hoje. A parte mencionada começa a 1:18.
Azenhas do Mar, 2008

23/11/2008

O Google e a lista telefónica


imagem daqui

Li o interessante artigo de Nicholas Carr na revista “The Atlantic” de Julho / Agosto deste ano – “Is Google Making Us Stupid?”.
Há ali pano para mangas e tiros certeiros na identificação de algumas “patologias” mentais induzidas pelos tempos.
Mas o Google, embora para eles trabalhe, ainda está longe de responder a quem pega numa lista telefónica, a agarra e lhe diz, baixinho: “quero ver o número de telefone de Fulano de Tal”.