07/02/2009
06/02/2009
05/02/2009
04/02/2009
Um Homem
Esta é a segunda vez que vejo aqui uma relação óbvia porém intangível entre algo que me ocorre e a visita da ceifeira.
A primeira foi há cinco anos. De me lembrar de publicar algo que tinha ocorrido uns anos antes. A pessoa na qual se centrava a peripécia desaparecia por volta dessa hora. E era a primeira vez que aqui a mencionava.
Na passada sexta-feira, dei arranque ao post sobre o desastre do Rápido do Algarve que trazia atravessado há uns séculos.
Disse então que tinha aproveitado as conversas com os mais antigos para recolher informações. Tinha presente a última.
Podemos querer ver sempre relações entre as estrelas. Alguns até descobriram constelações.
O certo é que essas relações só nós as vemos. Mais ninguém.
Herdei este homem, esta amizade, dos meus avós. Há pouco mais de quinze anos.
Já ele estava nos meados dos setenta e ainda cuidava da terra com tenacidade e consequência.
Vigoroso, de sorriso bom, de atenção constante. De palavras sadias.
Um amigo que talvez tenha ganho mais por mérito dos meus antepassados do que meu.
Um homem de quem seguramente fui amigo apenas por mérito dele.
Despedi-me dele há dois meses e pouco, com um abraço forte.
Soube-o ontem. A ceifeira tinha descido na sexta-feira.
Esta é a segunda vez que vejo aqui uma relação óbvia porém intangível entre algo que me ocorre e a visita da ceifeira.
A primeira foi há cinco anos. De me lembrar de publicar algo que tinha ocorrido uns anos antes. A pessoa na qual se centrava a peripécia desaparecia por volta dessa hora. E era a primeira vez que aqui a mencionava.
Na passada sexta-feira, dei arranque ao post sobre o desastre do Rápido do Algarve que trazia atravessado há uns séculos.
Disse então que tinha aproveitado as conversas com os mais antigos para recolher informações. Tinha presente a última.
Podemos querer ver sempre relações entre as estrelas. Alguns até descobriram constelações.
O certo é que essas relações só nós as vemos. Mais ninguém.
Herdei este homem, esta amizade, dos meus avós. Há pouco mais de quinze anos.
Já ele estava nos meados dos setenta e ainda cuidava da terra com tenacidade e consequência.
Vigoroso, de sorriso bom, de atenção constante. De palavras sadias.
Um amigo que talvez tenha ganho mais por mérito dos meus antepassados do que meu.
Um homem de quem seguramente fui amigo apenas por mérito dele.
Despedi-me dele há dois meses e pouco, com um abraço forte.
Soube-o ontem. A ceifeira tinha descido na sexta-feira.
03/02/2009
02/02/2009
O desastre do Rápido do Algarve
O que me deve ter levado a interessar-me por este caso terá sido a obnubilação a que foi sujeito pelo tempo.
Um dos mais mortíferos acidentes da história ferroviária do país do qual não consegui encontrar afinal uma única referência durante anos até que alguém escreve um artigo numa revista e me proporciona datá-lo.

Seriam cerca das 16h15m do dia 13 de Setembro de 1954, quando o comboio 8012 que partira de Vila Real de Santo António às 13h13m com destino ao Barreiro descarrilou entre o apeadeiro das Pereiras e a estação de Santa Clara – Sabóia, entre os km 260 e 261 da Linha do Sul. Era composto por uma locomotiva, um furgão, três carruagens de 3ª classe, um vagão-restaurante e duas carruagens de 1ª classe1.
Resultaram deste acidente 29 mortos confirmados pela CP – os números dos jornais variam entre 29 e 34 – e um número de feridos da ordem da meia centena.
De acordo com as primeiras impressões, o acidente teria ocorrido por descarrilamento da locomotiva, numa zona de curvas e contracurvas. Esta, ao tombar para a esquerda e a ficar travada abruptamente na trincheira, terá propiciado que a segunda carruagem esventrasse a primeira, causando aí grande parte das vítimas. As carruagens de 3ª classe iam com lotação esgotada.
Há um pormenor curioso nestas circunstâncias. A linha corre aqui quase paralela a uma ribeira, uns vinte metros abaixo. O local em que se deu o acidente é dos poucos em que há uma barreira entre a linha e o declive para a linha de água, à esquerda do sentido da marcha do comboio. Foi nesse talude que a máquina tombou e se segurou.
O impacto foi pouco sentido nas carruagens de trás, que não chegaram a descarrilar, o que não deu de imediato a verdadeira proporção da tragédia a quem nelas seguia, só tendo consciência da sua gravidade já apeados ao verem a colisão entre as duas primeiras carruagens.
Dado o local ser ermo, os socorros foram pedidos por passageiros do próprio comboio que se deslocaram em cada sentido pela linha, chegando às estações mais próximas, onde deram o alarme.
A notícia levou naturalmente o seu tempo a propagar-se. Mas, segundo informações que recolhi, terá chegado não muito tempo depois à feira de Odemira onde havia grande aglomeração de gente, o que terá concorrido para que muitos carros de particulares se tenham dirigido para o local.
Populares das terras mais próximas, Pereiras, Sabóia e Santa Clara, gente dos montes em redor, terão sido naturalmente os primeiros a chegar.
O grosso dos socorros chegou pela ferrovia. Da Funcheira (km 218), primeiro, um comboio com operários. De Beja (km 154), depois, um comboio de socorro com médicos e enfermeiros, que só terá chegado ao local ao sol posto, mais de três horas após o desastre.
Mais tarde, já de noite, um comboio ido de Faro e outro do Barrreiro, que partira desta estação por volta das seis da tarde.
Chegaram também entretanto de Monchique socorros por estrada. O acesso à zona faz-se pela 266 (entre os km 17 e 18 ou pelo ramal de acesso às Pereiras, com dois quilómetros e meio de estrada velha e duas ribeiras para transpor), a partir de Monchique (a 24 km) e pela 123 e 266 a partir de Odemira (a 38 km). Sendo que por esta altura estava ainda em construção a ponte sobre o rio Mira em Santa Clara, sendo a passagem do rio feita em condições precárias.
O primeiro comboio de evacuação dos sinistrados abandonou o local com destino a Beja já de noite, tendo chegado àquela cidade perto da meia-noite.
Foram entretanto levados por estrada alguns feridos para o Hospital de Portimão.
Os mortos foram transportados para a Estação de Sabóia, onde foram depositados provisoriamente.
Os sobreviventes que se dirigiam a Lisboa chegaram ao Terreiro do Paço perto das 5 da manhã.
A última história que ouvi a este respeito mencionava a estranheza dos circunstantes face a um meu conterrâneo que, tendo escapado com ferimentos mais ou menos ligeiros, se dedicou a dar conta do farnel enquanto não era transportado ao hospital.
Há sempre quem, no meio de uma desgraça, repare nestes pormenores.
E há sempre alguém como eu que os publica.
Bibliografia:
Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete - revista da Associação de Amigos do Museu Nacional Ferroviário, 10, 3º Trimestre de 2004
Diário de Lisboa, 14 e 15 de Setembro de 1954
Diário Popular, 14, 15 e 16 de Setembro de 1954
1 Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete, 10, 3º Trimestre de 2004
O que me deve ter levado a interessar-me por este caso terá sido a obnubilação a que foi sujeito pelo tempo.
Um dos mais mortíferos acidentes da história ferroviária do país do qual não consegui encontrar afinal uma única referência durante anos até que alguém escreve um artigo numa revista e me proporciona datá-lo.
Seriam cerca das 16h15m do dia 13 de Setembro de 1954, quando o comboio 8012 que partira de Vila Real de Santo António às 13h13m com destino ao Barreiro descarrilou entre o apeadeiro das Pereiras e a estação de Santa Clara – Sabóia, entre os km 260 e 261 da Linha do Sul. Era composto por uma locomotiva, um furgão, três carruagens de 3ª classe, um vagão-restaurante e duas carruagens de 1ª classe1.
Resultaram deste acidente 29 mortos confirmados pela CP – os números dos jornais variam entre 29 e 34 – e um número de feridos da ordem da meia centena.
De acordo com as primeiras impressões, o acidente teria ocorrido por descarrilamento da locomotiva, numa zona de curvas e contracurvas. Esta, ao tombar para a esquerda e a ficar travada abruptamente na trincheira, terá propiciado que a segunda carruagem esventrasse a primeira, causando aí grande parte das vítimas. As carruagens de 3ª classe iam com lotação esgotada.
Há um pormenor curioso nestas circunstâncias. A linha corre aqui quase paralela a uma ribeira, uns vinte metros abaixo. O local em que se deu o acidente é dos poucos em que há uma barreira entre a linha e o declive para a linha de água, à esquerda do sentido da marcha do comboio. Foi nesse talude que a máquina tombou e se segurou.
O impacto foi pouco sentido nas carruagens de trás, que não chegaram a descarrilar, o que não deu de imediato a verdadeira proporção da tragédia a quem nelas seguia, só tendo consciência da sua gravidade já apeados ao verem a colisão entre as duas primeiras carruagens.
Dado o local ser ermo, os socorros foram pedidos por passageiros do próprio comboio que se deslocaram em cada sentido pela linha, chegando às estações mais próximas, onde deram o alarme.
A notícia levou naturalmente o seu tempo a propagar-se. Mas, segundo informações que recolhi, terá chegado não muito tempo depois à feira de Odemira onde havia grande aglomeração de gente, o que terá concorrido para que muitos carros de particulares se tenham dirigido para o local.
Populares das terras mais próximas, Pereiras, Sabóia e Santa Clara, gente dos montes em redor, terão sido naturalmente os primeiros a chegar.
O grosso dos socorros chegou pela ferrovia. Da Funcheira (km 218), primeiro, um comboio com operários. De Beja (km 154), depois, um comboio de socorro com médicos e enfermeiros, que só terá chegado ao local ao sol posto, mais de três horas após o desastre.
Mais tarde, já de noite, um comboio ido de Faro e outro do Barrreiro, que partira desta estação por volta das seis da tarde.
Chegaram também entretanto de Monchique socorros por estrada. O acesso à zona faz-se pela 266 (entre os km 17 e 18 ou pelo ramal de acesso às Pereiras, com dois quilómetros e meio de estrada velha e duas ribeiras para transpor), a partir de Monchique (a 24 km) e pela 123 e 266 a partir de Odemira (a 38 km). Sendo que por esta altura estava ainda em construção a ponte sobre o rio Mira em Santa Clara, sendo a passagem do rio feita em condições precárias.
O primeiro comboio de evacuação dos sinistrados abandonou o local com destino a Beja já de noite, tendo chegado àquela cidade perto da meia-noite.
Foram entretanto levados por estrada alguns feridos para o Hospital de Portimão.
Os mortos foram transportados para a Estação de Sabóia, onde foram depositados provisoriamente.
Os sobreviventes que se dirigiam a Lisboa chegaram ao Terreiro do Paço perto das 5 da manhã.
A última história que ouvi a este respeito mencionava a estranheza dos circunstantes face a um meu conterrâneo que, tendo escapado com ferimentos mais ou menos ligeiros, se dedicou a dar conta do farnel enquanto não era transportado ao hospital.
Há sempre quem, no meio de uma desgraça, repare nestes pormenores.
E há sempre alguém como eu que os publica.
Bibliografia:
Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete - revista da Associação de Amigos do Museu Nacional Ferroviário, 10, 3º Trimestre de 2004
Diário de Lisboa, 14 e 15 de Setembro de 1954
Diário Popular, 14, 15 e 16 de Setembro de 1954
1 Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete, 10, 3º Trimestre de 2004
01/02/2009
Adereços
No “Conta-me como foi” já tinha notado as habituais faltas de rigor histórico.
Hoje foi outra vez o carro. Um Morris Marina em 1970. Azar. Só começou a sua produção em 71.
Uma matrícula BO em 1970. Azar, saiu em 75.
Continuo a gostar de ver, embora me pareçam mais fracos estes eposódios da 3ª série.
No “Conta-me como foi” já tinha notado as habituais faltas de rigor histórico.
Hoje foi outra vez o carro. Um Morris Marina em 1970. Azar. Só começou a sua produção em 71.
Uma matrícula BO em 1970. Azar, saiu em 75.
Continuo a gostar de ver, embora me pareçam mais fracos estes eposódios da 3ª série.
31/01/2009
Tadjine crombet bel kefta (II)
Logo no dia em que escrevi sobre, me pareceu vir a ser efémera a experiência exótica aqui paredes quase meias.
Há já uns dias, semanas mesmo, que o prazo expirou. Portas cerradas.
Dou conta disso hoje. Fora de prazo também.
Logo no dia em que escrevi sobre, me pareceu vir a ser efémera a experiência exótica aqui paredes quase meias.
Há já uns dias, semanas mesmo, que o prazo expirou. Portas cerradas.
Dou conta disso hoje. Fora de prazo também.
Ouve-se e não se acredita
Disse a Procuradora na RTP* que não há no caso Freeport sequer um suspeito.
Muito bem. Não há.
É precisamente por não haver que não consigo perceber que depois dissesse de alguém “não posso dizer [o seu paradeiro] senão ele foge”.
Só poderia estar a tentar dizer uma piada.
* Curiosamente o registo do programa está truncado na parte final.
Disse a Procuradora na RTP* que não há no caso Freeport sequer um suspeito.
Muito bem. Não há.
É precisamente por não haver que não consigo perceber que depois dissesse de alguém “não posso dizer [o seu paradeiro] senão ele foge”.
Só poderia estar a tentar dizer uma piada.
* Curiosamente o registo do programa está truncado na parte final.
30/01/2009
Desentranhando memórias
A rede tem uma distorção assinalável. Omite grande parte do trivial do tempo que a antecedeu e replica e enfatiza o mesmo trivial dos tempos depois dela.
E fica muito à mão dos que usam o argumento do caixeiro sem mercadoria: Isso não há. Nunca houve.
Como os tempos são cada vez mais de memória curta – muita informação pode apenas ser guardada por pouco tempo onde pouca informação era guardada por muito tempo – há factos que são riscados da História como as personagens contrárias das fotografias soviéticas.
Claro que tudo isto já acontecia antes da rede. Agora apenas se vê tal fenómeno ampliado.
Quase desde o início deste blogue manifestei aqui a intenção de retirar das brumas do tempo uma tragédia esquecida – o descarrilamento do Rápido do Algarve.
Tinha já nesse tempo percebido que esse era um dos factos omitidos.
Mas não era só na rede. Já antes, nos jornais, nas rádios e na televisão não se lia, não se ouvia uma única referência a tal, nas habituais listas de acidentes ferroviários em que toda a gente cita as mesmas fontes incompletas.
Este acidente que eu trazia na memória por relatos ouvidos na infância e que sabia ser de uns anos antes, situava-o nos meados dos anos 50.
Queria saber exactamente em que dia ocorrera e qual a proporção que atingira e se a minha memória e as poucas referências que mais tarde ouvira a este e àquele se compaginavam com o sucedido.
Nos últimos dez anos talvez, aproveitei todas as ocasiões para perguntar aos mais antigos sobre o caso. Obtive algumas respostas depois dessa demorada perquisição. Mas todas elas vagas.
Até que, há um ano e tal, uma nova googlada mostrou a ponta do fio da meada.
O acidente do Rápido do Algarve estava agora ao alcance de uma mão.
A rede tem uma distorção assinalável. Omite grande parte do trivial do tempo que a antecedeu e replica e enfatiza o mesmo trivial dos tempos depois dela.
E fica muito à mão dos que usam o argumento do caixeiro sem mercadoria: Isso não há. Nunca houve.
Como os tempos são cada vez mais de memória curta – muita informação pode apenas ser guardada por pouco tempo onde pouca informação era guardada por muito tempo – há factos que são riscados da História como as personagens contrárias das fotografias soviéticas.
Claro que tudo isto já acontecia antes da rede. Agora apenas se vê tal fenómeno ampliado.
Quase desde o início deste blogue manifestei aqui a intenção de retirar das brumas do tempo uma tragédia esquecida – o descarrilamento do Rápido do Algarve.
Tinha já nesse tempo percebido que esse era um dos factos omitidos.
Mas não era só na rede. Já antes, nos jornais, nas rádios e na televisão não se lia, não se ouvia uma única referência a tal, nas habituais listas de acidentes ferroviários em que toda a gente cita as mesmas fontes incompletas.
Este acidente que eu trazia na memória por relatos ouvidos na infância e que sabia ser de uns anos antes, situava-o nos meados dos anos 50.
Queria saber exactamente em que dia ocorrera e qual a proporção que atingira e se a minha memória e as poucas referências que mais tarde ouvira a este e àquele se compaginavam com o sucedido.
Nos últimos dez anos talvez, aproveitei todas as ocasiões para perguntar aos mais antigos sobre o caso. Obtive algumas respostas depois dessa demorada perquisição. Mas todas elas vagas.
Até que, há um ano e tal, uma nova googlada mostrou a ponta do fio da meada.
O acidente do Rápido do Algarve estava agora ao alcance de uma mão.
29/01/2009
28/01/2009
27/01/2009
Jus
Falou o ministro da Justiça, na abertura do ano judicial, de um mundo em melhoria.
Não faço ideia se a matéria em apreço, aquilo a que ainda insistem em chamar justiça, está ou não num caminho de melhoras.
A verdade é que a tragi-comédia que está presente em todo o lado nesse mundo deixa já poucas hipóteses para a coisa piorar.
É pois provável que melhore. Desde que se perceba que o estado actual é miserável. Incluindo naturalmente o processo legislativo.
Se não se perceber tal, a coisa continuará como dantes, Quartel-General em Abrantes.
Falou o ministro da Justiça, na abertura do ano judicial, de um mundo em melhoria.
Não faço ideia se a matéria em apreço, aquilo a que ainda insistem em chamar justiça, está ou não num caminho de melhoras.
A verdade é que a tragi-comédia que está presente em todo o lado nesse mundo deixa já poucas hipóteses para a coisa piorar.
É pois provável que melhore. Desde que se perceba que o estado actual é miserável. Incluindo naturalmente o processo legislativo.
Se não se perceber tal, a coisa continuará como dantes, Quartel-General em Abrantes.
Honra
No jornalismo confunde-se amiúde a crítica com a calúnia, a apreciação com o insulto.
O episódio de hoje, no programa de Mário Crespo, é exemplar.
À pergunta deste: “Era possível no ambiente governativo que se vivia, obter favores por dinheiro?” respondeu o entrevistado, o ministro da Presidência, que considerava tal pergunta um insulto.
Acredito que qualquer homem honrado reagiria da mesma forma.
O extraordinário é que no seguimento dessa entrevista tenha havido vários comentários a reprovar a atitude do ministro, do homem. Como se pôr em causa a honorabilidade de alguém, da forma que foi posta, fosse coisa relevável.
Sobre a essência do caso, continuo a não tecer considerações.
No jornalismo confunde-se amiúde a crítica com a calúnia, a apreciação com o insulto.
O episódio de hoje, no programa de Mário Crespo, é exemplar.
À pergunta deste: “Era possível no ambiente governativo que se vivia, obter favores por dinheiro?” respondeu o entrevistado, o ministro da Presidência, que considerava tal pergunta um insulto.
Acredito que qualquer homem honrado reagiria da mesma forma.
O extraordinário é que no seguimento dessa entrevista tenha havido vários comentários a reprovar a atitude do ministro, do homem. Como se pôr em causa a honorabilidade de alguém, da forma que foi posta, fosse coisa relevável.
Sobre a essência do caso, continuo a não tecer considerações.
26/01/2009
25/01/2009
Dias de colecção
De vez em quando, a ideia parva.
A que não sendo com toda a certeza original é bizarra. Coisa de gente sem afazeres, dirão.
É, pelo menos, mais um motivo para olhar para as paredes.
De vez em quando, a ideia parva.
A que não sendo com toda a certeza original é bizarra. Coisa de gente sem afazeres, dirão.
É, pelo menos, mais um motivo para olhar para as paredes.
24/01/2009
A degradação
Há degradações aqui e ali que são bem notadas.
Hoje a que me saltou à vista veio em forma de DVD Planeta Ronaldo.
Como brinde do Expresso.
Pus-me a pensar qual seria a reacção do meu Pai se há 36 anos - tantos quantos leva o Expresso e é lido cá em casa – lhe oferecessem uma revista de futebol junto com o jornal.
A minha foi só irónica. Tanto quanto o poderia ser com o interlocutor.
Há degradações aqui e ali que são bem notadas.
Hoje a que me saltou à vista veio em forma de DVD Planeta Ronaldo.
Como brinde do Expresso.
Pus-me a pensar qual seria a reacção do meu Pai se há 36 anos - tantos quantos leva o Expresso e é lido cá em casa – lhe oferecessem uma revista de futebol junto com o jornal.
A minha foi só irónica. Tanto quanto o poderia ser com o interlocutor.
RTP
Ouvi agora mesmo uma justificação sobre a repetição de programas na RTP.
Sabemos todos qual é a verdadeira razão para a repetição ad nauseam de concursos e quejandos.
E o que foi dito foi naturalmente um chorrilho de lugares comuns sem sentido, retirados da cartilha de qualquer marqueteiro de meia-tigela. Não seria razoável esperar mais.
A forma como fizeram o bolo, metendo no mesmo saco repetições assinaladas, em horário e canal diferente e repetições aldrabadas, de concursos emitidos sem referência de repetição no horário habitual, ainda agrava mais a ideia com que se fica.
Uma mediocridade sem justificação. Nem a falta de dinheiro a explica.
Ouvi agora mesmo uma justificação sobre a repetição de programas na RTP.
Sabemos todos qual é a verdadeira razão para a repetição ad nauseam de concursos e quejandos.
E o que foi dito foi naturalmente um chorrilho de lugares comuns sem sentido, retirados da cartilha de qualquer marqueteiro de meia-tigela. Não seria razoável esperar mais.
A forma como fizeram o bolo, metendo no mesmo saco repetições assinaladas, em horário e canal diferente e repetições aldrabadas, de concursos emitidos sem referência de repetição no horário habitual, ainda agrava mais a ideia com que se fica.
Uma mediocridade sem justificação. Nem a falta de dinheiro a explica.
23/01/2009
Simplex
Por mor das circunstâncias, plastifiquei-me a cem por cento aqui há dias.
Na mesma leva, registei-me no Portal do Cidadão e lá pedi uma certa certidão.
Ontem, recebi um e-mail a pedir-me que reformulasse o pedido pela segunda vez, uma vez que as trocas de correspondência electrónica até então havidas com os serviços não eram bastantes.
Hoje tinha a certidão na minha caixa do correio – na tradicional, na de alumínio.
Nem me deram tempo de reformular o pedido.
Por mor das circunstâncias, plastifiquei-me a cem por cento aqui há dias.
Na mesma leva, registei-me no Portal do Cidadão e lá pedi uma certa certidão.
Ontem, recebi um e-mail a pedir-me que reformulasse o pedido pela segunda vez, uma vez que as trocas de correspondência electrónica até então havidas com os serviços não eram bastantes.
Hoje tinha a certidão na minha caixa do correio – na tradicional, na de alumínio.
Nem me deram tempo de reformular o pedido.
22/01/2009
21/01/2009
Atraso mental
Só num sítio em que o atraso mental seja prevalecente é que uma medida tendente a acertar as retenções na fonte – a reduzir o erro no seu cálculo ou na sua estimativa – pode ser entendida como tendo algum tipo de significado para além da mera correcção.
Só num sítio em que o atraso mental seja prevalecente é que uma medida tendente a acertar as retenções na fonte – a reduzir o erro no seu cálculo ou na sua estimativa – pode ser entendida como tendo algum tipo de significado para além da mera correcção.
20/01/2009
Barack
Sobre Barack Obama já ouvi, já ouvimos afinal, quase tudo o que é possível ouvir.
Que é um iluminado foi uma das coisas mais divertidas de entre essas.
Há uma muito curiosa também – que ele é negro. Sendo o homem um mulato, ainda não ouvi ninguém chamar-lhe branco. Coisa que seria tão natural dizerem dele como o é, afinal, chamarem-lhe preto ou negro.
Dir-se-á que aos brancos ele se afigura preto. Seja. Nesse caso seria de esperar que aos pretos se afigurasse alvo. É até provável que haja negros que lhe chamem branco, uma vez até que o homem foi criado pelo lado branco da família. Mas se os há, não se ouvem. Estão abafados pelo clamor geral.
E é também curioso que chamar preto a um homem que é metade branco metade preto nestas circunstâncias não seja considerado um rótulo racista, à luz da mentalidade modal dos dias que correm.
Coisas!
Sobre Barack Obama já ouvi, já ouvimos afinal, quase tudo o que é possível ouvir.
Que é um iluminado foi uma das coisas mais divertidas de entre essas.
Há uma muito curiosa também – que ele é negro. Sendo o homem um mulato, ainda não ouvi ninguém chamar-lhe branco. Coisa que seria tão natural dizerem dele como o é, afinal, chamarem-lhe preto ou negro.
Dir-se-á que aos brancos ele se afigura preto. Seja. Nesse caso seria de esperar que aos pretos se afigurasse alvo. É até provável que haja negros que lhe chamem branco, uma vez até que o homem foi criado pelo lado branco da família. Mas se os há, não se ouvem. Estão abafados pelo clamor geral.
E é também curioso que chamar preto a um homem que é metade branco metade preto nestas circunstâncias não seja considerado um rótulo racista, à luz da mentalidade modal dos dias que correm.
Coisas!
14/01/2009
13/01/2009
Reconstituição
Diz a imprensa que vai ter lugar uma reconstituição do desastre da A23, que provocou a morte a dezassete pessoas.
A ser certa a notícia, o que vai ser reconstituído ou parte dele parece poder tirar-se dela. O como ou parte dele também. Já o por quê e o para quê me parecem mistérios insondáveis.
Diz a imprensa que vai ter lugar uma reconstituição do desastre da A23, que provocou a morte a dezassete pessoas.
A ser certa a notícia, o que vai ser reconstituído ou parte dele parece poder tirar-se dela. O como ou parte dele também. Já o por quê e o para quê me parecem mistérios insondáveis.
As pensões de reforma
O problema do Estado neste caso das pensões de reforma e em muitos outros é que não tem nem sequer um resto de autoridade moral para limitar cada vez mais os montantes e protelar a aposentação.
Convive, neste preciso campo, demasiado de perto com o roubo de igreja para poder ter cara para limitar ou protelar seja o que fôr.
O problema do Estado neste caso das pensões de reforma e em muitos outros é que não tem nem sequer um resto de autoridade moral para limitar cada vez mais os montantes e protelar a aposentação.
Convive, neste preciso campo, demasiado de perto com o roubo de igreja para poder ter cara para limitar ou protelar seja o que fôr.
12/01/2009
11/01/2009
10/01/2009
Das coisas coetâneas
Dos acontecimentos que marcaram o mundo próximo há cinquenta anos perfeitos ontem, dois mereceram aqui a minha atenção.
De um deles já dei nota este ano.
Do outro, nunca falei demoradamente.
Na madrugada de 9 de Janeiro de 1959 foi varrida do mapa uma aldeia leonesa.
Uma barragem deficientemente construída ruiu, inundando o vale em que se inscrevia e revolvendo o povoado, uns quilómetros a jusante.
Os números dizem que terão morrido 145 dos seus 550 habitantes. Um quarto da população.
Madrugada, escuridão, enxurrada e frio fazem o quadro horrível que riscou do mundo dos vivos tanta gente de uma vez só.
Desde que tive conhecimento de tal ocorrência coeva, que se me criou a vontade de um dia lá ir observar aquelas pedras.
Não foi no meio século. Um dia será.

Mapas topográficos de Espanha do IGN
Dos acontecimentos que marcaram o mundo próximo há cinquenta anos perfeitos ontem, dois mereceram aqui a minha atenção.
De um deles já dei nota este ano.
Do outro, nunca falei demoradamente.
Na madrugada de 9 de Janeiro de 1959 foi varrida do mapa uma aldeia leonesa.
Uma barragem deficientemente construída ruiu, inundando o vale em que se inscrevia e revolvendo o povoado, uns quilómetros a jusante.
Os números dizem que terão morrido 145 dos seus 550 habitantes. Um quarto da população.
Madrugada, escuridão, enxurrada e frio fazem o quadro horrível que riscou do mundo dos vivos tanta gente de uma vez só.
Desde que tive conhecimento de tal ocorrência coeva, que se me criou a vontade de um dia lá ir observar aquelas pedras.
Não foi no meio século. Um dia será.
Mapas topográficos de Espanha do IGN
Neve
O que se passa nas estradas portuguesas quando neva a sério é apenas o espelho da sociedade em que nos tornámos.
Sem ninguém capaz de tomar decisões simples.
Com pouca gente capaz de avaliar os riscos.
O que se passa nas estradas portuguesas quando neva a sério é apenas o espelho da sociedade em que nos tornámos.
Sem ninguém capaz de tomar decisões simples.
Com pouca gente capaz de avaliar os riscos.
09/01/2009
08/01/2009
Alterações climáticas
Neste grupo de gente que teoriza sobre aquilo a que chama alterações climáticas – como se o clima fosse uma constante e sendo-o, se visse de repente alterada – e que se entretém a prever as maiores catástrofes, ainda não entrevi argumentos fortes.
Esta coisa do frio baralha-os todos. É estar atento às enormidades que dizem.
Quanto a Portugal, é uma chatice o relatório preliminar do IM reconhecendo que 2008 teve a média das temperaturas mínimas, médias e máximas abaixo da média 1971-2000.
Neste grupo de gente que teoriza sobre aquilo a que chama alterações climáticas – como se o clima fosse uma constante e sendo-o, se visse de repente alterada – e que se entretém a prever as maiores catástrofes, ainda não entrevi argumentos fortes.
Esta coisa do frio baralha-os todos. É estar atento às enormidades que dizem.
Quanto a Portugal, é uma chatice o relatório preliminar do IM reconhecendo que 2008 teve a média das temperaturas mínimas, médias e máximas abaixo da média 1971-2000.
06/01/2009
A antiguidade é um rosto
Hoje, passei a integrar a era dos cartões de plástico. Estou agora completamente plastificado.
A antiguidade que se lê no meu rosto confirmei-a, como se preciso fosse, pela boca da funcionária do IMTT – a sua carta não está informatizada. Ainda é daquelas escritas à mão?
É, sim, minha senhora.
Era.
Hoje, passei a integrar a era dos cartões de plástico. Estou agora completamente plastificado.
A antiguidade que se lê no meu rosto confirmei-a, como se preciso fosse, pela boca da funcionária do IMTT – a sua carta não está informatizada. Ainda é daquelas escritas à mão?
É, sim, minha senhora.
Era.
05/01/2009
03/01/2009
A artistagem
A artistagem é aquela franja de artistas e quejandos bonzinhos e mentecaptos que passam o tempo a fazer apelos à paz, ao entendimento e à felicidade de todos.
Nem um só dessa franja era capaz de governar uma sociedade recreativa. Mas têm ideias sobre tudo e sobre todos, desde que seja para sermos todos felizes.
A artistagem é aquela franja de artistas e quejandos bonzinhos e mentecaptos que passam o tempo a fazer apelos à paz, ao entendimento e à felicidade de todos.
Nem um só dessa franja era capaz de governar uma sociedade recreativa. Mas têm ideias sobre tudo e sobre todos, desde que seja para sermos todos felizes.
01/01/2009
Havana

É conhecida dos que me lêem há mais tempo a minha ligação à revolução cubana.
A essência dessa ligação tem a ver com a coincidência no tempo. Com um pormenor afinal. Fidel não entrou em Havana senão por alturas do meu primeiro grito, ao contrário do que repetem hoje os burros do costume. Coisa de horas entre uma coisa e outra.
Mas há mais.
Num mundo com tendência actual para a uniformização, é bom que existam contrapontos. Que existam formas diversas de viver em sociedade.
Há sempre aquela utopia triste de a cada um o seu regime. Há, com toda a certeza, uma porção da população cubana insatisfeita. Não faço ideia se é minoritária ou maioritária.
Há com toda a certeza insatisfeitos em todas as sociedades. Em maior ou menor grau. Em maior ou menor número.
Nunca pus os pés em Cuba embora de há muito alimente essa ambição.
Era talvez lá que gostaria de estar para a semana. Quando, sim, se comemorarem os cinquenta anos não da revolução mas da entrada de Fidel em Havana.
É conhecida dos que me lêem há mais tempo a minha ligação à revolução cubana.
A essência dessa ligação tem a ver com a coincidência no tempo. Com um pormenor afinal. Fidel não entrou em Havana senão por alturas do meu primeiro grito, ao contrário do que repetem hoje os burros do costume. Coisa de horas entre uma coisa e outra.
Mas há mais.
Num mundo com tendência actual para a uniformização, é bom que existam contrapontos. Que existam formas diversas de viver em sociedade.
Há sempre aquela utopia triste de a cada um o seu regime. Há, com toda a certeza, uma porção da população cubana insatisfeita. Não faço ideia se é minoritária ou maioritária.
Há com toda a certeza insatisfeitos em todas as sociedades. Em maior ou menor grau. Em maior ou menor número.
Nunca pus os pés em Cuba embora de há muito alimente essa ambição.
Era talvez lá que gostaria de estar para a semana. Quando, sim, se comemorarem os cinquenta anos não da revolução mas da entrada de Fidel em Havana.
Papéis de música
Houve um tempo em que cálices de Porto no casarão avoengo dos colaterais pousavam sobre o grosso pano da camilha.
Ouvia-se o Concerto. O Concerto.
Talvez subentendido o desejo de cartear.
Acima de tudo, os papéis. De música.
Houve um tempo em que cálices de Porto no casarão avoengo dos colaterais pousavam sobre o grosso pano da camilha.
Ouvia-se o Concerto. O Concerto.
Talvez subentendido o desejo de cartear.
Acima de tudo, os papéis. De música.
31/12/2008
2009

Não me recordo de alguma vez ter sentido esta aversão à mudança de ano.
Não tem isto nada a ver com as nuvens negras com que, em todo o lado, se vê casado o ano que aí vem.
É uma coisa mesmo pessoal. Ligada com a derivada negativa que a minha função ostenta, ano após ano. Em outros tempos chamou-se a isto decadência. Sem eufemismos.
Por mim, ficava tudo nesta congelada degradação de 2008.
Por que raio há-de um homem ter em conta uma data onze dias depois do solstício?
Não me recordo de alguma vez ter sentido esta aversão à mudança de ano.
Não tem isto nada a ver com as nuvens negras com que, em todo o lado, se vê casado o ano que aí vem.
É uma coisa mesmo pessoal. Ligada com a derivada negativa que a minha função ostenta, ano após ano. Em outros tempos chamou-se a isto decadência. Sem eufemismos.
Por mim, ficava tudo nesta congelada degradação de 2008.
Por que raio há-de um homem ter em conta uma data onze dias depois do solstício?
50 anos

Não sei se há se não há na literatura uma história contada de um prédio de rendimento de Lisboa, dos arrabaldes.
Cinquenta anos dessa história.
Vejo-me hoje enredado nisso, mercê da teimosia em abrir portas à memória.
O caixote que de lá trouxe é demasiado pesado. Começa a ser demasiado pesado.
Restam três mulheres viúvas e a filha de uma delas por lá. No talhão 2 da rua D.

Não sei se há se não há na literatura uma história contada de um prédio de rendimento de Lisboa, dos arrabaldes.
Cinquenta anos dessa história.
Vejo-me hoje enredado nisso, mercê da teimosia em abrir portas à memória.
O caixote que de lá trouxe é demasiado pesado. Começa a ser demasiado pesado.
Restam três mulheres viúvas e a filha de uma delas por lá. No talhão 2 da rua D.
1958
A coisa mais terrível ou uma das coisas mais terríveis de quem se deixa envelhecer é a tendência para evocar memórias que essa lassidão promove.
Tanto mais quando ao afastamento da juventude e da força acresce o de outros meios, o chamado caminhar de cavalo para burro.
Lá por ter consciência do cilício que uso, não me abstenho de remexer no baú.
1958 é o ano em que me fiz. Apareci por cá nos primeiros dias de 59, quando Fidel chegava a Havana. E, tal como ele, preparei ao longo de 58 essa chegada.
Nos 50 anos dessa data, tenho que anotar o fechar de portas que aqui anunciei vai para uns anos também. Portas que estiveram abertas durante exactos 50 anos. Desde esse ano de 58.

50 anos depois, fechei a porta da casa onde me fiz. Deixei a rua da minha infância, olhei pela última vez da minha janela os horizontes largos que me proporcionou e que vi povoarem-se de casas nesse entretempo.
Na rua, julguei divisar os meus amigos correndo de calções atrás da bola, emboscados algures de rifle em riste, talvez no óculo da escada do prédio do canto, talvez atrás do único carro estacionado.
Do alto, vi aviões de guerra em manobras intimidatórias e um êxodo quase bíblico por campos e estradas.
Senti ali o cheiro das manhãs e o ruído das tardinhas.
Os gritos dos meus colegas de escola no recreio.
Fiz um horário dos comboios a desoras pelos seus apitos de marcha e pelo respectivo doppler.
Entrevi a morte que ali, antes de metade da jornada, veio ao fim da tarde de um dia quente de Primavera.
Há um ror mais de coisas que são tão importantes agora. Umas esquecem-se de propósito, outras não se ousa dizê-las, outras ainda têm a distinção da memória sorrida, sem pretensões.
Tudo isso revi, senti, toquei. Este ano de 2008 pela última vez. Exactos 50 anos depois de a porta ter sido aberta.
Também o guarda-redes na fotografia fez 50 anos em 2008
A coisa mais terrível ou uma das coisas mais terríveis de quem se deixa envelhecer é a tendência para evocar memórias que essa lassidão promove.
Tanto mais quando ao afastamento da juventude e da força acresce o de outros meios, o chamado caminhar de cavalo para burro.
Lá por ter consciência do cilício que uso, não me abstenho de remexer no baú.
1958 é o ano em que me fiz. Apareci por cá nos primeiros dias de 59, quando Fidel chegava a Havana. E, tal como ele, preparei ao longo de 58 essa chegada.
Nos 50 anos dessa data, tenho que anotar o fechar de portas que aqui anunciei vai para uns anos também. Portas que estiveram abertas durante exactos 50 anos. Desde esse ano de 58.
50 anos depois, fechei a porta da casa onde me fiz. Deixei a rua da minha infância, olhei pela última vez da minha janela os horizontes largos que me proporcionou e que vi povoarem-se de casas nesse entretempo.
Na rua, julguei divisar os meus amigos correndo de calções atrás da bola, emboscados algures de rifle em riste, talvez no óculo da escada do prédio do canto, talvez atrás do único carro estacionado.
Do alto, vi aviões de guerra em manobras intimidatórias e um êxodo quase bíblico por campos e estradas.
Senti ali o cheiro das manhãs e o ruído das tardinhas.
Os gritos dos meus colegas de escola no recreio.
Fiz um horário dos comboios a desoras pelos seus apitos de marcha e pelo respectivo doppler.
Entrevi a morte que ali, antes de metade da jornada, veio ao fim da tarde de um dia quente de Primavera.
Há um ror mais de coisas que são tão importantes agora. Umas esquecem-se de propósito, outras não se ousa dizê-las, outras ainda têm a distinção da memória sorrida, sem pretensões.
Tudo isso revi, senti, toquei. Este ano de 2008 pela última vez. Exactos 50 anos depois de a porta ter sido aberta.
Também o guarda-redes na fotografia fez 50 anos em 2008
30/12/2008
29/12/2008
PR
Subscrevo tudo o que PR disse.
Talvez as consequências a tirar tivessem que ir um pouco ou mesmo muito mais longe.
Subscrevo tudo o que PR disse.
Talvez as consequências a tirar tivessem que ir um pouco ou mesmo muito mais longe.
As pessoas boazinhas
Para além dos apelos à paz, há outra coisa que me dá volta ao estômago quando se trata destes episódios de guerra entre Israel e a Palestina – é a quantidade de pessoas boazinhas que diz que há violação disto e daquilo, atrocidades estas e aquelas. Mas só o diz de um lado, com a camisola vestida, embora o faça em nome de organizações supostamente neutras e com o chamado espírito humanitário. De pacotilha.
Para além dos apelos à paz, há outra coisa que me dá volta ao estômago quando se trata destes episódios de guerra entre Israel e a Palestina – é a quantidade de pessoas boazinhas que diz que há violação disto e daquilo, atrocidades estas e aquelas. Mas só o diz de um lado, com a camisola vestida, embora o faça em nome de organizações supostamente neutras e com o chamado espírito humanitário. De pacotilha.
28/12/2008
27/12/2008
26/12/2008
25/12/2008
24/12/2008
Dizer bem
Ontem, fui muito bem atendido em duas repartições diferentes do Estado.
Atendido por quem sabia o que estava a fazer. O que é algo de extraordinário para mim.
E com simpatia.
Isso fez-me esquecer o tempo de espera numa delas. Umas três horas entre a recolha da senha e o atendimento.
E fez-me esquecer que me apercebi de que um acessório de informática de custo irrisório do qual não há sobresselente, pode – no caso não aconteceu mas esteve quase – comprometer o expediente todo.
Mas eu queria mesmo era elogiar as funcionárias que me atenderam.
Ontem, fui muito bem atendido em duas repartições diferentes do Estado.
Atendido por quem sabia o que estava a fazer. O que é algo de extraordinário para mim.
E com simpatia.
Isso fez-me esquecer o tempo de espera numa delas. Umas três horas entre a recolha da senha e o atendimento.
E fez-me esquecer que me apercebi de que um acessório de informática de custo irrisório do qual não há sobresselente, pode – no caso não aconteceu mas esteve quase – comprometer o expediente todo.
Mas eu queria mesmo era elogiar as funcionárias que me atenderam.
23/12/2008
22/12/2008
20/12/2008
19/12/2008
18/12/2008
17/12/2008
15/12/2008
14/12/2008
12/12/2008
11/12/2008
09/12/2008
ASAE
Na reportagem feita pela SIC a propósito da história do momento, da carne de porco imprópria para consumo, vê-se, supostamente nas instalações da ASAE, uma folha de Excel.
A forma como a coisa é apresentada nessa folha dá uma ideia do gabarito intelectual de quem a elaborou. Ao nível da terceira classe mal tirada. Alguém acredita que aquela soma não é feita à mão, atento o resultado e a forma das parcelas?
Mas é assim em todo o lado. Infelizmente.
A ASAE precisa talvez de certificar os seus funcionários. Como soe dizer-se.
Mas é assim em todo o lado. Infelizmente. Só que estes são os repressores. E dão estes exemplos da mais completa inépcia mental.
imagem da SIC, obtida em página já inexistente
Kaspar Hauser
Há, se a memória não me atraiçoa, uma cena de Kaspar Hauser, o filme, que ontem vi a partir do centro da dita.
Nela, em vez do caixão havia uma sósia da raínha de Inglaterra que, caminhando curvada e arritmadamente, mal equilibrando um chapéu azul, acenava do meio do cortejo. Para mim. Eu a pensar se não seria o derradeiro aceno.
Há, se a memória não me atraiçoa, uma cena de Kaspar Hauser, o filme, que ontem vi a partir do centro da dita.
Nela, em vez do caixão havia uma sósia da raínha de Inglaterra que, caminhando curvada e arritmadamente, mal equilibrando um chapéu azul, acenava do meio do cortejo. Para mim. Eu a pensar se não seria o derradeiro aceno.
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