As saboneteiras de ilusão
Intriga-me a frequência com que os Gato Fedorento andam a contar piadas nos meus sonhos.
E aborrece-me.
Desta vez, vi-me livre deles numa espécie de sessão de autógrafos numa ampla livraria, livros novos e usados, ali para o jardim da Amadora.
Aproveitei para me raspar a seguir à passagem, por entre a porta e as ilhargas da primeira fila de estantes, de um Opel Rekord modelo de 53, numa repintura em RAL 6019 e antes da disputa entre um Fiat 1800, de 1959, RAL 5024 e uma das minhas aspirações adolescentes, a Peugeot 204 dos meados de 70, no inevitável RAL 7038, disputa travada no encalço do Opel.
Devo dizer, em abono da verdade, que a ser marcada falta, seria à 204 que pretendeu varrer,
em carrinha, o 1800. Pode sempre dizer-se que isto sou eu a querer mostrar imparcialidade.
Ou que considero a 204 uma fera capaz de todas as proezas.
Qualquer das duas pode ser verdadeira.
Mas isso é tudo de somenos face ao que se seguiu.
Dei pela falta dos meus amigos J.d’ e P.P.. Procurei, procurei, procurei e nada. Os outros dois inidentificáveis que comigo estavam repetiram o diagnóstico – esvaecimento total e completo de ambos.
Foi bastante mais tarde que soube, da boca dos próprios, a verdade. Ao fundo da livraria havia uma porta dissimulada atrás de uma estante. Por essa porta acedia-se a uma cave, onde decorreu o bródio comemorativo. Estando eles integrados na comitiva...
Esclarecidas as coisas, regressado o P.P. aos seus chaparros, eu e o J.d’ fomos parar a uma camarata onde pernoitávamos, à cautela.
Foi então que ao abrir o armário comum a uma fiada de camas, que não passava de um ficheiro desses de escritório pré-computação, encontrei a minha gaveta cheia do que pareciam ser embalagens de fusíveis de automóvel.
Pensei estar com a gaveta trocada e abri a de cima.
Nela entrevi um saco de plástico transparente com três saboneteiras em kit, para montar.
Uma preta, uma verde e uma assim cor de areia. De areia amarela, como se diz nas obras.
Para não dar parte de ser parte, ou talvez para não escolher a verde face ao meu velho amigo que já diria cansado de ser benfiquista, escolhi a preta.
Ele foi pela amarelenta.
Não sei qual dos dois montou primeiro a respectiva saboneteira.
Saboneteira?
Aquilo era uma bota de borracha, tamanho infantil. E ainda por cima azul. Ultramarino. Ou para aí.
Ocorreu-me muito depois – já acordado - uma relação com o
Tahiti duche. Por causa da cor e das rodelas tipo Lego.
O desenho acima ilustra um corte do esquema de montagem das ditas, mostrando o encaixe de um dos pinos, nas três cores disponíveis e a incrível bota de criança que se obtinha no fim.