21/12/2009

Terra

Pelo que li sobre a cimeira de Copenhaga, descontando os tradicionais disparates da imprensa, fiquei com a ideia de que, ao contrário do que se espera de uma cimeira para resolver um problema, obter um tratado, em que há de facto um objecto de disputa e interesses antagónicos bem identificados, aqui cada um se propunha discutir uma questão diferente.
Uma espécie de reunião de condomínio em que um se queixa do frio que faz na rua, outro do barulho dos vizinhos do prédio em frente, um que quer comprar uns tapetes novos, outro que acha não se deve votar na lista de Fulano de Tal para a Junta de Freguesia. E cada um não prestando qualquer atenção ao que outros dizem.
Há um que discute um assunto que compete a todos resolver – o dos tapetes – todos os outros falham o alvo.
Foi esta a ideia com que fiquei. Quando cada um discute um assunto diferente, estamos na esfera da conversa de surdos.
Parece-me extraordinário o conceito de alterações climáticas, já aqui o disse.
E parece-me extraordinário que se consiga saber o que provoca as variações do clima quando não se consegue matar o jogo do xadrez. Não é extraordinário, é apenas estultícia e ausência de ciência. Um credo que se instalou como se instalaram muitos outros ao longo da História.
Já saber se existe um aquecimento global carece de uma definição do conceito.
É uma derivada positiva na esmagadora maioria das séries de registos de temperatura conhecidas? Ou é exactamente o quê?
Começarei a levar a sério esta tropa que por aí anda aos gritos contra as alterações climáticas e o aquecimento global quando os ouvir dizer que é preciso reduzir a população mundial.
Seja como fôr, ela não ultrapassará um certo limite. De uma forma ou de outra.

20/12/2009

A tradicional imbecilidade noticiosa

Já ouvi repetidamente na RTP que os alentejanos estranham o frio por estarem habituados ao calor.
É difícil imaginar sentença mais imbecil sobre o clima no Alentejo.

18/12/2009

Subjectivamente

Se alguma coisa de particular noto no clima ela é, sem dúvida, o retorno dos dias frios e com chuva aqui nestes arrabaldes de Lisboa.
Voltaram na segunda metade desta década. Depois de muitos anos de ausência.
Subjectivamente falando e sem qualquer consulta de dados.

17/12/2009

Tremor de terra

Lembro-me de Pacheco Pereira ter, em Fevereiro de 2007, chamado a atenção para um facto que todos aqueles que se interessam por sismologia puderam então constatar – a completa e total incapacidade do sistema do IM para responder a um afluxo “normal” em caso de sismo.
Ao contrário do que disse então Pacheco Pereira, não me parece que a gravidade esteja no facto de não ser possível aceder a informação útil neste site. Em caso de catástrofe será preocupante isso sim que a Protecção Civil não tenha meios de fornecer essa tal informação por todos os meios expeditos para orientar a população. Um site é importante mas não é o prioritário. É muito mais importante uma estação de rádio.
O que me parece lamentável é que o sistema, por não ser capaz, abdique de receber a informação quanto à intensidade que o público com acesso a estes meios está disponível para fornecer.
Esta noite aconteceu a mesmíssima coisa.
Foi possível comunicar o facto ao USGS de imediato. Pouco depois, também com alguma demora, ao IGN de Espanha.
Só muito mais tarde foi possível fazê-lo para o IM.
Com erros constantes e páginas bloqueadas no entretanto.
Incapacidade. Numa só palavra.

14/12/2009

Portugal, 2009



Nota: no dia em que o alojamento tradicional de imagens deste blogue deixou de funcionar. Tudo indica que de vez.

11/12/2009

Dinastia Ming

Francisco Louçã referiu-se ontem no Parlamento a umas afirmações que alguém há tempo fez sobre como apanhar os que fogem aos impostos, declarando rendimentos minimalistas, por via do folhear de revistas cor-de-rosa.
Mencionou um vaso Ming, do século III.
Não me consigo recordar se com essa menção reproduz o disparate de alguém ou se, pelo contrário é ele o autor da coisa.
Sendo este último o caso, não ficaria nada bem a quem se quer tão rigoroso e exigente.
Ao volante

Soube-se anteontem que a condutora envolvida num dos mais graves acidentes de viação rodoviária – quanto ao número de mortos – de sempre das estradas portuguesas, foi condenada em primeira instância a quatro anos e quatro meses de prisão, com pena suspensa.
Sobre o caso em si apenas me interessa agora saber que utilidade encontrou o tribunal na reconstituição do acidente. É uma coisa que me intriga desde o primeiro momento.

Já em abstracto, não conhecendo de forma alguma quaisquer circunstâncias do acidente ou qualquer dos envolvidos, fico a pensar na hipótese, aplicável a um sem-número de acidentes de automóvel, de o seu causador ser não um criminoso negligente mas um impreparado, um inconsciente da sua incapacidade para dominar um veículo automóvel e, por conseguinte, de o manter de forma segura a circular na via pública.
Neste caso, a negligência é de quem o licenciou para conduzir.
Será todo e qualquer indivíduo capaz de guiar um automóvel em condições de não pôr em risco a sua própria vida ou a de terceiros?
E não o sendo, aqueles que o não são, terão todos disso consciência?
Sempre me pareceu que não, para além das exclusões óbvias.
Ainda em abstracto e não conhecendo o número, que de resto calculo seja escasso, de condutores reincidentes na culpa pela morte de terceiros, pergunto-me se se justifica permitir que uma pessoa que é responsável por mortes na estrada continue a conduzir na via pública.
É que, relembro, os fumadores não são proibidos de ir à maioria dos restaurantes. Não podem é lá fumar.
Não se retiraria a esta gente o direito de circular na estrada. Apenas a possibilidade de o fazer no banco do condutor.
Será que o fumo de cigarros alheios mata mais gente do que a estrada?

10/12/2009

Assinando por cima

No caso, não é por baixo é por cima.
Uma belíssima e significativa fotografia do João Espinho que responde por mim.


© João Espinho

08/12/2009

Negras memórias

É improvável que no mesmo dia passem 30 e 20 anos sobre negros sucessos entre si nada relacionados na vida de um homem.
O improvável aconteceu pois há 20 anos atrás.
Por aqui perto.

07/12/2009

Oferta de Natal

Arredado que ando do alcatrão, ao invés do leitmotiv deste blogue, aprecio mais do que nunca as atenções.
Chegou-me hoje mais uma carteira de cromos de estradas enviada por DuVale.
Obrigado, amigo.

Alterações climáticas

Em seu tempo, para temperar o clima ou o ambiente usava um pé de poejo na lapela. Ou no bolso do lenço.
Frequentemente interpelado, teorizava longamente sobre os benefícios de tal atitude e sobre a maldade dos outros, que não usavam tal.
Ninguém me levava a sério. Era mesmo isso que eu pretendia das mulheres. Que não me levassem a sério.



imagem do site da cimeira

04/12/2009

Brasil

Bem podia ter apostado.
Máquina do tempo

Ouvi há pouco uma referência a uma máquina de filmar que grava imagens em contínuo num intervalo de 3 segundos sem ordem humana.
O que significa que, quando apontada a um alvo escolhido, engloba na filmagem os três segundos anteriores ao toque no botão.
Foi designada, por piada, como máquina do tempo. Como a máquina que filma o passado.
Ponho-me a pensar que, com a publicidade adequada, não faltarão os candidatos à compra desta máquina que filma o passado.

E, agora, pensando no futuro, cheira-me a Brasil.

03/12/2009

Restos de colecção (74)



Ouvi que tinha reaparecido nas bancas uma semana atrás a revista "O Volante".
Já depois disso tropecei neste exemplar de 1973, do 1º aniversário da 2ª série, no meio duma das minhas pilhas de recordações em papel. Data este da fase em que me esgueirava entre os chaparros ao volante do faruque.
Em formato de jornal, este título acompanhou-me pelas serras do país, conjuntamente com o Autosport, no tempo em que me deixava arrebatar pelo rugido das máquinas.
Calha bem aqui hoje. Não sei bem por quê.

01/12/2009

Um Presidente acima


Copyright © Luc Van Braekel in Wikipedia

daqui por um mês.

28/11/2009

Justifica-se?

O país está em tal estado que se justifica que viaturas oficiais circulem (uma delas, pelo menos) na Avenida da Liberdade com velocidades que a energia necessária para desfazer dois robustos carros alemães revela?
Se se justifica, poder-se-á saber qual a razão?
Ou há apenas a inenarrável menoridade de sempre por detrás disto tudo, como parece decorrer das diferentes versões propagandeadas até ao momento?
Há qualquer coisa que me faz acreditar numa senhora que diz ter sido testemunha do acidente e contou* à SIC o que viu.


*assim que encontrar a reportagem de que falo, colocarei aqui o link.

27/11/2009

Agenda

Este pc não me deixa fazer grande coisa. Faz jus à sua designação inglesista.
Deixasse ele que eu escrevesse algo mais substancial e, mesmo não sendo um procurador de actualidades, ver-se-ia que a espuma dos últimos dias por certo se derramaria por incontáveis linhas.
Antes assim. Que não daria nada de bom.

26/11/2009

Ruas com datas



Porque as tragédias hão-de ser lembradas. E a desta terra foi terrível.

25/11/2009

Os três macacos


Copyright © 2003 David Monniaux in Wikipedia

Talvez o legislador tenha ido buscar aos três macacos sábios a proibição de a contactar com b.
Coisa que, no caso de b não querer ser contactado por a, considerar até isso uma ameaça, se percebe e em que se antevê até uma certa facilidade de ser feita prova de violação e com isso ver-se a condenado a uma qualquer pena.
No caso de existir a presunção de que tanto a como b têm interesse nesse contacto, sujeitar a essa disposição legal (alínea d do nº1 do art 200º do C.P.P.) um arguido é ou não é um rematado disparate?
Um dos macacos, como sabemos, nem quer ver!

21/11/2009

Lições



Ao fim de tantos anos de trabalho, a lição está mais do que aprendida.
Mas o desleixo de uma hora, de um dia, de uma semana...
Abençoados sejam estes senhores.

19/11/2009

Escalas



Não sei se me vou conseguir explicar a escala (há um erro óbvio na graduação) desta "Água Boa" de pH aí pelo 2 e que fazia (e faz) muito bem à pele.
É que um dos lados da escala é volúmico e o outro mássico.
E cada um deles é comparativo. Com água de pêras e água de maçãs. Ou sumo.
E ela usou-a nas pernas. Num varandim mal amanhado.

17/11/2009

Explicar as coisas

Há alturas em que a afirmação conveniente é um insulto intelectual.
Por se julgar que a afirmação razoável conduz ao caos.
Esta presunção é intestável. Seria necessária a velha história da ida por um caminho para medir as consequências e a volta atrás para seguir o caminho alternativo, medir as consequências e comparar.
E depois a História mostra-nos que o caos chega muitas vezes (quase sempre) por outras vias.

Esta coisa de se ir a correr dizer que não há uma relação causa-efeito quando nada se sabe sobre a causa, apenas sobre o "efeito" é o exemplo típico da afirmação presumidamente conveniente.
O politicamente correcto, afinal. Por enquanto.

16/11/2009

Flickr



Uma escolha é hoje assim, amanhã assado.
Até hoje, escolhi estas fotos para colocar no Flickr. Não me comovo com o resultado, já o disse há anos.
Mas é isto o que fui capaz de fazer, de escolher. Não me envaidece nem me envergonha. Sou eu e uma máquina.
Alcochete, 2005

15/11/2009

Tromba d'água

O que eu sempre conheci por tromba d'água é o que se pode ver neste filme de Alessandro Coelho, encontrado no blogue Papo de Meteoro.
Lembro-me de ter visto este fenómeno umas duas ou três vezes em toda a minha vida, ao longe no mar.
Uma chuvada forte e localizada é hoje designada da mesma maneira.
Só que lhe falta a tromba...
Intersecções


fotos de autores alheios a este blogue

Há muito que tinha assinalado as semelhanças.
Não exactamente com esta ou com aquela mas com a intersecção das duas.
Como se fosse neta de duas mulheres da sua idade e de avós placebos.
Esta fotomontagem é feita a partir de fotografias públicas que não são naturalmente da minha autoria.
Apenas me abstenho de revelar a origem para não tornar óbvio quem são as duas mulheres aqui fundidas.
Sem outra pretensão que não seja a de admirar o resultado.

13/11/2009

Interpretar o Direito

Ouvi o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça afirmar que fora reeleito praticamente com os mesmos votos da última eleição. Um décimo a menos, acrescentou. E cito de memória.
Ora é justamente no décimo a menos que está o busílis. A tal interpretação do Direito. E bem sei que as sentenças que o Presidente do STJ profere para os jornalistas não são exactamente aquilo a que se chama sentença judicial passível de ser interpretada assim ou assado.
Mas analisemos.
Trata-se de um décimo de quê?
Se estamos a tratar de uma votação, não se vê que possa ser outra coisa senão de um voto, do número total de votos ou até de um décimo percentual do mesmo número de votos.
Atentemos na primeira hipótese: É pouco crível que um ou mais conselheiros tenham votos com ponderação decimal. Mas suponhamos que um de entre eles em vez de um voto tem nove décimas de voto. E que tendo votado antes em outro candidato, votava agora no Presidente eleito, por troca com outro conselheiro que tendo votado anteriormente em Noronha do Nascimento optou agora por um dos outros candidatos ou pela abstenção. Lá vem a tal décima ou décimo de voto a menos. No entanto, estou em crer que a coisa funciona com um homem um voto e que esta lucubração é basto falaciosa.
A segunda hipótese é ser um décimo do número de votos. Mais coisa menos coisa que os votos, ao que dizem os jornais, foram 65. Isto dá 6 ou 7, consoante se queira arredondar para cima ou para baixo. É válida mas aparentemente contrária à asserção de insignificância dada pelo juiz.
A terceira hipótese encalha no mesmo problema da primeira. É que um décimo percentual, ou seja um por mil do número de votos que são, relembro, 65, dá 0,065 votos. Pior um pouco do que uma décima.
Restam duas hipóteses, não mencionadas: a de o juiz estar a ironizar, o que é também plausível, e uma outra que não identifico mas que é fácil de alcançar.

11/11/2009

Às onze e onze* do dia onze do mês onze

Há qualquer coisa que faz com que me sinta compelido a ir visitar este local.


imagem desta página


*os 11 minutos a mais foram acrescentados pela minha cabeça este ano.

10/11/2009

Paris, il y a vingt ans



O processo de "recuperação" desta fotografia de uma árvore de folha perene que estava mesmo em frente à janela do meu quarto, remete para as metáforas da memória de que a literatura e a poesia estão cheias.
Sou mais prosaico. Gostava de a recuperar em condições. Até à memória, afinal.

09/11/2009

Há 20 anos



Este jornal, comprado em Londres no início do ano, dava a ideia de que a História teria factos relevantes a curto trecho.
O final desse ano foi alucinante.
A tarde e a noite de 9 de Novembro fizemo-las, eu e um velho companheiro de lutas, entre Barcelona e Paris, com um rádio a pilhas pendurado no espelho de um Renault 5, a ouvir as notícias com imensa interferência, como se deve calcular.
Ainda nos passou pela cabeça virar à direita, mas sem passaportes, seria difícil - impossível - chegar à História.
Na noite de dia 10, São Martinho para quem o comemorasse e com festa na André de Gouveia, onde estávamos aquartelados, foi na Praça do Pigalle que sentimos o espírito da coisa.
O exemplar do "Le Monde" desse dia guardo-o em qualquer lado. Por aí.

07/11/2009

Pormenores

Ouvi ao fim da manhã a notícia de que um desabamento de um túnel em construção em Andorra tinha vitimado trabalhadores portugueses.
Imaginei a coisa - uma galeria a ser escavada que por qualquer razão se desmoronou.
Já de noite, depois de ter ouvido várias vezes falar em túnel e de gente encurralada no túnel, vi finalmente imagens da cedência de uma estrutura a céu aberto que estava a ser betonada, ao que parece.
É certo que se incluía, como estrutura anexa, na abertura de um túnel. Mas nada ali se passa dentro de um túnel. É ver as imagens.
Coisa vulgar esta. A de um jornalista não perceber uma imagem que tem à frente.
A responsabilidade e a culpa são de

Pessoas capazes como as que ouço neste momento na SICN:
Henrique Medina Carreira
João Duque
Nuno Crato
Que deviam empurrar o lixo intelectual que por aí anda para o sítio indicado.
É de gente desta que precisamos para ocupar o lugar dos incapazes que nos têm governado, com raras excepções, nas últimas décadas.
Ainda que o tom pessimista de Medina Carreira assuste muita gente. Sucede que diz verdades como punhos.
Se gente desta não se chegar à frente, continuaremos a ter primeiros-ministros que dizem na AR não haver problema porque as perdas do Estado são cobertas pelo... Estado!
É o clima


imagem adaptada do Google Maps

Andava com o Sporting atravessado na garganta das teclas há demasiado tempo.
Nem sequer a sondagem caça-moedas de há dias me fez rir.
Se há um problema com o relvado de Alvalade, e é claro que há; se há um problema com a desorientação da equipa, e é claro que há; se há, ou havia um problema que se revelava na expressão facial de Paulo Bento na maioria das vezes em que o focavam no banco, e era claro que havia.
Se há tudo isso, sendo claro que era (e será, para mal dos pecados dos sportinguistas) tudo isso verificável, alvitro que a questão é climática.
O centro de altas pressões que se instalou sobre o estádio, matou o relvado à míngua de água, actuou sobre as amígdalas cerebrais dos jogadores, comprimiu os pontos na respectiva tabela e, mais do que tudo, provocou a confusão lexical entre banco e banco. Entre reservas e reservas.
E, pelos vistos, dilatou o tempo. Ouvi falar em quatro meses.
Na minha opinião nada disto é novo. Infelizmente.
São exigidas alterações climáticas. Sem mais delongas.

06/11/2009

Quem é que irá entregar os presentes?


(com a devida vénia ao escultor Aureliano Aguiar)

A serem verdade os rumores que correm já há dias sobre a prisão preventiva do Pai Natal, quem irá distribuir os presentes nessa noite?

05/11/2009

No corredor de Juliette

E eis que o homem esperava.
Não que pudesse dizer que à sua frente tinha um corredor vazio. E uma porta para outro mundo lá no fim.
Havia um Eurico mais abatido, menos dono do lugar, acompanhado de sombras.
Como que inversamente proporcional à preocupação do homem, em função de Eurico.
E eis que ela surge, lá do fundo, macilenta e terrivelmente bela, de olhar quase cego.
O homem continuou a esperar.
Eurico II e as suas sombras internaram-se no corredor.
O homem continuou a esperar.
Deu-se conta de que ela estava ao balcão da secretaria. Nas suas costas.
Quis saber-lhe o nome, rever-lhe a face, saber que mal a trazia ali.
Tudo isso soube, enquanto esperava. Uma voz off encarregou-se de tal.
E viu, alarmado*, ela visá-lo numa entrevolta.
Afinal encontrou Juliette no dia aprazado. Longe de festivais de cinema.
Talvez à beira do fim.

*Compreendo o homem. Na minha bitola, Juliette é uma das mais sublimes fêmeas da espécie.

Nota acrescentada em 6 de Novembro, cerca das 10:15:
Confrontado com a leitura do post, o homem fez notar duas coisas:
Apesar de ter ouvido a publicidade ao Festival, ignorava que Juliette fizesse a sua aparição no dia 5.
Durante o tempo em que a cena se desenrolou conservava nas mãos um exemplar de "Viagem para além da morte" (The Fabulous Riverboat, de Philip José Farmer) e logo depois Sam Clemens - ele disse Mark Twain - avistava numa das margens a sua morta-viva-morta querida Livy.
Fez ainda saber que tinha lido aqui o parágrafo em que eu dizia há uns tempos que cada um constrói as coincidências que quer.
As minhas palavras foram outras mas o sentido é esse, de facto.

04/11/2009

Atraso

Diz o Director-Geral da Saúde, pessoa pela qual tenho respeito intelectual, que se conseguiu atrasar a propagação da epidemia e com isso ganhar o tempo suficiente para se ter uma vacina em tempo útil.
Estou ciente de que o papel dele está num plano acima do científico, que é político e de controle da situação.
O mesmo reconheceu o Prof. Alexandre Quintanilha num programa da RTP N para o qual convidou aquele.
Passemos adiante a questão da vacina vir ou não em tempo útil para o comum dos cidadãos, cujo risco de saúde não esteja identificado e que não seja considerado imprescindível lá por um certo critério (contrário ao dos cemitérios cheios de insubstituíveis).
Atentemos portanto apenas na afirmação de que se conseguiu atrasar a propagação.
Para termos um atraso, seja no que fôr, temos que ter antes de tudo um tempo-padrão. Uma referência.
Um comboio atrasa-se face ao horário de todos os dias.
Uma pessoa atrasa-se face ao combinado.
Um relógio atrasa-se face à hora legal.
Ora referência é justamente coisa que não temos.
Como em muitos aspectos da vida, há uma tendência para se pensar que há mais do que uma opção no caminho da vida, como se se pudesse percorrer um em opção, medir as consequências, voltar atrás, percorrer o outro, medir as consequências e comparar (pode ser um mero atraso).
E essa tendência nada tem de científico embora se possa usar em determinados papéis políticos porque de facto funciona como argumento.
É o caso aqui. Faz algum sentido que se digam coisas que confortem o público. Ainda que essas coisas não façam sentido nenhum. Mas isso é coisa de que o público raramente se apercebe.
Não havendo referência, não se sabendo de que forma e com que rapidez se propaga um vírus numa variante só identificada agora, apenas se pode pensar que algumas medidas tomadas, aqui e ali, poderiam em abstracto ter constituído obstáculo à propagação.
Mas quais? E tomadas onde?
E o que se finou foi...



O dito. E com ele o acesso a quase todo o software.
Estou assim com serviços mínimos, graças à opção dois discos, dois sistemas. Sendo que o disco de reserva tem muito pouca capacidade.
Naturalmente que o blogue vai sofrer algumas consequências do facto até haver novo disco. Um dia destes.

01/11/2009

Belfast, 2009


fotografia de Mr. Gaston Smith, correspondente do HGU no Ulster

29/10/2009

Moço da minha idade


desenho de Uderzo encontrado aqui.

Em tempos, dizia-se por aqui, vou ver se o Astérix está no sítio. Era uma maneira de se dizer que se ia dar uma volta ao bilhar grande.
Nesse tempo isto era a Gália. E nenhum de nós, nem mesmo ele, tinha 50 anos.
As saboneteiras de ilusão



Intriga-me a frequência com que os Gato Fedorento andam a contar piadas nos meus sonhos.
E aborrece-me.
Desta vez, vi-me livre deles numa espécie de sessão de autógrafos numa ampla livraria, livros novos e usados, ali para o jardim da Amadora.
Aproveitei para me raspar a seguir à passagem, por entre a porta e as ilhargas da primeira fila de estantes, de um Opel Rekord modelo de 53, numa repintura em RAL 6019 e antes da disputa entre um Fiat 1800, de 1959, RAL 5024 e uma das minhas aspirações adolescentes, a Peugeot 204 dos meados de 70, no inevitável RAL 7038, disputa travada no encalço do Opel.
Devo dizer, em abono da verdade, que a ser marcada falta, seria à 204 que pretendeu varrer, em carrinha, o 1800. Pode sempre dizer-se que isto sou eu a querer mostrar imparcialidade.
Ou que considero a 204 uma fera capaz de todas as proezas.
Qualquer das duas pode ser verdadeira.
Mas isso é tudo de somenos face ao que se seguiu.
Dei pela falta dos meus amigos J.d’ e P.P.. Procurei, procurei, procurei e nada. Os outros dois inidentificáveis que comigo estavam repetiram o diagnóstico – esvaecimento total e completo de ambos.
Foi bastante mais tarde que soube, da boca dos próprios, a verdade. Ao fundo da livraria havia uma porta dissimulada atrás de uma estante. Por essa porta acedia-se a uma cave, onde decorreu o bródio comemorativo. Estando eles integrados na comitiva...
Esclarecidas as coisas, regressado o P.P. aos seus chaparros, eu e o J.d’ fomos parar a uma camarata onde pernoitávamos, à cautela.
Foi então que ao abrir o armário comum a uma fiada de camas, que não passava de um ficheiro desses de escritório pré-computação, encontrei a minha gaveta cheia do que pareciam ser embalagens de fusíveis de automóvel.
Pensei estar com a gaveta trocada e abri a de cima.
Nela entrevi um saco de plástico transparente com três saboneteiras em kit, para montar.
Uma preta, uma verde e uma assim cor de areia. De areia amarela, como se diz nas obras.
Para não dar parte de ser parte, ou talvez para não escolher a verde face ao meu velho amigo que já diria cansado de ser benfiquista, escolhi a preta.
Ele foi pela amarelenta.
Não sei qual dos dois montou primeiro a respectiva saboneteira.
Saboneteira?
Aquilo era uma bota de borracha, tamanho infantil. E ainda por cima azul. Ultramarino. Ou para aí.
Ocorreu-me muito depois – já acordado - uma relação com o Tahiti duche. Por causa da cor e das rodelas tipo Lego.


O desenho acima ilustra um corte do esquema de montagem das ditas, mostrando o encaixe de um dos pinos, nas três cores disponíveis e a incrível bota de criança que se obtinha no fim.

28/10/2009

Morte natural

Não faço a menor ideia de quais foram as declarações do responsável do INML que deram origem às notícias que diziam ter morrido de morte natural o rapaz que jogava basquetebol na Ovarense.
Nelas, notícias, se diz que são resultados preliminares da autópsia.

Ponho-me aqui a conjecturar sobre o que significa natural ou por causas naturais neste contexto.
Significará normal, esperável, estatisticamente dentro da curva?
Aparentemente, não.
É aquela morte que resulta de doença e não de intervenção externa.
Sabemos assim, pelas ditas notícias, que o rapaz não foi vítima de um acidente, sentado que estava ao que parece no banco do balneário. Nem foi assassinado.
É esta a notícia.

26/10/2009

Juízo de intenção

Há uma intonação qualquer num “Vossa Excelência” proferido hoje solenemente por Sócrates e referido ao Presidente que me deixa algo preocupado.
adenda às 22:05 de 27 OUT. - Aos 12:15 do discurso de tomada de posse. Parece-me agora menos dissonante do que ontem.
A gripe

Escrevi aqui há tempos – no início da coisa - que o mais difícil no que respeitava ao tratamento dos dados recolhidos durante a epidemia seria encontrar factores de correcção para que tivessem algum tipo de utilidade futura. Caso ela exista.
Depois, no campo político do controlo da doença, o que se está a verificar de resistência à vacinação será com toda a certeza irrelevante no caso de uma peste mortífera.
Num caso tal, os atropelos serão para aceder à vacina e não para a recusar, naturalmente.
Não deixa porém de ter um significado curioso, não a cedência da vez mas a recusa pura e simples de ser vacinado.
Para um leigo na matéria e arriscando colocar o pé em ramo verde, ainda assim me parece que uma vacina deve ter um efeito de contenção da carga viral no indivíduo vacinado.
E que esse efeito de contenção, impedindo ou dificultando a replicação do vírus no indivíduo, reduz por sua vez a possibilidade deste contaminar outrem.
Não é como o caso do cinto de segurança em que a probabilidade de prejudicar terceiros de forma irreparável por não o utilizar, é despicienda.
Ouvi dizer que uma vacina, por ser um acto médico, não pode ser imposta.
Claro que a coacção em assuntos de propagação de doenças é uma velha história que se assemelha à quadratura do círculo. Mas há um limite subjectivo no índice de mortalidade de uma epidemia a partir do qual se torna obrigatório obrigar. Ou não há? Quantas vacinas obrigatórias não existiram já?
Bem sei que não é este o caso e que, como disse acima, sendo a coisa muito mais mortal não é preciso obrigar ninguém.
O problema é na zona cinzenta.

25/10/2009

Caça-moedismo


imagem da SICN

E lógica jornalística. Quatro por cento.
Lógica jornalística


imagem da SICN

E caça-moedismo.
Hora legal

Nunca mais pensei no assunto até há bocado.
Da forma como a justiça funciona, com a qualidade intelectual com que está servida, não admirará se um dia destes alguém usar (se é que não o fez já) um alibi horário para se safar de uma condenação. De um crime horrendo, já agora.
Há ene histórias de baralhadas jurídicas com a hora legal e alguma literatura sobre.
Eu é que ainda não sei a resposta à pergunta que me ocorreu há um ano.
Ignorância minha.

22/10/2009

Provavelmente

Estou a ficar senil.
Pode ser que sim.
É que não me deixou de me fazer confusão ouvir na televisão e da boca de mais do que uma pessoa, sempre com ar de crítica negativa, que José Sócrates escolheu os que pensam como ele.
Seria talvez mais aconselhável ter escolhido para o governo do País aqueles que com ele não concordam?!!!

20/10/2009

Indústria

Já o disse aqui. De outra forma.
Ouvir um filiado no PCP queixar-se da destruição do tecido industrial português é algo que me impede de o levar a sério. A partir desse exacto momento.
No caso foi o Doutor Carvalho da Silva. Na SICN, a Mário Crespo.
Disse ainda que os quadros fugiam do país, segundo as notícias dos últimos dias.
Todos sabemos que isso não é fenómeno novo.
Pergunto-me quantos o fazem para não terem que lidar com tanta mediocridade, com tanta gente estúpida em cargos de responsabilidade.
Conheço quem diga que o fez só por isso. Mas isso é irrelevante e subjectivo. Daí perguntar-me qual será a percentagem dos que o fazem por essa razão.

18/10/2009

Sou tão* velho como um Telejornal


imagem da RTP

*um pouco mais, a bem da verdade