08/08/2004

Chuvas de verão

Não é o cheiro da terra molhada que recordo, esse reservo-o para os inícios do Outono, para as tardinhas em que os que caçavam reconheciam perdizes e falavam de lebres agachadas.
Não é o piso de manteiga, esse reservo-o para a memória das lições que recebia do meu tio, ainda mal chegava aos pedais do faruque.
Não são as goteiras nos toldos das esplanadas, essas reservo-as para as vilegiaturas tardias em cafés desertos.
Não é a torrente barrenta entre seixos que descia pelo largo, essa reservo-a para alturas da feira de Castro.
Sempre que chove no verão, sempre que chove no meu verão, vêm-me à memória cordas e aprestos de barcos, o defunto pontal de Sines e banhos de água cadente, dentro ou fora das ondas da praia Vasco da Gama.
Sempre que chove no meu verão, vejo as lentas gotas escorrendo da nespereira em frente da janela, ou a cor húmida das flores avistadas pelos postigos da cozinha.
Nada disso existe mais.



imagem do IEP
O esperto

O esperto é fácil de identificar quando se sente em inferioridade.
Depois de debitar os habituais lugares-comuns sobre a esperteza saloia dos outros, destrunfa.
Se, à medida que carteia valetes e damas, sente o adversário inabalado e talvez inabalável, muda o rumo do jogo e já só pensa em narrar episódios de jogos que só ele jogou.
Aqui, normalmente, recebe telefonemas imaginários. De toda a sorte de figuras e figurões.
Vê-se que fez algum trabalho de casa. As pessoas com quem fala através de ligações que só ele conhece, são quase todas identificáveis pelo interlocutor. Nada de detalhes óbvios.
Depois vangloria-se de coisas que ele mesmo acha normais.
Depois queixa-se insustentadamente.
Quando sai de cena, na dele glória, vai em cima da caixa de carga de um veículo próprio. O volume que se distingue na algibeira da camisa é o livro de cheques, claro. Volumoso? Sim. Recheado de notas gordas.
Notas de rodapé, digo eu.
E dia de tempo urbano


Dia de tempo antigo


06/08/2004

As reacções

Seja lá pelo que fôr.
Seja pela universidade do disparate, que cada vez tem mais discípulos assíduos.
Seja pela pressão da imprensa, cada vez mais intensa e em todo o campo.
A verdade é que as reacções aos acontecimentos, sejam eles acidentais ou intencionais, sejam palavras ou actos, são normalmente de um teor em disparate muito maior do que os acontecimentos que as motivam.
Até quando reagem a algo que nunca aconteceu. E isso é o que não falta.
Zambujeira

Memória balnear de há 72 anos.
O cavaleiro na falésia.
As casas do lugar couberam todas na fotografia.

03/08/2004

Equinócios, doutores e a vida no campo

Deve haver aqui um pequeno equinócio - remata muitas vezes assim um velho amigo.
Mais pelo gosto de ser equívoco do que pela metáfora de um de trevas para um de luz.
Nos dias que correm, a nova urbanidade traz-nos os mais diversos exemplos de distância em relação à observação simples das coisas simples.
A distância em relação a uma certa escala de observação, dita humana. Ou, para outros, primitiva.
A escala em que se observa o nascimento de um borrego, sem cuidar de veterinária ou de biologia.
A escala onde se percebe que o leite não se fabrica nos supermercados, sem cuidar de marketing ou de economia.
Uma das coisas que me levou hoje a escrever este post foi ter constatado que, para um número de pessoas muito superior ao por mim esperado, a propósito de certa conversa, os dias de Agosto não são sucessivamente mais pequenos.
Que, segundo as mesmas pessoas, toda a gente sabe que os dias só começam a ser mais pequenos a partir de Setembro (do equinócio, portanto).
Há aqui duas coisas que concorrem para o erro.
A primeira é o esquecimento das mais básicas instruções sobre o ciclo solar anual, que nos foram ministradas nos anos mais remotos de escola.
A segunda é a completa inobservação das coisas simples.

Em tempos, numa daquelas situações em que ouvimos falar sucessivamente de alguém e nos encontramos inúmeras vezes na iminência de o conhecer sem que tal acabe por acontecer, era de um investigador que me falavam. Amigo e colega das pessoas que assim o anunciavam.
Sem conhecer a pessoa, ficou-me apenas um aspecto que adrede era mencionado. Que, no meio dos dados experimentais que recolhia, não se dava conta da absurdidade dos mesmos.
E a justificação que, em seguida, davam para o facto era a de que já não tinha os pés na terra.

O que me leva para a dita terra, para o campo, onde ainda encontro a atenta observação das coisas simples.
E a sua interpretação, a uma dada escala.
Talvez por as variáveis em observação serem poucas, talvez por os dados apresentarem pequena dispersão em relação ao esperado, numa curva que já está atavicamente presente no espírito de cada um, haja poucas surpresas.
E, quando existem, a essa escala, há sempre teses para as explicar. Mais ou menos razoáveis.
Basicamente, ninguém se surpreende ou se comove como acontece na urbanidade desenraizada.
E também se erra menos.

31/07/2004

A estrada do sul



Em tempos, esta teria sido a altura de rumar ao sul. Em outros tempos ainda mais longínquos, ainda faltaria um mês.
Em tempos, cumprir-se-ia o ritual da pré-travessia em Belém ou no Cata-que-Farás.
Esperar na fila. Mais dois ferries e é a nossa vez.
Depois, as manobras devidamente comandadas para encaixar a viatura no meio dos camiões.
Se era dia de águas agitadas, o mais certo era presenciar um encosto e um espelho partido. E os habituais lamentos.
Uma vez de novo em terra, era ir pela E.N.10 passando pelas terreolas de casinhas baixas até se entrar em estrada aberta, depois do Fogueteiro, e pouco depois se avistar a chama no topo das chaminés dos altos fornos.
Depois havia o entroncamento de Coina, com a respectiva bomba de gasolina e uns armazéns.
Seguiam-se as terras de Azeitão. O café da bifurcação, as caves, a garagem da João Cândido Belo, a subida em recta da serra, a capela lá no alto, e a descida em curvas até se passar pela fonte e se entrar numa sequência de rectas até à cidade do Sado.
Lá estava a Boîte, em grandes letras, à entrada.
Trajecto pelo centro e passagem sob a linha do Sado, praça de touros à direita e já se saía.
Depois, no lugar das Pontes, umas quantas casas e novamente a estrada.
Águas de Moura. Bomba de gasolina com belos arcos em betão e ponte da Marateca.
E.N. 5. Rectas e condado de Palma.
Mais rectas e a várzea do arroz. Sobe-se para Alcácer e desce-se para lá entrar.
Café Sado. A ponte cujo mecanismo levadiço parecia já não funcionar.
E.N. 120. Depois a recta de todos os perigos. Bermas de areia, pinheiros rentes. Muito antes do Chinita e de quaisquer outros pontos de paragem.
Em Grândola, depois da primeira curva em vinte e tal quilómetros, o depósito da água e o Paraíso do Alentejo com as suas bombas de gasolina, que ainda lá estão.
Na 259, ainda se passava por Canal Caveira, também muito antes do cozido aparecer num pátio improvisado, e caso a passagem de nível estivesse fechada, lá se fazia o corta-mato por debaixo da ponte ferroviária, rentinho ao encontro. Barro seco no leito estival.
Mas de Grândola em diante, já era o deserto. Raro era encontrar outro carro na estrada.

Mais uns dois ou três dias e já torrava ao sol. Em praias desertas.

Com os anos, com a ponte, com o aumento do tráfego, as novas rotas desertas de fugir aos engarrafamentos.
Depois da 264 chegar ao Algarve, depois de chegar também a Ourique.
Depois de todas as variantes, depois do velho sonho, tantas vezes ouvido nesses tempos, da ponte do Montijo, depois da auto-estrada finalmente ter passado o cabo das Tormentas, ironicamente chegando aos meus sítios, cinco dias depois do meu adeus, já não vou.
Já não vou para sul.

imagem de

30/07/2004

A mulher-cobra



Ainda me vejo naquela tenda com Miss Maura (tambores) a deixar-se conhecer assim que descerraram a caixa onde habita.
Não me recordo se Miss Maura (exclamações) disse do que se alimentava.
Recordo-me do turbante violeta de Miss Maura (suspiros).
Ainda me vejo a tentar perceber se alguém se convencia da sua maldição.
Soube que uma mulher vagamente parecida com Miss Maura comprara uma caixa de Omo lá na loja.

imagem conseguida depois de roubar partes aqui, ali e acolá

28/07/2004

O jornalismo especial de corrida

O jornalismo especial de corrida é aquela variante em que o jornalista corre atrás da notícia, para um lado qualquer do país, fora do seu mapa mental.
Quando lá chega, não sabe onde está.
Aí, começa a reportagem. Os exemplos são diários.
Tome-se o caso do incêndio de São Barnabé. Depois de ter passado a fronteira dos reinos, o que fez ainda na segunda-feira, passou a ser dois.
Um em Almodôvar, outro em Loulé. Depois tão depressa volta a ser um como dois de novo.
Até no site do SNBPC, parece que são dois.
Ninguém nesta terra saberá interpretar uma carta?

(actualizado às 10:25 de 29/07/04 - o último comunicado do SNBPC, de 28/07/04, 19:20, ainda não acessível na rede quando este post foi escrito, já refere um só incêndio)

27/07/2004

O Inferno (ainda)

Era para escrever sobre o que vi hoje, pela madrugada, entre serras.
Mas face a tanto disparate, lido e ouvido, guardo-me para tempos mais serenos.
Era uma visão dos infernos.


Posto de vigia do Mu
Perto da visão do inferno



Gasolim às voltas

25/07/2004

Lenda ou não, aqui ou ali

865 anos se passaram, desde o dia 25 de Julho de 1139. Com os devidos ajustes, é certo.



Andando entre montados e carrascos, onde sinais desses tantos anos poucos há, como se tudo estivesse em tempo de cónios, romanos ou árabes, só me acode Sá de Miranda:

Que farei quando tudo arde?

Inda que o fogo tenha em todos esses séculos sido o exutor das pragas, o guardião final. Haja memória. Mesmo que Portugal esteja no fim.

24/07/2004

A roda (fragmentos da silly season)



Pois não sei. Não sei que diga...
Eu cá digo e torno a dizer que ele não conhecia a roda.
A roda... A roda, talvez não. Mas coisas parecidas conhecia com certeza. Então a Terra não é uma bola?
É. Mas não é uma roda.
Mas roda. Vai rodando. É ver o sol nascendo e pondo-se.
Pois. Mas não é bem roda. Roda de andar. Uma bola sempre rebola.
Andamos de reboleta então...
A terra não é uma roda.
Não é, mas parece-se.
Mas se ele conhecesse a roda, havia de haver animais com rodas.
Mas andam na mesma, ou não?
Andam. Mas se tivessem rodas, andavam mais depressa.
Será que sim? E seria preciso isso para quê? Não dava jeito para subir escadas...
Não sei, mas olha lá... Há animais com asas, não há? Só depois é que se inventaram as asas dos aviões. Há animais com barbatanas que nadam e flutuam, não há? Só depois é que se inventaram os barcos e as barbatanas para os homens. Então porque é que ele deixou inventar a roda primeiro e não fez logo animais com rodas?
Ah, pois isso não sei.
Mas sei eu. É porque não conhecia a roda.

Leituras recomendadas:

Ezequiel 1:15
Chicago Chronicle, May 27, 1999, Vol. 18 No. 17
ABC online, Dr. Karl S. Kruszelnicki, Great Moments in Science, 17 June, 1999
ABC online, Dr. Karl S. Kruszelnicki, Great Moments in Science, 24 June, 1999


imagem de
Um carradão de areia



imagem de satélite em