16/07/2005

Godot, seria dele?

Provavelmente, não.
O caso é que, quando aparentemente se sentava naquela cadeira, não faltavam as vozes em redor, dando palpites.
O velho, o rapaz e o burro parado.
E nada nas vozes fazia sentido.

15/07/2005

Restos de colecção (37)

À espera do ferry


foto de Celestino Teixeira in "A ponte Salazar", GPST, Lx, Julho de 1966

14/07/2005

Don Manolo

Diziam os mentideros que o homem não suportava nem o vento nem o sustento vindos do lado de lá.
Que teria até certa vez dado valente piparote num prato do qual comia com gosto, ao sabê-lo castelhano.
Pois hoje traçaram-me um quadro das zonas raianas que é muito pouco animador.
Mostraram-me até onde vem a atracção de Badajoz. Até onde chega a influência de Valência de Alcântara. E como vão os negócios portugueses em tais zonas.
O quadro, como disse, é muito pouco animador.
E o pior. O homem não só já vai a Espanha, como é por lá demais conhecido como Don Manolo. E gosta.


imagem em http://home.fmh.utl.pt/~al07833/Clavas.html

12/07/2005

12 de Julho de 1998

Não. Não vi o Brasil perder.
Pois calha mal

Ver e ouvir alguém que supõe estar a construir ou a demonstrar uma teoria, ostentar um sorriso alvar e debitar argumentos em borbotão.
De convencido que está que a poesia e as lindas palavras são ciência.
Lisboa, 1981

11/07/2005

Afinal

Parece que, antes do zunzum, saiu logo a notícia.
O céu estrelado, a rotunda e a ponte sobre o Nada

Não tenho nada contra.
Não posso ter nada contra, digo-me.
Cada um que tenha céus estrelados, rotundas e pontes sobre o Nada.
Eu próprio tenho as minhas bizarrias. E não serão poucas.
Todos as temos, digo já a desculpar-me.
Lindo céu de carpélio azul pois celeste ponteado por miríades de pequenas lâmpadas de Natal.
No tecto. Do bar. Em casa. No sótão.
Nada contra.
A rotunda que possibilita aos visitantes, no meio do mato, uma fácil inversão do sentido de marcha.
A ponte que replica, numa confusão de escalas diferentes, a outra. A grande. Terá um vão central dos seus 15 m, digo eu. Pareceram-me as fixações do tabuleiro no limite do cálculo. Talvez me tenha enganado. A acção do vento pareceu-me igualmente mal avaliada. Talvez me tenha enganado.
Esta coisa de inspeccionar a pedido esferas, digo planos inclinados, celestes, rotundas e pontes suspensas tem que acabar.
Mas não tenho nada contra. Não posso ter.
Uma ponte sob a qual se não nada, no Baixo Nada.

10/07/2005

La force tranquille



A ser verdade o que hoje se diz nos noticiários, a ser verdade o que foi dito por alguém que deve saber do que fala, a ser verdade aquilo que há muito suspeitávamos, fica mais uma vez bem visível uma fenda na suposta coerência dalguns que tanto clamam pela coerência alheia.
É que o mundo é assim mesmo.

imagem daqui
Na recta final PUB

09/07/2005

Falta de Loos

Boatos

Sem falar nos boatos que têm interesses obscuros e mesquinhos, que desses não cabe aqui menção, há depois aqueles que apenas resultam da má transmissão, da má recepção, da imaginação fértil ou duvidosa do esconfique...

O esconfique é uma nascente abundante de boataria.
Resulta de uma leitura preconceituosa dos sinais. Que pode bem ser inocente. Nada maldosa. Às vezes até com alguma preocupação com terceiros.

Esconfique que vai nascer por aí mais um boato.
As condições estão reunidas. Depois não digam que eu não avisei.
E não. Não põe em causa o bom nome, a reputação de ninguém.

07/07/2005

Guerra

Suponho que esta guerra terá desenvolvimentos mais notórios agora, do que teve após 11 de Março do ano passado.
Espólio (10)

Um falso pilar


Espólio Campos Vilhena - foto de MSS

06/07/2005

Definitivamente

Os bairros com trinta anos têm um cheiro que se assemelha.
Que é diferente do dos bairros com cinquenta.
E dos de que têm quarenta, vinte ou sessenta.
Cada época rescende de sua maneira.
Ou lá tresanda.

05/07/2005

La nuit



Não me interpretem mal. O facto é que a moça caiu do céu.
Era daquelas mulheres que não suscitava indiferença. Não era capa de revista. Era apenas portadora daquela terrível volta na ponta que, para os homens, se torna difícil de definir.
Não sei já bem quando a conheci. Creio que terá sido na rua, tropecei nela quando a minha companhia se deteve para a cumprimentar.
Eram então colegas. A conversa foi por aí, teses, aulas, pedras na engrenagem. O mais possível longe da possibilidade de eu dizer o que quer que fosse. O que me deu tempo para lhe apreciar os gestos, a desenvoltura.
Julgo que no encontro seguinte, igualmente fortuito, lhe oferecemos boleia até Lisboa.
Dizem que os taxistas são bons confessores porque se encontram de costas para quem com eles desabafa. Não sei se foi o caso.
Mas ela perguntou-me, lá do banco de trás, se eu já não fazia noitadas.
Explicou-se depois.
Que, durante anos, ela e eu partilhámos a noite. Ela sabendo que a partilhava com alguém. Eu de nada sabendo.
Via da janela dela, em outro ponto da vila, a luz da minha. Imaginava quem seria a pessoa que teimava em atravessar a noite, acompanhando-a. Eu, pela localização da janela dela, não me apercebia da luz. Era num ângulo para o qual nunca olhava.
Aliás, a janela pela qual observava o mundo, era do lado oposto do prédio. Dali distinguia milhares de luzes, aviões pairando, carros a circular, comboios tardios, sem que me fixasse num ponto em especial.
Mas era do outro lado que era observado. Sem disso dar conta. Eu não. A luz que mantinha acesa.
Nunca lhe perguntei como ela ligara o nome à pessoa, digo à luz na janela.