10/01/2006

O banco Josefina e o mais que se não sabe

Para termos, enquanto leigos, uma noção da imprecisão da ciência que estuda os fenómenos sísmicos, basta que nos socorramos dos dados disponíveis no IM e no IGN de Espanha, a propósito da actual crise no banco Josefina.
Estamos em presença de dados recolhidos nas diferentes estações da Península, eventualmente com instrumentos nem sempre iguais e talvez tratados de forma diferente.
E a verdade é que as discrepâncias são notórias.
O cálculo da magnitude de um sismo é uma função de variáveis pouco precisas, sabemos isso.
Mas a disparidade entre a série de valores que um e outro apresentam para a magnitude e coordenadas dos epicentros, sendo que a primeira depende das segundas, mostra que ainda estamos longe de poder avaliar com rigor este tipo de fenómenos.
E claro, os critérios de acompanhamento parecem ser bem diferentes. Basta atentar ao número de sismos constantes de uma e de outra lista.

comparação das listas actualizada às 14:00 de 11 Jan.
Ameaços, como diria VdB*

É só o que nos fazem.
Já não bastam os categorizados, ilustres e iluminadíssimos dirigentes com que contamos e as suas brilhantes medidas.
Que não atam nem desatam, só ameaçam fazê-lo. Mais atar do que desatar.
Não bastam os inenarráveis representantes das diversas corporações, em bicos de pés, ai que me tiram as alcavalas e não sei quê do interesse nacional.
Todos os interessezinhos corporativos são, é claro, e cada um por si, o espeque, o esteio da Pátria. Ameaças de greve.
Ai o meu subsílio. Ameaças de cortar estradas.

Com todas estas ameaças, as ridículas e as muito ridículas, não admira que também o que não é humano nos ameace mas não ataque.

Lembrei-me hoje da Glória e da sua falha. Ameaçou e falhou.
Era lá longe.
Agora, é a Josefina que nos mostra os dentes arreganhados ou as pacíficas aves de arribação que nos prometem as asas da morte.
Só ameaças.
Uma coisa a sério, um 1755 daqueles, não há meio de vir.

*VdB era holandês. Não dizia nada ameaços nem ameaçador. Dizia sim amaciador. Tinha razão.

01/01/2006

Ainda a marcha Radetsky

A criadagem ainda não compreendeu que certas coisas têm dia e hora.
Um post repetido de Ano Novo



"Como não teve réplica, saiu. Para a morrinha cinzenta que preenchia as ruas de gotas lentas e mornas.
Escolheu ao acaso uma direcção e teimou com a humidade que quase lhe apagava o prazer de uma cigarrada.
Ao atravessar a ponte sobre o canal, viu aparecer o Rodrigues a correr esbaforido, trazendo atrelada uma moça alta, tão alta como ele, que era um homem alto, e que lhe berrou, escolhendo-o para confessor:
- Roubei a mulher ao morto!
João, ainda que momentâneamente surpreendido, absolveu de imediato o seu velho conhecido:
- Não lhe vai fazer grande falta!
Rodrigues nem se detivera.
João nem sequer sabia quem eram o morto e respectiva viúva mas tinha a certeza que o Rodrigues já era casado.
Todavia, resolveu inverter a marcha, temendo encontrar-se com a família do morto, pois já se considerava cúmplice dos fugitivos.
Optou por recolher-se da chuva na Sociedade Recreativa, onde se foi anichar a um canto. Perto, uma grande janela dava para um pátio calçado de seixos onde a humidade azulbrilhava sobre as pedras. Aí ficou, lendo o jornal da antevéspera, fumando muito sobre sucessivas chávenas de café e olhando o que restava da tarde através de cálices de medronho."

SG, inéditos