Meia Nalga
E digo mais, há uma coisa que não te desculpo.
É teres ido assim (és o terceiro a que assinalo a partida desde que abri este placarde electrónico) e assim privares-nos entre outras coisas de repetir o que só tu dizias com piada e genuinidade.
No Meia Nalga ou na tasca da estação. No restaurante de todos os dias frango ou no bar do hotel onde estava a tal gaja a quem ensaiavas discursos.
Nunca se ficará a saber a verdade sobre a cozinheira do Sebastião. Essa é que é essa.
E desconfio que a cama da velha não chegou a ser arranjada.
E que a tua cadela continua retratada com orelhas de burro no "Cuidado com o cão!"
Porra pá!
08/03/2006
De ferro
Já não sei ao certo se aqui postei algo sobre ti.
Nem sequer há uma vaga menção no post da barrilada à tua repetida exclamação :"É só comédias! É só comédias!"
Nem sequer aqui verti em tipos o timbre da tua mulher imitado pelo R.C. quando adormeceste à mesa do jantar.
Nem te descobri o ponto fraco quando pedias: "Falem-me de gajas que eu pago copos!"
Na verdade, fomos uns amigos bizarros. Amigos próximos em épocas muito espaçadas no tempo. Durante cerca de 40 anos, tivemos épocas de todos os dias bebermos juntos o café. Depois uma década sem nos cruzarmos, talvez.
Esta última aproximação, um mês de Algarve, a trabalhar um porradão de horas por dia, deu para muita conversa.
No verão seguinte, ajudaste-me a esvaziar as memórias do casarão. Dei-te o frigorífico que me pediste.
Um destes meses, sonhei que andávamos ambos à volta de uma espécie de café manhoso, de planta trapezoidal, num bairro de casas sem reboco. Ias tu à frente, com uma caixa de ferramentas na mão.
Estranhamente, anteontem as paredes sem reboco vieram outra vez à baila. Soube hoje a notícia.
Foste de facto à frente, amigo. Descansa em paz.
Já não sei ao certo se aqui postei algo sobre ti.
Nem sequer há uma vaga menção no post da barrilada à tua repetida exclamação :"É só comédias! É só comédias!"
Nem sequer aqui verti em tipos o timbre da tua mulher imitado pelo R.C. quando adormeceste à mesa do jantar.
Nem te descobri o ponto fraco quando pedias: "Falem-me de gajas que eu pago copos!"
Na verdade, fomos uns amigos bizarros. Amigos próximos em épocas muito espaçadas no tempo. Durante cerca de 40 anos, tivemos épocas de todos os dias bebermos juntos o café. Depois uma década sem nos cruzarmos, talvez.
Esta última aproximação, um mês de Algarve, a trabalhar um porradão de horas por dia, deu para muita conversa.
No verão seguinte, ajudaste-me a esvaziar as memórias do casarão. Dei-te o frigorífico que me pediste.
Um destes meses, sonhei que andávamos ambos à volta de uma espécie de café manhoso, de planta trapezoidal, num bairro de casas sem reboco. Ias tu à frente, com uma caixa de ferramentas na mão.
Estranhamente, anteontem as paredes sem reboco vieram outra vez à baila. Soube hoje a notícia.
Foste de facto à frente, amigo. Descansa em paz.
07/03/2006
Enquanto muitos dormem
A RTP inventou, devo dizer aceitou, uma versão tardo-qualquer-coisa da Laranja Mecânica.
Experimentem aí pelas 5 da manhã.
Quando começa o espaço das televendas.
E quando passar o primeiro anúncio do relógio da selecção, não desliguem. Esperem pelo próximo. E pelo próximo.
É uma espécie de tortura hilária. Decerto poucos lhe resistem.
A RTP inventou, devo dizer aceitou, uma versão tardo-qualquer-coisa da Laranja Mecânica.
Experimentem aí pelas 5 da manhã.
Quando começa o espaço das televendas.
E quando passar o primeiro anúncio do relógio da selecção, não desliguem. Esperem pelo próximo. E pelo próximo.
É uma espécie de tortura hilária. Decerto poucos lhe resistem.
Vinte anos

Falávamos
Dormia uma palmeira
Sobre as nossas vozes
Quando no escuro
Estimávamos direcções
No infinito.
Que se curvavam.
Em sorvedouros
Como as esferas
Na quadrícula
De Vasareli.
E no regresso
Pousávamos
Na nossa ignorância.
Tínhamos o peso
De não conhecer.
E o medo
Da sabedoria.
Esmagados
Sob o mundo
Levantado
Por uma alavanca.
Afogados
Em água espacial
E mortos
Num cantinho do tempo.
Sem o universo
Ter nossos sinais.
Perdidos.
O infinito.
Não sabia então
Ainda isto
Que
Agora sei
Que não mais
Te verei.
Nunca mais!
SG, inéditos, 1994

Falávamos
Dormia uma palmeira
Sobre as nossas vozes
Quando no escuro
Estimávamos direcções
No infinito.
Que se curvavam.
Em sorvedouros
Como as esferas
Na quadrícula
De Vasareli.
E no regresso
Pousávamos
Na nossa ignorância.
Tínhamos o peso
De não conhecer.
E o medo
Da sabedoria.
Esmagados
Sob o mundo
Levantado
Por uma alavanca.
Afogados
Em água espacial
E mortos
Num cantinho do tempo.
Sem o universo
Ter nossos sinais.
Perdidos.
O infinito.
Não sabia então
Ainda isto
Que
Agora sei
Que não mais
Te verei.
Nunca mais!
SG, inéditos, 1994
06/03/2006
Do cauteleiro aos óscares, uma saga russa e uma face para sempre
Pela primeira vez, e graças à réplica da RTP ao espectáculo dos óscares, consegui ver de fio a pavio o Doutor Jivago. E consegui-o graças ainda a uma inexplicável fiabilidade do meu velho receptor de televisão que, frequentemente, me priva de som e imagem. O que só não é mais grave, dada a minha concordância com ele. Não vale mesmo a pena o som nem a imagem.
Deste filme, que me foi apresentado pela primeira vez numa época em que me estava supostamente vedado pela idade, valeu-me então o conhecimento que meu Pai, habitual comprador de fracções da Santa Casa, tinha com o cauteleiro-porteiro do Cine-Teatro Vasco da Gama, em Sines, para poder adormecer logo ao primeiro nevão.
Depois dessa primeira experiência, em que não me recordo da estrela vermelha por cima do portal, algumas vezes mais tentei, na televisão, pois creio que no cinema não o fiz, vê-lo até ao fim. Sempre debalde.
Ontem finalmente consegui-o e a única coisa de que, de facto, me recordava bem de todas as experiências anteriores, era do rosto de Julie Christie.
Dos que não esquece mais. Como o de Binoche em Azul ou o de Bellucci em Apartamento.

fotomontagem a partir de fotografia do autor e cartazes daqui, dali e d'acolá
Pela primeira vez, e graças à réplica da RTP ao espectáculo dos óscares, consegui ver de fio a pavio o Doutor Jivago. E consegui-o graças ainda a uma inexplicável fiabilidade do meu velho receptor de televisão que, frequentemente, me priva de som e imagem. O que só não é mais grave, dada a minha concordância com ele. Não vale mesmo a pena o som nem a imagem.
Deste filme, que me foi apresentado pela primeira vez numa época em que me estava supostamente vedado pela idade, valeu-me então o conhecimento que meu Pai, habitual comprador de fracções da Santa Casa, tinha com o cauteleiro-porteiro do Cine-Teatro Vasco da Gama, em Sines, para poder adormecer logo ao primeiro nevão.
Depois dessa primeira experiência, em que não me recordo da estrela vermelha por cima do portal, algumas vezes mais tentei, na televisão, pois creio que no cinema não o fiz, vê-lo até ao fim. Sempre debalde.
Ontem finalmente consegui-o e a única coisa de que, de facto, me recordava bem de todas as experiências anteriores, era do rosto de Julie Christie.
Dos que não esquece mais. Como o de Binoche em Azul ou o de Bellucci em Apartamento.
fotomontagem a partir de fotografia do autor e cartazes daqui, dali e d'acolá
05/03/2006
04/03/2006
A ponte de Entre-os-Rios
Caiu faz hoje cinco anos.
Foi o maior acidente rodoviário de sempre em Portugal, no que respeita a perdas humanas.
Dos disparates que se disseram depois, não há conta possível.
Compreende-se a dor dos que perderam familiares e amigos e compreende-se também que, por isso mesmo, insistam em procurar culpados.
Já não se compreende tão bem a enxurrada de imbecilidades que foram ditas e repetidas com este ou aquele interesse mais bizarro.
Se há que encontrar culpados, convém entender as causas.
E as causas directas, ainda que esta coisa de causa e efeito seja um mistério insondável que o Homem teima em perceber, no dizer dos entendidos foram as sucessivas e extraordinárias cheias do Douro nos dias precedentes e a forma como descalçaram o pilar nº4.
Pode agora tentar perceber-se como se chegou a esse ponto.
Parece-me que uma das respostas está em todos nós. Na forma descuidada como encaramos toda e qualquer manutenção do construído.
Na forma bizarra como nos organizamos e nos desorganizamos.
No caso das pontes, é público que não existia sequer um serviço responsável a funcionar de forma a poder responder pela conservação e segurança. Como existira no passado.
Penalizar hoje alguns engenheiros pela queda da ponte é o mesmo que culpar o único polícia a quem se retirou a arma de fogo por não ter impedido um assalto mortífero.
Hintze Ribeiro, ministro e presidente do Ministério nos últimos tempos da Monarquia, teve o seu nome, entre outros locais, numa ponte. Essa ponte caiu. No local onde existia, está hoje outra. Melhor fora que lhe chamassem a essa "Ponte das Amendoeiras em Flor".
Que era de vê-las que vinha grande parte das vítimas. Da outra ponte.

Foto JAE
Caiu faz hoje cinco anos.
Foi o maior acidente rodoviário de sempre em Portugal, no que respeita a perdas humanas.
Dos disparates que se disseram depois, não há conta possível.
Compreende-se a dor dos que perderam familiares e amigos e compreende-se também que, por isso mesmo, insistam em procurar culpados.
Já não se compreende tão bem a enxurrada de imbecilidades que foram ditas e repetidas com este ou aquele interesse mais bizarro.
Se há que encontrar culpados, convém entender as causas.
E as causas directas, ainda que esta coisa de causa e efeito seja um mistério insondável que o Homem teima em perceber, no dizer dos entendidos foram as sucessivas e extraordinárias cheias do Douro nos dias precedentes e a forma como descalçaram o pilar nº4.
Pode agora tentar perceber-se como se chegou a esse ponto.
Parece-me que uma das respostas está em todos nós. Na forma descuidada como encaramos toda e qualquer manutenção do construído.
Na forma bizarra como nos organizamos e nos desorganizamos.
No caso das pontes, é público que não existia sequer um serviço responsável a funcionar de forma a poder responder pela conservação e segurança. Como existira no passado.
Penalizar hoje alguns engenheiros pela queda da ponte é o mesmo que culpar o único polícia a quem se retirou a arma de fogo por não ter impedido um assalto mortífero.
Hintze Ribeiro, ministro e presidente do Ministério nos últimos tempos da Monarquia, teve o seu nome, entre outros locais, numa ponte. Essa ponte caiu. No local onde existia, está hoje outra. Melhor fora que lhe chamassem a essa "Ponte das Amendoeiras em Flor".
Que era de vê-las que vinha grande parte das vítimas. Da outra ponte.
Foto JAE
03/03/2006
02/03/2006
01/03/2006
28/02/2006
Carnavalesco
Como já disse há um ano atrás, nunca pus os pés em cortejos carnavalescos.
Apenas por duas vezes, a coisa esteve a ponto de se decidir.
Mas não ocorreu nesse ano de 1979 para Sines, como também não se deu no ano anterior a caminho de Loulé.
Talvez que nem uma nem outra tivessem chegado a ponto de ver o cortejo.
Em 1979, raiava o dia quando a ideia surgiu. Estando Sines tão perto, seria pouco provável que à hora do desfile, algum de nós estivesse acordado ou em condições de foliar, depois da atribulada noite anterior.
Já no ano anterior, a proposta quase suplicada do V. para que tomasse conta da irmã durante o fim-de-semana carnavalesco, deixava poucas dúvidas de que algum de nós fosse afinal desfilar para as ruas de Loulé.
Lá ir para Loulé, íamos. Eu, ele e a irmã dele. Para a da namorada do bicho, que estava sózinha em casa.
Em vez disso, fui obrigado a passear pelo tabuleiro ainda incompleto da ponte de Vila Nova de Milfontes. Quase como andar na prancha.
Como já disse há um ano atrás, nunca pus os pés em cortejos carnavalescos.
Apenas por duas vezes, a coisa esteve a ponto de se decidir.
Mas não ocorreu nesse ano de 1979 para Sines, como também não se deu no ano anterior a caminho de Loulé.
Talvez que nem uma nem outra tivessem chegado a ponto de ver o cortejo.
Em 1979, raiava o dia quando a ideia surgiu. Estando Sines tão perto, seria pouco provável que à hora do desfile, algum de nós estivesse acordado ou em condições de foliar, depois da atribulada noite anterior.
Já no ano anterior, a proposta quase suplicada do V. para que tomasse conta da irmã durante o fim-de-semana carnavalesco, deixava poucas dúvidas de que algum de nós fosse afinal desfilar para as ruas de Loulé.
Lá ir para Loulé, íamos. Eu, ele e a irmã dele. Para a da namorada do bicho, que estava sózinha em casa.
Em vez disso, fui obrigado a passear pelo tabuleiro ainda incompleto da ponte de Vila Nova de Milfontes. Quase como andar na prancha.
27/02/2006
26/02/2006
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