28/06/2023

O flautista de Hamelin



Posso dizer desta personagem que é das poucas se não a última que me surpreende.
Como o patriarca dos Buendía que sucumbia às mercancias do pulante Melquíades este homem dedica-se, a sezões, a maravilhas incontáveis.
Já o vi fazer carimbos em cortiça com a efígie de navegadores portugueses (ainda guardo algures a carimbadela com a cara de, julgo, Bartolomeu Dias), já o vi empenhar-se em criar puzzles a três dimensões, onde deu mostras de aguda inteligência topológica, já me pôs a par das propinas que recebeu por desencantar penicos de loiça por esses montes, já me brindou com palestras sobre a pirâmide do conhecimento onde coloca os doutores no supremo vértice, já o vi empoleirar uma colecção de bicicletas de criança em cima da mesa das refeições que adquirira em troca de qualquer serviço.
Desta última vez, surgiu-me encarnando a figura do flautista de Hamelin, não com ratos ou crianças mas com dezenas de cães novos que o seguiam pelos corgos. Disse-me que eram uma criação para vender aos caçadores da zona.
Para rematar, mostrou-me uma sólida laje de betão (armado?) que tinha ali junto à porta e que calculava muito por alto ter 600kg (pelas minhas contas terá uns 250kg). Dela pretendia fazer o tampo de uma mesa para os petiscos, que a de plástico não tinha durado ao sol impiedoso das serranias. Havia um pequeno contratempo na coisa: a argola em ferro de armar que auxiliara na carga e na descarga de tal peça, estava naturalmente saliente no centro da mesa. Lamentava-se da impossibilidade técnica de a virar ao contrário, deixando a dita para baixo para não interferir com os bródios sonhados.
Ainda me levou a ver um atado recentemente adquirido de portas velhas em madeira vitalícia, segundo ele. Que aquelas sim, depois de cortadas à medida do monte, durariam muito mais do que o pinho, são vitalícias.
Ainda teve tempo para me informar que Putin tem os melhores e mais modernos aviões que há e que o curso da guerra fez baixar muito as cotações das propriedades ali da zona.
Herdei-o juntamente com a terra onde nasceu e vive desde sempre.

imagem encontrada aqui

22/06/2023

O mundo certificado e certificável

Só se ouvem vozes a acusar os responsáveis pela operação do submersível que visitava o Titanic de não terem a certificação do veículo.
Imagine-se o que seria o mundo se toda a actividade experimental tivesse que ser certificada. E por quem?
É todavia claro que a partir do momento em que há actividade comercial ou paracomercial, as exigências de segurança devem ser observadas.
Este caso que agora culminou está na zona cinzenta entre experimentação e turismo.

Nota à margem: este caso foi um dos muito poucos em que se usou correctamente a palavra implosão.
Sintra, 2006

21/06/2023

CNN

Na CNN Internacional, hora após hora no noticiário, o submarino perdido continuava a ter oxigénio para 30 horas.

20/06/2023

Pensar

A revista Sábado, cujo lema é "pense por si", está agora a publicar um encartável cujo tema é "pensar como".
"Pensar como" é muito mais adequado aos tempos que correm, nisso viram eles a oportunidade.
Se pensar é algo que seja transitivo.

19/06/2023

Uma casa no deserto (II)

A coisa deu-se vai para vinte anos. Num vagar de filmes antigos, deparei com um cenário em terras de Espanha que me encheu as medidas. Era uma casa e o seu entorno, algures na costa.



17/06/2023

Cristina Reyna

Fiz em tempos o elogio da senhora.
Alia a uma competência que sobressai do panorama jornalístico uma bela figura (quanto à beleza - nos dias politicamente correctos que correm, estas coisas só são ditas pelos resistentes).
Disse ontem que ia sair da pantalha, ao fim de 30 anos. Já estou com saudades.



14/06/2023

Feira do Livro de Lisboa

Cinco anos sem comprar um único livro. Desta feita nem lá fui.
Atingi há muito a posse da quantidade de livros que posso ainda ter expectativa de ler, o que refreou o meu ímpeto de feirar.

Meninos às compras

Está um desgraçado na CPI da TAP a ser inquirido.
Afinal foi lá para ler um longo discurso. Muito provavelmente com a indicação de um marqueteiro ou similar.
Depois foi respondendo ao lado à pergunta que lhe foi formulada, de uma forma infantil.
É desta tropa que estamos servidos.

13/06/2023

Marchante

A minha limitadíssima capacidade musical e a senilidade concomitante tiveram ontem um episódio assinalável.
Numa première de marchas de Lisboa pela televisão (as coisas a que a velhice nos faz assistir) e ao fim de um bom trecho de marchas atrás de marchas, dei por mim a pensar que as marchas eram todas iguais ou que tinham, pelo menos, uma parte que, se não era sempre igual, era muito parecida, tinha as mesmíssimas rimas e os mesmos acordes.
Só um bocado depois disso é que veio a epifania: havia ali uma marcha que era repetida por todos.
Nessa altura já ela se tinha entranhado na minha cabeça – creio que o objectivo de quem se lembrou de tal estava atingido.

12/06/2023

Sindicalismo

Os sindicatos dos professores acordaram agora para o respeito.
Que para ser respeitado é preciso respeitar.
Antes tarde que nunca.
Aguardamos as próximas manifestações para ver a consequência.

E especulando:
Quando Costa se queixou do cartaz que disse racista, ouviu-se uma voz a gritar que era mentira.
Se esta palavra - mentira - se referia à avaliação que Costa fez do cartaz, então o portador daquela voz, supostamente um professor, considera que uma opinião é uma mentira.
Espero estar enganado ou então que tal personagem seja mestre de uma qualquer disciplina artística, onde a razão pode ser desconsiderada*.

* coisa que se aplica ao autor dos cartazes, depois de o ouvir.

(actualizado cerca das 16:40)

10/06/2023

Os grandes educadores

Já aqui o disse: a classe dos professores exige respeito mas não se dá ao respeito.
De cada vez que ouço um seu representante argumentar, lamento os alunos que tal professor se propõe instruir. Talvez eu tenha azar com a amostra que me calha, talvez as televisões escolham os mais assanhados e irracionais para exibir.
A amostra é má, muito má.


Fotografia de Jose Coelho / Lusa, via Rádio Renascença

09/06/2023

Manobras de diversão

Num país que se assemelha à lenda do pinhal da Azambuja, onde andamos às voltas capitaneados por um grupo de mentecaptos e à mercê de um bando de malfeitores, procura-se responsabilizar um ex-ministro que viajava no banco de trás de um automóvel oficial, por um erro de condução do seu motorista.
Como disse um dos advogados creio que constituído pela família da vítima, o que se pretende é dar um exemplo ao país. E dão. Um péssimo exemplo, uma manobra de diversão.
Cabrita pode ter sido um mau ministro, na minha opinião. Por causa disso, ir implicá-lo num acidente de viação em que se encontrava no banco de trás, é no mínimo um tiro na água.

08/06/2023

Notícias do manicómio

Só uma sociedade empenhada em entrar para o manicómio, como dizia Fernando Pessoa, é que pode perder tempo a indagar e discutir as motivações que levaram um indivíduo a esfaquear crianças com menos de 3 anos.
Mal comparado

Mal comparadas, com erro não negligenciável, ainda assim fica uma ideia da proporção entre a albufeira de Alqueva e a agora destruída de Kakhovka, a partir do Google Maps.

06/06/2023

79º aniversário

Dia D – 79º aniversário do incontornável Isabelino Abreu dos Anjos.

05/06/2023

Estranhos incensamentos

A propósito do caso já pouco falado de Boaventura Sousa Santos que o próprio reabriu, notei sobretudo os encómios que não obstante lhe teciam.
Essa é a parte que sempre me fez espécie. Ou como são incensadas sem justificação algumas figuras.