16/12/2003

Hat-trick



Houve um tempo em que seguíamos também a tabuada dos golos.
1-0, 0-1, 1-1, por aí fora.
Como na bola, estes eram os resultados habituais. Os empates a zero eram também numerosos, havia uma infinidade de penalties desperdiçados por falta de concentração.
Mas, volta e meia, uma goleada.
Na nossa estranha contabilidade, só se conseguia construir um resultado volumoso quando a equipa era grande.
Dessa vez, se a memória me não atraiçoa, éramos quatro.
E elas eram umas oito.
Foi má leitura de jogo por parte do treinador.
O certo é que já estávamos em campo e não havia tempo para recrutar novos reforços. Fomos à luta.
Depois de algumas jogadas individuais, já o automatismo da equipa adversária estava percebido, encontro o M.C. no bar.
"E atão? Como é que é?" - disparou ele.
"Como é que é? É assim: A mais interessante para mim é a que se atracou ao S. A que eu gostava de marcar é aquela magrinha, dos olhos grandes. Mas a que está a descair para o meu lado é a matulona do cabelo preto. Lá da RDMNA. Vou então ver o que é que dá a magrinha, se não der, a minha escolha é a matulona."
"Porra, queres tudo para ti. Logo três!"
"Não, M." - eu a ver que ele queria a matulona - "Podes ficar com as outras, eu fico com a que caiu cá para o meu lado. Não há crise, podes escolher a magrinha."
"Porra, queres logo as três."
"Não, homem, só quero a matulona, não quero nenhum hat-trick."
Ele lá se foi, a matulona caiu mesmo para o meu lado. O P.P. já tinha a dele certa. O S. a mais bonita. E o M.C. ficou com uma que agora me não lembro. O certo é que foram elas que escolheram. As outras quatro, entre as quais a magrinha, recolheram aos balneários. Não houve hat-trick para ninguém. Elas ganharam 0-4. Ah, esquecia-me! Hat-trick são três, toda a gente que lê jornais desportivos sabe disso.

coelhinho em
Presente de Natal

Para o selo do carro ou para outra coisa qualquer

Gasolim e a estrada



Já aqui disse que não compreendia o argumento segundo o qual as pessoas se transfiguram ao volante, fazendo as maiores atrocidades.
Basta estar atento em todo o lado, por alguns momentos, para nos apercebermos de que os mesmos comportamentos bizarros se verificam também fora das caixas de lata.
A questão é que as caixas de lata derivam em caixões. E em mísseis mal guiados.
Fossem os telemóveis, os chapéus de chuva, os carrinhos de supermercado, as cadeiras de restaurante, as senhas de vez, armas letais e então ver-se-ia.
Não sou exemplo para ninguém. Não venho dar lições nenhumas.
Mas se há ou não um mal generalizado nas nossas estradas, é bom que se estude o assunto de forma racional.
Começando por perceber o que é que se passa.
Uma das coisas que conhecemos mal são as efectivas causas dos acidentes.
Primeiro, porque os próprios intervenientes quando sobrevivem, não sabem ou não querem perceber as causas.
Segundo, porque os elementos que as autoridades apuram são manifestamente insuficientes. Estas limitam-se a enquadrar numa tabela incompleta mais ou menos o que lhes parece.
Terceiro, porque há uma espécie de véu sobre as coisas, que permite que se construam mal as estradas, que as sinalizem mal e que se passem licenças de condução a qualquer um.
Não vou abordar aqui aquilo de que outros estão fartos de falar.
Apenas recordo e chamo a atenção para aspectos de que se têm esquecido.
Há anos, havia na rádio um programa interessante sobre a estrada. Nesse programa, ouvi com o mesmo pasmo do apresentador, um ministro dizer que agora é que se iam acabar com os acidentes! Era de calcular que fôssemos longe com tão ridículas sentenças.
Basta apreciar o relatório da sinistralidade da DGV para perceber várias coisas:

Existe um sem-número de dados estatísticos não relevantes.
Existe uma tabela de causas mal elaborada.
Algumas tabelas relevantes deviam ser ponderadas proporcionalmente (ex: nº de acidentes por idade de veículo, por idade de condutor, por anos de carta)

Percebe-se que não é o álcool que causa agora os acidentes (isto não tem nada a ver com a justeza da penalização!), mas ajuda saber que para combater a sinistralidade é preciso virar a atenção para outros lados e não bater sempre na mesma tecla.
E que a confusão entre excesso de velocidade e velocidade excessiva também não ajuda.
Uma coisa é exceder os limites impostos, outra completamente diferente é não ter noção nenhuma de qual a velocidade adequada em determinadas circunstâncias (as atmosféricas, o carro, a estrada, a capacidade do condutor).
Já vi pessoas despistarem-se e quase morrerem a 20 Km/h! É que não convém confundir os pedais de travão e de acelerador num gancho sobre um precipício.
Lá vem mais uma época de funerais.

Pai Natal em

15/12/2003

Gasolim en garde

Gasolim a ver passar os outros

Não é só na Finlândia que as câmaras captam imagens interessantes.
Esta é nossa.



câmaras do IEP aqui
Escantilhões e impressoras



Não é nada que eu não tivesse previsto.
Quando um professor dizia que, com a chegada do CAD, se iria perder toda a marca pessoal no desenho técnico, as perspectivas aguareladas, os cortes chinesamente pormenorizados, até as borras de café e as queimadelas de morrão, já eu tinha outros temores.
E os simples processadores de texto, com as suas potencialidades?
O que fariam aos letreiros das tabernas com letras invertidas?
E aos dos vendesse melões?
E a todos os outros, em cartão rasgado, em papel pardo, em madeira de caixa de fruta, em lata, sobre um muro?
Aqui Há isco? Uvas a 500M? Vinho a granel? Sandes diverças? Há Queijo cabreiro?
Sejamos optimistas. Não se vão todos.
Em primeiro lugar, apesar de até eu ter acesso a um computador, ainda há muita gente que foge deles como o diabo da cruz. E nem toda a gente tem a sorte de ter ao pé da porta o tal tipo que tem a filha com jeito pó desenho.
Os que usam a impressora agora, são os mesmos que usavam o escantilhão verde e preenchiam todo o espaço aberto, são os que compravam letras auto-colantes ou decalcáveis.
Em segundo lugar, não se compram plotters de grandes dimensões para compôr cartazes numa parede cega “Servem-se grelhados”. A coisa reduz-se ao A4. E o A4 não aguenta com tudo.
Em terceiro lugar, há os porque não. Não é que não tenham acesso a um computador ou que não sejam capazes de fazer seja o que fôr com ele. É porque não.
Mas digo adeus às letras invertidas no pequeno formato. O trabalhão que dá arranjar e instalar um alfabeto cirílico para obter os NN e os RR? E os SS, então? Era preciso editar os caracteres.
Mas há em contrapartida essa inesperada mais-valia do processador de texto, a letra em acordeão, a letra perspectivada, a letra em curva, uma panóplia de estilos e de cores.
Mas nada, nada bate o pequeno aviso da ARESP, ou não dissesse ele que é vedado o acesso a quem penetrar nas zonas de acesso vedado.
Não acredita? Veja em qualquer café aí para os seus lados. É um aviso azul.

14/12/2003

As barbas de molho

Ora aqui estamos, no meio do frenesim habitual das últimas notícias.
E basta fazer um zapping à balda para nos regalarmos com uma quantidade substancial de anedotas. Em todas as línguas, nos mais diversos canais.
Há uma que hoje bate as outras:
Que eu saiba, começou nas televisões americanas e já se ouviu em português.
Trata-se do escanhoamento do homem.
A crer no que foi dito na imprensa, teria sido necessário fazer a barba ao preso para o identificar.
Se isto não é uma anedota, se é a sério, arre macho.
O pior é se Ibn Laden resolve rapar a cara. Vão ser necessários uns meses de barba a crescer para o identificar. Estou a brincar, a esta hora já os serviços secretos encomendaram a um perito uma barba postiça igual à das fotografias.
Barac Bac Bac

O blogue dos porcos está a dar as últimas. Também ninguém vai lá.
Gasolim a ver passar os outros



É por estas e por outras que não me canso de referir este sítio
Das duas, três

Ou a estranha impossibilidade de alguns lerem o português, embora seja uma das dez línguas mais faladas no mundo. E seguramente entendível, na forma escrita, pela hispanidade.
Ou a tentativa de me afundarem sob o peso de milhões e milhões de dólares.
Ou, de facto, tenho cara e e-mail de labrego.
Não sei a qual das hipóteses se deve, mas lá recebi mais um aviso prometedor. Desta feita são 2.000.000 USD.
A juntar aos 5,45 e ao 0,5 das anteriores, o bolo já vai em 7,95 megas.
Não faço a menor ideia de quantos mais terão este Natal sido contemplados com tantos Los Gordos, mas com três sorteios a meu favor, já quase igualo o recorde que detenho na barraca das panelas, onde consecutivamente, e para gaúdio dos soldados que me cortejavam a criada, arrematei lá para casa um novo trem de cozinha.
Das duas vezes anteriores, publiquei aqui o mail ganhador e das duas vezes aqui vieram espreitar ou camaradas meus ou os próprios benfeitores, na esperança de entreverem na minha face uma plácida lágrima de contentamento.
Não lhes goro a pesquisa. Sejam benvindos.

"HEAD OFFICE
EURO-AFRO SWEEPSTAKE LOTTERY NL.

BURDENSTREET 21B
1053 DS AMSTERDAM, THE NERTHERLANDS.

FROM: THE DESK OF THE MANAGING DIRECTOR
INTERNATIONAL PROMOTION PRIZE AWARD DEPT.

REF: HWS/2001130802
BATCH: 18/203/JJS.
DATE: 04/0

/2003

Attention:Sir,Madam

WINNING NOTIFICATION.


We are pleased to inform you about the release today the 10th of
december 2003 of the ERO-AFRO SWEEPSTAKE LOTTERY INTERNATIONAL
PROGRAMMS held on the 28th june 2003, Your company name atta
he

toticket number: 564 ?75600545 ? 188 with serial number 5388/02
drew the lucky numbers:3-11-27-30-34 41, which consequently won the lottery
inthe 2ndcategory. You have therefore bee
approve or a lump sum pay out of UD$2MILLION in cash credited
to file HWS/200118308/02.This
is from a total cash prize of US$20MILLION share! among the ten international
lucky winners in this category. Furth
rmore, your lucky winning number alls within our NORTH AMERICAN booklet
representative office in CANADA indicated in your play coupon. In view of
this, your US$2,000,000.00 (Two million US Dollars) would be released to
you by our COMPANY regional
branch office in CANADA ,CONGRATULATION.Take no that 20 million email addresser
was drawn out from
net and many people won both in the first and second
and third category. Your fund has been therefore deposited with the CANADIAN
COMPANY in your name from where it would be released to your nominated
bank account. Due to the mixed up of some numbers an names, we ask that
you keep this a top secrect from the public notice until your claim has
been processed and your money remitted to your account
as this is part of security protocols to avoid double claiming or unwarranted
taking advantage of his programs by participats. To begin your claim,you
should first acknowledge
receipt of this notification through the above emailaddress Endevour to
include your full recent contact address,telephone/fax numbers and your
bank account details were you want this fund to be remitted to you As soon
as you confirm receipt of this notification, you shall be advised/directedon
how to contact the CANADIAN COMPANY for processing and remittance of your
funds to your nominated bank account. Remmbe ,Al winnings must be claim
not later than 31st of december 2003. and after this date all be returned
as unclaimed. NOTE: In order to avoid unnecessary delays and complications,
please remember to quote your reference and batch numbers
every correspondnce. Furthermore , should there be any change of your address,
do inform us as soon as possible. Congratulations again from all members
of the staff and thank you being part of our promotional program.
Sincerely yours,
DrEdward
Thompson
"

O e-mail de contacto é ethompsonall@tiscali.co.uk

P.S. A moeda desta vez não é U.S.Dollars Only. Aproveito para dizer aos organizadores destas notáveis quermesses que, em português, é mais bonito dizer que o prémio é logo de 2.000.000 de dólares, em vez de 2.000.000 de dólares só. Isso cheira a falsa modéstia e a novo-riquismo.
P.P.S. Adorarei ler a tradução instantânea disto tudo, mais uma vez. É talvez por isso que eles também insistem.
A porta do largo

O blogue não é suficiente. Aliás, o blogue não é o local adequado.
Sendo um blogue quase anónimo, não posso reagir aqui aos acontecimentos.
Tenho assim um grave problema para resolver.
Quando tinha a porta do largo, aberta ao centro da vila, bastava-me encomendar um púlpito de madeira de castanho a um bom marceneiro e colocá-lo depois ao lado da cabina telefónica.
Assim, de peito aberto, e devidamente identificado pelos presentes, por ser pessoa da sua lidação, poderia livremente exprimir os meus pontos de vista sobre o que se está a passar.
Teria, obviamente, que me aconselhar com este e com aquele sobre quais os assuntos que mereceriam a minha reacção a tempo.
Mas assim, estou de mãos atadas.
Já não disponho da porta do largo.
A varanda do monte só dá para o montado. Não há ali vizinhos interessados em ouvir as minhas doutas sentenças. O cais das traseiras é avistável da estrada, mas a estrada é particular (a Câmara nunca me deu um chavo por a ter alcatroado e chamado sua – sou muito mal agradecido, não sou?)
Resta-me virar para o outro lado e continuar a acompanhar a situação.



A má qualidade da imagem é propositada
Falta uma foto



É verdade! Falta aqui uma foto.
Segundo um dos meus primos, deve ser tirada à porta do monte, a cavalo e de cajado na mão, com a família ao lado, alinhada segundo o protocolo.
Em plano anterior, os cães. Se possível uma galinha peada por um baraço mas nenhum gato.
Talvez um garrafão displicentemente colocado a um canto, também ele amarrado.
Não sei. Talvez a tire. Também não sei a quem é que hei-de pedir o cavalo emprestado. É melhor não.
Tudo apeado.
Eu depois dou vaia ou coloco-a aqui.

imagem de

13/12/2003

Gasolim e as escolhas em inverno seco


Vou escrever um livro

Escrever não é bem.
É a rogo.
Encomendei a um discípulo de La Fontaine uma biografia minha.
Não é para ser O Fabuloso Mundo de H Gasolim. Não.
É outra coisa.
É uma exo-auto-biografia feita por animais e plantas.
Ele vai chamar os meus cães e ouvir as suas queixas.
Vai entrevistar os pássaros na gaiola. É possível que não consiga nada do rabugento.
Terá o depoimento de muitos chaparros e azinheiras.
Vai notificar os porcos dos caseiros e entrevistá-los um a um.
Contará também com o contributo inestimável de ovelhas e vacas.
Já não poderá infelizmente auscultar a opinião das galinhas há muito desinstaladas nos ramos da velha oliveira.
Mas ainda assim, já encomendei as faixas amarelas. Também elas falam.
Que tal?



Na foto, é mesmo o meu querido cão. A capa está uma trampa, tirando o cão. Vejam bem o título às escadinhas. Encomendei-a a um tipo que tem uma filha com jeito pó desenho
Gasolim e os apeadeiros



longe do vulcão

12/12/2003

Pó branco e pastéis de bacalhau



Já dei voltas à cabeça, já li cinquenta manuais, treze compêndios e nada.
Não consigo encontrar explicação para o bacilo escolher o pó branco como veículo.
Qual bacilo?
O do carbúnculo – o Bacillus anthracis.
Sabemos todos que os bacilos são formas de vida. E que devem ter lá as suas idiossincrasias. Mas escolher o pó branco? Caramba, não é nada politicamente correcto.
Nada com pós azuis, verdes ou vermelhos, só brancos.
Agora parece andar retirado. Não se fala nele. Já o açucar pilé relaxou, as farinhas de sílica e de trigo estão mais descansadas, o próprio pó-de-talco parece mais novo, menos preocupado.
Eu, como sou desconfiado, tenho andado a pensar se ele não terá escolhido os pastéis de bacalhau como transporte.
Já nessa época de Setembro / Outubro de 2001, tinha advertido os meus mais chegados para essa hipótese.
Agora que a coisa anda esquecida, volto a alertar.
É que o pó branco tem um universo potencial mais limitado. Os pastelinhos são uma forma muito mais eficaz de distribuição.
Dizem-me que ninguém aspira pastéis de bacalhau. Não aspira um, certo. Mas aspira por um. Muita gente aspira por eles sem os confundir com notas enroladas. Lá estou eu com trocadilhos.
Não se iludam, o bicho é manhoso. Se não fôr pelos pastéis, como eu prevejo, há-de ser pelos tremoços, que é uma boa forma de dizimar as tropas. Assim como assim, mata os homens e deixa as mulheres.

imagem em
O diabo aquático



Não sou contra os neologismos nem tenho um conhecimento profundo sobre as formas que apresenta o rabudo, o coisa ruim, o ...
Mas, deixando de lado a caneca que existia no trem de praia dos meus bisavós em que ele figurava, na certa como recordação de algum mascate menos timorato, e em que aí sim, convivia com a água que eu lá lhe colocava, não me recordo de nenhuma outra ocasião em que o ... se tenha familiarizado com a água.
Sempre o figurei como um gato escaldado.
Mas há uns tempos, um noticiário de rádio revelou-me esta estranha metamorfose. O ... tinha aprendido a nadar. Depois de narrar alguns factos estranhos em certa cidade, o locutor concluiu: "... e o Diabo aquático!"
Pronto, pensei, tornou-se rei dos mares. Adeus, Neptuno. Ou será que não? Afinal, esse deus tão traiçoeiro para marinheiros e viajantes não ostentava ele um tenebroso tridente? Seria já o próprio ou um enviado seu?
O certo é que o ... já não andava a quatro.
O mais estranho é que, numa altura em que todos querem andar a quatro (tracção às quatro, motos-quatro), o ... se tenha decidido pela barbatana dorsal. Não me conformo.
Será que ele comprou uma moto de água?

imagem adaptada de
Nostalgia do burro



Sem grande explicação, o burro veio à baila.
Falou-se demoradamente dos asininos.
Que eram dóceis e teimosos como burros(?)
De vez em quando um coice mas nada de cuidado.
Pica-lhes a mosca.
Lá recordámos as imagens dos bichos, que os havia lá no monte.
A minha mãe condoeu-se de os animais estarem em vias de extinção.
Às vezes ponho-me a pensar que pertenço à primeira geração apeada. Uma espécie de anspeçada.
Sempre houve cavalos, mus e burros, arramadas e cavalariças. Os meus avós a cavalo, o meu pai a cavalo. Eu a pé.
Ora, ultrapassadas que estão as necessárias três gerações para fazer um cavalheiro, onde é que ficamos? Num cavaleiro sem cavalo? Num Artur centaureando ao som de hemi-cocos?
Nem um burro fiel, para me fazer companhia? Só maples com quatro rodas?
Não sou de opinião.

imagem de
saiba mais nesta página de António Gil

11/12/2003

O espião dos serviços ou
Uma noite em Lisboa


O convite de um velho e bom amigo, levou-me a um dos centros nervosos da economia nacional.
Anarcka sabe qual é. É um cujo nome não divulgo mas sobre o qual ele há tempos discorreu.
No gabinete do homem, armários, ficheiros, estantes, gavetas.
Conversa vaga sobre o desempenho da casa.
Como já estava há um bom bocado sem fumar uma cigarrada, levantei-me e deambulei entre as estantes.
Foi então que descobri o pequeno volume: "Cheques descontados na Ilha das Flores".
Fiquei preso à lombada, imaginando todo o romance que encerra tal título.
Todos os apertos porque passaram os que os assinaram, todas as alegrias dos que os descontaram. Os atrasos, as faltas de fundos, a revolução nas vidas dos bons açoreanos das Flores.
Já estava a imaginar gente a comprar carros novos, sacos de cimento para um reboco, a pagar o casamento da filha, o IRC, a viagem para a América, quando ele se levantou e nos disse que eram horas de jantar.
Às vezes sonha-se entre dossiers e armários.
Melhor do que saber novas do out-sourcing e das tomadas firmes.
Ninguém se apercebeu do meu interesse por aquele dossier em particular.
Ainda trago no bolso uma base para copo do Fontória.
Gasolim e as pontes ou
Comendo peixe-muge não sabendo onde




Fui mostrar ao deserto a Syllan e à sua progenitora.
O deserto de que falo fica um pouco a sul de São João do dito.
É aquela faixa entre as E.E.N.N. 123 e 124, 2 e 122. Mais ou menos isso.
Um lugar de encantos desoladores.
A horas de almoço, estávamos em Mértola, prontos para o peixe frito do rio.
Na esplanada, além dos matraquilhos, havia apenas mais um casal.
O dono do restaurante e o dito casal falavam alto, ouvia-se bem o que diziam.
Depois de ele apontar os pedidos, perguntaram-lhe:
"O que é isto aqui atrás?" - isto era o vale cavado mesmo junto à esplanada.
"É o Guadiana, minha senhora." - disse o homem, incrédulo.
Syllan, que é bom navegador, também não acreditou no que ouviu.

foto da JAE