02/07/2004

As regras

O estabelecimento acrítico de regras é qualquer coisa de fundamental.
Sempre esteve a par com a aceitação de outras mais próximas do bom senso.
O que se nota de diferente, nos dias de hoje, é a visibilidade de mais mundo.
Mais mundo visível, mais espalharei por toda a parte.
Criam-se assim estranhas regras, logo aceites e inquestionadas.
Tomemos dois exemplos:
Os programas de rádio e de televisão em que há participação directa do público via telefone.
Existe uma regra introdutória quase universal, ao nível dos prezados senhores da carta comercial, objecto já de paródia publicitária.
As comunicações dos incêndios, em jeito de ficha. Obrigatório divulgar o número de bombeiros e de meios envolvidos.
Não nos afastámos muito do adeus, até ao meu regresso.
Há uns dias que arde



O mundo coado pelas televisões.
Não é preciso muita sabedoria para saber que o que passa na televisão é o que verdadeiramente acontece.
E o que acontece é futebol e folclore político.
No ano passado, a silly season teve esse abrenúncio primordial. O fogo. O fogo e as cinzas, tudo em directo. É natural que à medida que os meios operacionais abandonam os estádios vazios se venham a virar para os matos que ardem.
Assim será.
O fogo é eterno e necessário. Bani-lo é tão quimérico como impedir o avanço das águas.
Dir-se-á que levamos milénios a domesticá-lo.
Mas é uma tarefa sempre incompleta e imprecisa. E precisamos dele. Como precisamos.
Por isso, a enxurrada de argumentos que inevitavelmente se derrama sobre as coisas quando o fogo dá sinais, é normalmente vaga e inconsistente.
A velha questão da culpa e dos culpados.
No ano passado, o argumento final foi o da prevenção. Aliás, este é um argumento que se aplica quase como um emplastro a todos os males.
Eu prefiro a previsão. Talvez seja defeito de mester.
Bem sei que a previsão falha. E falha muito. Mas sem prever, previne-se o quê?
Se houve lição que se tirasse do ano transacto, já aqui o disse no Inverno, foi a de que, ocorrendo durante catorze dias uma vaga de calor parelha à que se registou, vai arder, ah isso vai.
Falem-me em aceiros e eu mostro-lhes as auto-estradas e as linhas de água que o fogo transpôs.
Falem-me em limpeza das matas e eu pergunto até que ponto? Cimentando tudo em volta das árvores? E ainda mostro a propagação copa a copa que as imagens mostraram amiúde.
É claro que não ajuda nada não haver aceiros e haver abundância de combustível nos campos. Não haver acessos também não facilita. Certo. Mas não chega.
A questão é matá-lo à nascença, sempre que possível. Todos sabemos disso.
Todos os que vivem ou viveram no campo sabem disso. Matá-lo à nascença ou impedir que aconteça.
O ermamento a que o país foi sujeito não ajuda.
Não haver gente por perto quando ele se inicia é o primeiro dos factores de risco.
Quanto ao combate, os próprios envolvidos deram razão a quem apontou esta e aquela falha evidente.
Também eu vi colunas de bombeiros à deriva, sem saberem para onde se dirigir.
Mas não nos iludamos, temos hoje muito maior capacidade para o combate ao fogo do que alguma vez no passado.
Do que quando nos reuníamos ao toque das buzinas e, em cima das camionetas, lá íamos bater com rama nas chamas, até que os bombeiros chegassem de longe, de muito longe. E nunca houve por ali um fogo dos tais. E não faltava como não falta combustível. Vade retro.
Organizemo-nos pois.
E tenhamos a consciência de que em determinadas condições, não há outro remédio senão deixar arder.
E que São Pedro não nos brinde com o quadro do ano passado. Por dias a fio.

trecho de imagem da SIC
Pensei muito antes de escrever este post (II)

Duas frases, as de baixo, que figuram na minha galeria de frases grosseiramente inúteis.
Aquelas que não pronunciarei enquanto não perder a noção das coisas, assim o espero.
Não. Não é nada de biográfico. Nada dirigido. Saiu-me!

01/07/2004

Pensei muito antes de escrever este post

...

Desculpa, tu sabes que eu não penso isso! Saiu-me. Desculpas-me?
Imagens novas

por você
vou roubar os anéis de Saturno

(Rita Lee)

30/06/2004

Bater em meninas

Um post totalmente machista, nacionalista e mais não sei o quê...

Primeiro, a Grécia deu-lhe uma bofetada. Mas essa sabe-a toda. Sempre teve bons professores.
Depois, o moço recompôs-se.
A Rússia, moça grande e forte, papou-as.
A Espanha, a vizinha do lado, levou um açoite.
A Inglaterra, que costuma passar férias no quintal do moço, fez-se difícil mas não resistiu.
A Holanda, que já teve a mania de se meter com ele, há uns séculos, levou o troco.

Havia outras no baile. A Alemanha, a Itália, a Dinamarca, a Suécia, a Suiça, a Letónia, a Croácia, a França, a Bulgária. Mas foram-se embora sem dançar com o moço.
Agora, há por aí uma que ainda pode sair na rifa.
Vamos ver se o moço baila com elas todas e as manda para casa.
Ele também era o único no baile.

29/06/2004

Pelo São João

Pinga no pão. Pelo São Pedro, não sei não.
Mas come-se na mesma.
Aqui chegados, não espanta pois que toda a gente puxe a brasa à sua sardinha.
Uns com mais jeitinho, uns outros mais desastradamente, outros com a tal subtileza do boi ou do touro na loja de louças, de porcelanas ou de cristais.
Olhando daqui, é um ver-se-te-avias com o capacho, de um lado e doutro.
Como não há nada de novo nestas andanças, vou cortar os pimentos, dos verdes e dos vermelhos.


imagem de
Com a calma que aí tá

Descorticemos pois


A ver se ela dá

imagem de

28/06/2004

Perguntas parvas II

Em que país foi feita a bandeira que figurou nas televisões ao lado do Primeiro-Ministro, lá em Istambul?
Que significado transcendente se pode atribuir ao facto de os castelos (... das torres) se terem tornado peões e de os besantes se terem eclipsado?
Perguntas parvas

Uma candidatura forte tem que ter dez estádios novos ou remodelados? Nesse caso, ganha sempre?
Se ainda não ganhámos o torneio, porque é que já querem dar-nos as prebendas?
Porque é que as manifestações são combinadas por SMS e não por telefonemas? Porque sai mais barato? Porque não é preciso argumentar? Porque pode acontecer que o alvo não atenda?
Qual é a definição de espontâneo?
Será verdade que os trabalhadores das áreas de serviço da Galp são uma boa amostra da população portuguesa? - pressupondo que não têm ouvido outra coisa senão "menos ais..."
Coerência

É nestas alturas que claramente se demonstra que a coerência é um conceito com costas demasiado largas para ter algum valor argumentativo.
Conheço a coerência em sistemas engendrados pelo homem, mas só nos abstractos. E mesmo nesses há brechas por onde ela foge.
Não sei que tipo de coerência se pode exigir ao homem. Talvez a que é própria da sobrevivência e mesmo essa...
Não espanta assim que quem mais clama contra a incoerência alheia seja depois quem mais se contradiz.
E não é a questão do burro, o tal de quem dizem não muda de opinião. Não. É o dizerem-se, a intervalos relativamente curtos, coisas que são contraditórias. Quando não, na mesma frase.
Sempre tive pouca paciência para defensores acérrimos. E sim, também sou incoerente.

26/06/2004

Desapontamento

Não percebo nada dessas coisas. Psicologia colectiva, ânimos de massas.
Gostava de conhecer ensaios razoáveis sobre o assunto. Não conheço. Havê-los-á?
Noto, creio que todos notamos, o desalento generalizado.
Que origina o ressentimento, a procura de culpados, quase a revolta.
Entrecortados por surtos de euforia associados a esta ou aquela febre.
Em dias, tudo passa. Pior, passa rapidamente da euforia à depressão profunda.
Arrasta-se isto há anos e anos. Aparentemente com efeitos cumulativos. Mesmo que tenha havido um ou outro período de contraste.
Só me pergunto uma coisa, alguma vez terá sido diferente? Nota-se mais hoje porque tudo é mais visível? E porque há mais gente visível?
As grandes motivações não são todas elas como as paixões individuais? Efémeras, voláteis. Existirão mesmo?
O país está deprimido. Leiamo-nos uns aos outros, é o que se vê.
Quanto ao futebol, essa erva dos milagres, lembrem-se quantos dias durou a vitória do Porto.
Ganhemos ou não o torneio, em quarenta e oito horas a coisa volta ao que era.
Leiamo-nos uns aos outros. Desânimo.
Alguma vez terá sido diferente? O que é que é preciso que aconteça para os corações irem ao alto e lá permanecerem por uns anos?


Prisão preventiva

Estive um mês em prisão preventiva.
Melhor dizendo, trinta e três dias.
O bom comportamento valeu-me um fim de semana em casa.
Mas ainda assim a pena que sobre mim podia desabar, não me deu para grandes euforias.
Nunca pensei fugir à justiça. Sabia bem que era uma ideia inútil.
Pena de morte era o que constava da sentença. Assim tão grave? Sim. Mas há hipóteses de comutação em liberdade vigiada, diziam-me com ar pouco seguro.
Na noite que antecedeu o cadafalso, fugi à guarda do corredor da morte e, às escuras, nos lavabos, contemplei demoradamente a paisagem.
Um avião. Três ambulâncias cujo único sinal era a luz azul, nada de gritos. Pouca gente na rua.
Via os reflexos das luzes nos tejadilhos dos carros e era tudo. O único brilho que podia ter era esse.
Comutaram-me a pena. Moisés intercedeu por mim, soube-o na altura.
Às vezes dá-me para ler a sentença. Liberdade vigiada doravante, uma vez que o réu tem apenas doze anos.
Em letras pequeninas, porém, lá está:
Caso o comportamento futuro não seja conforme ao estipulado nos artigos acima, esta sentença é reversível, em qualquer altura, com ou sem notificação prévia.
É a vida!

25/06/2004

E agora, José?

Poucos posts deste blogue incidiram sobre a actualidade.
E muito menos incidiram sobre a política nacional.
Alguns que me lêem há mais tempo terão antevisto uma posição política aqui e ali. Mas nada de muito preciso.
A razão já a anunciei e enunciei aqui. Se és anónimo, não deves falar muito.
Mas, a ser algo mais do que sensacionalismo jornalístico o corrupio de notícias que nas últimas horas sai das rádios, se lê nos jornais, portugueses e estrangeiros, e surge nas televisões, temos um problema.
Goste-se ou não do que este governo tem feito, se o homem do leme sai agora e se transfere para Bruxelas, as notícias não são boas.
Lá está a tal diferença entre país e Europa, de que já aqui falei. Se um presidente de câmara faz um bom trabalho e ascende a primeiro-ministro, pouca gente se queixará. Mesmo os que perdem o autarca.
Se o primeiro-ministro fez um bom trabalho ou não, cada um terá a sua opinião.
Na minha, fez em muitas coisas e falhou em outras. Como sempre, como todos os outros. Uns mais, outros menos, outros ainda muito menos.
Se é da minha cor? Não, não é. Mas é talvez o mais próximo que consigo arranjar. Por isso, a minha opinião não é asséptica.
O que me parece é que, a acontecer o que se diz, o país vai entrar numa fase que não agradará a ninguém, da esquerda à direita.
A ver vamos.
Intrigante

Há aqui um vizinho que, há alguns dias, ora põe ora tira da varanda uma bandeira da Suécia.

24/06/2004

Lugares

Soubéssemos nós o que nos faz gostar de um lugar e não apreciar outro.
Arranjamos sempre uma argumentaçãozinha, na base do podemos sempre dizer que...
Eu não sei o que me faz gostar das Caldas da Raínha.
Também não me recordo de quando lá fui a primeira vez.
Não faço ideia se houve algum impacto especial, não tenho memória de algo marcante.
Tenho outrossim, uma colecção intervalada de pequenas fotos na retina que me embalam.
Acordar sobranceiramente ao parque em solarento dia de Ano Novo e ter um postal ilustrado diante dos olhos.
Passar pela Rua da Amargura e dar conta disso.
Pisar as folhas secas dos plátanos da mata e ler os entalhes nos troncos.
Correr o mercado com um saco de laranjas. Por quantas vezes?
Ficar enfeitiçado pelas fachadas envidraçadas dos pavilhões.
Se eu disser que até a rebarbadora que comprei na antiga loja de ferramentas me proporcionou desfrutar de ambientes perdidos, alguém achará que há algo mais por detrás desta fixação com o lugar. Companhias, talvez. Companhias, também.
Bifes em cervejarias.
Talvez Capri de Pousão coado pelas telas de Malhoa, no museu amarelo. Seria amarelo da primeira vez que o visitei? Cor-de-rosa?
A memória atraiçoa-nos a cada passo. Quantas vezes não é ela própria mais dourada (cor-de-rosa?) do que os factos...



imagem adaptada de foto em

23/06/2004

Discriminação

Nos tempos que correm, esta é a palavra proibida.
Mas, na vida real, a discriminação na forma de escolha, é o pão nosso de cada dia.
Repisando a frase que nos cataloga a todos como humanos mas diferentes uns dos outros, se somos diversos é natural que sejamos uns e outros mais capazes para certas tarefas.
Acho que sei para que tipo de tarefas não presto. Julgo saber quais posso executar com maior facilidade e eficácia. Neste juízo, estarei enganado em algumas coisas. E haverá até aquelas tarefas sobre as quais nada saberei, o que me impede de ter uma ideia do meu eventual desempenho.
Parece-me utópico que cada um tenha incumbências apenas em áreas onde desempenha bem. Mas parece-me razoável que se façam escolhas dos supostamente mais capazes.
Se o são ou não, isso é outra história.
O que me parece mau é partir do princípio que todos, sem excepção, estão à altura desta ou daquela tarefa.
Que não se deve descriminar por isto ou por aquilo.
Também me parece mau que se ataque tanto a estupidez.
Não me parece que a estupidez seja muito diferente dos pés chatos, da altura ou da cor dos olhos. Ninguém fez muito por nascer assim.