27/11/2004

Foi hoje, 27 de Novembro de 2004

Foi hoje que fui caçado.
Foi uma rigorosa investigação jornalística da RTIG. Na linha das grandes reportagens de há vinte e cinco anos atrás, quando era uma televisão ao serviço do partido - o CCP, pois claro.
Lá se vai o anonimato.

Nem pombal, nem pardieiro

Não passou de uma exagerada versão dos acontecimentos por parte da vizinhança, a suposta invasão columbina do post anterior.
Ainda que houvesse alguns vestígios de penas entre a janela e as cortinas, não havia espaço para os pombos se instalarem.
Entretanto, ao ler o blogue do Fernando, esse espaço admirável sempre repleto de novidade e de bom gosto, que vejo eu?
Este recorte do jornal O Globo:



E se eu tivesse apanhado os bicharocos em flagrante?
Seria detido? Estaria com TIR a esta hora?
Haveria autópsia aos restos do jantarinho?
É que há um amigo que diz que pombos de rua também se comem.

26/11/2004

A invasão columbina



Pardieiro não parece ter na sua origem o pardal pardo que tanto palra.
Parece que o étimo é pariete > parede. Paredes velhas, telhas soltas, rebocos caídos, madeiras desencaixadas, pardais lá dentro. Vem dar ao mesmo.
Há muito que percebi que a casa de cada um é onde habita.
Isto de termos a ideia de que controlamos algo mais do que as paredes onde nos inscrevemos, é mera ilusão. Para mim, é.
Apesar disso, ainda chamo meus a alguns pardieiros espalhados entre os chaparros.
Talvez pudessem ser um sonho neo-rústico de qualquer ave presa em galinheiros de betão. Não o são para mim. São ruínas.
Mas desta vez não se trata de pardais. Melhor dizendo, não se tratará só de pardais.
Nem se trata de montes caídos onde às vezes encontro cadáveres de aves que julgava desaparecidas daquelas bandas.
Trata-se de um galinheiro de tijolo e cimento. Betão tem pouco. Uma casa de onde me retirei sem me retirar. Onde deixei o meu espólio, as minhas memórias, e de onde, mais uma vez, fui o último a sair.
Lá ficou o que ninguém quer roubar. Livros, papéis, fotografias. Roupas, objectos constituídos em amostras sem valor. Sem valor para outrem. Móveis. Pratos e talheres. O bastante para quem é frugal. Como eu.
Mas retirei-me.
Recebi agora a notícia. Os pombos - livres ou escravos - ocuparam-me o espaço. Alguma janela mal fechada deu-lhes abrigo.
O que farão eles com as minhas memórias?
Mais um pardieiro na cidade.
Perdão, pombal.

25/11/2004

Inutilidades várias



É da natureza humana. Pelo menos assim parece.
Mesmo que se duvide que os nossos mais remotos antepassados tivessem tempo e oportunidade para se deterem com inutilidades. Em algum tempo elas terão entrado na vida dos homens para não mais saírem. Por enquanto.
É certo que o conceito de inutilidade não é muito seguro. Mas sobre isso falarei noutra altura.
Esta de hoje, que me tem consumido algum tempo, é tão bizarra como todas as outras que não sabemos para que servem. É apenas mais uma.
Saído da crise de processamento a que o velho Pentium me submeteu, lembrei-me de um jogo que não conseguia correr nem que a vaca tossisse e que sempre me agradou - o tal que dá pelo nome de Scrabble.
Pois lá encontrei uma versão utilizável e pus-me a jogar contra o algoritmo. Sucedia que o dicionário do bicho era obviamente inglês. E, apesar das bizarrias que encontrava no dicionário, cedo verifiquei que não era adversário para quem tantas palavras conhecia.
Foi então que me decidi por jogar em casa, isto é a construir um dicionário português adaptável à coisa. As exigências são simples - só valem palavras até doze letras e nada de acentos ou cedilhas.
É claro que há o problema da quantidade de KK, WW e YY que aparecem no jogo. Mas isso é de somenos. O busílis foi e é construir o tal dicionário.
A minha versão do Word não tem dicionário português. Já tive um mas foi para o maneta. Também não sei do dicionário que construí ao longo dos tempos, o tal de Custom Dic. Foi para as urtigas, também.
Socorri-me enfim desta página, que é subsidiária do Jornal de Notícias. Reúne palavras encontradas na versão electrónica.
É claro que contém muitos estrangeirismos, gralhas, hifenações de fim de linha, etc. Mas aproveitou-se. O Word nisso é bom. Transforma num ápice vogais acentuadas em vogais átonas. Tira as cedilhas aos cês. O Excel elimina as palavras com mais de doze letras. Mas o dicionário continua pobre.
Foi então que me lembrei de um utilitário que fiz para ajudar um estrangeiro a aprender as nossas flexões verbais. Lá se introduz o nome do verbo (regular, pois claro) e se obtêm todas as flexões. Nada de mais.
Agora fiz outro. Como o dicionário quer tudo ordenadinho alfabeticamente, é preciso não só obter as flexões verbais como ordená-las assim. Já agora incluiram-se os advérbios e adjectivos relacionados.
Se isto não é inutilidade, então o que é?
Já consigo ganhar ao moço.
Os WW e os KK? Valem KW, OK, KO, GW, entre outros.
Efeméride



imagem em http://ellisctaylor.homestead.com/Henkiss.html

Passam hoje trinta e sete anos sobre a última grande catástrofe natural ocorrida em Portugal Continental.
Na parte continental do país, salvo algum esquecimento, há a registar durante todo o século XX três dessas catástrofes, por terem sido muito mais mortíferas do que todas as outras:
23 de Abril de 1909 - o sismo de Benavente
15 de Fevereiro de 1941 - o ciclone que assolou todo o país
25 de Novembro de 1967 - a tempestade que desabou sobre Lisboa e zonas limítrofes
Nos Açores, houve entretanto diversos episódios mortíferos, todos eles causados pela actividade sísmica.
Para além destas, associadas aos ditos elementos naturais, há que não esquecer a epidemia mundial que dizimou milhares de portugueses no final da primeira guerra.
E é hoje que voltam as notícias sobre o eventual perigo de uma nova catástrofe. Mundial. De contornos semelhantes a essa.
Já aqui tinha discorrido sobre essa eventualidade, que é tão certa como a ocorrência de novo terramoto em Portugal. Só não se sabe quando cai sobre nós.
E sobre a dificuldade de combater hoje uma pandemia.
Pela facilidade e velocidade de propagação.
Sobretudo pela instalada mentalidade do politicamente correcto, pouco dada a perceber necessidades radicais face a problemas de dimensão catastrófica.
A Natureza dá-nos lições periódicas. Quase parece que o faz quando nos esquecemos que fazemos parte dela.
Esperemos que não seja desta.

24/11/2004

Civilização

Às vezes penso que o melhor sinónimo de civilização é frieza. Apenas isso.

22/11/2004

Borda d'Água

Comprei hoje o Almanaque Borda d'Água. Não sei quantas vezes o terei feito. Poucas, decerto. Algumas delas nos velhos serões da Cervejaria Trindade. Há muitos séculos.
Pois o Reportório útil a toda a gente foi durante muitos anos, ainda antes dos tais séculos, uma longínqua referência que eu ouvia de velhos e que associava a uma espécie de oráculo que circulasse pelos caminhos do Alentejo, debitando sentenças sobre ventos, águas, sementes e calmarias. Mas não era isso.
De todos os dados dele constantes, o que sempre me fez espécie foi a antecipação das ditas calmarias, do fresco, do limpo, do tempo revolto, da chuva.
Confesso que nunca aferi tais premonições. Aferi outras, mais talhadas pelo atavismo, que estas não sei se o são.
Ouvi ditos sobre semanas de nortada, dias de levante, geadas e águas. Moles e rijas.
De quase todos se adivinha uma certa capacidade para se alinharem com a estatística. Mesmo quando ainda se percebem erros de palmatória, talvez amplificados pela reprodução oral.
Mas esta certeza a um ano ou mais de vista, tem que se lhe diga.
Em 2005, vou estar atento.
O eclipse de 3 de Outubro, esse sim, conto caçá-lo lá para Trás-os-Montes.

21/11/2004

O coração da Filipa


imagem em http://tubes.ominix.com/art/holiday/valentine/ (link perdido)

Passei muitos e bons anos da vida ao lado do velho amigo R.C..
Entre as suas qualidades conta-se uma inevitável queda por tudo quanto mexa e use saias.
Queda essa que eu partilho, embora com modéstia quanto ao sucesso.
Sofri na pele os caprichos do homem.
Como da vez em que cheguei derrotado a Saragoça, morto de sono, e tive mesmo assim de completar a viagem até Barcelona, porque o homem, em vez de estar preparado para me substituir ao volante, tinha deixado que as musas o inebriassem e estava impróprio para prosseguir viagem a menos que fosse de pendura.
Actuámos em palcos dessas espanhas.
Jantámos em inglês em tocos de árvores da capital francesa, irrepreensívelmente ataviados, apenas para acirrar os passantes contra os moços do outro lado do canal.
Corremos Ceca e Meca e o vale de Santarém, metendo copos, mulheres e trabalhos, muitos trabalhos pelo meio.
Mas naquele dia, tratava-se apenas de um insuspeita incursão aos Algarves d'aquém-mar.
Coisa outonal.
A paragem para o pequeno-almoço foi na costa transtagana. Em casa de família.
E aí apareceu a Filipa.
Que nem um nem outro conhecíamos.
A Filipa era mais corpo. Pernas e busto. Uma cara daquelas de lavar como a roupa branca.
Mas disse uma coisa que jamais seria esquecida.
Foi quando mencionou aquele acidente numa estrada com dois sentidos.
No dia seguinte, pela manhã, ao entrar no escritório, reparei no mapa das obras.
Entre os pins verdes, vermelhos e azuis, havia um coração. Verde.
Estava espetado na costa alentejana.

P.S. Este post foi influenciado pela gentil deferência do amigo Santos Passos
21, é claro

A pergunta era a habitual: A quantos estamos hoje?
Ao dar a resposta acima, de forma automática, mais não fiz do que usar o cognome de vinte e um, coisa que muitos de nós faz em virtude de atavismos vários, de deixas apreendidas por aí, talvez em salas de loto clandestinas dos tradicionais clubes de bairro:
22, dois patinhos.
69, para cima e para baixo.
11, o número da cabeça.
90, nas ventas.
Mas o 21 não vem daí.
É história lendária de cujos contornos sei apenas o essencial.
Era de Inverno e fazia-se serão à roda do lume.
Os de casa e uns quantos de fora.
Foi quando um surto de espirros sacudiu a conversa. Uma das visitas desfazia-se em acenos de cabeça convulsivos e sonoros.
Perante a cena, calaram-se as vozes.
Quando o acesso terminou, perdurava ainda um silêncio pré-hilário.
Coube ao paciente, dar a deixa: "Vinte e um, é claro!"
Nunca se soube da regularidade contabilística de tais acessos. Mas a convicção com que as palavras foram proferidas não fez só desprender o riso. Deixou muita gente à espera de outra ocasião para os contar. Creio que nunca aconteceu.

20/11/2004

Sonhos


imagem em http://simcity4.free.fr/Elt/lots01.php?page=2&icnx=

Três quartéis, uma prisão, dois cemitérios, um aeroporto, duas igrejas, mais de meia-dúzia de moínhos, algumas centenas de hectares de terras agrícolas, duas matas e muitas casas - era o que eu via das minhas janelas.
Hoje ainda diviso algumas destas coisas, muito mais casas, um hospital e aí um terço da terra agrícola. As matas, sim, permanecem lá.
Vejo é uma forma de dizer. A casa ainda a tenho. Mas passa mais de um ano que de lá não me assomo.
Um destes dias, deixarei mesmo de a ter. O cerco aperta-se. Daqui apenas vejo prédios e tenho uma vaga ideia de pastagens. Uma auto-estrada que apostei ia ser construída e cuja aposta ganhei de alguém incapaz de prever os problemas de estacionamento à porta de casa, passa ali ao fundo.
Mas hoje não. Hoje via a minha mãe clicar o rato e fazer desaparecer loteamentos inteiros.
Agora quero ver as ceifas. Clique.
Tire-me dali o hospital, mãe. Clique.
Aquela torre e a escola, clique.
Quero ver aquela rampa onde adormeci ao volante. Clique.
Um pouco mais de contraste, carregue nos verdes, clique.

19/11/2004

Velhice

Há muitos anos, um primo meu reduzia o envelhecimento a um encurtamento da repetibilidade dos fenómenos.
Que começava a tomar consciência de que os bons momentos podem ser irrepetíveis. Coisas assim, dizia ele.

O caso aqui é com a máquina, como já vos disse.
Tomei uma certa consciência de que a adaptação às novidades já não é o que era.
E que a paciência para arrumar a casa também não.

Já perdi a conta às mudanças de PC desde o ano de 89, em que pela primeira vez me debati quotidianamente com uma maquineta que me dizia C:\>
Antes disso, é certo que já tinham decorrido os gloriosos anos do Spectrum, depois ainda dos anos em que os cartões perfurados eram entregues num balcão para serem sujeitos ao escrutínio das autoridades competentes.

Aliás, o primeiro Spectrum, um denodado 48K (a gente ri-se) era pródigo em censurar o dono.
Achava ele que lá mesmo porque lhe apetecia podia impunemente trocar os caracteres das linhas de Basic por espantados pontos de interrogação, como se me dissesse que não estava de acordo que eu o utilizasse para programaçõezinhas.
Tanto o fez que foi devolvido à procedência, lá pelos idos de 83. O seu substituto jaz inerte ao lado de uma impressora cujo rolo era pouco mais largo do que o do uma caixa registadora. Memórias!
Mas nenhum desses sucessos me deixou tão mal encarado como este agora.
É que a questão não é perder os dados. Que esses não perdi. É perder as configurações das coisas que não pude ou me esqueci de pôr a salvo.
É ter que perder o hábito de procurar isto e aquilo da forma a que estava habituado.
É recuperar as milhentas coisas das quais não nos apercebemos da falta que nos fazem.
É ter que escrever neste editor de texto ao qual não estava habituado, enquanto o sistema não fica instalado com todos os utilitários da praxe.
É muita areia para a minha camioneta. Fico mal encarado, mal disposto, zangado.
Ainda há quem diga que o homem não é um bicho de hábitos.
Também há quem diga que já não há gajas boas.

17/11/2004

Intermitências

As avarias têm, como tudo na vida, a sua escala.
Uma modificação irreversível a uma dada escala pode, a uma outra escala, causar uma avaria intermitente.
Que são as mais aborrecidas. Como não diz a Lei do outro, é justamente quando queremos que ela aconteça que ela não acontece. E assim se não detecta.
Pois tem sido mais ou menos isso o que sucedeu por aqui nos últimos tempos. A preguiça de esmiuçar a coisa com mais tempo também não ajudou. Mas a verdade é que se deu com ela, finalmente.
Depois de trocada a peça avariada, novo contratempo. Mas ainda assim, a parte "dura" da coisa parece agora em bom estado. Quanto à parte "mole", que não se deixava examinar em termos por causa da avaria, vai agora para escrutínio. Se houver, como parece que há, demasiados bichinhos a passear nas entranhas, prevê-se uma solução feniana.
Talvez este blogue esteja mais uns dias de molho.

15/11/2004

Negócios de família


imagem de http://ueno.cool.ne.jp/ctgm/icon02.html

Não sei em que conta se tinha o meu pai como homem de negócios. Mas não era lá muito famoso, também não era campo que lhe interessasse. Sempre foi pouco de pés na terra, embora não tivesse feito outra coisa na vida do que fincar pés (outro tipo de pés, mais pesados) na terra.
Das poucas vezes que falámos de negócios, trocámos ideias sobre negócios futuros que poderiam ser, nesses anos 70, boas oportunidades.
O negócio que ele tinha debaixo de olho surpreendeu-me. Quando dei por mim, apercebi-me que tinha feito já volumoso trabalho de casa. Falou-me da matéria-prima, de que dispúnhamos em relativa abundância e da forma como tenderiam a evoluir os seus preços, de um inicial custo negativo na aquisição a terceiros, para um custo positivo que estabilizaria numa certa casa assim que a vizinhança desse pela coisa.
Falou-me dos contactos que fizera com investigadores. Que os custos mais significativos seriam no equipamento e na dotação para investigação.
E disse-me que havia mercado. Que estava convencido disso.
Claro que a ideia nunca passou sequer ao papel. Mas era interessante. Curiosamente, mais de dez anos depois, falei nisso a alguém que estava nesse ramo da investigação e que me disse que já tinha ouvido falar em algo do género, mas muito mais recentemente, à época. Ainda hoje não existe em Portugal nada no género. E mais não digo.
Quando lhe falei na minha, que não era nenhuma novidade, era até uma ideia que já fazia o seu percurso industrial noutros países, mostrou-se céptico.
Que a questão era o tratamento da matéria-prima. Era a recolha. Era preciso uma grande capacidade de armazenamento, etc.
Hoje, andamos todos a trabalhar para essa indústria. Somos mão-de-obra não remunerada. Gostava de saber com mais detalhe quem está a encher os bolsos com isso.
Era um negócio de lixo que eu queria montar.
Calibrações

Assim fosse possível calibrar a razão como se calibra um joystick.
Mais para a esquerda, um pouco para trás...
Para a direita e para a frente, clique...

14/11/2004

Um passo em frente


Foto de MSMS
As séries malucas (que não são para aqui chamadas) e a ordem das coisas


Foto de O.A.Brekke em http://www.olavsplates.com/netherlands3.html

Tenho lido com alguma perplexidade a pouca coisa que se tem escrito sobre a iminente mudança nas matrículas de automóveis.
Estão prestes a esgotar-se as combinações 00-00-XX.
Do pouco que pude ler, não li nada que sugerisse que o que se segue é o formato 00-XX-00.
Sempre me interessei por matrículas de automóveis. Não me perguntem por quê.
E é com a habitual condescendência que leio os disparates que aparecem aqui e ali.
Intrincados cálculos combinatórios (que não têm nada de intrincado, mas assim parecem), comparações absurdas com realidades desconhecidas, de tudo aparece no pouco que se escreve sobre o assunto.
Habituei-me há muito à ideia de que o nosso sistema é semelhante ao holandês. Semelhante no sentido de não ser igual, que o deles tem lá as suas particularidades tal como o nosso tem, mas formalmente confundível. E com o atraso respectivo.
Daí que já esperasse que ao formato antigo quase coincidente com as chapas pretas, XX-00-00, sucedesse o actual, como aconteceu na Holanda.
Daí que espere agora que as letras passem para o meio.
E que, assim esgotadas as combinações de duas letras - quatro algarismos, se passe às quatro letras - dois algarismos, tal como eles o fizeram.
Temos, com este sistema, ainda pano para muitas mangas. Talvez até ao tempo em que passe a haver outro tipo de identificação. Não percebo assim as confusões sobre o que vai e não vai acontecer a seguir.
Até comparações do nosso sistema com a fase em que está o sistema holandês actual (quatro letras mais dois algarismos) já tenho lido, como se não tivesse havido história no sistema deles.
Este é daqueles assuntos que não tem assunto.
Nem sei por que raio me lembrei dele agora.
E como não sou homem de modas, o último carro que comprei ainda tem as letras no início. O próximo, com toda a certeza, não as terá no fim.

13/11/2004

Sotaque alentejano


imagem de http://geocid-snig.igeo.pt/Portugues/fotosa.html

Sempre o tive. Mais carregado umas vezes, menos acentuado noutras.
Segue estas variações conforme a bússola.
Mulheres que acordaram com um urbano de sotaque levemente sulista e adormeceram nos braços de um alentejano chaparro que deixara as botas caneleiras do outro lado do quarto.
O mistério da coisa tem a ver com a progenitura. Que nem um nem outro ostentavam o tal sotaque.
Mas este vosso criado sempre foi de duas paragens. E muito parava ele no sul. Pouco mais que palavras não eram ditas no último dia de escola e já o sacrista dava à sola.
Serve este intróito para dizer da minha pouca vontade em o fazer hoje em dia.
Por um lado, já não conto com as paredes que me abrigaram por mais de quarenta anos.
Por outro, sendo certo que em tempos até constou em alguns círculos que o homem tinha feito as malas e se instalado de vez a espreitar a horta, sendo também certo que pouco faltou para o boato deixar de o ser, dou-me hoje conta de que já não o faria.
E não o faria, não o farei, pelo menos enquanto a maré não mudar, por uma razão essencial - não convivo bem com os ambientes fechados.
Fechados porque o sistema o é. As conversas tendem a ser da vida alheia, os palpites sobre as coisas que faço e que não faço tendem a ser mais do que muitos. Mesmo aqueles que nunca se interessaram por esses temas, o fazem hoje. Foram engolidos pelas circunstâncias. Não me apetece sê-lo também.
Há uns anos, deparei com um recanto que me encantou. Ribeira, choupos, pinheiros resguardando da estrada, só vantagens. Desde que me habituasse a conviver com a passagem do comboio sobre a interessante ponte metálica ao fundo do quintal.
A pergunta que faço a mim próprio é se algum dia nascerá alguma coisa por ali.
E se nessa época já estarei surdo para a passagem do comboio e para as vozes do mundo.

12/11/2004

Traumatismo na Fazenda Pública

Não foi o valor do imposto que paguei.
Sequer foi a atenciosidade do funcionário. Ou a falta dela.
Não foi a fila de pagantes. Estava sozinho ao balcão.
Foi a senhora que entrou, vestida de vermelho.
O funcionário bloqueou. O vizinho do lado idem.
Talvez eu seja muito exigente com a fazenda.
Vista de perto, não era caso para tanto.
Hora certa

Uma das curiosidades desta época é o dispormos de uma carrada de dados inúteis que, às vezes, podemos achar curiosos.
Aqui no mundo dos blogues e num caso como o meu, que não conheço pessoalmente nenhum dos autores que leio, quase que se pode dizer com precisão ao segundo o momento em que virtualmente dei por eles.
Quando chego a um blogue que me agrada à primeira vista, é certo que gravo o endereço nos tais dos favoritos. Não será no segundo imediato, com toda a certeza. Pode até dar-se o caso de não o gravar à primeira visita. Mas com esses tais dados inúteis, lá posso saber data e hora, minuto e segundo do registo.
Conheci-te, melhor dizendo registei-te às 0:44:31 de 10 de Abril de 2004.
E para que serve isto?