A contaminação
Não sei se existe uma pudicícia da escrita pública.
Não sei se se entende que é melhor não fugir dos cânones quando a exposição é grande.
Não sei se é assim.
Não sei sequer se tal resulta de uma onda de regrismo que não se sabe bem a que costa vai dar.
Ou se advém de uma contaminação que a corrente amorfa e dominante trouxe às franjas marginais.
A verdade é que constato a cada vez mais rara ousadia de dizer coisas que colidam com a normalidade. Até de dizer coisas verdadeiramente interessantes.
Apesar daquela normalidade ser aparente. Ilusória.
Lembro-me do homem que dizia à mulher:
"Não argumentes comigo como se foras primeiro-ministro!"
E estou com ele. Ainda que muitos anos tenham passado.
02/07/2005
01/07/2005
Percentagens
Não haverá ninguém que consiga explicar a estas criaturas que um aumento do IVA de 19% para 21% gera um aumento nos preços dos bens de 1,68% e não de 2%?
Claro que isto é na teoria. E a teoria só não se ajusta à prática quando é má teoria. Neste caso é má pois despreza, além de outros, o factor humano, seja lá isso o que fôr.
Não haverá ninguém que consiga explicar a estas criaturas que um aumento do IVA de 19% para 21% gera um aumento nos preços dos bens de 1,68% e não de 2%?
Claro que isto é na teoria. E a teoria só não se ajusta à prática quando é má teoria. Neste caso é má pois despreza, além de outros, o factor humano, seja lá isso o que fôr.
30/06/2005
O 63
Sempre me encantei com os nomes dos lugares.
E sempre gostei de ouvir as hipóteses explicativas para as mais estranhas designações. Muitas delas fabulosas, é certo. Há um grosso manto de ignorância sobre a maioria delas.
O ano passado ouvi pela primeira vez alguém designar o 63.
Não é número de polícia. Não é quilómetro constante de marco. Sequer é cota de festo. É apenas o 63. Um cruzamento de estradas perdido no mato.
No qual passei toda a minha vida sem lhe conhecer a graça.
Foto em http://ortos.igeo.pt/ortofotos/
Sempre me encantei com os nomes dos lugares.
E sempre gostei de ouvir as hipóteses explicativas para as mais estranhas designações. Muitas delas fabulosas, é certo. Há um grosso manto de ignorância sobre a maioria delas.
O ano passado ouvi pela primeira vez alguém designar o 63.
Não é número de polícia. Não é quilómetro constante de marco. Sequer é cota de festo. É apenas o 63. Um cruzamento de estradas perdido no mato.
No qual passei toda a minha vida sem lhe conhecer a graça.
Foto em http://ortos.igeo.pt/ortofotos/
29/06/2005
Restos de colecção (36)
Este objecto nunca foi meu.
Mas é meu há muitos anos.
Herdei-o algures do fundo de qualquer gaveta ou adido a outros que me vieram parar às mãos.
Não era o principal do lote, era adjunto - como diria a senhora que enumerava ruas adjuntas que não eram principais, ao ser interpelada por direcções, por sentidos.
Mas eu sei que é meu, sinto que é meu, porque há muito me aparece, surgido debaixo de alguma pilha de papéis a reclamar-se meu vassalo.
Nunca o usei como horário, jamais como régua, sequer como grelha. Semanas de seis dias. Recordações do tempo em que se falava da semana inglesa. E da americana.
E ele aqui, chegou ao século XXI sem ser jogado para o lixo.
Nunca foi meu. Seria de algum familiar que o desprezou.
Hoje ganha protagonismo, um lugar na História. Sai em todos os jornais.
Este objecto nunca foi meu.
Mas é meu há muitos anos.
Herdei-o algures do fundo de qualquer gaveta ou adido a outros que me vieram parar às mãos.
Não era o principal do lote, era adjunto - como diria a senhora que enumerava ruas adjuntas que não eram principais, ao ser interpelada por direcções, por sentidos.
Mas eu sei que é meu, sinto que é meu, porque há muito me aparece, surgido debaixo de alguma pilha de papéis a reclamar-se meu vassalo.
Nunca o usei como horário, jamais como régua, sequer como grelha. Semanas de seis dias. Recordações do tempo em que se falava da semana inglesa. E da americana.
E ele aqui, chegou ao século XXI sem ser jogado para o lixo.
Nunca foi meu. Seria de algum familiar que o desprezou.
Hoje ganha protagonismo, um lugar na História. Sai em todos os jornais.
Trajes regionais
Pode também dizer-se que uma boa linha divisória é aquela que passa entre os que tomam como absolutos e definitivos os trajes regionais, como se o tempo tivesse parado algures pelos séculos XIX ou XX e os que acham que ele, o tempo pássaro.
Ou ainda entre os que se tomam por intelectuais de serviço e os acabados imbecis. Incluo-me sempre nos últimos grupos e no grupo dos últimos, modéstia à parte.
Pode também dizer-se que uma boa linha divisória é aquela que passa entre os que tomam como absolutos e definitivos os trajes regionais, como se o tempo tivesse parado algures pelos séculos XIX ou XX e os que acham que ele, o tempo pássaro.
Ou ainda entre os que se tomam por intelectuais de serviço e os acabados imbecis. Incluo-me sempre nos últimos grupos e no grupo dos últimos, modéstia à parte.
28/06/2005
A malga e o Estado
Fosse o caso menos sério, fosse o caso menos velho, embora como os velhos, mais se tema por ele em certas épocas, fosse o caso de nos rirmos com isto tudo, diria que:
A malga e o Estado, o Estado e a malga, me lembram uma outra malga, a dos sócios que foram à feira com um pipa de vinho. E que acabaram por bebê-la, à pipa, sem uma única pinga venderem. À malga, o fizeram. Uma de cada vez.
E o estado em que ficaram.
Não tenho jeito para contar histórias. Mas há quem jure que já bebeu vinho, talvez morangueiro, por uma nalga - eu disse nalga.
Fosse o caso menos sério, fosse o caso menos velho, embora como os velhos, mais se tema por ele em certas épocas, fosse o caso de nos rirmos com isto tudo, diria que:
A malga e o Estado, o Estado e a malga, me lembram uma outra malga, a dos sócios que foram à feira com um pipa de vinho. E que acabaram por bebê-la, à pipa, sem uma única pinga venderem. À malga, o fizeram. Uma de cada vez.
E o estado em que ficaram.
Não tenho jeito para contar histórias. Mas há quem jure que já bebeu vinho, talvez morangueiro, por uma nalga - eu disse nalga.
27/06/2005
25/06/2005
Parece chumbo
O estranho hoje foi terem desatado a aparecer colegas de escola.
Confesso que quando perguntei ao Mariano se ele ainda me conhecia, o que eu queria dizer é que dele já só me lembrava em sonhos.
Mas apareceram vários. Aos últimos, até enumerei as presenças anteriores.
É certo que fiquei convencido de que eles apareciam lá na sala de jantar sem saberem bem de quem era a casa. Mas também não se espantavam muito quando eu os interpelava.
Depois lá fiz de cicerone.
Mostrei a casa e inevitavelmente as minhas recentes descobertas. Esta magnífica porta nunca se tinha dado por ela, que eu me lembre. Toda esta zona do quintal estava aterrada e não se sabia que existia esta espécie de caramanchão.
Mesmo este trabalho em pedra, neo-manuelino, estava como que entaipado e só demos por ele há pouco tempo.
Saímos pela rua e mostrei então as atrocidades que os novos proprietários acabavam de erigir.
Quase sempre dando notícia do que era a anterior situação. Aqui era muro, ali havia árvores de fruto, até ali ao fundo onde estão aquelas marcas de uma empena na falésia (ou será um muro de suporte?) ainda era nosso.
Depois, olhei para trás e reparei que já me estava a esticar. A esticar os domínios. Afinal era lá atrás que era o sesmo.
Voltámos pela ponta da vila. Cumprimentei umas caras estranhas em portas conhecidas. Depois, ali na zona em que surge, à esquerda, a rua que tem os tais cafés afamados, saiu-me um homem ao caminho, com um ar misto de determinação e de quem-não-quer-a-coisa.
Queria saber se a cortiça tinha dado.
Quando voltámos a casa, fomos encostar-nos à janela grande que tem as tais pilastras neo-manuelinas.
Olhei mais de perto e pareceram-me de chumbo feitas. Ainda mais e já era uma espécie de filigrana em alumínio.
Disfarcei.
O estranho hoje foi terem desatado a aparecer colegas de escola.
Confesso que quando perguntei ao Mariano se ele ainda me conhecia, o que eu queria dizer é que dele já só me lembrava em sonhos.
Mas apareceram vários. Aos últimos, até enumerei as presenças anteriores.
É certo que fiquei convencido de que eles apareciam lá na sala de jantar sem saberem bem de quem era a casa. Mas também não se espantavam muito quando eu os interpelava.
Depois lá fiz de cicerone.
Mostrei a casa e inevitavelmente as minhas recentes descobertas. Esta magnífica porta nunca se tinha dado por ela, que eu me lembre. Toda esta zona do quintal estava aterrada e não se sabia que existia esta espécie de caramanchão.
Mesmo este trabalho em pedra, neo-manuelino, estava como que entaipado e só demos por ele há pouco tempo.
Saímos pela rua e mostrei então as atrocidades que os novos proprietários acabavam de erigir.
Quase sempre dando notícia do que era a anterior situação. Aqui era muro, ali havia árvores de fruto, até ali ao fundo onde estão aquelas marcas de uma empena na falésia (ou será um muro de suporte?) ainda era nosso.
Depois, olhei para trás e reparei que já me estava a esticar. A esticar os domínios. Afinal era lá atrás que era o sesmo.
Voltámos pela ponta da vila. Cumprimentei umas caras estranhas em portas conhecidas. Depois, ali na zona em que surge, à esquerda, a rua que tem os tais cafés afamados, saiu-me um homem ao caminho, com um ar misto de determinação e de quem-não-quer-a-coisa.
Queria saber se a cortiça tinha dado.
Quando voltámos a casa, fomos encostar-nos à janela grande que tem as tais pilastras neo-manuelinas.
Olhei mais de perto e pareceram-me de chumbo feitas. Ainda mais e já era uma espécie de filigrana em alumínio.
Disfarcei.
23/06/2005
Sãjuõe
Nunca lá fui nesta data.
Vaga ideia das histórias que o meu pai, alentejano pois, me contou das épicas noites do dito, dos tempos em que andava pela D. Manuel II.
A ele, sempre o vi com um brilho nos olhos quando se falava na Inbicta.
Brilho que quase fez com que eu próprio lá fosse nascer.
Casado com o arco do amigo Edgar.
Embalado com os poemas do amigo Jorge.
Assim não foi. Nasci aqui pela capital do Império.
Ainda hoje tenho um deficit para com o Porto.
Contas a ajustar.
Nunca lá fui nesta data.
Vaga ideia das histórias que o meu pai, alentejano pois, me contou das épicas noites do dito, dos tempos em que andava pela D. Manuel II.
A ele, sempre o vi com um brilho nos olhos quando se falava na Inbicta.
Brilho que quase fez com que eu próprio lá fosse nascer.
Casado com o arco do amigo Edgar.
Embalado com os poemas do amigo Jorge.
Assim não foi. Nasci aqui pela capital do Império.
Ainda hoje tenho um deficit para com o Porto.
Contas a ajustar.
H2O
Recordo-me das conversas sobre os convénios ibéricos da água.
E da história da barragem de Gabcikovo-Nagymaros.
Recordo-me de disputas a outra escala, resolvidas a tiro de caçadeira.
Recordo-me ainda de ouvir, há décadas, os argumentos dos que profetizavam as guerras da água.
Guerras da água sempre houve. Talvez tenham nascido com a vida, tal como a entendemos.
A imagem abaixo, que todos conhecemos e temos em memória, parece mostrar uma espécie de queimadura peritropical.
Sabemos ou julgamos saber que algumas destas regiões foram há milénios mais férteis. Há sinais disso.
Trata-se de uma evolução que independe da humanização do planeta, pelo menos na escala a que hoje suspeitamos que estamos a interferir.
Saber como evoluirá a mancha amarela não parece fácil. Desconfio sempre da extrapolação de um troço mínimo de uma curva para explicar uma função.
Mas suponhamos que ela alastra. Como se vê, estamos na zona de transição.
A agravar-se a falta de água, é lirismo puro contar com a água que vem de Espanha. Em última análise, será até lirismo contar com a água que cai sobre o rectângulo.
A suceder tal, sobreviveremos aqui num formato semelhante ao dos países de deserto feitos.
E teremos que ir buscar a água onde ela ainda abunda, ao vizinho do lado. E não será a Espanha.
Ou então, fazemos as malas.
O meu caseiro desenganava-me, um destes dias, enquanto contemplávamos magníficas sobreiras quebradas à seca e especulávamos sobre a sua capacidade de regeneração:
"Parece que é lá para 2012 que isto fica um deserto."
Fiquei sem saber de onde lhe vinha a profecia. Se da atávica interpretação dos sinais se de outro lado qualquer.

imagem em http://geoimages.berkeley.edu/wwp304/map/index.html
P.S. Obrigado pela dica.
Recordo-me das conversas sobre os convénios ibéricos da água.
E da história da barragem de Gabcikovo-Nagymaros.
Recordo-me de disputas a outra escala, resolvidas a tiro de caçadeira.
Recordo-me ainda de ouvir, há décadas, os argumentos dos que profetizavam as guerras da água.
Guerras da água sempre houve. Talvez tenham nascido com a vida, tal como a entendemos.
A imagem abaixo, que todos conhecemos e temos em memória, parece mostrar uma espécie de queimadura peritropical.
Sabemos ou julgamos saber que algumas destas regiões foram há milénios mais férteis. Há sinais disso.
Trata-se de uma evolução que independe da humanização do planeta, pelo menos na escala a que hoje suspeitamos que estamos a interferir.
Saber como evoluirá a mancha amarela não parece fácil. Desconfio sempre da extrapolação de um troço mínimo de uma curva para explicar uma função.
Mas suponhamos que ela alastra. Como se vê, estamos na zona de transição.
A agravar-se a falta de água, é lirismo puro contar com a água que vem de Espanha. Em última análise, será até lirismo contar com a água que cai sobre o rectângulo.
A suceder tal, sobreviveremos aqui num formato semelhante ao dos países de deserto feitos.
E teremos que ir buscar a água onde ela ainda abunda, ao vizinho do lado. E não será a Espanha.
Ou então, fazemos as malas.
O meu caseiro desenganava-me, um destes dias, enquanto contemplávamos magníficas sobreiras quebradas à seca e especulávamos sobre a sua capacidade de regeneração:
"Parece que é lá para 2012 que isto fica um deserto."
Fiquei sem saber de onde lhe vinha a profecia. Se da atávica interpretação dos sinais se de outro lado qualquer.
imagem em http://geoimages.berkeley.edu/wwp304/map/index.html
P.S. Obrigado pela dica.
21/06/2005
Indiscrições
Pois. Ninguém me mandou falar no Splash.
Apanharam-te, Paulo.
Achas que ponha aqui que já és casado há uma meia dúzia de anos?
Será a mesma daquela noite em Almodôvar? A que te disse que sim, que era boa, mas que era muito estúpida. E à minha frente, pá.
Ou aquela em quem deste uma porrada no carro à saída da estrada velha? Essa nunca a vi. Só me disseste que tinha sido pena o teu pai ir contigo nessa altura.
Pois. Ninguém me mandou falar no Splash.
Apanharam-te, Paulo.
Achas que ponha aqui que já és casado há uma meia dúzia de anos?
Será a mesma daquela noite em Almodôvar? A que te disse que sim, que era boa, mas que era muito estúpida. E à minha frente, pá.
Ou aquela em quem deste uma porrada no carro à saída da estrada velha? Essa nunca a vi. Só me disseste que tinha sido pena o teu pai ir contigo nessa altura.
As coisas mais simples
Irrito-me, pronto.
De ouvir um dia inteiro que o Verão começou às 6:46.
Só lêem as gordas? Ou o O.A.L. não percebe nada do assunto?
Irrito-me, pronto.
De ouvir um dia inteiro que o Verão começou às 6:46.
Só lêem as gordas? Ou o O.A.L. não percebe nada do assunto?
Realidade, imagens e medidas
Já todos sabemos que só acontece verdadeiramente o que passa na televisão.
Os incêndios, a seca, os discursos à hora do telejornal, etc.
Os assaltos e a violência nos comboios suburbanos mereceram finalmente uma medida anunciada.
É que, até aqui, nada acontecia.
Talvez comecem finalmente a perceber uma das razões pelas quais há tantos carros no IC 19.
Talvez o resto do país se aperceba também de que existe um problema sério.
Porque os que moram em certos locais, há muito que o conhecem.

imagem em http://www.dietetica.blogger.com.br/fita-metrica.gif
Já todos sabemos que só acontece verdadeiramente o que passa na televisão.
Os incêndios, a seca, os discursos à hora do telejornal, etc.
Os assaltos e a violência nos comboios suburbanos mereceram finalmente uma medida anunciada.
É que, até aqui, nada acontecia.
Talvez comecem finalmente a perceber uma das razões pelas quais há tantos carros no IC 19.
Talvez o resto do país se aperceba também de que existe um problema sério.
Porque os que moram em certos locais, há muito que o conhecem.
imagem em http://www.dietetica.blogger.com.br/fita-metrica.gif
Subscrever:
Mensagens (Atom)