12/01/2007

Um rosto na solidão

Os sítios têm, como todos sabemos, classe social. Mesmo que as fronteiras sejam, como em tudo no Universo, indetermináveis.
Vivi durante quase toda a vida numa determinada classe. Mudei-me para outra. Entre uma e outra, evitei a tempo passar por uma espécie de degrau intermédio.
Hoje vi um rosto que pertence a essa classe que evitei. No preciso local onde seria suposto que estivesse. Não gostei dele hoje como não gostei dos seus congéneres nesse tempo tal.

Ia nestas constatações pela rua quando me detive, por isso mesmo, no que poderia duma penada representar as minhas origens ao longo dos últimos ene séculos, a quem mo perguntasse na próxima esquina. Uma mistura de camponeses e terratenentes.

Por levar na memória imediata esta gaveta aberta, não estranhei que me chamassem pelo nome próprio do meu Avô paterno. Era eu carregando a minha história. Sequer estranhei que mais à frente me dessem como morto na gaveta ao lado da minha. Era eu carregando o meu futuro.

Sem classe.

11/01/2007

A pedra da Alice

A solta das pombas ocorria todos os dias da semana, a hora certa.
A irmã lá vinha no meio do bando branco de batas.
A pedra saiu-lhe da mão, a testar a queda dos graves, parafraseando um episódio de história ouvida.
E acertou no cocuruto de uma das que ele notara entre as tantas.
Caiu em cima de quem caiu - pois.
Não se safou do castigo, enquanto lhe via ser aplicado o curativo.

Muitos mas muitos anos depois, ela riu-se como se sempre o tivesse encontrado de pedra na mão, pronto a ser o portador, o lançador, do acaso ferente.

09/01/2007

Efeméride

Se não fosse esta para mim belíssima prenda, nem sequer me daria ao trabalho de descarregar aqui a passagem de ano, como não me dei o ano transacto.
A verdade é que o blogue acaba por funcionar, em parte, como o tal caderno de capa preta, biográfico. E quando não há motivo, não se assinalam as datas. Ou havendo motivo, não havendo talante.
Sei lá eu.
Apenas suspeito que Fidel não me acompanhará muitos mais anos nesta efeméride.
Apenas estou certo de que jamais ganharei qualquer Nobel, visto apenas que a probabilidade de duas pessoas nascidas no mesmo dia o receberem é ínfima, a menos que as duas pessoas sejam uma só, o que não é o caso.
Apenas afirmo que dizer mais é disparate.
Obrigado, Minha Neta.

07/01/2007

FOR Without NEXT in 1001

Podia dar a esta afirmação aquele ar metapoético que se sabe.
Mas - e é mesmo mas - vou usá-la para um lance mais de acordo com o que me assola.
E o que me assola, ainda me safando com o velhinho Basic nos casos em que este bate aos pontos outras ferramentas mais "amigas do utilizador", é ver à minha frente tal mensagem.
Significa ela, para quem está menos familiarizado com esta linguagem, que iniciei na instrução 1001 um ciclo que não fechei.
Ora, o grave da coisa é que, se tratando de um programa curtíssimo, com muito poucas linhas, ainda não descobri a falha.
Vejo lá o NEXT para o FOR da 1001. Ou seja, vejo o ciclo fechado. Nenhuma instrução dentro do dito, atira para fora dele por forma a justificar o erro.
Analisei outros ciclos e também estão fechados.
Considerando que há cerca de 25 anos que uso esta linguagem e que com ela já fiz largas centenas de programas funcionais, e que o erro a que se refere esta mensagem é dos mais facilmente identificáveis e ultrapassáveis, a única coisa que me ocorre é que o NEXT que falta tem a ver comigo.
Será isto metapoesia?


Adenda ainda a tempo: Não era de facto a 1001 que continha o erro. Era um outro ciclo que estava aberto, pois.

06/01/2007

Espólio (22)


espólio Campos Vilhena, foto de MSS

Mértola, anos 50, construção da ponte sobre o rio Guadiana.

05/01/2007

04/01/2007

O cão deprimido*

Foi agora mesmo. Estava a ser atendido quando tocou o telefone.
A cara da empregada transfigurou-se.
Quando ela desligou o telefone e dado ter ouvido inevitavelmente a conversa, perguntei: Foi o cãozinho?
Ela disse-me que sim e contou-me do aparato policial para pôr fim aos dias do cão deprimido.
E da ameaça de despedimento com justa causa que pende sobre ela e duas colegas. Segundo ela, por terem vendido aos clientes comida para o cãozinho.

Não sei se o cão alguma vez foi de alguém. Creio ter sido, dada a sua docilidade e expressão quando reagia às palavras e carinhos dos humanos.
A ser assim, foi abandonado. Estava quase permanentemente deitado à porta daquele estabelecimento, como se tivesse em si toda a infelicidade que têm os cães.
Foi levado hoje, com aparato policial.
Imagino que fosse um perigo terrível para a saúde pública. Quanto ao aparato, é óbvio que os imbecis que nos governam, nos mais variados níveis, têm que justificar o sugadouro de dinheiro que o Estado é.

Ah sim, os imbecis não têm culpa alguma de o ser. A culpa é obviamente nossa, ao nos demitirmos das responsabilidades e ao deixarmos assim as decisões para eles. E ao permitirmos que a organização do país seja aberrante e ridícula.

Estou revoltado, é claro. E não gosto nada de escrever a quente. E este caso foi a gota que fez transbordar o copo, hoje.


*andava há uns tempos para publicar algo sobre ele.

02/01/2007

Escrita em dia

Já sabia que era assim. Mas tirei a prova dos nove durante o mês em que o computador meteu baixa na caixa.
É-me estranho, cada vez mais estranho, o uso da pena. A comprová-lo o esmorecimento do calo no dedo médio direito.
A minha caligrafia, outrora quase de perfeccionista no que tocava à letra de imprensa, ganhou demasiada liberdade poética. Gatafunhou-se.
A escrita corrida, dita estenográfica, alcançou um período mnemónico ridiculamente curto. Algumas horas depois torna-se indecifrável.

Posto isto, e tal como pretendia há algum tempo, comprei um auxiliar de memória que substitui o tradicional caderno de capa preta.
SG delirou com o aparelho e furtou-mo por uns dias. Afirmou que não escreveu o poema abaixo, disse-o de uma assentada.
Eu revelei-lhe que gravadores de som são coisa velha e relha. Ele, lá das nuvens, retorquiu: Ah, sim? Deste tamanho?

01/01/2007

Sinceramente, brincando

Sincebrincando o boneco vector.
Pequenos companheiros
Admoestando poetas e pinheiros.
Sincebrincando a merenda do pastor,
Vemos vagueiros arrastando lamas e pinheiros.
Sincebrincando romenas e romeiros.
Voltamos inteiros,
Penas e sobreiros.
Sincebrincando, temendo torneiros.
Facas de lanceiros,
Copos de escudeiros,
Longe de terreiros,
Marcas de carreiros,
Prisioneiros.
Sincebrincando velas e veleiros.
Pélagos, pesqueiros.
Escasseia a vaga, é dia primeiro.
Sincebrincando um denso nevoeiro.

SG, inéditos, 2006
Deixa lá fazer umas previsões também



Na vizinhança da centena de baixas. Para aí.
Portugal, 2007



Antes do levante, do local de sempre.

31/12/2006

Na Mésia

Vejo-te de cerejas.
Vejo-te de flores.
Recebo-me contigo.
Há setecentos anos, hoje que seja. Hoje que sejas.

SG, inéditos, 2006

Ano velho

Na preguiça de quem carrega mais um ano às costas, como se fosse eu o único, socorro-me de mim próprio, em autocitações imodestas:

de 1 de Março de 2004
de 16 de Agosto de 2004
de 31 de Deezembro de 2004
de 19 de Novembro de 2003

Talvez devesse dizer-lhe, lembrar-lhe, que não me será indiferente que às 22:00 se dê a entrada da Bulgária na União. Talvez SG me socorra. Ele que me apareceu estes dias.