22/06/2007

Torres Vedras, 2006



O meme visto por ele próprio

Confesso que não sou muito dado a cadeias. Vejo os links que aqui tenho como elos de uma, de umas. Basta-me isso.
Mas lançado que me foi o repto, uma vez mais, acedo a integrar-me numa.

Ora, o meme. O meme é um nome que já tinha visto escrito aqui e ali. Não me despertou interesse a palavra, o conceito, a ponto de querer saber exactamente o que era, ao contrário de outras palavras, de imagens que me levam em correntes, elas sim, de novos conhecimentos. Acontece a todos, creio eu.
E recebido o convite para o meme, houve então que completar a noção pálida que tinha do conceito e que era qualquer coisa relacionada com mimetismo.
Eu faço. Tu fazes. Ele faz.
Mas não é isso, sendo-o.
Do que descobri, via aqui e acolá, posso mencionar que tropecei neste post, que daí fui à wikipedia e que por lá me quedei. Diz que o nome tem mais de 30 anos. Muito prazer.
E fiquei com a ideia de que é uma definição poética demais para ser científica.

Aceitando todavia que estes pontos de contacto nos permitem passar memórias que se apagariam de outro modo e apesar de este blogue ser em parte dedicado à preservação de algumas memórias, passando-as, aproveito o ensejo para relembrar dois factos da História de Portugal do séc. XX que parece terem sido banidos dos relatos:

O acidente ferroviário do Rápido do Algarve que ocorreu perto de Sabóia (Odemira), creio que em 1956, e parece que foi um dos mais graves acidentes ferroviários ocorridos em Portugal.
A onda de muitos metros que matou na areia uns quantos pescadores na praia de Santo André (Santiago do Cacém), apanhando-os completamente desprevenidos e que terá ocorrido ou na década de 1950 ou na de 1960.

Suponho que as tentativas que fizerem de pesquisar na rede sobre tal, irão fatalmente voltar aqui, a posts anteriores em que os já mencionei.

A minha proposta é pois: Passo este meme a quem tiver alguma informação mais sobre um destes dois factos. Ficava muito grato se me a comunicasse.

E aqui está, Errezinha.
Anços, 2006

20/06/2007

Suicidário

Tínhamos vindo das cervejas no bar da praia.
Os sete ou oito que ali andávamos entre a política e as Marinas frescas, tivemos mais tarde a certeza de lá ter visto um blusão de cabedal que de costas parecia soçobrar a uma franja decorada com fita.
Entre o manifesto de resistência mais ou menos militante, ainda que naquela hora tão efémero que se reduzia a traços na areia que a maré vazia proporcionava como quadro, e o silêncio sobre as expectativas individuais incidindo no próximo baile da Esplanada, distinguimos claramente o som da motorizada em lancinantes arranques.
Celebração finda com a pancada brutal.
Quando alcançámos o final do túnel e encontrámos a máquina ainda acelerada no fundo das escadas, já o blusão de cabedal mostrava ao cimo dos degraus reflexos metálicos da pouca luz que a cerrada noite permitia. Talvez luar apenas.
Não morri! - a frase concatenava-se com os ecos da discussão que recordávamos agora.
Pôs-se de pé. Andava, sangrava, ria, chorava.
No hospital da vila, uma empregada em traje de sono escancarou-lhe as portas. Que venha a ambulância, que estou cá sozinha.
Não cheguei a saber a quem pertencia o blusão de cabedal, apenas soube de onde viera.
Três anos mais tarde, enquanto conduzia a casa o encanto de uma noite, percebi que era conterrânea do blusão preto. Se ela sabia quem era.
Morreu no ano passado. Matou-se, disse ela.

19/06/2007

Ali, ao pé dos arcos de pedra

Ali, a partir do momento em que transpus aquela porta que direi suja, mesmo sem saber se suja estaria, e digo suja daquele baço que os vidros tomam da argamassa de pó e humidade, ali, ao pé dos arcos de pedra, assim que transpus a porta, comecei a escrever estas linhas. Ou outras que não estas, que não há maneira de saber quais foram ao certo as linhas que então escrevi.
O homem ensaiava problemas nos escaques magnéticos. Olhou-me por cima de uns óculos que direi óculos sem cuidar de saber se o seriam, se seria apenas um olhar assestado a um zénite venial.
E levantou-se, tendo o cuidado de me perguntar o que desejava.
Nesse ponto, escrevia-o parte de uma companhia de caçadores que haveria de reunir no covil do camarada de armas um destes dias. Escrevia-o em papel verde, de 45 g, A5, convocando todos e indicando dois números de telefone, ou três, com alcunhas consagradas. Mesmo que me parecesse inútil, estranho, fazê-lo assim em papel.
Com ou sem manteiga?
Respondi, pensando nos pratos por encomenda que cada um reservaria para si, no tal bródio.
O para beber veio gelado, da arca.
Nesta altura antevia o parque de estacionamento ainda com os restos da sinalização "convívio da companhia de caçadores...", um ou dois ou mesmo três carros de companheiros mais recordativos ao sétimo uísque, o cão que fareja os restos, um fio de água que vem sabe-se lá de onde e é tudo.
Despeço-me do homem que demora os óculos ou o olhar descido nos escaques. O jornal continua marcado na mesma página. Parece que o está há meses.
Subtraio o meu carro à conta do parque. A diferença é zero.
Rio Jamor (sob a E.N. 6), 2007

15/06/2007

Cartão de crédito

Escrevi aqui há dois anos e meio que me tinha sentido mal julgado por não ter cartão de crédito.
É claro que não se pode medir a opinião pública ou a pública avaliação, subsumindo a partir de um imbecil qualquer. Que foi o que fiz em tal ocasião, ainda que pretendendo ser irónico.
Daí para cá, não se deu o caso de ter voltado a ser olhado de alto a baixo por não ter uma tal coisa na carteira.
Convém dizer também que não tenho a preocupação do parecer, mas que me aborrece tropeçar em explícitas avaliações alheias. O prejuízo acaba por ser mais da irritação do que do resto.
Dito isto, não é que dou ontem com um cartão de crédito emitido em meu nome, todo bem embrulhadinho, com as devidas taxas de juro bem explicadas, na minha caixa do correio?
Já não posso dizer que não tenho um.
Não faço a menor tenção de o devolver ao meu banco. Fica aqui no meu museu. Virgem até morrer por evaporação de solventes.

14/06/2007

O melhor amigo do homem

Ando aqui há tempos com esta atravessada.
Pensava eu que o melhor amigo do homem era o cão. Pensar não será bem. Meteram-me isso na cabeça e eu não me livrei em tempo de tal ditame. Depois, o cão parece ter acompanhado o homem por tantos séculos que lá ganhei algum lastro para alicerçar uma ideia que me tinham impingido. Sabemos bem como são estas coisas.
Mas o certo é que, à medida que fui vivendo e convivendo, esbarrei com crenças díspares. Que de alguma forma beliscaram aqueloutra.

Vem um e diz, acabadinho de fechar a cerca do gado: "O melhor amigo do homem é o arame!" e logo me dou conta de que muitos mais o acompanham nesse suspiro.
Chega outro, a modos que atrasado, bate os dedos no capot quente e exclama: "O melhor amigo do homem é o automóvel!" e dá-se o caso de ouvir depois a outros que tais, sentença igual.
Estou debaixo de uma viga aparentando descaso de manutenção e logo ouço a quem parece abraçar carlingas de um só amplexo, lagrimita ao canto do olho: "O melhor amigo do homem é o betão!" e afinal há inúmeros mais que assim o dizem.
Também já ouvi discussões em que o fiel amigo vem à baila. E vai-se a ver é o bacalhau.

Com tudo isto, vejo seriamente abalada a minha crença mesmo que me recorde das intensas lambidelas com que o meu querido cão me agraciou.
Será que há por aí mais colégios, mais agremiações, deputações, confrarias que venerem a amizade unívoca de uma qualquer outra entidade material ou imaterial? A haver, qual seria esse amigo? Esse melhor amigo.
E não ando à cata de nomeações. O que quero é certezas.

12/06/2007

Das noites tais

Subir por escadas ancestrais, becos e ginjas.
Apreciar as fêmeas de alto a baixo.
Beber outra, fingir atacar o sapato e mais outra.
Agarrá-las pelas costas, à falsa-fé, e levá-las pelo braço, entoando Marselhesas.
Trocá-las por cigarros, mais acima.
Orientar pelo cheiro.
Roubar febras e até o abano.
Não pagar rodadas de cerveja.
Palmilhar São Tomé pelos telhados.
Ver os conhecidos tresmalhar o gado a custo junto.
E beber outra, ao virar da esquina.
Entrar em Medicina usando o abano, salvo o conduto.
Que eram mais sardinhas no pátio das traseiras.
Terminar cantando, sempre cantando.
Sempre os mesmos, à porta de casa.
A manhã quente.
Como a caldeira.
Amadora, 2007

11/06/2007

O ponto Foz Coa da discussão técnico-política

É onde estamos a chegar.
Recordam-se dos protagonistas?
E do chorrilho de asneiras que então se ouviu?
E da ideia de desgoverno que dali saiu?
Estamos quase lá.
Praia da Cruz Quebrada, 2007

10/06/2007

O estranho silêncio das máquinas de escrever

Diz a lenda que à volta daquele andar da Almirante Reis os vizinhos, com razão, protestavam contra o teclar metálico das dactilógrafas que, altas horas da noite, ultimavam apresentações de cálculos e memórias descritivas, a partir da letra mais ou menos legível da engenharia.
Talvez ainda soassem os carretos das Brunswiga, aproximados a duas casas decimais.
Hoje, falece-nos esse rumor quando adentramos as escriturarias onde há muito os alpacas se transformaram em gestores de produto ou coisa que o valha. Mais dados a debitarem sonoramente um chorrilho de linhas de um qualquer certificado manual de curso de formação do que a devolverem o rolo à posição de ponto parágrafo.
É uma falta poética, essa.
Mesmo que os nossos tímpanos tenham ganho com a troca.