29/04/2009

Propagação

Em 2002, alguém se lembrou de criar uma aplicação onde os europeus da zona do Euro registassem a circulação pelas suas mãos de uma moeda proveniente de um outro país.
Pretendia com isso, ao que me lembro do que constava na página, colher informação útil para o estudo de epidemias.
Não segui a coisa, não faço a menor ideia do interesse que suscitou, que resultados obteve.
Apenas se pode dizer, quaisquer que sejam os resultados a que chegou, é que seria necessária muita correcção para que estes dados ao serem tratados viessem a ter utilidade para o estudo de epidemias.
Disse hoje a Directora-Geral da O.M.S. que esta era a primeira vez que a propagação de uma epidemia se podia seguir em tempo real. É facto que sim.
O que é preciso saber é qual a correcção que o tratamento dos dados deve utilizar para se ter uma ideia o mais aproximada possível do que está a acontecer.
É isso o mais difícil de tudo.
Até de saber que utilização dar a essa informação em futuras ocasiões.

Nota-se uma dificuldade enorme da maioria dos jornalistas em perceber o significado da escala de pandemia da O.M.S..
Diga-se, ao mesmo tempo, que os níveis mais altos da escala (4, 5 e 6) estão separados por critérios um tanto ou quanto absurdos.

28/04/2009

Cegueira

Quando Saramago escreveu o “Ensaio sobre a cegueira”, acrescentou um título mais às obras que a literatura consagrou a pragas.
A minha obra preferida é “O dia das Trífides”, de John Wyndham, inexplicavelmente desaparecida das minhas estantes.
Também ela trata da cegueira.
Sem cegos, há também “Vuzz”, de P.A. Hourey e muitos outros livros interessantes.

A cegueira que ora se vê é a que nos dizimará, no dia em que nos enfrentarmos com algo muito contagioso e muito letal.
É ela que se expressa em todas as suas formas nas medidas ridículas, na propaganda absurda, no comportamento das massas.

27/04/2009

A peste

A única coisa nova na propagação das pestes (usando peste latamente) é que a velocidade aumentou muitas vezes e a notícia também.
O aumento da velocidade é um factor agravante.
A propagação da notícia pode ter um efeito atenuante, conquanto também possa gerar alguns comportamentos perigosos.
Pelo pouco que se sabe – que eu sei - deste surto, não me parece que venha a ser muito mortífero.
Mas vai ser um bom teste para pôr à prova os sistemas sociais.
O ridículo já se instalou em algumas medidas avulsas, incipientes e inconsequentes. Veremos o que segue.


capa da 1ª edição americana de “A Peste” de Camus, in Wikipedia

24/04/2009

Fado

E depois há aquelas ocasiões em que tropeçamos no fado.
No nosso próprio fado. Vadio. A desoras.
Lisboetas que sejamos, nascidos do Alentejo.
E há as fêmeas. As que o são. Fêmeas como tudo o que circunscreve um macho.
Ah, se há.

23/04/2009

O homem desmembrado

Parece que o concurso das personagens que aqui mencionei não se tornou necessário aos investigadores ingleses.
We’ll see.

23 de Abril de 1909

A esta hora já se contavam os mortos, já se cuidavam os feridos.
A terra haveria de tremer perceptivelmente por cerca de um ano mais, como acontece normalmente nestes casos.


Fotografia do atelier Benoliel, depositada no Arquivo Municipal de Lisboa.

Ver aqui recortes da imprensa da época, compilados pela T. et al.
As canas e o espadanal

No conto geral das coisas, há sempre aquelas parcelas que consideramos mais perto estiveram de desequilibrar o balanço ou mesmo a balança. Ainda que não se tenha dado por isso em devido tempo.
Por via do mundo dos sonhos, estes dias procurei uma pessoa cujo rasto tinha perdido há cerca de vinte anos, depois de um fugaz reencontro a talvez dez anos de vista.
São ao todo assim cerca de trinta anos a separar uma época de furtivos rendez-vous da presença sonhada.
Pertenço ao grupo dos que, nestas alturas, ainda que por breves momentos se põem a fantasiar sobre as vidas paralelas, como se o cosmos tal como o entrevemos, fosse susceptível de facultar mais do que uma via aos mortais. À matéria.
Juntando a com b, chego à conclusão que o caminho se fez paralelo às canas, ao espadanal.

21/04/2009

Na terra do atraso mental

Já aqui disse o que penso sobre o caso Freeport.
A cada dia que passa apenas se cimenta a ideia de que apenas a profunda estupidez de um grupo de opositores do Primeiro-Ministro justifica esta campanha.
Qualquer criança em idade pré-escolar é capaz de entender que, havendo algum tipo de rabo de palha do homem no caso vertente, há muito que teria sido fervido em azeite.
Só pois a profunda estupidez desta gente consegue justificar o arrastar desta campanha.
Hoje, chegou-se ao ponto de confundir defesa da honra com atentado à liberdade de expressão.
É a terra do atraso mental.

18/04/2009

Conto policial



Sir Henry Merrivale, Hercule Poirot, Miss Marple, Lord Peter Wimsey, Sherlock Holmes e alguns outros não escarneceriam deste mistério, se lhes fosse apresentado por alguma improvável visita num fim de tarde outonal.
Um homem que é desmembrado e cujos bocados são espalhados por locais do Hertfordshire e Leicertershire, de forma a serem descobertos com alguma facilidade é, de facto, um aliciante desafio às mentes esquadrinhadoras.
Ainda não se encontraram as mãos.

trecho deste mapa.

16/04/2009

Cigílio, o clássico, digo o bancário

Andou hoje nas bocas dos simples.
Pum

A ser verdade o que se relata aqui, no Correio da Manhã, não se perdeu nada.
Mesmo nada.

15/04/2009

Matemática

Faz bem o Presidente da República em chamar a atenção para esta matéria.
Antes da Matemática, antes da sua aprendizagem, é preciso que exista capacidade de raciocínio.
Esta não está presente em todos os cérebros. É inútil tentar ensinar Matemática a quem é incapaz de raciocinar.
Mas é útil, necessário e urgente que se consigam escrutinar os capazes e dar-lhes o melhor ensino possível. Tanto nesta como noutras matérias.
Portugal não se pode dar ao luxo de desperdiçar massa cinzenta. Fá-lo, porém, todos os dias.
Com a classe política que se conhece.
Com os resultados que se conhecem.

14/04/2009

Tabacaria



A Tabacaria de Fernando Pessoa para mim é o poema em que a cruz está na porta da dita.
Hoje, isso veio-me à cabeça por uma razão simples.
Há pessoas das quais não contamos saber que morreram. Por inúmeras razões, uma das quais será a de que nessa data já nem sequer nos lembramos de que existiram, de que se cruzaram connosco no tempo e no espaço.
E isso confere-lhes uma certa imortalidade.
Há também pessoas cujo estatuto, de forma inexplicável, lhes confere uma baixa probabilidade de desaparecerem. Talvez fosse o caso do Alves, da tabacaria.
Hoje dei-me conta de que há pessoas que podem reunir as duas condições. E mesmo assim morrem. E mesmo assim sabemos disso.