24/03/2012

Passos Coelho

Em política, podemos todos ter a nossa noção de justiça e de conveniência. O que não significa que todos as tenhamos.
Em Portugal, para a minha geração que é a que acabou de virar o meio-século, há um grupo, a que pertenço, que se encarregou de fazer frente ao desvario revolucionário que, pelo pouco que durou, não deixou de indicar o caminho que faríamos seguindo a trilha.
Fi-lo, nessa época, tendo em conta a minha noção de justiça e de conveniência. Cujas, embora podendo ser incompatíveis, não o eram naquela época do Verão Quente.
O que, depois de dobrado esse cabo, nos restou, é obra nossa. Não a podemos renegar. Todos os que participámos nessa luta temos culpas no cartório.
Se não me arrependo de ter empreendido tal luta, ainda juvenil, vejo hoje que as coisas tal como andaram, andaram em desgoverno e a contento de uma minoria de aproveitadores, na sua grande parte chicos-espertos da politiquice, pouco dotados de intelecto.
O falecido Ernâni Lopes classificou-os bem, num dos seus últimos discursos. Mais empolgado do que habitualmente estaria em tais circunstâncias.
Alguns outros o fizeram mais ou menos veementemente.
Do que não restam dúvidas é que andámos como aqui disse, às voltas no Pinhal da Azambuja, capitaneados por um grupo de mentecaptos e à mercê dos salteadores.
E é justamente por isso e por considerar que PS, PSD e CDS são verso, anverso e bordo da mesma moeda e que as outras moedas são tudo o que ajudei a enxotar há quase 40 anos, que a única coisa que me preocupa hoje deveras é a capacidade intelectual de um primeiro-ministro.
Disse aqui, há cerca de quatro anos, o que achava de Passos Coelho.
Como disse e reafirmo que José Sócrates é pouco mais do que uma nulidade intelectual (Jorge Coelho disse, numa recidiva na “Quadratura do Círculo” que Sócrates era um indivíduo inteligentíssimo), a mudança de primeiro-ministro foi finalmente, na minha opinião, para melhor.
No beco em que estamos, não é a opção política, aliás pouco diversa como disse, que faz grande diferença.
Estamos a ser governados em grande parte por controlo remoto. Já o tinha dito em 2004, há sete anos e meio e mantenho-o.
Mas importa que ao leme, nas decisões que ainda podemos tomar, esteja alguém capaz.
Naquela época a escolha era entre o mau linha (mau’) e o mau duas linhas (mau’’).
Hoje, a confirmar o receio de uma caterva de comentadores e interessados na coisa quando se percebeu que ele poderia estar onde está hoje, temos pelo menos à frente do governo um homem inteligente.
Mais pastéis de nata menos pastéis de Belém.
Mais ou menos acordo de opinião política.
E sabendo que há o inevitável lastro de carregadores de pianos pouco ilustrados a compôr a fotografia.
Gostei de o ver, à hora de almoço, explicar o óbvio às massas laranja. E à mesa do congresso.

21/03/2012

O burro


burro pastando na praça d' Almeida em 2001

Diz que, a haver um sentido nas coisas, é quase certo que uma das suas componentes é a selecção natural. Seja isso o que fôr. Entendida vulgarmente como a resultante dos diferentes graus de adaptação à mudança dos seres em confronto.
Ora corre há alguns anos a notícia da extinção iminente dos burros no território português.
Não faço ideia se, durante o tempo em que a notícia tem vindo a ser repetida, há razão para crer que ela é verdadeira.
Já do ponto de vista do preconceito, ele sugere-me que o burro, apesar da tentativa de o converter em transporte urbano feita por António Costa, parece ser hoje um animal com pouca utilidade e logo com pouca predisposição dos humanos para o alimentarem e cuidarem.
Acresce que, e isto é mero preconceito mais uma vez, se me afigura que haverá igualmente pouca disponibilidade dos humanos para permitir a circulação de burros silvestres nas suas terras, de resto cada vez mais vedadas e logo pouco viáveis.
Deu-me isto (a escrita destas linhas) uma vontade enorme de adoptar um burro.
Ou, pelo menos, de o deixar pastar lá onde passa o barranco.

20/03/2012

Sporting – Benfica


imagem da RTP

Segundo a RTP, os jogos do Sporting não podem ter mais telespectadores do que os do Benfica.
A base para este postulado deve, por certo, encontrar-se no mito dos seis milhões.
Quem de dez tira seis...


P.S. Verifiquei, ao ver os bonecos, que não se tratava afinal de telespectadores, mas de espetadores. Nesse caso, dou o braço a torcer.
Pastéis de nata

É verdade que Passos Coelho disse que os pastéis de Belém não são pastéis de nata? Ou é montagem da TVI?
É que estes detalhes são quase sempre reveladores.
As grandes questões universais - episódio q+21

Por que é que as mulheres de sonho são tão diversas e imperfeitas?

18/03/2012

Emma Suárez


foto daqui

Ainda não há muito dias tinha lido o Santos Passos a dar nota de não ter dado nota de Hedy Lamarr.
Identifiquei-me com a interrogação que lá deixa. Não no caso de Lamarr em particular, mas de algumas outras.
Hoje, quando depois de farto de notícias as mesmas, mudei para aqui e para ali, estabilizei num canal que não me lembro de ter sintonizado anteriormente. Logo eu que não sou nada de experimentalismos em canais de tv e que, a bem dizer, sou mais de ouvir o som em fundo e não ver os bonecos, logo eu, estabilizei como disse, num rosto.
Era este e falava castelhano. E a mesma pergunta me fiz. Onde andava eu que não dei por ela?
Do que depois charavisquei, a moça entretanto já perdeu mais de metade do encanto.

Nota: a última frase é de uma grosseria desmedida e de uma estupidez de alto quilate. Mas está escrita e não há como apagá-la.
Lapas, 2012

17/03/2012

Os emocionistas

Há um numeroso grupo de cidadãos que se perfila no combate PS x PSD como se os dois partidos não fossem faces pouco diferentes da mesma moeda. A que poderíamos acrescentar o CDS como bordo (já se coligou com ambos).
Perfila-se e guerreia. Levando a sério a ilusão da diferença.
É a mesmíssima coisa ouvir um alucinado benfiquista dizer que a bola entrou na baliza do Sporting e a sua contraparte leonina jurar que não, sem que algum deles possa deveras sabê-lo.
Fazem parte da paisagem e não se pode enxotá-los. Mas é cada vez mais como se penetrássemos numa nuvem de mosquitos. Sem repelente.
Mesmo com repelente, só o zumbido e a visão da nuvem fazem comichão.

16/03/2012

Má engenharia

Vi, como toda a gente, a escolha do risco máximo no desenho da escapatória de emergência onde embateu o autocarro que transportava as crianças belgas através de um túnel na Suiça.
Colocar uma parede de betão perpendicular ao sentido de marcha é uma asneira grossa. E sem justificação.
Podem perceber de relógios, de chocolates e de depósitos de valores. Quanto a desenhar escapatórias em túneis, há pelo menos um que faria melhor se se dedicasse a embalar tablettes.
Um disparate daqueles num tempo de ai jesus e de excessos preventivos, é obra!


imagem de GenevaLunch

15/03/2012

Voo S4 9743

Não direi que é um alto voo, da categoria dos altos voos. Não é.
É apenas o regresso de uma tradição. Que vem de longe. Como no anúncio.


da página da ANA
A Idade da Imprensa

A Idade da Imprensa que terá começado com Gutenberg finou-se em parte por estes dias.
A desistência de imprimir a Encyclopædia Britannica é um marco na História.

14/03/2012

Fígado compatível

Calculo que, para além do trivial e notório conhecimento do grupo sanguíneo, exista uma bateria de testes a que é sujeito um paciente que aguarda um transplante de fígado e o fígado (ou o indivíduo doador) que há-de receber.
Calculo, de igual modo, que as investigações em biologia do comportamento e da proximidade tenham evoluído para além das conjecturas sobre neurónios-espelho que reproduzem no cérebro de A a configuração emocional de B.
Calculo isto e mais qualquer coisa.
Continuo a considerar, com elevado grau de preconceito, de crença digamos, que dois fígados compatíveis são de grande utilidade a um casal.

12/03/2012

Quadrado



Um quadrado é um quadrado.
Um quadrado é ortodoxo.
Um quadrado, ainda que visto pelo olho humano, não deixa de ser um quadrado. Imperfeito.

10/03/2012

Notícias

De um lado, o inenarrável ministro Relvas.
Do outro, uns quantos jornalistas incapazes de ir ao fundo da questão – o que é que se vai passar exactamente com a remuneração dos funcionários públicos e com a remuneração dos funcionários das empresas do Estado, já que convém sempre distinguir entre filhos e penteados, pois necessário se torna dividir para reinar.
Como se calcula, nunca haverá quem esclareça cabalmente o que se vai fazer a umas e outras.

09/03/2012

Ilustrações

O Google promove, mais do que qualquer outra coisa até aos nossos dias, a serendipidade.
Serendipidade que, em bom português, se poderia bem chamar ceilá, que o étimo seria afinal o mesmo.


Capa do La Domenica del Corriere de 26 de Maio de 1957 obtida aqui

08/03/2012

Poucas certezas

E uma delas é:
Há demasiada gente estúpida em cargos de responsabilidade.
Não se trata de ser de direita ou de esquerda, honesta ou desonesta, trata-se de ser estúpida.