Um país pobre
Faz pouco sentido culpar o actual governo pela crise que já se instalou e está para durar. Mais uma.
De facto, o que concorre para a instalação da crise é a inelutável pobreza do país, sempre exposto às intempéries, e a borrasca que a guerra trouxe no seu bojo. Sem mencionar o estrago que a pandemia provocou.
O que pode ser criticado nesta governação e de um modo geral nos governos do PS é a manutenção da ilusão de prosperidade em que têm insistido, ao contrário do que sucedeu nos tempos de Passos Coelho.
Se a um político também se pede que não seja pessimista, é fundamental que haja realismo e noção da escassez de recursos com que Portugal se defronta. Não se podem prometer mares de rosas a quem é pobre. E o país é pobre. É preciso governá-lo atentando nisso e não viajando em ilusões.
11/06/2022
10/06/2022
06/06/2022
05/06/2022
03/06/2022
Memória
Com a idade, percebi que não ficamos sózinhos apenas quando desaparecem os que nos acompanharam. Também ficamos sózinhos quando todos os outros ainda vivos já se esqueceram.
Com a idade, percebi que não ficamos sózinhos apenas quando desaparecem os que nos acompanharam. Também ficamos sózinhos quando todos os outros ainda vivos já se esqueceram.
02/06/2022
Do ar
Em tempos, uma mulher creio que londrina, dava conta do conforto que sentia, durante a blitz, ao ouvir o som dos Spitfire sobre a sua cabeça (our boys).
Em outra ocasião, apreciei um conjunto de britânicos que se deliciavam com o ronco do motor Rolls-Royce Merlin que trabalhava sobre um espeque.
A guerra deixou-lhes isso.
Hoje, ao ver uma vez mais na televisão as estrelas da aviação britânica do tempo da II Guerra, lembrei-me de tal.
E lembrei-me também de algo do pólo contrário, de um indivíduo que, por estes dias passados, construía as suas memórias negativas identificando pelo olfacto o tipo de mísseis que lhe caíam perto.
Do ar vêm estas memórias. Dos outros.
Em tempos, uma mulher creio que londrina, dava conta do conforto que sentia, durante a blitz, ao ouvir o som dos Spitfire sobre a sua cabeça (our boys).
Em outra ocasião, apreciei um conjunto de britânicos que se deliciavam com o ronco do motor Rolls-Royce Merlin que trabalhava sobre um espeque.
A guerra deixou-lhes isso.
Hoje, ao ver uma vez mais na televisão as estrelas da aviação britânica do tempo da II Guerra, lembrei-me de tal.
E lembrei-me também de algo do pólo contrário, de um indivíduo que, por estes dias passados, construía as suas memórias negativas identificando pelo olfacto o tipo de mísseis que lhe caíam perto.
Do ar vêm estas memórias. Dos outros.
31/05/2022
24/05/2022
21/05/2022
Nivelar por baixo
“[...] Os alunos ficam menos preparados e os pais, sobretudo os mais escolarizados, sentem que têm de compensar. Então, estudam com os filhos, ajudam-nos a fazer os trabalhos e pagam-lhes explicações. Isso é perigoso porque vai reproduzir em série as desigualdades sociais, já que nem todas as famílias têm possibilidades e conhecimentos para o fazer [...]” – lê-se na Revista do Expresso esta semana. São palavras de uma professora universitária.
Infere-se daqui que para esta senhora o que não é perigoso é nivelar por baixo.
E pode o incauto suspeitar ainda que o acesso privilegiado ao conhecimento vir a determinar desigualdade social ser coisa nova, nunca vista.
“[...] Os alunos ficam menos preparados e os pais, sobretudo os mais escolarizados, sentem que têm de compensar. Então, estudam com os filhos, ajudam-nos a fazer os trabalhos e pagam-lhes explicações. Isso é perigoso porque vai reproduzir em série as desigualdades sociais, já que nem todas as famílias têm possibilidades e conhecimentos para o fazer [...]” – lê-se na Revista do Expresso esta semana. São palavras de uma professora universitária.
Infere-se daqui que para esta senhora o que não é perigoso é nivelar por baixo.
E pode o incauto suspeitar ainda que o acesso privilegiado ao conhecimento vir a determinar desigualdade social ser coisa nova, nunca vista.
20/05/2022
19/05/2022
O crepúsculo do Sr. Quitério (II)
O crepúsculo do Sr. Quitério
Já lhe chamaram tanto nome, que eu hoje resolvi chamar-lhe assim. Nada a ver com nenhum Quitério presente, passado ou futuro, juro.
Já lhe deram tanta profissão, que eu hoje resolvi dar-lhe a de empregado bancário. Nada a ver com nenhum empregado bancário passado, presente ou futuro. Não jurei? Pois juro.
Ora bem, vem isto a propósito do Sr. Quitério estar a perder a sua influência.
E porquê?
Ora porque o Sr. Quitério foi, aos olhos de muitos, o dono da opinião mais abalizada cá do burgo.
Muitos limitavam-se a repetir o que ele dizia. Outros espreitavam os artigos que o viam ler nos jornais. Os mais íntimos prendiam-no em cavaqueiras de café nas quais procuravam obter os mais diversos pareceres.
Não sei se alguma vez o Sr. Quitério se deu conta do valor que tinha para os demais. Mas o caso é que já não o vejo tão rodeado de companheiros, a beber a sua bica, já não ouço papaguearem-lhe (papagaiarem-lhe é mais bonito) as ideias, nem vejo espreitarem-lhe o jornal.
A coisa parece-me explicada. Com tantos comentadores de borla, já não é preciso de vez em quando pagar um cafèzinho, basta ligar a rádio ou a televisão. Ainda por cima, os assuntos são mais variados do que seria capaz de abranger o bom Sr. Quitério em dia de inspiração.
Quem está à rasca sou eu que, para distinguir os papagaios, já não me basta ouvir o Sr. Quitério.
(Publicado neste blogue (Blogspot) em 19 de Novembro de 2003)
Encontrei hoje o Sr. Quitério, algo alquebrado, já reformado, mas ainda não aposentado da sua mesa de café.
Do que se passou desde a última vez em que cavaqueámos, só uma pista: o facto de ele me haver perguntado se eu lhe atribuía aquela qualificação que agora dão aos simples que gozam de muitos "gostos" de outros igualmente simples nas redes sociais. Não me deixou responder. Disse: “Credo! Se me dão tal apodo, deixo de ir ao café!”
O crepúsculo do Sr. Quitério
Já lhe chamaram tanto nome, que eu hoje resolvi chamar-lhe assim. Nada a ver com nenhum Quitério presente, passado ou futuro, juro.
Já lhe deram tanta profissão, que eu hoje resolvi dar-lhe a de empregado bancário. Nada a ver com nenhum empregado bancário passado, presente ou futuro. Não jurei? Pois juro.
Ora bem, vem isto a propósito do Sr. Quitério estar a perder a sua influência.
E porquê?
Ora porque o Sr. Quitério foi, aos olhos de muitos, o dono da opinião mais abalizada cá do burgo.
Muitos limitavam-se a repetir o que ele dizia. Outros espreitavam os artigos que o viam ler nos jornais. Os mais íntimos prendiam-no em cavaqueiras de café nas quais procuravam obter os mais diversos pareceres.
Não sei se alguma vez o Sr. Quitério se deu conta do valor que tinha para os demais. Mas o caso é que já não o vejo tão rodeado de companheiros, a beber a sua bica, já não ouço papaguearem-lhe (papagaiarem-lhe é mais bonito) as ideias, nem vejo espreitarem-lhe o jornal.
A coisa parece-me explicada. Com tantos comentadores de borla, já não é preciso de vez em quando pagar um cafèzinho, basta ligar a rádio ou a televisão. Ainda por cima, os assuntos são mais variados do que seria capaz de abranger o bom Sr. Quitério em dia de inspiração.
Quem está à rasca sou eu que, para distinguir os papagaios, já não me basta ouvir o Sr. Quitério.
(Publicado neste blogue (Blogspot) em 19 de Novembro de 2003)
Encontrei hoje o Sr. Quitério, algo alquebrado, já reformado, mas ainda não aposentado da sua mesa de café.
Do que se passou desde a última vez em que cavaqueámos, só uma pista: o facto de ele me haver perguntado se eu lhe atribuía aquela qualificação que agora dão aos simples que gozam de muitos "gostos" de outros igualmente simples nas redes sociais. Não me deixou responder. Disse: “Credo! Se me dão tal apodo, deixo de ir ao café!”
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