07/09/2023

Ádipe ofídico



Talvez me engane mas estou capaz de afirmar que à excepção de um ou outro druida alucinado (ainda conheci um), todos os restantes vendedores de banha-da-cobra tinham a perfeita noção da aldrabice que promoviam.
Ontem, depois de ouvir em som de fundo, com a tal preguiça para mudar de canal enquanto fazia algo de mais instrutivo, as vacuidades propaladas num programa de marqueteiros, carregadas de conceitos, targets, namings e o escambau, ocorreu-me que a situação se inverteu: nos dias que correm, a maioria dos vendedores de ádipe ofídico está convencida daquilo que papagueia. Não necessariamente a respeito do objecto da sua publicidade mas a respeito da própria argumentação.
Inteligência artificial

A excelência do serviço CTT Expresso representada pelo gráfico abaixo na certa gerado por um também ele excelente algoritmo:

06/09/2023

Óptica

Lá pelo século passado, na minha carreira de aluno, passou-me pela cabeça propor uma instalação efémera no Terreiro do Paço em que através dos competentes dispositivos ópticos se pudesse avistar, em plano alto, o rio de um prisma assente num pedestal.
Ora o que vi hoje na Fundação Champalimaud, embora crendo que se trata de uma montagem digital, lembrou-me tal ideia.
Apercebi-me agora de que tal fundação tem experiências cénicas similares no seu historial. Eu é que não tinha dado por tal.
Seja como for, veio-me à memória tal projecto.

05/09/2023

A sintaxe e a prosódia

Uma professora de português que, num concurso de televisão, não sabe o que é a prosódia nem a sintaxe.
A senhora, depois de saber que errara, disse que não tinha lido bem a pergunta!

Os simples, todavia carimbados e certificados, andem a dar aulas.
Rotação

02/09/2023

Submersos

Há uma "cultura" irracional de indivíduos simples com acesso aos meios de grande divulgação que tende a submergir o mundo.
Para além da irracionalidade, prevalece a subjectividade e o ódio.
Submersos ficaremos, uma vez que esta "cultura" contamina cada vez mais os que poderiam ser recuperados para o uso da razão.

31/08/2023

Onde chove e onde não chove

“Escoteiros”

Volta e meia cirandam por aí uns “escoteiros” assanhados, politicamente correctissimos, que insistem em ajudar a velhinha a atravessar a rua contra a sua própria vontade.

29/08/2023

Vale por nove

Não sei se o banho do 29 ainda vale por nove.
Sei, todavia, que tenho saudades do tempo em que o legítimo arroz de frango descia à praia, acompanhado de melancias refrescadas no rio Mira.

Evolução semântica

Na CNN Portugal apareceu um "especialista em marketing desportivo".
Tenho a plena consciência de que a palavra "desporto" está já a anos-luz do seu significado primordial de actividade lúdica, ociosa, contrária por isso mesmo ao conceito de negócio. Ainda assim há palavras que, conjugadas, me soam muito mal. Marketing e desporto são duas delas.
O que tornará um indivíduo especialista em tal coisa?

26/08/2023

Noticias do manicómio

Há alturas em que as notícias do manicómio são mais frequentes.
Esta é uma delas.

25/08/2023

Efeméride

Em tempos, enviei um memorando à Câmara Municipal de Lisboa sugerindo que as escadinhas que hoje ligam a Rua do Carmo a um pátio interior cujo arco de acesso tem o nº29, se viessem a chamar Escadinhas 25 de Agosto de 1988.
Havia duas razões para tal: a primeira era a evocação do incêndio que destruiu aquela parte da cidade; a segunda era que sem que tal episódio tivesse ocorrido, as referidas escadinhas não teriam por certo sido construídas.
Armado eu em alfacinha de nascença, ainda que alentejano de raiz, ainda acrescentava um lamento por não existir na toponímia da cidade uma evocação do terramoto de 1 de Novembro de 1755. Há sim as Escadinhas dos Terramotos, que dizem ter ido buscar o nome à Ermida de tal invocação (Senhor Jesus dos Terramotos) erigida após o grande sismo. Assim sendo será uma memória não de um mas de vários abalos de terra devastadores ocorridos na cidade.
Não obtive qualquer resposta além da confirmação da recepção.
Admitindo que se trate de um acesso particular, não vejo ainda assim impedimento para que tal lembrança pudesse ficar gravada na pedra.

35 anos atrás



O mês e meio de férias estava na recta final.
Depois da tranquilidade do sotavento, a tranquilidade do barlavento algarvio.
Umas férias a três. Um casal e um sofá com rodas e vista panorâmica.
Naquela madrugada de 25 de Agosto, deu-me mais uma vez sede.
Talvez um cigarro na varanda, a contemplar as luzes dos barcos.
Já agora, liga-se o rádio. Quase hora das notícias. Baixinho, para não te acordar.
Não retirei de imediato o significado da torrente de palavras que dele saía.
Quando finalmente tracei o quadro, já estavas a meu lado, de lágrimas nos olhos.
Parte das nossas memórias ardeu nesse dia.


Já aqui publicado uns bons anos atrás.