07/11/2004

À estrada

Por um acaso qualquer, é nestes dias de Novembro que há muito faço longas jornadas na estrada.
Já nem sei quando isso começou, mas foi lá para o final dos anos 80.
E quase sempre acontece que surgem os tais dias de céu azul, frios, que é para norte que quase sempre abalo.
Também já ocorreu ir para sul e dar praia. Praia de Novembro, magnífica.
Por isso, ao olhar para o céu nestes dias, e ante a impossibilidade próxima de me pôr a andar, a coisa fica um bocado negra.
É um sol que não ajuda a quem está parado.
Sapos difíceis de engolir

E outros bichos até.
Ao editor do Sapo não se consegue aceder.
Ao da Globo também não.
Valha a verdade que eu também não me sinto lá muito bem.

06/11/2004

O compadre de Setúbal


imagem de http://vfc.no.sapo.pt/htm/indice.htm

As poucas vezes que eu e o meu avô materno falámos de futebol versaram sobre as suas actuações como back direito numa equipa estudantil da Beja do tempo em que roubaram o Galo. Ou então sobre os resultados do Vitória de Setúbal, apenas a propósito da satisfação que ele antevia no coração de um compadre que tinha na cidade do rio azul.
As alusões ao compadre tenho-as presentes desde o tempo em que procurava os resultados do Sporting na competente página do jornal e ele me pedia a informação sobre o desfecho do jogo do Vitória.
Já o meu avô estava quase nos noventa quando lhe perguntei afinal qual era o seu clube. Disse-me que se inclinava para o Sporting mas que não fazia caso disso.
E já eu tinha perto de trinta anos quando o meu avô me disse que o compadre dele, que nunca cheguei a conhecer, falecera durante ou após um jogo do Vitória de Setúbal.
Hoje, parece que veio a propósito esta lembrança. Nem o meu avô nem o seu estimado compadre saberão do resultado de amanhã.
Mas já agora, que ganhe o Vitória.
Com este post, é provável que perca alguns leitores.
Os tempos e os modos

Nunca exijo coerência a um interlocutor a menos que o veja exigi-la a outros.
E, isso infelizmente, é o pão nosso de cada dia.
Eu já disse aqui que não sou coerente. A única coerência que pressinto é a da minha sobrevivência. Em sentido lato, a dos outros. Dos mais próximos para os mais longínquos.
Nunca me regi por cartilhas, tirei chapéu a líderes, idolatrei figurões. Quem sabe não o venho a fazer?
Mas não o tendo feito até agora, sou pelo menos poupado ao T'arrenego e às lágrimas de crocodilo.

Uma das coisas que observo com curiosidade é a parcialidade disfarçada de objectividade na defesa de certas figuras e no ataque a outras.
Sou muito redutor nestas coisas. Face a determinados conflitos, há sempre a propensão de tomar partido. Nada de novo nisso.
E quando se trata de guerras, acho que vale tudo. Considerações morais à parte, que essas levam a uma discussão infindável. E se as guerras se pudessem resumir ao tipo que quer conquistar a casa do outro sem a ela ter direito (teríamos que ver o que é que isso quer dizer), e à resposta do acossado, também eu não hesitaria em tomar partido, se a coisa se desenrolasse nas minhas barbas. Não vou a tanto quando é do outro lado da floresta. Bem sei que às vezes, em vez das barbas de molho é melhor pegar no extintor.
Não tomando partido, é-me indiferente que se matem criancinhas com mísseis ou com bombas em mochilas. São mortes de crianças. Ponto.
Tomando partido e estando até envolvido na luta, sou como qualquer outro, as minhas valem sempre mais do que as deles.
Agora, não me atrevo é a encadear longos argumentos para justificar a barbárie. Não quero fazer de mim mais estúpido do que o que sou, pois sei que os outros não são estúpidos.
É aqui que estranho (ou talvez não) que se subtraia à história de Arafat o seu passado guerrilheiro.
Confesso que nesta luta, não tenho campo. Há demasiada culpa de terceiros envolvida nas origens desta guerra. Se nos situarmos num plano objectivo, é mais uma guerra. Por território. Baixas de ambos os lados são baixas de guerra, importa pouco se vêm dos céus ou se viajam de autocarro os ventos da morte. Cada um luta com os meios que tem. São assim as guerras.
Mas para aqueles que acham que o terrorismo é uma guerra à parte, que tanto batem no peito quando se cometem atrocidades, que não há terrorismo bom e mau, etc., é bom lembrar a História.
Ela não começou nem hoje, nem na segunda metade dos anos 40, nem há 2000 anos atrás.
E o passado de Arafat é o do guerilheiro que esteve, com outros, por trás da génese de um certo tipo de terrorismo de cariz rácico e religioso, no passado século XX e do qual temos hoje novas versões. O terrorismo não foi inventado nessa época, mas foi seguramente reinventado. Tratou-se de actos de guerra? Pois tratou.
Mas qual é a diferença entre esses actos e os que tanta gente hoje condena?
Eu confesso que não vejo nenhuma.
Como, repito, não vejo diferença entre a criança morta pelo míssil "inteligente" e a que morreu num autocarro por via de uns cartuchos de dinamite ou outro explosivo qualquer.

05/11/2004

Ondas sísmicas


Google search

A elevada dependência da rede para produzir algum tipo de trabalho às vezes descamba para zonas cinzentas da compreensão.
Dei comigo a preparar-me para fazer uma Google search nas minhas próprias memórias, algures entre o sonho e a realidade.
Vale a pena dizer mais alguma coisa?
Breaking News

Um dos aspectos mais ridículos do jornalismo actual é a anacronia que contrasta com o frenesim das últimas.
Quando eu comecei a ler jornais, não era espanto que uma notícia com três ou quatro dias fosse a actualidade.
Mas hoje, quando há a possibilidade de se já estar no local antes da notícia, o que de resto sucede mais do que seria de prever, torna-se difícil aceitar que se destaque uma notícia (ou uma previsão de notícia) que toda a gente já sabe que não aconteceu.

Quase todos os dias há notícias que são apresentadas com uns contornos dos quais se sabe há largo tempo não serem verdadeiros.
Vemos imagens recolhidas há horas e horas, como se fossem um directo.
Outras vezes assitimos à leitura de despachos das agências, verificando que quem os lê não faz a menor ideia do que está a ler, nem de há quanto tempo o texto foi produzido.
E fica-se a pensar quanto tempo antes se fecha um noticiário. É que muitas das vezes é do jornal de há quarenta anos que me lembro.

04/11/2004

Ninho


A licença

Eu gostava também de ter uma licença.
Quero dizer, mais uma. A única que tenho permite-me conduzir veículos ligeiros.
Não é grande coisa. Mas é útil. Posso sair dos caminhos do monte para a via pública.
Eu digo assim outras. Mesmo que não se saiba nada do assunto, calha bem ter uma licença de qualquer coisa.
Licença para elaborar um relatório depois de olhar para o palácio.
Licença para vender banha da cobra.
Licença para escrever num papel chá de erva cidreira.
Licença para requerer.
Qualquer coisa.
Qualquer licença me servia.
Dá-me licença, se faz o favor...

02/11/2004

Recantos do verão passado


Burros e elefantes



Há quatro anos, depois de uma longa jornada no lombo do meu fiel companheiro de lata, desaguei num quarto de hotel de província, após me bater com um naco de carne daqueles que a gente sabe. O tinto também se recomendava.
Entre as nove e as dez, que é como quem diz com um olho no burro e outro no elefante, lá ouvia o que os repórteres e comentadores tinham a dizer sobre a disputa nos States.
E, na paz de quem tinha o dia ganho, alheio aos palpites e às considerações em fundo azul e vermelho, foi imaginando a neblina fria que pairava no exterior e gozando o calor das mantas que me deixei embalar.
Acordei como adormecera. Com as mesmas caras no écran, o que me levou a suspeitar que era insónia. Não era. O dia despontava e os homens lá diziam que a coisa estava má para se decidir.
Não costumo dar aqui muitos palpites sobre política.
Até porque considero que, quando se trata da coisa pública, o melhor é intervir. E intervir, agindo. Não ficar de fauteuil a debitar críticas e loas a este e àquele.
Neste caso, porém, é totalmente inútil dizer ou agir.
Vejo a coisa como um fait divers, embora saiba que ela me pode afectar.
De qualquer forma, não me parece que Bush seja tão mau como o fazem, nem Kerry tão bom como o querem.
Depois, está por provar que seja um homem só a ditar o que quer que seja. Há as companhias, sim. As más e as boas, seja lá o que fôr o que isso signifique.
Mas há as outras, as que governam sempre a América, faça chuva ou faça vento. E essas, como sabemos, não estão sujeitas a sufrágio.
O que fôr, soará. E não me tira o sono.
Lá que gostava de estar amanhã à noite no mesmo quarto de hotel, ah isso gostava.
Não vai ser possível.
Mas já falta pouco para me fazer à estrada.


imagens em http://www.wordiq.com/definition/United_States_Democratic_Party e http://www.wordiq.com/definition/United_States_Republican_Party

01/11/2004

Hotmail

Por causa do spam contínuo, há algum tempo que activei o filtro de forma a só receber mails de origem conhecida.
Ora, isso teve como consequência óbvia o facto de e-mails de leitores que até agora eu não tinha registados, terem sido retidos e ido direitinhos para o caixote do lixo.
Peço assim a vossa compreensão e o favor de deixarem um curto comentário a avisar sempre que enviarem, pela primeira vez, um mail para mim.
Obrigado.
Teste das horas


Heranças na paisagem



e céu com nuvens
O que foder é isto?

Parecerá que não, se considerarmos a tradução acima da interrogação que todos conhecem.
Parecerá que não é um bom tradutor.
Mas digo-vos, àqueles que não conhecem, que vale a pena testar este tradutor. Surpreendeu-me muito positivamente com o inglês e com o francês, as únicas línguas em que posso aferir a coisa.
Está, nas palavras de certo futebolista, a quilómetros-luz de qualquer outro que eu conheça (façam a conta e vejam quanto é que isso dá em tempo).
Foi uma dica de um amigo, o único blogueiro ou ex-blogueiro que eu conheço em pessoa.

31/10/2004

Se conduzir, não beba


imagem de http://www.geocities.com/ricardomatos/europapt_alcool.html

"É muito dfícil educar um povo." - uma das coisas que sempre me intrigou foi a razão pela qual o meu velho e bom amigo J.d'. usava esta frase como prefácio em noites de engate.
Mas lá que resultava, resultava.
Nem ele nem eu, modéstia muito à parte, tivemos muitas razões de queixa do género feminino.
Mas não era nada disto que eu pretendia dizer.
Pego no Relatório Anual da Sinistralidade Rodoviária de 2003 da D.G.V. e, a páginas 16, leio:

"No que respeita aos condutores intervenientes em acidentes, 84,7% foram sujeitos ao teste de alcoolemia. Destes, 3,6% apresentavam uma taxa de alcoolemia superior a 0,5 g/l e cerca de 2% uma taxa superior a 1,2 g/l."

Suponhamos, o que não é certo, que os 2% são 2% dos que foram sujeitos a teste. Teríamos 3,6% + 2% = 5,6% de condutores em infracção.
Suponhamos ainda, no limite do absurdo, que os restantes 15,3% (condutores intervenientes em acidentes, não sujeitos ao despiste do álcool) se encontravam alcoolizados: Temos uma percentagem de 20,0% (15,3% + 4,7%*) de condutores intervenientes em acidentes em que a influência do álcool pode ter sido a causa do desastre.
O relevante disto é que, mesmo nesse caso absurdo, 80% dos condutores que causam ou sofrem acidentes não estão sob o efeito do álcool.
Sou a favor da penalização e das campanhas contra o álcool na estrada. Sobre isso, nada a acrescentar.
Agora o que me faz espécie é esta ideia repetida e falsa de que o álcool é a principal causa dos acidentes na estrada.
Se não são os números que nos dizem isso, é o quê? É porque tem que ser?
Na minha reputada ignorância, e apenas observando a amostra que conheço, chego à conclusão de que a maioria dos acidentes acontece porque os condutores não sabem conduzir.
Tal como não sabem muitas outras coisas.
Voltando ao J.d', e se é assim tão difícil educar um povo, por que não amedrontá-lo? Não foi isso que se fez sempre, pelos séculos dos séculos?
Se parece que resultou com o álcool, por que não estender as fortes penalizações a todos os que causarem acidentes com feridos, por exemplo?
É por a medida não ser popular?

*os 5,6% dos 84,7% que foram submetidos a teste, são 4,7% do total.
Prioridade

Há aquela velha história dos dois fidalgos que se batem em duelo para decidir quem cederá a passagem a quem, numa viela estreita em que as duas carruagens não cabiam a par.
Nenhum dos dois admitia ser menos cavalheiro do que o outro.
Um destes dias, aconteceu-me o insólito.
Em certa porta de um edifício público que me preparava para abandonar, um outro homem intentava entrar.
Estando a porta fechada, abri-a e cedi-lhe a passagem.
O homem hesitou, observou-me de alto a baixo, e em tom crispado, balbuciou um obrigado.
Julgava eu que, nestes casos, se aplicava a regra contrária à dos transportes públicos em que aí sim, primeiro saem os que estão, depois entram os que não estão.
Parece que me enganei.
Como o meu traje e o meu aspecto se inscrevem no que podemos chamar modal para um homem de 45 anos, ficou-me uma certa indignação pelo olhar contemplativo que o dito cujo me deitou.

30/10/2004

Ignorância urbana


imagem de http://www.barracuda.com.br/CBD-RAPOSAEUVAS.gif

Desce-se ou sobe-se da santa terrinha e logo a vergonha de mostrar que se sabe de galinhas e de farelos, enquista e trava a interpretação das coisas simples.
Isto não tinha, não tem, nada de singular.
Era um cacho de uvas. Sei lá de onde vieram, que tratos levaram. Eram uvas. E não eram grande coisa.
Para ali ficaram.
Eram visíveis a olho nu.
Por isso, um destes dias, o olhar fixou-se no cacho. Umas quantas uvas mirradas e encarquilhadas. Mas lá ficou.
Outros dias se passaram e mais uvas mirraram.
Até que me picou a mosca. Xaver as passas. Provei uma. Belíssima. Outra. Belíssima também.
Era a hora de alguém me pôr a maçã na boca aberta e servir. Bácoro dentro de um cesto.
Então mas estas uvas não ganham bolores, não azedam como as outras? Pelos vistos, não.
Fugiu-me a memória para os caniços. Para os pares de cachos atados, à espera da raposa ou de engelharem.
Afinal também as uvas de supermercado passam a passas. As uvas fabricam-se nos esconsos dos supermercados, um pouco à frente do leite e antes das salsichas, toda a gente o sabe.
Santa ignorância. Santa mas nada rústica, é urbana ou suburbana, como quiserem.
Aqui na minha boca, ao meio-dia em ponto

Numa das células dos lábios, numa molécula de cloreto de potássio, num átomo do dito potássio, num dos seus protões, num dos seus quarks, numa galáxia desse quark e aí, num planeta terrestre, nasceu e morreu uma mulher como nunca houve outra igual. Nasceu ela e toda a sua ascendência e descendência. Morreu ela e todos com ela. Ao meio-dia em ponto.
O estranho disto tudo é que era uma mulher.
Não era uma forma de vida indetectável pela nossa cegueira.
Outros disseram que o estranho era haver átomos de carbono dentro de um átomo de potássio.
Disse-lhes que era completamente ignorante nessas matérias.


imagem de http://perso.wanadoo.es/tomasmazon/Messier.html

29/10/2004

Dia de Outono


Anomalia

Espero que se trate de uma anomalia no sistema lá no IM.
O facto de o intervalo de tempo ser negativo terá algo a ver com a imagem que se vê?
É que se não tem, se não há anomalia alguma, é preocupante o cenário.
Uma semana inteira sem actividade sísmica registada?
Cruzes, canhoto! O caso não é grave, é gravíssimo!


imagem do IM
Momentos

Aquilo que vi há pouco menos de uma hora nas cadeias de televisão pode bem ser um momento decisivo, um ponto de inflexão na curva.
Não se trata apenas de um velho que carece de uma cama de hospital.
É um sobressalto num mundo que vive há décadas num beco sem saída.
A ver vamos no que dá.

28/10/2004

Apreciações

O caso é que vi uma personagem de banda desenhada a entrar na padaria.
Não tem descrição possível.

Às vezes, também me armo em Diário de Notícias cá da vila. Um sene, é o que sou. Nem por isso purgante. Que isso nunca me chamaram. Até ver.
Cores

Estou assim. Com pouca cor.
Embrenhado em escritas outras.
Chove-me nas árvores e nos pastos e nos montes destelhados.
Pouca destreza.
Uma surpresa desagradável. Dei-me conta de que, por raramente escrever à mão nestes últimos tempos, sequer desenhar, a minha caligrafia envelheceu.
E apressou-se, uma sucessão de gatafunhos a correrem desalmados. Para quê? Que pressa é essa?
Deixo-vos com esta foto. Que não tem tratamento algum. Nada de truques. Tudo cinzento. Ou talvez não.


27/10/2004

Pontos de vista

Quando este episódio se passou, uns bons catorze anos atrás, apenas desencadeou um singular conjunto de apostas que quase comprometeu o ordeiro regresso a casa, no final do primeiro dia de obra, em certa povoação na qual o nosso guia tinha cumprido serviço militar.
As apostas, é bom de ver, tiveram o seu terreno fértil na desorientação do guia.
Hoje, ao olhar para esta situação, ocorre-me compará-la com muitas outras, que quase todos os dias vemos e ouvimos.




Espigueiros


E pontes

26/10/2004

São Rústico


imagem de http://www.la-france-orthodoxe.net/fr/galer/47

Afinal, andei enganado estes anos todos.
É a 9 de Outubro e não hoje, 26, que se celebra o meu santo padroeiro.
O de 26 é outro. Nada a ver, excepto o nome.
O que distingue São Rústico dos outros companheiros de martírio é que ele depois de decapitado e de, tal como Dinis (Saint Denis), apanhar a sua cabeça do chão e a lavar numa fonte, beijou-a antes de lhe falecerem as forças aos pés de uma bela mulher.
É este pormenor do beijo que marca definitivamente a grandeur de tal santo.
E é por isso que é meu padroeiro.

25/10/2004

O intelectual de esquerda

Foi há muito. Há trinta anos.
Já não sei como começou o diálogo, naqueles dias de porrada e de jogos de cartas no refeitório do liceu.
Mas o homem, devidamente fardado e etiquetado na incipiente barba rala, depois de algumas considerações sobre símbolos e atitudes, saiu-se com qualquer coisa assim parecida:
"É o fim dos tempos. Já não há mais nada para ser inventado. Já fomos à lua, já temos computadores (helás! - isso ele sabia que já havia), televisões, telefones, aviões, automóveis, já nada resta para ser inventado! O fim está próximo!"
Por alguma razão, esta frase absurda não mereceu comentário, réplica alguma da minha parte. Fica-te lá com a tua teoria que eu vou jogar às cartas, qualquer coisa do género.
Mas o certo é que ficou bem gravada. Durante muito tempo como exemplo acabado da total paragem no tempo, da ausência de sentido crítico, de imaginação, etc.
Hoje, revejo-a e interrogo-me se o homem não teria em parte razão.
É conhecido que à civilização e aos seus avanços, sucedeu quase sempre a barbárie.
E que povos mais evoluídos soçobraram às mãos de invasores com menos engenho.
As estatísticas já há uns anos nos dizem que os povos mais civilizados tendem, com as curvas actuais, a extinguir-se. Basta atentar nos índices da ONU e ver o que revelam.
Nestas coisas de analisar tendências corre-se sempre o risco infantil de só ver a parte da curva que mais interessa. Sei disso. O maior erro das projecções é continuar a curva com os mesmos parâmetros.
Nada nos garante que não haja alterações. Mas não as havendo, a civilização tal como a conhecemos dará de novo passos atrás, como a História de resto nos ensina.
Será de forma violenta? Ou com a paciente definhando numa cama?
O homem teria razão ou sou eu que estou parado no tempo?

23/10/2004

O véu das coisas

Para além daquilo a que se chama o politicamente incorrecto, conceito que na verdade me irrita embora julgue perceber o que quer designar, parece haver ainda uma outra categoria de afirmações (já não digo de acções) que está um pouco mais para lá dessa banda proibida.
É aquele conjunto de afirmações que, embora sendo racionais e provavelmente objectivas, entram em contradição com o véu cinzento comummente aceite.
História distorcida, verdades políticas, dados científicos mal apreendidos, subjectividades mascaradas, tudo isso constitui a rede que forma o véu.
E qualquer coisa que forme mancha de cor contra o véu cinzento, ainda que possua contornos bem definidos, é inevitavelmente uma heresia.
Não é essa a história do homem? A Idade Média já acabou?
Coisas


Perguntas

As noites têm destas coisas.
Às vezes, fica-se a ver um espectáculo de TV pelo absurdo que representa.
Uma das coisas que uma noite destas ressaltou de forma quase obscena, foi a incapacidade total de algumas pessoas, que se diziam instruídas, fazerem a pergunta adequada à resposta de que necessitavam.

22/10/2004

Sondagens


imagem daqui

Esta palavra associei-a desde sempre a tubos metálicos, caixas de madeira, amostras cilíndricas.
Era sempre com algum deslumbramento que contemplava as mudanças de côr e de textura nas amostras agrupadas.
Hoje, quando a ouço, já sei que fala de outras coisas.
Espero sinceramente que a questão do túnel não se resolva tendo em conta os resultados de sondagens, no sentido hoje mais frequente da palavra.
É de noite

21/10/2004

Verde, código, verde

Ao ritmo a que as coisas hoje esquecem, é já uma relíquia esta oração de verbo subentendido.


20/10/2004

Barómetro

Não faço ideia de quem primeiro aplicou a palavra barómetro à publicação de sondagens.
Ilibo desta os jornalistas.
Há-de ter havido uma boa razão para escolher barómetro em vez de termómetro, higrómetro, udómetro ou outro metro qualquer, incluindo o do Porto.
Mas se foi esse o termo escolhido, na certa que o conceito de pressão há-de ter tido o seu peso, a sua ponderaçãozinha na escolha.
Terá mesmo o lóbi das pressões feito a dita para que esta consagração se fizesse? Não sei.
O que sei é que algo não bate certo.
Sondagens à parte, diz-se tanta vez que as pressões aumentam, daqui e dali, e eu, na esperança de que o anticiclone dos Açores me proporcione finalmente uns belos dias de sol outonais, apenas vejo nuvens e apenas leio valores baixos nos mapas do IM.
Aumentem lá as pressões, caramba.

19/10/2004

O Código do Orçamento

Cabe dizer que não fora o post de Rafael Reinehr lá no seu Escrever por Escrever e não me teria ocorrido penetrar no mistério que se segue.
A verdade é que a memória despertada do Código da Bíblia e a concomitância da apresentação da proposta orçamental para 2005, me levou ao exercício de procurar mensagens escondidas na referida proposta.
Assim, peguei logo no primeiro mapa - RECEITAS CORRENTES.
Desprezei as colunas com índices e valores, atendo-me à das designações.
Lá fiz o que é necessário nestes casos, suprimir espaços, sinais gráficos, tudo o que não fossem letras, com uma única excepção - mantive os asteriscos que surgem quase no final do mapa. Pensei que poderia substutuí-los por letras. Fiquei assim com uma fita de 16912 caracteres.
Escolhi um passo ao acaso - 64.
Podia ser qualquer outro. A verdade é que foi ao acaso que escolhi este e foi o primeiro que escolhi. Não fiz qualquer outra experiência.
Mas para aqueles que gostam de tudo bem justificado, com a primeira coisa que vem à cabeça, pode sempre dizer-se que sendo 2006 o próximo ano eleitoral (parlamentar), 64 = 2006.
O espanto veio a seguir. Ao analisar as palavras eventualmente formadas pelas letras espaçadas de 64 caracteres, e escolhendo apenas aquelas com cinco ou mais letras, já que muitas havia com uma, duas, três ou quatro letras, reparo que há poucas palavras repetidas.
Neste processo, algumas vezes optei por considerar a palavra com mais letras que era possível formar, quando se podia formar mais do que uma. Noutros casos, em que o número de letras era igual, optei sem justificação alguma.
O estranho é que uma palavra surge 20 vezes: LAURO.
O facto de a palavra PAIO, de apenas 4 letras, aparecer 19 vezes e PAIOS 2 vezes, sempre antecedidas de um S, leva-me a considerar que não se trata de um acaso, assinalando assim SPAIO (S.PAIO) presente 21 vezes.
Todas as outras palavras figuram apenas uma, duas ou três vezes. O que é curioso.
CAFAS, DANEI, SENAS e SILAS figuram 3 vezes.
ALÇADO, ASAIS, CORAI, CÓTIO, DANAI, LUCRE, NICOS, OSAMA e TINIAS, 2 vezes.
Há depois uma série de palavras com cinco ou mais letras que figuram apenas uma vez.
E há um único caso em que palavras de cinco ou mais letras surgem justapostas: LAURO+USAMA.
Não me parece que nada disto seja fruto do acaso. Sem testar outros passos, maiores e menores, e outros documentos desta proposta, atrevo-me desde já a concluir o segunte:

É evidente uma obsessão com S.Paio.
É evidente a constante presença de um misterioso Lauro.
É curioso que quase no canto inferior direito da matriz, surjam seguidas as palavras LAURO e USAMA. São as únicas palavras de cinco ou mais letras que surgem justapostas. Esta coincidência leva-me a afirmar, sem grande margem para dúvidas, que Lauro, Osama ou Usama são uma e a mesma pessoa.
Assim sendo, não restam dúvidas de que Osama Ibn Laden ou é prisioneiro do Estado Português ou tem paradeiro deste conhecido.
E de que a recompensa de 25 milhões de dólares actualmente oferecida pelos EUA é uma das parcelas das receitas extraordinárias previstas, mesmo que tal não possa ser dito e afirmado com todas as letras.
Aos mais descrentes, apresento aqui a matriz do texto (622 K). Tem assinaladas todas as palavras que me foi possível identificar, com mais de três letras. Figuram ainda algumas siglas consagradas e uma ou outra palavra mal escrita que levanta suspeitas.
Dado o tamanho do gráfico, tive que eliminar as cores. A coisa ficou em tons de cinzento, evidenciando as palavras encontradas e diferenciando as que se encontram justapostas.
Estou certo que ao analisarem o documento, encontrarão ainda mais pistas.
E quem sabe, não substituem os asteriscos e descobrem algo mais...

15/10/2004

Trajectórias

É sempre a mesma sensação.
Cruzamo-nos sempre em trajectórias normais.
Se algum dia elas forem tangenciais, será o diabo.

Sim. Esta é uma nota pessoal.

13/10/2004

Charada

Para quem se lembra de outros tempos: Hoje não houve falta de fruta.
Banha da cobra

Desde um certo dia, à tardinha, que o homem inventa mitos.
Maravilhas.
Um dia saberemos ou não qual o efeito do convencimento, da sugestão, nos fenómenos biológicos.
Vendedores de sonhos sempre os houve, desde essa tarde.
A ciência, de certa forma, nasceu dessa necessidade de criação de maravilhas, de sonhos.
A ciência mais do que a técnica, que essa sempre parece mais ligada à resolução dos problemas comezinhos.
A ciência acabou por cair em si e largou os mitos, se é que os largou.
Mas ambos permanecem complementares, hoje em campos diametralmente opostos.
Pelo meio, há uma nuvem de poeira.
Onde têm lugar as mistificações.
Os novos vendedores de banha da cobra têm o verbo fácil e claro, tal com os seus antepassados.
Dividem-se em duas sub-espécies.
Os que acreditam no que dizem e os que sabem muito bem como enganar os outros.
Nem sempre é fácil destrinçar uns de outros.
Vem-me isto sempre à cabeça quando ouço certos teóricos da economia, certos gurus do marketing, certos críticos de arte, certos analistas da política, o que fôr.
É uma sopa de palavras e de entoações tão cheia de certezas, tão curiosa na forma como se tiram conclusões sem base alguma, tão interessante no método, tão capaz de admitir uma afirmação e o seu contrário, sem o mínimo estrago à estrutura das ideias, que me maravilha.
Fico ali parado a ouvi-los.
A Feira de Castro é já no próximo domingo.
Mesmo que lá vá, tenho quase a certeza de que não encontro ninguém que se equipare a estes pregadores.
Nem o homem do lenço no microfone que oferece mais umas almofadas a quem comprar o belíssimo faqueiro. Por duas notas de 20? Não. Uma nota de 10 e outra de 5.
Mas como diria alguém, este é muito mais genuíno.
O estranho caso da taxa Tavares

Mostrei-lhe a fracção do bloco de estampilhas fiscais que acabara de comprar.
Aplicou a vista e distinguiu a inscrição na moldura.
À minha pergunta capciosa e oportunista, respondeu com um "Es-tú-pido*!" dito a correr.
Agradeci a disponibilidade e a ironia do tipógrafo, que nunca terá imaginado que uma coincidência de nomes poderia dar pano para mangas. Mesmo sem saber se haveria por trás da singela inscrição mais do que uma inofensiva brincadeira.



* se repararem bem, e como já aqui de resto referi, as duas últimas sílabas são ditas de uma vez.

imagem adaptada a partir daqui

12/10/2004

Liberdade



A insatisfação é natural. É ela que faz mover as coisas. É um ímpeto lá do dentro da vida.
É eterna, tanto quanto a podemos entrever nos relatos que conhecemos.
Se não existisse, não estávamos aqui todos a escrever linhas, à espera que nos leiam.
Andássemos todos muito satisfeitinhos e tudo parava. Nem os comboios seriam objecto do tal movimento residual que nos prendesse o olhar.
É bom que se clame, é bom que se proteste, é bom que se caminhe. Não é bom, é inevitável.
A energia acumula-se e dissipa-se, os ciclos são assim mesmo, tanto quanto nos parece que sabemos.
Quando forem de mais os gritos, os protestos, a coisa acalma de alguma forma. Por cansaço ou por catástrofe.
Se a observação das coisas nos ensinou algo, esse algo é que não devemos esperar coisas novas. Apenas formas diferentes.

Hoje, fala-se muito de liberdade.
Fala-se muito de pressões, de constrangimentos.
Confunde-se, às vezes, com licença.
Confunde-se, às vezes, com a possibilidade de tudo dizer e fazer.

Posso dizer que sou, em certos aspectos, um privilegiado.
Não tenho que cumprir ordens, aceder a desejos, fazer favores, pedi-los a outrem.
Mas será que não?
O facto de não ter chefes ou patrões, clientes, no sentido regular do termo, disciplina a que me submeter, partidária ou outra, carreira a construir, metas a atingir, faz de mim livre?
Provavelmente, dirão que sim.
A minha liberdade é o que eu fizer com ela.
Escrevo aqui. Limitei a minha liberdade de comentar em troca de manter o anonimato.
Foi um negócio que fiz comigo mesmo. Em nome de uma coisa qualquer chamada ética, dignidade, consciência, qualquer coisa que vos pareça. Ou não. Ou apenas do não me chateiem, comodista e associal.
Outros negócios faço com os meus botões, preservando sempre a liberdade de não ter liberdade.
É que ela, a liberdade, não é de facto um valor absoluto.
E se não o é, para mim, que reconheço ter poucas ou nenhumas razões para dela abdicar, o que será para quem tem, inevitavelmente, que se submeter a estas ou aquelas circunstâncias redutoras?
Uma ilusão? Talvez não passe disso mesmo.
Às vezes digo, e que me perdoem os mais terra-a-terra, que liberdade seria poder ter a possibilidade de me apaixonar por todas essas mulheres extraordinárias que existiram, século após século, desde que por aqui andamos. Ou por aquelas que hão-de vir.
Mas estou preso aqui, nestes dois séculos em que a minha vida decorreu e decorrerá, nada posso fazer a esse respeito.
Limitei-me assim às coetâneas. E procurei não fazer disso uma insatisfação permanente.
E posso dizer isto? Posso dizer uma coisa tão disparatada quando o mundo precisa de soluções para problemas gravíssimos?
Se calhar, não devia. Mas a verdade é que o mundo anda no tempo e permite novas formas à matéria velha, a partir da combinação de todas as coisas.
Não há nenhuma vontade que, sozinha, mude seja o que fôr.
Mas todas em conjunto, desde as mais disparatadas às mais consequentes, lá fazem a sopa.
E cada um puxa a brasa à sua sardinha.
Ou não será assim?

P.S. - Quando eu penso mais um bocadinho, chego sempre à mesma interrogação a que outros já chegaram: Dizer coisas? Para quê? O único relógio que dá as exactas horas é o que está parado. E fá-lo duas vezes ao dia, ao contrário de todos os outros, que sempre se afastam da hora certa.
Elefante

O elefante de ontem não era FIAT.
Esta é uma charada para quem tem apenas uma memória normal. Não precisa de ser elefantina.

11/10/2004

Exemplo (de uma indiscrição)

Parece que é, afinal, o que nos trouxe aqui.
Descontando o facto de o mundo ter dado saltos de cada vez que alguém se lembra de inventar qualquer coisa mais estranha, mesmo sem seguir as pegadas de outrem.
Mas o exemplo, que eu não sei se vale mais do que mil palavras, o exemplo contemplado de baixo para cima, junto às saias da mãe ou às calças do pai, decerto nos proveu de competências para voar, mais alto ou mais rasteiro.
Z. era um excessivo. Em tudo. Nas palavras, nos gestos, nas atitudes, na amizade.
Convocava-nos por carta registada para comparecermos na estação, já alta a noite, para o recebermos no seu regresso triunfante de terras minhotas. Acrescentava em post scriptum que, provavelmente, se casaria com o novo amor.
Soube-se uns dias depois que as vizinhas quase chamaram a polícia, depois de o terem visto nu na varanda, quando ele pensava que às quatro da manhã, estava tudo a dormir.
Soube-se também que o vizinho de cima se pusera, contra a vontade da esposa, de ouvido à escuta, encostado aos tacos da sala, gargalhando com as nossas invenções.
Soube-se isto, sem que se soubesse se era assim ou se não era, quando uma brigada de boa vontade se dispôs a limpar a casa ao homem.
Já refeitos da esbórnia, uns dias depois, enquanto esperávamos que ele desencantasse mais uma garrafa de verde para acompanhar com umas conservas, vimo-lo chegar, de olho brilhante e desabafar:
"O meu pai também não é nenhum santo!"
Esta afirmação, para nós que conhecíamos o pai dele desde os bancos da escola, caiu assim um bocado como uma desculpa esfarrapada e pouco consistente.
Foi então que ele revelou a descoberta que fizera.
E lá estava, elegantemente trajado e acompanhado de uns amigos, em plena confraternização.
Nada na foto punha em causa a idoneidade do senhor.
Nada, não.
Havia o pormenor da sardinha a mostrar-se no bolso do lenço.



imagem construída a partir daqui e daqui

10/10/2004

H.E.L. imagem da DGEMN Nem Puto Charilas, nem Cara Linda, nem Moisés, nem Mal-Disposta. Temo que nenhum tenha escapado. Talvez que um deles, qualquer que seja, o tenha conseguido e pense agora, se é que pensa, o mesmo de mim. Passou uma vida, desde essa época. Entre as futeboladas no átrio, com a porta do elevador como baliza e as encapotadas disputas pelas atenções da cara mais linda, ainda havia tempo para sonhar (ó, se havia!) com a libertação. Mas de tudo isso, o que mais vem à lembrança são as explorações que me deixavam conduzir pelo edifício. Um castelo encantado, cheio de corredores escuros, luzes a piscar, gente falando baixinho, odores de éter, guarda-ventos, gemidos, silêncios. Era por esses corredores que a expedição seguia, de pijama. Evitando sempre ser vista. Admira-me hoje que jamais tenhamos sido interceptados. Escolhíamos a hora parda do lusco-fusco e com toda a certeza, colhíamos o beneplácito de enfermeiras e ajudantes. Crianças em fim de vida, deixá-las ir - é isso que ficou. Essa sentença nunca proferida mas adivinhada na facilidade com que nos esgueirávamos pelas escadas, tomávamos elevadores, cruzávamos o hospital de ponta a ponta. 02 - era ver quem se atrevia a sair do elevador. Tudo escuro. Nenhum de nós afinal imaginava ir ali parar.

08/10/2004

07/10/2004

Feite Dáivares

Foi assim, mais ou menos assim, que o país inteiro se riu de si próprio.
E é assim, mais ou menos assim, que o país se queixa de si próprio.
Nada do que é essencial aparece como preocupação primeira. Não me espanta. Talvez assim tenha sido sempre, salvo no caso das grandes catástrofes.
Dos políticos, diz-se que são maus - também eu o digo, quando a mostarda me chega ao nariz e absurdamente almejo que sejam geniais - do povo, diz-se que é boçal. Creio que todos, sem excepção, podemos ser boçais. É tudo uma questão circunstancial. Talvez uns mais do que outros, ok. Mas a verdade é que dificilmente nos suportamos uns aos outros e que isso leva muitas vezes a esses extremos.
Não acho que este país seja pior do que outros. Será mais difícil viver aqui do que em alguns outros lugares, mas é seguramente mais agradável e menos perigoso do que na maior parte do mundo.
Voltando a encarrilar no que queria dizer de início, não me parece que haja grande novidade para nos fazer sentir mais insatisfeitos hoje do que ontem.
O que parece que há, e parece não só aqui mas um pouco por todo o lado, é uma insatisfação generalizada.
Insatisfação essa que não posso dizer de onde vem. Posso especular, conjecturar, apenas isso.
Há anos que digo aos que têm a paciência de me ouvir, que a Natureza (melhor dizendo, o Tempo) se encarregará de nos pôr no sítio. Seja pela guerra, pela peste ou por outra qualquer forma de que ela se lembre. Como se ela o não fizesse diariamente.
Esta insatisfação pode muito bem vir do excesso de segurança. Da vertigem do risco. Guerras aqui e acolá, em pequena escala, não foram o bastante para aplacar os ânimos.
É preciso mais tensão e mais energia libertada.
Andamos todos assim.
Qualquer zanga de comadres parece (se deseja que seja) uma catástrofe. Mas não é.
Um post repetido


Memória e futuro

Ambos carecem de divulgação.

A memória, porque sendo provavelmente hoje mais dilatada para os lados, para as milhentas coisas a que se presta atenção diariamente, deixa de se alongar no tempo, precisando por isso de ser avivada a espaços.
Confesso que fiquei com alguma expectativa com o anúncio do canal em que a RTP se propõe emitir peças dos seus arquivos.
Embora a coisa permaneça meio confusa, não se sabendo quando e em que sintonia se pode ver o dito canal.
Mas, assim de repente, gostava de rever:
Os documentários de Michel Giacometti e Alfredo Tropa
Os documentários de Hélder Mendes
Os documentários de Lagoa Henriques
Os separadores das várias séries que se fizeram com imagens do país - quem não se lembra de terem colocado um sobre São Bento da Porta Aberta, enquanto se aguardava o discurso presidencial que anunciaria a dissolução do parlamento?

O futuro, porque sendo previsível em certos aspectos que não dependem da espécie humana, fica sujeito à atenção de poucos.
É o caso do eclipse solar que ocorrerá daqui a aproximadamente um ano e do qual quase se não ouve ou lê notícia.
Se as condições atmosféricas o permitirem, será com toda a certeza um espectáculo único.
Já aqui postei enigmaticamente há quase um ano sobre isso.
E se nada de irreversível me acontecer antes, conto estar lá para os lados de Miranda do Douro, na manhã de 3 de Outubro do ano que vem.



Imagens adaptadas do Observatório Naval dos Estados Unidos (link indisponível) e da página do Prof. Borges de Almeida, da Universidade do Minho.

06/10/2004

Às canelas

Susto

O homem ia para casa, depois de um dia de trabalho.
Acabara de atravessar a passadeira quando começou a ouvir os insultos.
Estacou. Eram cinco em cada carro, com cara de poucos amigos.
Quando saiu o primeiro, do carro da frente, desviou-se para não ser abalroado.
Em três tempos, sentiu uma mão a agarrar-lhe o garganhol.
Dobrou as pernas e balbuciou: "Eu não..."
Os demais circunstantes apreciavam a cena. Ninguém se apercebera de que ele era alheio à refrega.
Abriu a boca de espanto quando o seu algoz, desmanchando-se a rir, perguntava aos demais contendores: "Mas quem é este gajo?"
Já não foi capaz de se indignar, como os restantes espectadores, quando se aperceberam da farsa.
Ainda levou um palmada nas costas e um desculpe lá, mas o ruído das buzinas, até aí caladas de suspense, não o deixava perceber fosse o que fosse.
Os dez entraram para os carros, e ele julgou ter notado que alguns entraram para o carro errado.

05/10/2004

Outra concessão à bola



A história repete-se. Desta vez, logo à quinta jornada.
Será que os números nos pregam a partida? Eu cá não acredito.
O tipo das estatísticas é um chato.

04/10/2004

Da música

Eu bem disse que as recordações podiam ser bizarras.
Ora era o tempo das Peugeot 504 cinzentas, aquelas de 7 lugares.
E era a época dos frios.
E era na estação de Beja, no largo da estação.
E a hora era a de aguardar que abrisse um café.
E a companhia era boa, muito boa.
E o rádio estava ligado, ah estava.
Foi exactamente assim que se ouviu, num daqueles programas para a gente da terra, o Marco Paulo a cantar "Mulher Sentimental".
Caramba. Logo o som havia de ficar na fita.
Sítios raros

Falhou a rua que conduzia à casa.
Quando finalmente a descortinámos, na noite invernosa, via-se o muro alto da quinta e a casa envolta em escuridão.
Lá dentro, estava tudo na mesma. Como vinte e cinco anos antes, talvez trinta.
Sobre um aparador, revistas Flama e Plateia.
O frigorífico, de linhas abauladas, estava estranhamente a funcionar.
Lá dentro, uma tijela de caldo verde. Apenas isso.
O vinho novo, na adega, todo ele intragável, datava da mesma época. Novo de trinta anos.
E digo novo, porque tal como na casa, parecia improvável que os anos tivessem passado ali também.
Quando saímos, no dia seguinte, tive receio de deixar ali algo que fosse actual. Uma beata de cigarro dos anos 90 esquecida em algum cinzeiro, uma beata que fosse, seria carga a mais para aquele tempo.

03/10/2004

Música

Já aqui falei dessa minha inaptidão.
Que não é a única.
Há quem ache que é estúpido alguém gabar-se da sua inaptidão para a matemática, para o desenho, para trabalhos manuais, etc.
Não sei se gabar é o verbo correcto. Embora haja casos em que parece isso mesmo.
Não me gabo, tão pouco me importa se parece estupidez ou não.
Mas é o que constato. Sou uma nulidade no campo da música. Com toda a certeza.
Por isso mesmo, a tal tarefa a que me propus, de reunir trechos musicais, canções que tivessem em alguma altura da minha vida sido o fundo das circunstâncias, não é uma tarefa fácil.
Claro que só é possível hoje dadas as facilidades de pesquisa que a rede nos proporciona.
Um verso, basta um verso de uma canção e apanha-se o fio à meada.
Já no caso da música sem voz, a coisa é muito mais intrincada.
Depois, depois de reunir um número considerável de peças, de as ouvir com alguma atenção, fica um certo espanto.
O espanto de como certas coisas quase inaudíveis se perpetuaram na memória.
E o espanto de imagens se formarem a partir de notas musicais, roufenhas ou claras como a água.
Vontade

De atravessar a ilha pela estrada da Encumeada, e em São Vicente, virar à esquerda para Porto Moniz.
E aí, com a tarde a fechar-se, aproveitar a invernia e beber um copo de vinho seco numa taberna escura. Sem palavras.
British Ever Ready Export Co.

Faltou a luz, veio-me esta imagem à cabeça



logotipo da BEREC encontrado aqui

02/10/2004

Jornais e lentes



Um mistério que para sempre ficará por resolver é o de os jornais haverem saído, anos a fio, daquela casa com milhentas sílabas sublinhadas a azul e, em certas épocas, só em certas épocas, com múltiplas queimadelas de aparente cigarro.
Mas não era cigarro.
Era a minha lente a funcionar.
Já nunca percebi o que levava o meu tio a sublinhar uns 5 a 10% das sílabas, não das palavras, não das frases.
Nunca ele se queixou de eu lhe queimar as margens dos jornais.
Nunca eu adivinhei o seu propósito ou lhe perguntei por quê.
Passávamos horas sem pronunciar uma única palavra.

P.S. - Além dos traços azuis subsilábicos, havia também uns números, de onde em onde.

imagem adaptada de
Por aí, com o vidro sujo


Em obra


01/10/2004

Olivença

Eu de facto não entendo por que é que, sabendo-se que os espanhóis pressionam para que se chegue a uma solução para Gibraltar, as autoridades portuguesas se limitam a apagar a fronteira da ocupação nos mapas oficiais e a desenvolverem contraditórias e insípidas reclamações sobre quem manda no Guadiana na zona da contenda.
Nem qual é o mistério por trás disto tudo.
Há um equívoco grande quando se diz que as nossas fronteiras datam do séc.XIII.
Uns copos a mais



Polibruno estava feliz à saída das Caldas.
No fim da semana de trabalho, ocorrera-lhe presentear a esposa com um serviço de couve.
Esperámos todos no carro, enquanto o adivinhávamos regateando preços.
Lá saiu altivo, uma boa meia hora depois, segurando o atilho.
Mal se instalou no banco do carro, desatou a desembrulhar tampa por tampa, tigela por tigela.
Mais para conferir de novo do que para nos mostrar a compra.
Claro que faltava a tampa de uma terrina.
Suplicou meia-volta mas não lhe fizémos a vontade.
O tá bem que soltou soava a soluço.
Mudou a conversa para os copos. Já trazia três ou quatro, só desse dia. Copos com publicidade qualquer um marchava. Insinuava-se junto do balcão mas não roubava nada a ninguém. Tinha portanto conseguido nesse dia os três ou quatro que agora nos mostrava.
A volta era larga. Havia que deixar um para os lados de Alcoentre, outro para os lados de Coruche e só depois a capital, já lá para o lado da meia-noite.
Chegados à zona de Coruche, o passageiro ali destinado entendeu pagar umas cervejas.
Enquanto escorria a cevada pelas goelas, Polibruno demorava os olhos pelas prateleiras de copos. Insinuou-se sem sucesso.
Foi quando reparou na panóplia de prémios pendurada na parede. Em lugar central, um relógio que parecia de cuco.
Polibruno perdia apostas regularmente. Bastou-lhe elogiar o relógio para que o outro lhe dissesse, desdenhando, que o relógio era em plástico bera.
Polibruno achava que não, que era de madeira legítima.
Estava o terreno preparado. Polibruno apostou.
Tirada a prova, Polibruno perdeu.
Que sim, que era uma boa imitação. Mas que, assim sendo, de nada valia. Mas Polibruno ainda fez preço a cada um dos itens da tábua de prémios. Lanternas, porta-chaves, isqueiros, facas, tudo avaliado. Feitas as contas, Polibruno concluiu que valia a pena investir na arrematação global, comprando os furos que faltavam.
Mas foi desimaginado disso pela nossa retirada intempestuosa.
O homem da terra convidou-nos então para um último copo em casa dele.
Depois dos cumprimentos à entrada, fomos conduzidos a uma sala onde pontificava um relógio...
Polibruno já não se deixou surpreender. Afirmou logo que era de plástico.
Não se ficou por aí. Alcançando a cristaleira, dobrou a espinha e arrebitou os olhos para a fila de trás, a dos copos marcados.
Ali mesmo fez preço à colecção. Com essa atitude, acabou estranhamente por conseguir mais dois para o pecúlio.
Saiu triunfante.
As horas já não eram para gente decente andar por aí.
O carro tinha pouca gasolina e as bombas tudo fechado.
Polibruno sugeriu Salvaterra. Nada.
Depois Benavente. Se não houver bombas, vou aos Bombeiros - dizia, puxando dos galões de voluntário.
Assim foi.
Polibruno dormia afinal quando estacionámos no parque dos Bombeiros.
Acordou estremunhado e precipitou-se para fora do carro, levando no colo os copos do dia.
Desastre. Polibruno quase chorou. Logo aqueles dois que lhe tinham dado em Coruche, tão difíceis de encontrar...
Mas lá foi.
Ao fim de uma hora, resolvemos saber da sorte do homem, desaparecido para lá de um portão de quartel de bombeiros.
Lá estava, em amena cavaqueira, junto a um auto-tanque.
Chamou-nos e apresentou-nos ao responsável de serviço.
Julguei nessa altura distinguir um brilho de alívio nos olhos do bombeiro.
Agradecemos e ainda ouvimos Polibruno virar-se para trás, confirmando:
"Têm aqui umas belas instalações!"
A razão da demora tinha sido mesmo a visita guiada ao quartel.
Ainda sugeri uma passagem pelo Colete Encarnado, que era noite da Sardinha Assada.
Mas pensando melhor...

copos daqui

30/09/2004

Continuo a não perceber



Eu sei que ando azedo. Mas há coisas tão recorrentes e tão irritantes, que não há como não me recordar deste post
Descidas

Há pessoas que escolhem descer na nossa consideração de formas bizarras.
Uma delas é virem bater à porta, indagando se o carro que lhes bloqueia a saída da garagem é cá de casa.
O mundo

Nesse tempo, o mundo chegava na camioneta das 9.
A televisão só começava lá pela tardinha.
As emissões de rádio mal se captavam ali, entre cêrros.
O mundo vinha assim dobrado e etiquetado, com o cheiro a tinta já misturado com odores de gasóleo mal queimado e outros, ocasionais companheiros de porão.
Desdobrava-se sobre o balcão e entre as letras distinguiam-se os tracinhos do linotipo.

29/09/2004

Níveis

Ele há níveis.
E as curvas de nível, por mais que se grite e que se gesticule, não mudam de sítio.

28/09/2004

Contágio

A nossa língua é de um absurdo macroscópico quando se trata de pedras na engrenagem - aqui há gato, seja ele bicho ou peça metálica.
Como se os olhos dos que falam a nossa língua só divisassem manchas de contornos consideráveis.
Já os moços que dominam estas coisas do software se socorrem de bichos mais pequenos, sabendo nós que desses bichos à transmissão de doenças, vai um saltinho.
Vem isto ao caso de, e para meter uma data de coisas no mesmo saco (de gatos, como se verá) a minha maquineta ter vindo a dar preocupantes sinais de bronquite.
Não sei mesmo se o facto de ela se desligar quando começa as iterações à caça da chave mágica do totoloto (não sabiam que eu era maluquinho?) tem alguma coisa a ver com o facto de outros computadores mais potentes se terem negado.
É claro que é coisa diversa. Aqui não há problemas de solução inextricável. É só passar os treze milhões e qualquer coisa de chaves pelos setenta e tal crivos, subdivididos em umas quantas condições, tal como se faz há cerca de vinte anos, sem sucesso.
Esta versão do programa, a 27ª, é até já antiga. E já está a dar as últimas. O departamento de desenvolvimento está cheio de ideias novas e já tem a coisa em fase de execução. Tem faltado o tempo.
Mas que é suspeito, é. Mal ele diz que excluiu à partida uns dois milhões de chaves, isto depois de ter feito já umas quantas iterações preliminares, dá-lhe a travadinha. E isto só aconteceu nestas últimas semanas.
Não sei o que pense. Ouvi mesmo agora dizer, e pela octogésima quarta vez, sendo dito como grande novidade, que a gripe das aves também se pode transmitir aos humanos.
Será caso?

27/09/2004

O dia em que a guerra acabou

Pois foi. Foi nesse dia mesmo.
Ela ainda estava obrigada a comunicar o seu paradeiro, proibida de entrar na Cortina de Ferro, sujeita a escrutínio nas visitas que recebia.
Nesse mesmo dia, o homem reparou nela. Fazia um friozinho a mais na Praça Pigalle.
Ela tinha-se colocado sobre os ventiladores do metro.
O homem aproximou-se, dirigiu-se a mim e ao R.C., e só depois fez a vénia na direcção dela.
O francês dele era anguloso. Forasteiro como nós.
Que da primeira vez que estivera naquela praça, havia dezenas de pessoas deitadas junto dos ventiladores, pouco depois da guerra.
Quando a vira assim...
Disse que era de um dos países do Leste. Não comentámos o acontecimento desse dia, embora por todo o lado em Paris não se falasse de outra coisa.
Diziam que Mitterand havia afirmado que gostava tanto da Alemanha, que se houvesse duas, tanto melhor.
Mas ele estava mais interessado em nós. No que fazíamos, de onde vínhamos.
Quando lhe dissémos ao que vínhamos, abriu os braços. Que não acreditava.
Estava ali também para a Feira. Carteira em punho, mostrava credenciais. Dizia que eram de jornalista, de funcionário do estado, de diplomata. Vamos beber um copo. Fica para amanhã.
No dia seguinte, lá estávamos. No stand aprazado. Sem ela, que fora ver as modas.
Passámos uma primeira vez e nada do nosso amigo. Uma segunda e nada.
À terceira, foi de vez. Entrámos e perguntámos por ele.
Foi quanto bastou para nos colocarem num reservado, a sós com uma garrafa de scotch.
Mas nada de meninas, como tinha acontecido noutro sítio.
O homem não apareceu.