04/12/2004

Restos de colecção

O pessoal das mudanças devia ser obrigado a sigilo profissional.
De entre os muitos profissionais a quem temos de confiar partes da nossa vida, estes são os que mais a escrutinam. Desde o pó por detrás do guarda-fato à colecção de livros, passando pelas marcas que deixamos um pouco por todo o lado.
Não faço ideia dos destaques que farão quando escalpelizarem o dia de trabalho que incluiu o transporte de dois pesadíssimos estrados escada acima e escada abaixo.
Talvez que estas mobílias já não se usam.
À parte a referência expressa ao peso dos caixotes de livros, que um burro carregado de livros já se sabe o que é, tudo o resto foi feito em silêncio. Muito profissional.
E, aqui chegados, eu sabia que tinha esta fotografia.
Está na capa de um livreto editado pela JAE em 1954.
A seta aponta o pilar que caiu em 2001. Que não estava, na estiagem presume-se, no leito do rio.


Foto JAE

03/12/2004

Madeira



A capital do móvel não me deve nada.
A minha pouca apetência consumista, as heranças avoengas e um certo esgar face aos aglomerados de madeira que se dão ares de cerejeira, de azinho, de pinho ou de castanho, faz com que não seja cliente de lojas de mobílias.
Ainda me surpreendo com as peças em boa madeira que encontro abandonadas no lixo, enquanto os seus anteriores proprietários se deliciam com as últimas modas dos hipermercados do ramo.
Hoje fui levado a um desses santuários.
A sensação que tive foi a de ter recuado até aos anos 30. Ou até um pouco mais. Lá estava a Bauhaus reinterpretada, quase noventa anos depois. Nada de novo, portanto.
Mas a ideia com que se fica é que estas coisas são assim mesmo. Que se vendem como novos, conceitos e formas de arte que já fizeram quase um século de caminho.
No caso do mobiliário, com materiais muito mais perecíveis.
Pela minha parte, também prefiro o que já resistiu mais de cem anos. Mas ao serviço. Mesmo que a minha cadeira não seja tão confortável como as que se vêem hoje por aí.

02/12/2004

Não sei que dia é hoje

Hoje deve ser um dia especial.
Durante anos foi-o por uma razão que já não faz sentido.
Mas hoje, hoje, não comemora nada. Hoje abre uma nova era.
Em que não se vislumbram vantagem pessoais. Mas em que se deseja, se espera que outros, próximos, as tenham.
Ainda não sei que dia é hoje. Sei que perdi algo. Sei o que perdi, mas não sei quanto.

30/11/2004

Era pré-socrática (três posts em um)

Vem aí mais uma época de argumentos extraordinários.
Da chamada retórica política, que é das coisas mais vazias que existe.
Sobre o que aconteceu hoje, já tinha dito tudo o que pensava, antes até da coisa explodir aqui nos blogues. Fi-lo aos primeiros rumores mais consistentes da partida do ex-primeiro-ministro para Bruxelas.
Considero que não há em Portugal, há muito tempo, muito tempo mesmo, qualquer tipo de opção política. Saber se as há noutras paragens, é outra questão sobre a qual não me pronuncio.
Não a havendo, vamos tendo cada vez mais do mesmo, até que a corda parte. É assim há séculos.
Temos por vezes a sorte de ter dirigentes mais iluminados, outras o azar de contar com medíocres.
Os tempos que se avizinham não são famosos.
Seja qual fôr o resultado das próximas eleições, o caminho não será cheio de pétalas.
E é isto que marca o actual momento. A ausência total de saídas. O beco.
É certo que com a integração europeia abdicámos de instrumentos políticos para actuar desta e daquela forma na nossa posição no quadro internacional e que isso também não deixa grande margem de manobra internamente.
Vivemos há muito a gerir a nossa sobrevivência. Os tempos que aí vêm serão, de qualquer forma, prenunciadores da abdicação total.
Tanto faz que seja fulano ou beltrano a fingir que governa.

No plano pessoal, a notícia do dia é outra, e é ela própria, uma notícia esperada e não esperada.
Daquelas que é importante, que é de Estado, que merece a solenidade do fato preto.
Que é recebida com um sorriso, nunca se sabendo que repercussões traz.

Esta amplitude térmica diurna, à volta dos dois graus, reflecte ou proporciona o gesto de encolher os ombros.

29/11/2004

As condições mundiais, bacalhau a pataco e literatura de cordel

Acabo de fechar a porta, com a polidez possível, a duas senhoras vestidas de bege (será que o bege faz parte da conspiração?) que me pretendiam elucidar sobre as condições mundiais.
Assim que me lembre, apenas uma vez acedi a trocar algumas palavras com estas brigadas evangélicas. Face à minha argumentação conjecturalmente darwiniana, voltaram dias depois à carga coadjuvadas por um senhor de gravata. Empate técnico, como se diz agora.
Nas minhas memórias consta também um certo domingo (seria sábado?) de manhã, em que acordei ouvindo vozes estranhas na sala de estar.
Com curiosidade adolescente, abeirei-me da porta e distingui a voz de meu pai que placidamente argumentava com as senhoras, numa manifestação de disponibilidade para estas coisas, que eu lhe desconhecia.
A questão do fechar a porta, a questão de ter já uma vez cumprido a penitência, como se fosse obrigatória a passagem, ao menos uma vez na vida, por essa experiência de indígena que carece de evangelização, dá pano para mangas.
Desde logo porque a sociedade actual é uma espécie de ditadura do diálogo. Que nos obriga a ouvir e a respeitar as opiniões dos outros.
Ora a verdade é que nem ouvimos nem respeitamos todas as opiniões que nos colocam à frente.
Esse é o primeiro equívoco.
Como dizia há dias a uma blogueira amiga, a espécie humana divide-se em variados tipos, sem embargo de me esquecer de algum:
Os cépticos
Os crentes
Os crédulos
Claro que estas categorias não são estanques. Interpenetram-se.
Mas um céptico será sempre um céptico, um crente sempre um crente e um crédulo só deixará de o ser se descobrir os pés de barro do seu ídolo ou ídolos, o que nem sempre acontece.
É pouco provável que os dois primeiros modifiquem a sua opinião sobre as coisas.
Já o crédulo pode ou não mudar de opinião, consoante o vento. Mas isso normalmente não depende da argumentação alheia, depende mais do ascendente que o outro exerça sobre ele.
Parece assim que qualquer embate de palavras é um mero exercício argumentativo, que pode ou não deixar-nos mais aliviados, mas que seguramente não conduz a lugar nenhum.
Ora isto traz-nos aqui, à cultura dos blogues.
Afinal não ando de porta em porta a apregoar o meu bacalhau a pataco ou a minha literatura de cordel mas o resultado é quase o mesmo.
Dir-se-á que a diferença reside precisamente no facto de não andar a perturbar o quotidiano alheio com toques de campaínha. Talvez.
Mas a verdade é que, invertendo as coisas, procuro as novidades nos blogues que acompanho. E se, muitas vezes, o que lá está escrito me agrada, também há vezes em que me irrita. Outras considero que é um tremendo disparate.
Voltando a inverter, assumo que o mesmo ocorrerá com quem aqui vem ler o que escrevo.
E isso, de alguma forma, interfere com os outros.
Poder-se-á dizer mais uma vez que mais fácil do que fechar a porta é clicar Back ou fechar a janela. Mas há uma opinião escrita, há uma visão das condições mundiais que já foi lida. Mesmo que os meus leitores sejam cépticos, e eu suspeito que a maioria o é, alguma coisa fica. Tal como fica na minha cabeça o que leio com agrado ou desagrado.
Nada de novo nisto.
Mas pela mesma razão que raramente comento nos blogues meus favoritos, também não me apetecia hoje comentar no blogue das senhoras de bege.
Quem paga as favas são os meus leitores.
O mundo está perdido.

28/11/2004

A estatística dos marcelinhos

Nos últimos dias já foram duas as vezes que falei na minha velha casa.
É provável que o assunto escorra por estas linhas mais algum tempo.
Com toda a probabilidade, o ano de 2005 será o ano do adeus definitivo.
Em pouco mais de três anos, terei esvaziado as minhas memórias por duas vezes. A verdade é que nunca contei ter que me despedir de nenhuma casa. E acabo por fazê-lo das duas onde cresci em curto intervalo.
Eu ligo às coisas, aos espaços, às memórias que acalentam. Fechando a porta pela última vez, despeço-me de mim também. Não é agradável. Os que já passaram por isso, sabem do que falo.
Mas como em todas as coisas, também há efémeras alegrias no meio do desalento. Encontram-se objectos que julgávamos perdidos para sempre.
Ontem encontrei uma caixa de moedas. Daquelas de dez centavos em alumínio ditas marcelinhos.
Como não há uma inutilidade sem duas, nem duas sem três, aqui fica a segunda em poucos dias. A terceira não tardará.
É que achei curiosa a distribuição por anos das moedas que lá encontrei.
Como podem ver, as quantidades de moedas de 1971, 1972, 1973 e 1979 mantêm-se numa proporcionalidade aproximada à cunhagem respectiva, enquanto que as quantidades referentes aos anos de 1974 a 1978 seguem proporções diversas e menores.
Claro que de 1969 e 1970 não tenho nenhuma.



A quantidade de moedas cunhadas obtive-a em http://moedas.org/

27/11/2004

Foi hoje, 27 de Novembro de 2004

Foi hoje que fui caçado.
Foi uma rigorosa investigação jornalística da RTIG. Na linha das grandes reportagens de há vinte e cinco anos atrás, quando era uma televisão ao serviço do partido - o CCP, pois claro.
Lá se vai o anonimato.

Nem pombal, nem pardieiro

Não passou de uma exagerada versão dos acontecimentos por parte da vizinhança, a suposta invasão columbina do post anterior.
Ainda que houvesse alguns vestígios de penas entre a janela e as cortinas, não havia espaço para os pombos se instalarem.
Entretanto, ao ler o blogue do Fernando, esse espaço admirável sempre repleto de novidade e de bom gosto, que vejo eu?
Este recorte do jornal O Globo:



E se eu tivesse apanhado os bicharocos em flagrante?
Seria detido? Estaria com TIR a esta hora?
Haveria autópsia aos restos do jantarinho?
É que há um amigo que diz que pombos de rua também se comem.

26/11/2004

A invasão columbina



Pardieiro não parece ter na sua origem o pardal pardo que tanto palra.
Parece que o étimo é pariete > parede. Paredes velhas, telhas soltas, rebocos caídos, madeiras desencaixadas, pardais lá dentro. Vem dar ao mesmo.
Há muito que percebi que a casa de cada um é onde habita.
Isto de termos a ideia de que controlamos algo mais do que as paredes onde nos inscrevemos, é mera ilusão. Para mim, é.
Apesar disso, ainda chamo meus a alguns pardieiros espalhados entre os chaparros.
Talvez pudessem ser um sonho neo-rústico de qualquer ave presa em galinheiros de betão. Não o são para mim. São ruínas.
Mas desta vez não se trata de pardais. Melhor dizendo, não se tratará só de pardais.
Nem se trata de montes caídos onde às vezes encontro cadáveres de aves que julgava desaparecidas daquelas bandas.
Trata-se de um galinheiro de tijolo e cimento. Betão tem pouco. Uma casa de onde me retirei sem me retirar. Onde deixei o meu espólio, as minhas memórias, e de onde, mais uma vez, fui o último a sair.
Lá ficou o que ninguém quer roubar. Livros, papéis, fotografias. Roupas, objectos constituídos em amostras sem valor. Sem valor para outrem. Móveis. Pratos e talheres. O bastante para quem é frugal. Como eu.
Mas retirei-me.
Recebi agora a notícia. Os pombos - livres ou escravos - ocuparam-me o espaço. Alguma janela mal fechada deu-lhes abrigo.
O que farão eles com as minhas memórias?
Mais um pardieiro na cidade.
Perdão, pombal.

25/11/2004

Inutilidades várias



É da natureza humana. Pelo menos assim parece.
Mesmo que se duvide que os nossos mais remotos antepassados tivessem tempo e oportunidade para se deterem com inutilidades. Em algum tempo elas terão entrado na vida dos homens para não mais saírem. Por enquanto.
É certo que o conceito de inutilidade não é muito seguro. Mas sobre isso falarei noutra altura.
Esta de hoje, que me tem consumido algum tempo, é tão bizarra como todas as outras que não sabemos para que servem. É apenas mais uma.
Saído da crise de processamento a que o velho Pentium me submeteu, lembrei-me de um jogo que não conseguia correr nem que a vaca tossisse e que sempre me agradou - o tal que dá pelo nome de Scrabble.
Pois lá encontrei uma versão utilizável e pus-me a jogar contra o algoritmo. Sucedia que o dicionário do bicho era obviamente inglês. E, apesar das bizarrias que encontrava no dicionário, cedo verifiquei que não era adversário para quem tantas palavras conhecia.
Foi então que me decidi por jogar em casa, isto é a construir um dicionário português adaptável à coisa. As exigências são simples - só valem palavras até doze letras e nada de acentos ou cedilhas.
É claro que há o problema da quantidade de KK, WW e YY que aparecem no jogo. Mas isso é de somenos. O busílis foi e é construir o tal dicionário.
A minha versão do Word não tem dicionário português. Já tive um mas foi para o maneta. Também não sei do dicionário que construí ao longo dos tempos, o tal de Custom Dic. Foi para as urtigas, também.
Socorri-me enfim desta página, que é subsidiária do Jornal de Notícias. Reúne palavras encontradas na versão electrónica.
É claro que contém muitos estrangeirismos, gralhas, hifenações de fim de linha, etc. Mas aproveitou-se. O Word nisso é bom. Transforma num ápice vogais acentuadas em vogais átonas. Tira as cedilhas aos cês. O Excel elimina as palavras com mais de doze letras. Mas o dicionário continua pobre.
Foi então que me lembrei de um utilitário que fiz para ajudar um estrangeiro a aprender as nossas flexões verbais. Lá se introduz o nome do verbo (regular, pois claro) e se obtêm todas as flexões. Nada de mais.
Agora fiz outro. Como o dicionário quer tudo ordenadinho alfabeticamente, é preciso não só obter as flexões verbais como ordená-las assim. Já agora incluiram-se os advérbios e adjectivos relacionados.
Se isto não é inutilidade, então o que é?
Já consigo ganhar ao moço.
Os WW e os KK? Valem KW, OK, KO, GW, entre outros.
Efeméride



imagem em http://ellisctaylor.homestead.com/Henkiss.html

Passam hoje trinta e sete anos sobre a última grande catástrofe natural ocorrida em Portugal Continental.
Na parte continental do país, salvo algum esquecimento, há a registar durante todo o século XX três dessas catástrofes, por terem sido muito mais mortíferas do que todas as outras:
23 de Abril de 1909 - o sismo de Benavente
15 de Fevereiro de 1941 - o ciclone que assolou todo o país
25 de Novembro de 1967 - a tempestade que desabou sobre Lisboa e zonas limítrofes
Nos Açores, houve entretanto diversos episódios mortíferos, todos eles causados pela actividade sísmica.
Para além destas, associadas aos ditos elementos naturais, há que não esquecer a epidemia mundial que dizimou milhares de portugueses no final da primeira guerra.
E é hoje que voltam as notícias sobre o eventual perigo de uma nova catástrofe. Mundial. De contornos semelhantes a essa.
Já aqui tinha discorrido sobre essa eventualidade, que é tão certa como a ocorrência de novo terramoto em Portugal. Só não se sabe quando cai sobre nós.
E sobre a dificuldade de combater hoje uma pandemia.
Pela facilidade e velocidade de propagação.
Sobretudo pela instalada mentalidade do politicamente correcto, pouco dada a perceber necessidades radicais face a problemas de dimensão catastrófica.
A Natureza dá-nos lições periódicas. Quase parece que o faz quando nos esquecemos que fazemos parte dela.
Esperemos que não seja desta.

24/11/2004

Civilização

Às vezes penso que o melhor sinónimo de civilização é frieza. Apenas isso.

22/11/2004

Borda d'Água

Comprei hoje o Almanaque Borda d'Água. Não sei quantas vezes o terei feito. Poucas, decerto. Algumas delas nos velhos serões da Cervejaria Trindade. Há muitos séculos.
Pois o Reportório útil a toda a gente foi durante muitos anos, ainda antes dos tais séculos, uma longínqua referência que eu ouvia de velhos e que associava a uma espécie de oráculo que circulasse pelos caminhos do Alentejo, debitando sentenças sobre ventos, águas, sementes e calmarias. Mas não era isso.
De todos os dados dele constantes, o que sempre me fez espécie foi a antecipação das ditas calmarias, do fresco, do limpo, do tempo revolto, da chuva.
Confesso que nunca aferi tais premonições. Aferi outras, mais talhadas pelo atavismo, que estas não sei se o são.
Ouvi ditos sobre semanas de nortada, dias de levante, geadas e águas. Moles e rijas.
De quase todos se adivinha uma certa capacidade para se alinharem com a estatística. Mesmo quando ainda se percebem erros de palmatória, talvez amplificados pela reprodução oral.
Mas esta certeza a um ano ou mais de vista, tem que se lhe diga.
Em 2005, vou estar atento.
O eclipse de 3 de Outubro, esse sim, conto caçá-lo lá para Trás-os-Montes.

21/11/2004

O coração da Filipa


imagem em http://tubes.ominix.com/art/holiday/valentine/ (link perdido)

Passei muitos e bons anos da vida ao lado do velho amigo R.C..
Entre as suas qualidades conta-se uma inevitável queda por tudo quanto mexa e use saias.
Queda essa que eu partilho, embora com modéstia quanto ao sucesso.
Sofri na pele os caprichos do homem.
Como da vez em que cheguei derrotado a Saragoça, morto de sono, e tive mesmo assim de completar a viagem até Barcelona, porque o homem, em vez de estar preparado para me substituir ao volante, tinha deixado que as musas o inebriassem e estava impróprio para prosseguir viagem a menos que fosse de pendura.
Actuámos em palcos dessas espanhas.
Jantámos em inglês em tocos de árvores da capital francesa, irrepreensívelmente ataviados, apenas para acirrar os passantes contra os moços do outro lado do canal.
Corremos Ceca e Meca e o vale de Santarém, metendo copos, mulheres e trabalhos, muitos trabalhos pelo meio.
Mas naquele dia, tratava-se apenas de um insuspeita incursão aos Algarves d'aquém-mar.
Coisa outonal.
A paragem para o pequeno-almoço foi na costa transtagana. Em casa de família.
E aí apareceu a Filipa.
Que nem um nem outro conhecíamos.
A Filipa era mais corpo. Pernas e busto. Uma cara daquelas de lavar como a roupa branca.
Mas disse uma coisa que jamais seria esquecida.
Foi quando mencionou aquele acidente numa estrada com dois sentidos.
No dia seguinte, pela manhã, ao entrar no escritório, reparei no mapa das obras.
Entre os pins verdes, vermelhos e azuis, havia um coração. Verde.
Estava espetado na costa alentejana.

P.S. Este post foi influenciado pela gentil deferência do amigo Santos Passos
21, é claro

A pergunta era a habitual: A quantos estamos hoje?
Ao dar a resposta acima, de forma automática, mais não fiz do que usar o cognome de vinte e um, coisa que muitos de nós faz em virtude de atavismos vários, de deixas apreendidas por aí, talvez em salas de loto clandestinas dos tradicionais clubes de bairro:
22, dois patinhos.
69, para cima e para baixo.
11, o número da cabeça.
90, nas ventas.
Mas o 21 não vem daí.
É história lendária de cujos contornos sei apenas o essencial.
Era de Inverno e fazia-se serão à roda do lume.
Os de casa e uns quantos de fora.
Foi quando um surto de espirros sacudiu a conversa. Uma das visitas desfazia-se em acenos de cabeça convulsivos e sonoros.
Perante a cena, calaram-se as vozes.
Quando o acesso terminou, perdurava ainda um silêncio pré-hilário.
Coube ao paciente, dar a deixa: "Vinte e um, é claro!"
Nunca se soube da regularidade contabilística de tais acessos. Mas a convicção com que as palavras foram proferidas não fez só desprender o riso. Deixou muita gente à espera de outra ocasião para os contar. Creio que nunca aconteceu.

20/11/2004

Sonhos


imagem em http://simcity4.free.fr/Elt/lots01.php?page=2&icnx=

Três quartéis, uma prisão, dois cemitérios, um aeroporto, duas igrejas, mais de meia-dúzia de moínhos, algumas centenas de hectares de terras agrícolas, duas matas e muitas casas - era o que eu via das minhas janelas.
Hoje ainda diviso algumas destas coisas, muito mais casas, um hospital e aí um terço da terra agrícola. As matas, sim, permanecem lá.
Vejo é uma forma de dizer. A casa ainda a tenho. Mas passa mais de um ano que de lá não me assomo.
Um destes dias, deixarei mesmo de a ter. O cerco aperta-se. Daqui apenas vejo prédios e tenho uma vaga ideia de pastagens. Uma auto-estrada que apostei ia ser construída e cuja aposta ganhei de alguém incapaz de prever os problemas de estacionamento à porta de casa, passa ali ao fundo.
Mas hoje não. Hoje via a minha mãe clicar o rato e fazer desaparecer loteamentos inteiros.
Agora quero ver as ceifas. Clique.
Tire-me dali o hospital, mãe. Clique.
Aquela torre e a escola, clique.
Quero ver aquela rampa onde adormeci ao volante. Clique.
Um pouco mais de contraste, carregue nos verdes, clique.

19/11/2004

Velhice

Há muitos anos, um primo meu reduzia o envelhecimento a um encurtamento da repetibilidade dos fenómenos.
Que começava a tomar consciência de que os bons momentos podem ser irrepetíveis. Coisas assim, dizia ele.

O caso aqui é com a máquina, como já vos disse.
Tomei uma certa consciência de que a adaptação às novidades já não é o que era.
E que a paciência para arrumar a casa também não.

Já perdi a conta às mudanças de PC desde o ano de 89, em que pela primeira vez me debati quotidianamente com uma maquineta que me dizia C:\>
Antes disso, é certo que já tinham decorrido os gloriosos anos do Spectrum, depois ainda dos anos em que os cartões perfurados eram entregues num balcão para serem sujeitos ao escrutínio das autoridades competentes.

Aliás, o primeiro Spectrum, um denodado 48K (a gente ri-se) era pródigo em censurar o dono.
Achava ele que lá mesmo porque lhe apetecia podia impunemente trocar os caracteres das linhas de Basic por espantados pontos de interrogação, como se me dissesse que não estava de acordo que eu o utilizasse para programaçõezinhas.
Tanto o fez que foi devolvido à procedência, lá pelos idos de 83. O seu substituto jaz inerte ao lado de uma impressora cujo rolo era pouco mais largo do que o do uma caixa registadora. Memórias!
Mas nenhum desses sucessos me deixou tão mal encarado como este agora.
É que a questão não é perder os dados. Que esses não perdi. É perder as configurações das coisas que não pude ou me esqueci de pôr a salvo.
É ter que perder o hábito de procurar isto e aquilo da forma a que estava habituado.
É recuperar as milhentas coisas das quais não nos apercebemos da falta que nos fazem.
É ter que escrever neste editor de texto ao qual não estava habituado, enquanto o sistema não fica instalado com todos os utilitários da praxe.
É muita areia para a minha camioneta. Fico mal encarado, mal disposto, zangado.
Ainda há quem diga que o homem não é um bicho de hábitos.
Também há quem diga que já não há gajas boas.

17/11/2004

Intermitências

As avarias têm, como tudo na vida, a sua escala.
Uma modificação irreversível a uma dada escala pode, a uma outra escala, causar uma avaria intermitente.
Que são as mais aborrecidas. Como não diz a Lei do outro, é justamente quando queremos que ela aconteça que ela não acontece. E assim se não detecta.
Pois tem sido mais ou menos isso o que sucedeu por aqui nos últimos tempos. A preguiça de esmiuçar a coisa com mais tempo também não ajudou. Mas a verdade é que se deu com ela, finalmente.
Depois de trocada a peça avariada, novo contratempo. Mas ainda assim, a parte "dura" da coisa parece agora em bom estado. Quanto à parte "mole", que não se deixava examinar em termos por causa da avaria, vai agora para escrutínio. Se houver, como parece que há, demasiados bichinhos a passear nas entranhas, prevê-se uma solução feniana.
Talvez este blogue esteja mais uns dias de molho.

15/11/2004

Negócios de família


imagem de http://ueno.cool.ne.jp/ctgm/icon02.html

Não sei em que conta se tinha o meu pai como homem de negócios. Mas não era lá muito famoso, também não era campo que lhe interessasse. Sempre foi pouco de pés na terra, embora não tivesse feito outra coisa na vida do que fincar pés (outro tipo de pés, mais pesados) na terra.
Das poucas vezes que falámos de negócios, trocámos ideias sobre negócios futuros que poderiam ser, nesses anos 70, boas oportunidades.
O negócio que ele tinha debaixo de olho surpreendeu-me. Quando dei por mim, apercebi-me que tinha feito já volumoso trabalho de casa. Falou-me da matéria-prima, de que dispúnhamos em relativa abundância e da forma como tenderiam a evoluir os seus preços, de um inicial custo negativo na aquisição a terceiros, para um custo positivo que estabilizaria numa certa casa assim que a vizinhança desse pela coisa.
Falou-me dos contactos que fizera com investigadores. Que os custos mais significativos seriam no equipamento e na dotação para investigação.
E disse-me que havia mercado. Que estava convencido disso.
Claro que a ideia nunca passou sequer ao papel. Mas era interessante. Curiosamente, mais de dez anos depois, falei nisso a alguém que estava nesse ramo da investigação e que me disse que já tinha ouvido falar em algo do género, mas muito mais recentemente, à época. Ainda hoje não existe em Portugal nada no género. E mais não digo.
Quando lhe falei na minha, que não era nenhuma novidade, era até uma ideia que já fazia o seu percurso industrial noutros países, mostrou-se céptico.
Que a questão era o tratamento da matéria-prima. Era a recolha. Era preciso uma grande capacidade de armazenamento, etc.
Hoje, andamos todos a trabalhar para essa indústria. Somos mão-de-obra não remunerada. Gostava de saber com mais detalhe quem está a encher os bolsos com isso.
Era um negócio de lixo que eu queria montar.
Calibrações

Assim fosse possível calibrar a razão como se calibra um joystick.
Mais para a esquerda, um pouco para trás...
Para a direita e para a frente, clique...

14/11/2004

Um passo em frente


Foto de MSMS
As séries malucas (que não são para aqui chamadas) e a ordem das coisas


Foto de O.A.Brekke em http://www.olavsplates.com/netherlands3.html

Tenho lido com alguma perplexidade a pouca coisa que se tem escrito sobre a iminente mudança nas matrículas de automóveis.
Estão prestes a esgotar-se as combinações 00-00-XX.
Do pouco que pude ler, não li nada que sugerisse que o que se segue é o formato 00-XX-00.
Sempre me interessei por matrículas de automóveis. Não me perguntem por quê.
E é com a habitual condescendência que leio os disparates que aparecem aqui e ali.
Intrincados cálculos combinatórios (que não têm nada de intrincado, mas assim parecem), comparações absurdas com realidades desconhecidas, de tudo aparece no pouco que se escreve sobre o assunto.
Habituei-me há muito à ideia de que o nosso sistema é semelhante ao holandês. Semelhante no sentido de não ser igual, que o deles tem lá as suas particularidades tal como o nosso tem, mas formalmente confundível. E com o atraso respectivo.
Daí que já esperasse que ao formato antigo quase coincidente com as chapas pretas, XX-00-00, sucedesse o actual, como aconteceu na Holanda.
Daí que espere agora que as letras passem para o meio.
E que, assim esgotadas as combinações de duas letras - quatro algarismos, se passe às quatro letras - dois algarismos, tal como eles o fizeram.
Temos, com este sistema, ainda pano para muitas mangas. Talvez até ao tempo em que passe a haver outro tipo de identificação. Não percebo assim as confusões sobre o que vai e não vai acontecer a seguir.
Até comparações do nosso sistema com a fase em que está o sistema holandês actual (quatro letras mais dois algarismos) já tenho lido, como se não tivesse havido história no sistema deles.
Este é daqueles assuntos que não tem assunto.
Nem sei por que raio me lembrei dele agora.
E como não sou homem de modas, o último carro que comprei ainda tem as letras no início. O próximo, com toda a certeza, não as terá no fim.

13/11/2004

Sotaque alentejano


imagem de http://geocid-snig.igeo.pt/Portugues/fotosa.html

Sempre o tive. Mais carregado umas vezes, menos acentuado noutras.
Segue estas variações conforme a bússola.
Mulheres que acordaram com um urbano de sotaque levemente sulista e adormeceram nos braços de um alentejano chaparro que deixara as botas caneleiras do outro lado do quarto.
O mistério da coisa tem a ver com a progenitura. Que nem um nem outro ostentavam o tal sotaque.
Mas este vosso criado sempre foi de duas paragens. E muito parava ele no sul. Pouco mais que palavras não eram ditas no último dia de escola e já o sacrista dava à sola.
Serve este intróito para dizer da minha pouca vontade em o fazer hoje em dia.
Por um lado, já não conto com as paredes que me abrigaram por mais de quarenta anos.
Por outro, sendo certo que em tempos até constou em alguns círculos que o homem tinha feito as malas e se instalado de vez a espreitar a horta, sendo também certo que pouco faltou para o boato deixar de o ser, dou-me hoje conta de que já não o faria.
E não o faria, não o farei, pelo menos enquanto a maré não mudar, por uma razão essencial - não convivo bem com os ambientes fechados.
Fechados porque o sistema o é. As conversas tendem a ser da vida alheia, os palpites sobre as coisas que faço e que não faço tendem a ser mais do que muitos. Mesmo aqueles que nunca se interessaram por esses temas, o fazem hoje. Foram engolidos pelas circunstâncias. Não me apetece sê-lo também.
Há uns anos, deparei com um recanto que me encantou. Ribeira, choupos, pinheiros resguardando da estrada, só vantagens. Desde que me habituasse a conviver com a passagem do comboio sobre a interessante ponte metálica ao fundo do quintal.
A pergunta que faço a mim próprio é se algum dia nascerá alguma coisa por ali.
E se nessa época já estarei surdo para a passagem do comboio e para as vozes do mundo.

12/11/2004

Traumatismo na Fazenda Pública

Não foi o valor do imposto que paguei.
Sequer foi a atenciosidade do funcionário. Ou a falta dela.
Não foi a fila de pagantes. Estava sozinho ao balcão.
Foi a senhora que entrou, vestida de vermelho.
O funcionário bloqueou. O vizinho do lado idem.
Talvez eu seja muito exigente com a fazenda.
Vista de perto, não era caso para tanto.
Hora certa

Uma das curiosidades desta época é o dispormos de uma carrada de dados inúteis que, às vezes, podemos achar curiosos.
Aqui no mundo dos blogues e num caso como o meu, que não conheço pessoalmente nenhum dos autores que leio, quase que se pode dizer com precisão ao segundo o momento em que virtualmente dei por eles.
Quando chego a um blogue que me agrada à primeira vista, é certo que gravo o endereço nos tais dos favoritos. Não será no segundo imediato, com toda a certeza. Pode até dar-se o caso de não o gravar à primeira visita. Mas com esses tais dados inúteis, lá posso saber data e hora, minuto e segundo do registo.
Conheci-te, melhor dizendo registei-te às 0:44:31 de 10 de Abril de 2004.
E para que serve isto?
Whatever



Dias rectangulares

11/11/2004

Mais azul

Qualidade e quantidade são conceitos que se entrelaçam. Se é facilmente aceite que qualquer qualidade é resultante de uma quantidade, também é certo que só se pode quantificar partindo de uma definição de qualidade.
Quantificam-se azuis, depois de os qualificar como tais.
A quantidade de azuis numa mistura dá, a partir de uma escala, a qualidade dessa mistura.
Ovo e galinha, mais uma vez.
No entanto, considerem-se os problemas mais escrutinados que a humanidade actualmente enfrenta ? quase todos eles perderiam expressão se a contagem dos homens à face da terra fosse mais baixa. E não a perderiam na proporção directa da redução do número de viventes, seria uma redução muito maior.
Outros problemas se levantariam então. Para alguns deles, a solução seria haver mais gente.
A Natureza estará para nos pregar uma partida? Que qualidades são estas que retiramos do nosso número actual?
O século do povo


imagem de http://www.bbcfactual.co.uk/peoples_century.htm#top

O século dito do povo foi justamente aquele em que mais povo morreu às mãos da guerra.
86 anos depois de se calarem as armas do primeiro dos banhos de sangue, para uma curta trégua, pergunto-me:
E este, que século será?
O 11 de Novembro trouxe este ano mais um marco para a história. Veremos que importância tem.

10/11/2004

Fumar beatas


imagem dehttp://whyfiles.org/183smoking/3.html

Não sou dos que têm razão para se queixar da vida. Porventura, os que têm razão para isso não se queixam.
Nem sei muito bem para que é que fui buscar esta conversa a propósito de fumar beatas.
Mas talvez fosse para me desculpar de tocar num tema que pode ser sempre interpretado de outra forma. Não é de miséria que se trata. Nem de queixumes.
É apenas uma constatação de que certas coisas na vida tendem a esquecer-se.
E esta noite lembrei-me disso por me ter faltado o tabaco.
Nos tempos que correm, aqui em Portugal, não há grande razão para faltar o tabaco desde que se tenha dinheiro para o comprar.
A qualquer hora da noite há sítios abertos onde se pode comprar um macito de cigarros.
Quase toda a gente tem carro para se deslocar até lá, se fôr longe para ir a pé.
No meu caso, tenho aqui a 500 m uma bomba de gasolina. Mas esta noite resisti. Não fui. Foi nessa altura que me lembrei das beatas.
Das vezes em que nas noitadas se reciclavam os cinzeiros.
Vício de um cabrão, este.

07/11/2004

À estrada

Por um acaso qualquer, é nestes dias de Novembro que há muito faço longas jornadas na estrada.
Já nem sei quando isso começou, mas foi lá para o final dos anos 80.
E quase sempre acontece que surgem os tais dias de céu azul, frios, que é para norte que quase sempre abalo.
Também já ocorreu ir para sul e dar praia. Praia de Novembro, magnífica.
Por isso, ao olhar para o céu nestes dias, e ante a impossibilidade próxima de me pôr a andar, a coisa fica um bocado negra.
É um sol que não ajuda a quem está parado.
Sapos difíceis de engolir

E outros bichos até.
Ao editor do Sapo não se consegue aceder.
Ao da Globo também não.
Valha a verdade que eu também não me sinto lá muito bem.

06/11/2004

O compadre de Setúbal


imagem de http://vfc.no.sapo.pt/htm/indice.htm

As poucas vezes que eu e o meu avô materno falámos de futebol versaram sobre as suas actuações como back direito numa equipa estudantil da Beja do tempo em que roubaram o Galo. Ou então sobre os resultados do Vitória de Setúbal, apenas a propósito da satisfação que ele antevia no coração de um compadre que tinha na cidade do rio azul.
As alusões ao compadre tenho-as presentes desde o tempo em que procurava os resultados do Sporting na competente página do jornal e ele me pedia a informação sobre o desfecho do jogo do Vitória.
Já o meu avô estava quase nos noventa quando lhe perguntei afinal qual era o seu clube. Disse-me que se inclinava para o Sporting mas que não fazia caso disso.
E já eu tinha perto de trinta anos quando o meu avô me disse que o compadre dele, que nunca cheguei a conhecer, falecera durante ou após um jogo do Vitória de Setúbal.
Hoje, parece que veio a propósito esta lembrança. Nem o meu avô nem o seu estimado compadre saberão do resultado de amanhã.
Mas já agora, que ganhe o Vitória.
Com este post, é provável que perca alguns leitores.
Os tempos e os modos

Nunca exijo coerência a um interlocutor a menos que o veja exigi-la a outros.
E, isso infelizmente, é o pão nosso de cada dia.
Eu já disse aqui que não sou coerente. A única coerência que pressinto é a da minha sobrevivência. Em sentido lato, a dos outros. Dos mais próximos para os mais longínquos.
Nunca me regi por cartilhas, tirei chapéu a líderes, idolatrei figurões. Quem sabe não o venho a fazer?
Mas não o tendo feito até agora, sou pelo menos poupado ao T'arrenego e às lágrimas de crocodilo.

Uma das coisas que observo com curiosidade é a parcialidade disfarçada de objectividade na defesa de certas figuras e no ataque a outras.
Sou muito redutor nestas coisas. Face a determinados conflitos, há sempre a propensão de tomar partido. Nada de novo nisso.
E quando se trata de guerras, acho que vale tudo. Considerações morais à parte, que essas levam a uma discussão infindável. E se as guerras se pudessem resumir ao tipo que quer conquistar a casa do outro sem a ela ter direito (teríamos que ver o que é que isso quer dizer), e à resposta do acossado, também eu não hesitaria em tomar partido, se a coisa se desenrolasse nas minhas barbas. Não vou a tanto quando é do outro lado da floresta. Bem sei que às vezes, em vez das barbas de molho é melhor pegar no extintor.
Não tomando partido, é-me indiferente que se matem criancinhas com mísseis ou com bombas em mochilas. São mortes de crianças. Ponto.
Tomando partido e estando até envolvido na luta, sou como qualquer outro, as minhas valem sempre mais do que as deles.
Agora, não me atrevo é a encadear longos argumentos para justificar a barbárie. Não quero fazer de mim mais estúpido do que o que sou, pois sei que os outros não são estúpidos.
É aqui que estranho (ou talvez não) que se subtraia à história de Arafat o seu passado guerrilheiro.
Confesso que nesta luta, não tenho campo. Há demasiada culpa de terceiros envolvida nas origens desta guerra. Se nos situarmos num plano objectivo, é mais uma guerra. Por território. Baixas de ambos os lados são baixas de guerra, importa pouco se vêm dos céus ou se viajam de autocarro os ventos da morte. Cada um luta com os meios que tem. São assim as guerras.
Mas para aqueles que acham que o terrorismo é uma guerra à parte, que tanto batem no peito quando se cometem atrocidades, que não há terrorismo bom e mau, etc., é bom lembrar a História.
Ela não começou nem hoje, nem na segunda metade dos anos 40, nem há 2000 anos atrás.
E o passado de Arafat é o do guerilheiro que esteve, com outros, por trás da génese de um certo tipo de terrorismo de cariz rácico e religioso, no passado século XX e do qual temos hoje novas versões. O terrorismo não foi inventado nessa época, mas foi seguramente reinventado. Tratou-se de actos de guerra? Pois tratou.
Mas qual é a diferença entre esses actos e os que tanta gente hoje condena?
Eu confesso que não vejo nenhuma.
Como, repito, não vejo diferença entre a criança morta pelo míssil "inteligente" e a que morreu num autocarro por via de uns cartuchos de dinamite ou outro explosivo qualquer.

05/11/2004

Ondas sísmicas


Google search

A elevada dependência da rede para produzir algum tipo de trabalho às vezes descamba para zonas cinzentas da compreensão.
Dei comigo a preparar-me para fazer uma Google search nas minhas próprias memórias, algures entre o sonho e a realidade.
Vale a pena dizer mais alguma coisa?
Breaking News

Um dos aspectos mais ridículos do jornalismo actual é a anacronia que contrasta com o frenesim das últimas.
Quando eu comecei a ler jornais, não era espanto que uma notícia com três ou quatro dias fosse a actualidade.
Mas hoje, quando há a possibilidade de se já estar no local antes da notícia, o que de resto sucede mais do que seria de prever, torna-se difícil aceitar que se destaque uma notícia (ou uma previsão de notícia) que toda a gente já sabe que não aconteceu.

Quase todos os dias há notícias que são apresentadas com uns contornos dos quais se sabe há largo tempo não serem verdadeiros.
Vemos imagens recolhidas há horas e horas, como se fossem um directo.
Outras vezes assitimos à leitura de despachos das agências, verificando que quem os lê não faz a menor ideia do que está a ler, nem de há quanto tempo o texto foi produzido.
E fica-se a pensar quanto tempo antes se fecha um noticiário. É que muitas das vezes é do jornal de há quarenta anos que me lembro.

04/11/2004

Ninho


A licença

Eu gostava também de ter uma licença.
Quero dizer, mais uma. A única que tenho permite-me conduzir veículos ligeiros.
Não é grande coisa. Mas é útil. Posso sair dos caminhos do monte para a via pública.
Eu digo assim outras. Mesmo que não se saiba nada do assunto, calha bem ter uma licença de qualquer coisa.
Licença para elaborar um relatório depois de olhar para o palácio.
Licença para vender banha da cobra.
Licença para escrever num papel chá de erva cidreira.
Licença para requerer.
Qualquer coisa.
Qualquer licença me servia.
Dá-me licença, se faz o favor...

02/11/2004

Recantos do verão passado


Burros e elefantes



Há quatro anos, depois de uma longa jornada no lombo do meu fiel companheiro de lata, desaguei num quarto de hotel de província, após me bater com um naco de carne daqueles que a gente sabe. O tinto também se recomendava.
Entre as nove e as dez, que é como quem diz com um olho no burro e outro no elefante, lá ouvia o que os repórteres e comentadores tinham a dizer sobre a disputa nos States.
E, na paz de quem tinha o dia ganho, alheio aos palpites e às considerações em fundo azul e vermelho, foi imaginando a neblina fria que pairava no exterior e gozando o calor das mantas que me deixei embalar.
Acordei como adormecera. Com as mesmas caras no écran, o que me levou a suspeitar que era insónia. Não era. O dia despontava e os homens lá diziam que a coisa estava má para se decidir.
Não costumo dar aqui muitos palpites sobre política.
Até porque considero que, quando se trata da coisa pública, o melhor é intervir. E intervir, agindo. Não ficar de fauteuil a debitar críticas e loas a este e àquele.
Neste caso, porém, é totalmente inútil dizer ou agir.
Vejo a coisa como um fait divers, embora saiba que ela me pode afectar.
De qualquer forma, não me parece que Bush seja tão mau como o fazem, nem Kerry tão bom como o querem.
Depois, está por provar que seja um homem só a ditar o que quer que seja. Há as companhias, sim. As más e as boas, seja lá o que fôr o que isso signifique.
Mas há as outras, as que governam sempre a América, faça chuva ou faça vento. E essas, como sabemos, não estão sujeitas a sufrágio.
O que fôr, soará. E não me tira o sono.
Lá que gostava de estar amanhã à noite no mesmo quarto de hotel, ah isso gostava.
Não vai ser possível.
Mas já falta pouco para me fazer à estrada.


imagens em http://www.wordiq.com/definition/United_States_Democratic_Party e http://www.wordiq.com/definition/United_States_Republican_Party

01/11/2004

Hotmail

Por causa do spam contínuo, há algum tempo que activei o filtro de forma a só receber mails de origem conhecida.
Ora, isso teve como consequência óbvia o facto de e-mails de leitores que até agora eu não tinha registados, terem sido retidos e ido direitinhos para o caixote do lixo.
Peço assim a vossa compreensão e o favor de deixarem um curto comentário a avisar sempre que enviarem, pela primeira vez, um mail para mim.
Obrigado.
Teste das horas


Heranças na paisagem



e céu com nuvens
O que foder é isto?

Parecerá que não, se considerarmos a tradução acima da interrogação que todos conhecem.
Parecerá que não é um bom tradutor.
Mas digo-vos, àqueles que não conhecem, que vale a pena testar este tradutor. Surpreendeu-me muito positivamente com o inglês e com o francês, as únicas línguas em que posso aferir a coisa.
Está, nas palavras de certo futebolista, a quilómetros-luz de qualquer outro que eu conheça (façam a conta e vejam quanto é que isso dá em tempo).
Foi uma dica de um amigo, o único blogueiro ou ex-blogueiro que eu conheço em pessoa.

31/10/2004

Se conduzir, não beba


imagem de http://www.geocities.com/ricardomatos/europapt_alcool.html

"É muito dfícil educar um povo." - uma das coisas que sempre me intrigou foi a razão pela qual o meu velho e bom amigo J.d'. usava esta frase como prefácio em noites de engate.
Mas lá que resultava, resultava.
Nem ele nem eu, modéstia muito à parte, tivemos muitas razões de queixa do género feminino.
Mas não era nada disto que eu pretendia dizer.
Pego no Relatório Anual da Sinistralidade Rodoviária de 2003 da D.G.V. e, a páginas 16, leio:

"No que respeita aos condutores intervenientes em acidentes, 84,7% foram sujeitos ao teste de alcoolemia. Destes, 3,6% apresentavam uma taxa de alcoolemia superior a 0,5 g/l e cerca de 2% uma taxa superior a 1,2 g/l."

Suponhamos, o que não é certo, que os 2% são 2% dos que foram sujeitos a teste. Teríamos 3,6% + 2% = 5,6% de condutores em infracção.
Suponhamos ainda, no limite do absurdo, que os restantes 15,3% (condutores intervenientes em acidentes, não sujeitos ao despiste do álcool) se encontravam alcoolizados: Temos uma percentagem de 20,0% (15,3% + 4,7%*) de condutores intervenientes em acidentes em que a influência do álcool pode ter sido a causa do desastre.
O relevante disto é que, mesmo nesse caso absurdo, 80% dos condutores que causam ou sofrem acidentes não estão sob o efeito do álcool.
Sou a favor da penalização e das campanhas contra o álcool na estrada. Sobre isso, nada a acrescentar.
Agora o que me faz espécie é esta ideia repetida e falsa de que o álcool é a principal causa dos acidentes na estrada.
Se não são os números que nos dizem isso, é o quê? É porque tem que ser?
Na minha reputada ignorância, e apenas observando a amostra que conheço, chego à conclusão de que a maioria dos acidentes acontece porque os condutores não sabem conduzir.
Tal como não sabem muitas outras coisas.
Voltando ao J.d', e se é assim tão difícil educar um povo, por que não amedrontá-lo? Não foi isso que se fez sempre, pelos séculos dos séculos?
Se parece que resultou com o álcool, por que não estender as fortes penalizações a todos os que causarem acidentes com feridos, por exemplo?
É por a medida não ser popular?

*os 5,6% dos 84,7% que foram submetidos a teste, são 4,7% do total.
Prioridade

Há aquela velha história dos dois fidalgos que se batem em duelo para decidir quem cederá a passagem a quem, numa viela estreita em que as duas carruagens não cabiam a par.
Nenhum dos dois admitia ser menos cavalheiro do que o outro.
Um destes dias, aconteceu-me o insólito.
Em certa porta de um edifício público que me preparava para abandonar, um outro homem intentava entrar.
Estando a porta fechada, abri-a e cedi-lhe a passagem.
O homem hesitou, observou-me de alto a baixo, e em tom crispado, balbuciou um obrigado.
Julgava eu que, nestes casos, se aplicava a regra contrária à dos transportes públicos em que aí sim, primeiro saem os que estão, depois entram os que não estão.
Parece que me enganei.
Como o meu traje e o meu aspecto se inscrevem no que podemos chamar modal para um homem de 45 anos, ficou-me uma certa indignação pelo olhar contemplativo que o dito cujo me deitou.

30/10/2004

Ignorância urbana


imagem de http://www.barracuda.com.br/CBD-RAPOSAEUVAS.gif

Desce-se ou sobe-se da santa terrinha e logo a vergonha de mostrar que se sabe de galinhas e de farelos, enquista e trava a interpretação das coisas simples.
Isto não tinha, não tem, nada de singular.
Era um cacho de uvas. Sei lá de onde vieram, que tratos levaram. Eram uvas. E não eram grande coisa.
Para ali ficaram.
Eram visíveis a olho nu.
Por isso, um destes dias, o olhar fixou-se no cacho. Umas quantas uvas mirradas e encarquilhadas. Mas lá ficou.
Outros dias se passaram e mais uvas mirraram.
Até que me picou a mosca. Xaver as passas. Provei uma. Belíssima. Outra. Belíssima também.
Era a hora de alguém me pôr a maçã na boca aberta e servir. Bácoro dentro de um cesto.
Então mas estas uvas não ganham bolores, não azedam como as outras? Pelos vistos, não.
Fugiu-me a memória para os caniços. Para os pares de cachos atados, à espera da raposa ou de engelharem.
Afinal também as uvas de supermercado passam a passas. As uvas fabricam-se nos esconsos dos supermercados, um pouco à frente do leite e antes das salsichas, toda a gente o sabe.
Santa ignorância. Santa mas nada rústica, é urbana ou suburbana, como quiserem.
Aqui na minha boca, ao meio-dia em ponto

Numa das células dos lábios, numa molécula de cloreto de potássio, num átomo do dito potássio, num dos seus protões, num dos seus quarks, numa galáxia desse quark e aí, num planeta terrestre, nasceu e morreu uma mulher como nunca houve outra igual. Nasceu ela e toda a sua ascendência e descendência. Morreu ela e todos com ela. Ao meio-dia em ponto.
O estranho disto tudo é que era uma mulher.
Não era uma forma de vida indetectável pela nossa cegueira.
Outros disseram que o estranho era haver átomos de carbono dentro de um átomo de potássio.
Disse-lhes que era completamente ignorante nessas matérias.


imagem de http://perso.wanadoo.es/tomasmazon/Messier.html

29/10/2004

Dia de Outono


Anomalia

Espero que se trate de uma anomalia no sistema lá no IM.
O facto de o intervalo de tempo ser negativo terá algo a ver com a imagem que se vê?
É que se não tem, se não há anomalia alguma, é preocupante o cenário.
Uma semana inteira sem actividade sísmica registada?
Cruzes, canhoto! O caso não é grave, é gravíssimo!


imagem do IM
Momentos

Aquilo que vi há pouco menos de uma hora nas cadeias de televisão pode bem ser um momento decisivo, um ponto de inflexão na curva.
Não se trata apenas de um velho que carece de uma cama de hospital.
É um sobressalto num mundo que vive há décadas num beco sem saída.
A ver vamos no que dá.

28/10/2004

Apreciações

O caso é que vi uma personagem de banda desenhada a entrar na padaria.
Não tem descrição possível.

Às vezes, também me armo em Diário de Notícias cá da vila. Um sene, é o que sou. Nem por isso purgante. Que isso nunca me chamaram. Até ver.
Cores

Estou assim. Com pouca cor.
Embrenhado em escritas outras.
Chove-me nas árvores e nos pastos e nos montes destelhados.
Pouca destreza.
Uma surpresa desagradável. Dei-me conta de que, por raramente escrever à mão nestes últimos tempos, sequer desenhar, a minha caligrafia envelheceu.
E apressou-se, uma sucessão de gatafunhos a correrem desalmados. Para quê? Que pressa é essa?
Deixo-vos com esta foto. Que não tem tratamento algum. Nada de truques. Tudo cinzento. Ou talvez não.


27/10/2004

Pontos de vista

Quando este episódio se passou, uns bons catorze anos atrás, apenas desencadeou um singular conjunto de apostas que quase comprometeu o ordeiro regresso a casa, no final do primeiro dia de obra, em certa povoação na qual o nosso guia tinha cumprido serviço militar.
As apostas, é bom de ver, tiveram o seu terreno fértil na desorientação do guia.
Hoje, ao olhar para esta situação, ocorre-me compará-la com muitas outras, que quase todos os dias vemos e ouvimos.




Espigueiros


E pontes

26/10/2004

São Rústico


imagem de http://www.la-france-orthodoxe.net/fr/galer/47

Afinal, andei enganado estes anos todos.
É a 9 de Outubro e não hoje, 26, que se celebra o meu santo padroeiro.
O de 26 é outro. Nada a ver, excepto o nome.
O que distingue São Rústico dos outros companheiros de martírio é que ele depois de decapitado e de, tal como Dinis (Saint Denis), apanhar a sua cabeça do chão e a lavar numa fonte, beijou-a antes de lhe falecerem as forças aos pés de uma bela mulher.
É este pormenor do beijo que marca definitivamente a grandeur de tal santo.
E é por isso que é meu padroeiro.

25/10/2004

O intelectual de esquerda

Foi há muito. Há trinta anos.
Já não sei como começou o diálogo, naqueles dias de porrada e de jogos de cartas no refeitório do liceu.
Mas o homem, devidamente fardado e etiquetado na incipiente barba rala, depois de algumas considerações sobre símbolos e atitudes, saiu-se com qualquer coisa assim parecida:
"É o fim dos tempos. Já não há mais nada para ser inventado. Já fomos à lua, já temos computadores (helás! - isso ele sabia que já havia), televisões, telefones, aviões, automóveis, já nada resta para ser inventado! O fim está próximo!"
Por alguma razão, esta frase absurda não mereceu comentário, réplica alguma da minha parte. Fica-te lá com a tua teoria que eu vou jogar às cartas, qualquer coisa do género.
Mas o certo é que ficou bem gravada. Durante muito tempo como exemplo acabado da total paragem no tempo, da ausência de sentido crítico, de imaginação, etc.
Hoje, revejo-a e interrogo-me se o homem não teria em parte razão.
É conhecido que à civilização e aos seus avanços, sucedeu quase sempre a barbárie.
E que povos mais evoluídos soçobraram às mãos de invasores com menos engenho.
As estatísticas já há uns anos nos dizem que os povos mais civilizados tendem, com as curvas actuais, a extinguir-se. Basta atentar nos índices da ONU e ver o que revelam.
Nestas coisas de analisar tendências corre-se sempre o risco infantil de só ver a parte da curva que mais interessa. Sei disso. O maior erro das projecções é continuar a curva com os mesmos parâmetros.
Nada nos garante que não haja alterações. Mas não as havendo, a civilização tal como a conhecemos dará de novo passos atrás, como a História de resto nos ensina.
Será de forma violenta? Ou com a paciente definhando numa cama?
O homem teria razão ou sou eu que estou parado no tempo?