13/02/2007

O meu Banco Gorringe (II)

Longe de mim a ideia de querer contribuir ainda mais para os erros de conhecimento das jovens gerações.
Por ter verificado uma afluência a este blogue por via desta pesquisa e desta imagem:


afirmo aqui que MBG na imagem acima significa o MEU Banco Gorringe. O meu. Não o que toma o nome do homem que o descobriu.
Nas imagens assinalado como GRB.


imagens adaptadas daqui: http://www-odp.tamu.edu/publications/173_SR/synth/cs_f1.htm
Call center

Depois dos dentistas e dos barbeiros, dos quais superei enfim os temores, vem este - o de ter que ligar para um call center.
Não

Ainda não é disto que eu estava à espera.
Embora um acidente ferroviário devido a escorregamento de terras seja daquelas coisas que esperamos que ocorra todos os dias de chuva. Alguma vez será catastrófica. Desta vez a catástrofe tocou a poucos. Mas tocou.
Rever em baixa

Embirro com este tipo de eufemismos. Quando do que se trata é de corrigir um tiro. Muitas vezes dado à toa.
Mas de facto, ingenuidade minha, não cesso de rever em baixa a inteligência que se mostra nos escritos e nos ditos, a cada dia que passa.
Acho que o faço desde sempre, ainda não dei com a assimptota.

12/02/2007

Notícias

Ainda não havendo dados no IM, já há estes do IGN de Espanha, sempre mais completos, ainda que hoje contraditórios entre si:
lista de sismos
localização



actualização: nota do IM
Sentiram?

Aí há coisa de dez minutos? Pelas 10 e 37?
As pontes de outro condado (II)

A tasca comprida. Copos de tinto, entrecosto, pão saloio de pacote higienizado.
Casa comigo.
O rapaz riu-se. Mas ela arrebitou-se. Casa comigo. Do outro lado do jarro da casa. Empurrando o maço de tabaco azul entre a manteiga e duas azeitonas fugidias.

O bar que fora restaurante só para banquetes.
Bacardis com cola. Cervejas de marcas inauditas para justificar a tarifa.
Leva-me ao carro.
Estofos de alcântara.

A casa do melhor amigo. Poker. Vinhos. Aguardentes. Conversas e vizinhos já mortos atirando barricas ao chão, calem-se. Isto são horas?
Bardamerda. Passa-me o queijo mal-cheiroso. É dia. Traz o pão. Vinho branco, manteiga. Isso, torradas.
Agora levo-te. Levo-o. Passem bem.
Como é que se colocam os telefones nesta agenda electrónica?
Estou-me a atirar a ti, sim. Pensavas que era a brincar?

(continua)

11/02/2007

Construções mentais

A julgar pelas construções mentais que se antevêem por detrás das pesquisas que aqui caem, é bem provável que exista gente que, face a uma lista telefónica, pronuncie as seguintes palavras:
"Lista, lista minha, dás-me o número de telefone da minha amiguinha?"

Dois exemplos fresquinhos:
quais as letra da matricula dos carros de agosto de 2003
comentário sobre Lá no alto tu e eu iremos

Já ninguém consulta listas telefónicas.
Coisas de portões e de estradas

Por vezes, há destes interesses comuns. O amigo Bic Laranja lembrou-se de um certo post que aqui publiquei faz tempo.
E publicou esta foto.
Eu rebato com estas:

Foto 1
Foto 2
Foto 3
Foto 4

Clique para ver as fotos

10/02/2007

A parábola do fóssil vivo

Aqui há dias as cadeias internacionais de televisão davam conta de uma estranha criatura encontrada nos mares do Japão, nomeando-a de fóssil vivo. Uma expressão que surge de vez em quando.
Confesso que no imediato as imagens me pareceram inventadas. Tal como me pareceu montagem a foto ganhista de anteontem. O que só dá conta que o meu lado desconfiado de bom alentejano prepondera.
Mas passando à frente, a parábola está na designação: fóssil vivo. Uma criatura que teria provindo das profundezas do tempo num estalar de dedos, foi mais ou menos o que se ouviu então.
Denota esta parábola a imagem cega que têm as massas, plasmadas nestes canais de informação, do mundo e do tempo que as envolve.
Não existe tal coisa - um fóssil vivo. Se está vivo e nos é contemporâneo, é uma forma de vida tão moderna como a nossa. Uma evidência lapalissiana.
Se o seu aspecto nos é estranho e se confunde com as fantasias que temos das criaturas de muito remotas épocas, misturar uma coisa com a outra já é um sinal dos tempos.
O fóssil vivo, a existir, é a pedra que julga que pensa. E tantas elas são.
A mão à palmatória

Ora aí está, como o algodão não engana. Apesar do acerto - que era quase uma certeza - na exclusão da famigerada 5ª coluna.



Um prejuízo aí duns 3100 euros, caso tivesse sido a sério.

09/02/2007

A gripe

Há algum estudo sobre a razão pela qual as pessoas recorrem ao médico, e neste caso às urgências e afins, quando têm sintomas de uma vulgar gripe?

08/02/2007

Nós, os crentes



Àqueles que acompanham há mais tempo este blogue não é estranha a minha propensão para adentrar os segredos da estatística dos sorteios da Santa Casa.
Ora isso sou eu e mais uns quantos crentes. Há mais de vinte anos dura ela, desde que um dia um amigo me lançou um desafio para que o ajudasse com um sistema para o totobola.
Como já disse aqui uma outra vez, nada ganhei com ela a não ser o conhecimento do meu próprio conhecimento e a capacidade de o complicar, passo a passo. Formas de apurar a sistematização de problemas. Raciocínio puro, sem espinhas. A mim, que sempre fui um homem de condições ideais, isto agrada-me sobremaneira, ao mesmo tempo que acentua a minha legendária misantropia.
O paradoxo aqui, a existir, é que se trata de uma razão dentro da fé. Uma razão estribada em subconjuntos da realidade - não será toda a razão assim? - contrariando o todo, sendo muito provável que se trate de um subconjunto vazio. E uma fé, uma crença de que se conseguem resultados, não acertos milagrosos mas sequências lucrativas, se...

O meu fornecedor habitual de jogos de azar lançou-me um repto há uns tempos, depois de me saber iniciado na teoria dos números - adaptar o algoritmo que concebi para o 6/49 ao 5/50.
Disse-lhe que o faria tão logo tivesse resolvido um problema que me atormentava aqui na maquineta e que era impeditivo.
Pois bem, recuperada a máquina o problema foi-se, sem mais. Estou agora de volta da coisa.
A debater-me com um problema conhecido - o de interpretar o meu próprio raciocínio em linhas de código.
E a chegar à conclusão de que mais vale começar de novo, com uma estrutura idêntica, do que tentar adaptar o existente.
E a deixar-me envolver de novo na crença de que é possível iludir a esperança matemática.
O discurso hiperbólico

Atento ao que se diz aqui e ali, tenho construído nos últimos anos um catálogo de classes que se distinguem por serem praticantes zelosas do discurso vazio e hiperbólico.
À cabeça, estão os críticos de vinhos.
Em seguida, os marqueteiros de toda a sorte.
Logo após, os encenadores e artistas plásticos.
Pouco distanciados, os arquitectos.
Sem se deixar atrasar, os analistas económicos.
Peço desculpa se me esqueci de alguma classe que mereça destaque tal.


Adenda ainda a tempo:
Incluem-se as seguintes classes, por sugestão da T. - políticos; psicólogos; sociólogos; novos ditadores de moda; novos VIPS portugueses.

06/02/2007

Buffer

Deve ser mesmo um buffer isto que vejo funcionar na minha cabeça.
Não encontrei no meu vocabulário uma palavra que expressasse melhor esta ideia.
E digo-o, não dando conta de uma trivialidade qualquer, em que se tratasse apenas de estar a armazenar mais informação do que posso processar. Será isso possivel? Não. É algo mais intenso. Atravesso ou julgo que atravesso uma daquelas fases em que a informação jorra em catadupas atiçando as sinapses.
E ao acumular-se, à espera de atendimento ao balcão, vai se relacionando com a que já chegou e com a que virá a seguir. Tudo isto num caldo tal de coincidências que coloca na mais improvável vizinhança dois posts que ando a cozinhar com ingredientes totalmente diferentes.
Tivesse eu a janta pronta e não cairia da cadeira antes das graças.

04/02/2007

É moço da minha criação

Este vírus.


imagem do H5N1 (a ouro) em http://buzz.smm.org/buzz/image/h5n1_virus

Não que não existisse já antes de terem dado com o alimal. Tal como eu. Que já vinha embuçado há uns quantos milhões de anos.
O certo é que deram connosco no mesmo ano, como consta da papelada.
1959.
Há esta ligação de coetaneidade. Quase sanguínea.
Não acredito que, sendo portanto da minha criação, ele seja tão mau como o Pintam. Esse, sim, o Pintam é que é muita perigoso.

Agora a sério: continua a parecer-me pouco provável que uma epidemia mundialmente catastrófica venha com arautos à frente.

03/02/2007

Sem descanso

Aquilo a que chamam a justiça não nos dá descanso. Arranja dia sim dia não um pretexto para mostrar a qualidade dos seus protagonistas.

01/02/2007

A palmeira que morreu ou um sinal dos tempos

Ele há destes sinais. Com um ano ou catorze de atraso.
Não havendo fotos da palmeira que outros mataram, não havendo o som da ave nocturna que dela sentenciava pios muitos anos mais tarde, não havendo nada disso, haverá talvez ondas na Barragem do Caia, perspectivas da fronteira do Retiro, trilhos das minas de São Domingos, dias de Manta Rota, esplanadas da Espanha suada, praias vazias de andaluzes manhã cedo.
Haverá Bragança e a torre de menagem. Haverá o postal ilustrado que desenhámos na manhã das Caldas, nas curvas da Estrela, nas madrugadas de Arganil.
Haverá pratos de presunto em Monchique, de muxama em Ayamonte, de estupeta em Santa Luzia.
Haverá Miranda do Douro pelas calçadas desertas, Lisboa em manhãs de domingo. Haverá trilhos nos nossos montes entre sobreiras antigas.
Haverá noites longas no Algarve das luzes e dos sons e noites perpétuas no nosso outro Algarve.
No da Feiteira, da Benémola, de Alte, de Marmelete, de Alferce, de Alcoutim ou Aljezur. No da Fernanda e no dos caminhos que fazíamos pela nossa serra.
Do Mu.

Dormia uma palmeira
Sobre as nossas vozes
Quando no escuro
Estimávamos direcções
No infinito.
Que se curvavam.
Em sorvedouros
Como as esferas
Na quadrícula
De Vasareli.
E no regresso
Pousávamos
Na nossa ignorância.
Tínhamos o peso
De não conhecer.
E o medo
Da sabedoria.
Esmagados
Sob o mundo
Levantado
Por uma alavanca.
Afogados
Em água espacial
E mortos
Num cantinho do tempo
.

SG, trecho de Falávamos, inéditos, 1994

31/01/2007

Insondáveis mistérios da mente humana

Confesso que me intrigam algumas pesquisas com que deparo no contador.
Não as que são óbvias e erraram o alvo, mas as que me suscitam aquela curiosidade pelo entendimento da forma como funciona a mente humana. Como se não fosse também estranhíssima essa pretensão.
Esta é apenas a mais recente:
percentagem de pessoas em coja
Lisboa, 2006

28/01/2007

Bosch e os cenários

Quando ouço, leio, os profetas da desgraça a traçar cenários, a partir de modelos construídos disparatadamente, ocorrem-me várias ideias.
A primeira é a da criação de uma base de dados de cenários traçados. Onde se possam ir buscar as previsões antigas e compará-las com a realidade já conhecida.
Não faço a menor ideia se existe tal coisa.
A segunda é confrontar os "especialistas" que constroem tais modelos com a singularidade de um tabuleiro de xadrez. Da última vez que andei por lá, ainda não havia máquina absoluta. Máquina capaz de, em tempo razoável, identificar e ordenar todas as situações no universo de uma partida de xadrez, por forma a prever todos os desenvolvimentos possíveis a partir de um determinado lance.
A terceira é a forma como se levam a sério estas coisas. Como se discutem sem espírito crítico.
Qualquer criança é capaz de pegar numa folha de Excel e fazer um algoritmo simples para calcular o valor de uma função f(x) para x=t.
E não passa disso mesmo. Do valor de f(x) quando x=t.
Bosch deu-nos a maravilha das suas "visões". Cabe-nos não as tomar como reais.


Jerónimo Bosch, "A criação do Mundo", aqui

26/01/2007

Embora faça sol

"As temperaturas serão muito baixas, embora faça sol".
Este embora, frequentemente dito nas televisões, mostra, entre outras coisas, que se perdeu a capacidade de observar a Natureza.



A ausência de ilustrações, pela qual peço desculpa, deveu-se a um problema no Blogger da Globo, onde estão alojadas.

25/01/2007

Os 10 euros de Dom Luiz I



Talvez fosse a minha casa. Talvez fosse um hospital, um centro comercial, um hotel.
Talvez fosse isso tudo enquanto eu me deslocava sobre as cabeças dos passantes, em pressa de chegar ao aniversário de um familiar.
Sei que desemboquei finalmente, por um plano muito alto para um pequeno almoço temporão na magnífica sala de refeições de pé direito triplo (ainda dela retenho os detalhes), chegado de uma sucessão de corredores desertos e mal iluminados, entre vidros de montra.
Aterrei na mesa mais distante do ponto onde entrei na sala.
Umas velhotas ruminavam qualquer papa de salmão distribuída sobre folhas de alface.
Do prato que tinha à minha frente, parelho ao delas, tirei um pão com um recheio doce.
Em breve a mesa estava limpa e pronta para o meu pequeno almoço. Em frente, duas moças de cara lavada.
O Luís de 10 euros estava à minha frente. Pensei que talvez se tratasse de uma gorjeta. E pedi ao meu irmão uma nota de dez para fazer a troca.
Dei-me então conta de que havia mais moedas. Outras de euro, das tais que só se viram nos primeiros meses de 2002 - triangulares, rectangulares, pentagonais, etc. - e umas quantas de copeques soviéticos.
Desisti de embolsar as moedas que entretanto já tinha avaliado em pouco mais de 14 euros, a troco de uma nota de 20 ao me aperceber de que eventualmente haveria uma significação naquele arranjo numismático.
As raparigas do outro lado da mesa concordaram e, num ápice, desenvolveram um esquema com círculos azuis e vermelhos e traços pretos com o qual pretendiam explicar a distribuição.
Não concordei eu.
Motivos para deserdar alguém (mais um da série de)

Vê-lo fazer uma apresentação em PowerPoint.

24/01/2007

O velho guarda-redes

Já o conheci numa época em que as lesões antigas o obrigavam a passar grande parte do tempo na bizarra e incompreensível posição de joelhos sobre uma cadeira.
Era assim que me dizia, que me perguntava, fumando contínuos cigarros e abarcando a cinza caída dos morrões com gestos largos com as costas da mão:
Um remate que vai directo à baliza e a bola passa ao lado?

23/01/2007

Excursão de finalistas

Logo eu, nada dado a excursões de finalistas.
Logo eu, nada dado a militâncias e a gestos simbólicos.
Posso descrever-vos, quase de fio a pavio, a estação de metro no Quénia onde o antigo e anoréxico futebolista romeno rematou para dentro de uma caixa preta 900 bolas sem uma única falha.
Os jornais tinham trazido a reportagem. As televisões não se tinham calado. A acusação que lhe fizeram era a de ter com esse gesto simbolizado a superioridade branca, ao pontapé às bolas em terra de pretos.
Outros lembraram que meses antes já ele tinha feito o mesmo, chegando creio que apenas às 60. Um reincidente, é claro.
E lá fomos, ver o local do crime.
Posso descrever-vos, quase de fio a pavio, a estação de metro no Quénia onde o antigo e anoréxico futebolista romeno rematou para dentro de uma caixa preta 900 bolas sem uma única falha. Mas não o faço.
Apenas digo que a caixa preta era um negativo no betão da estrutura azul eléctrica, pintado de preto, aí à altura de uma tabela de basquetebol. Teria aí metro e meio de largo por um de altura.
E o sítio de onde os remates foram feitos estava apenas assinalado pela posição de uma máquina de vender qualquer coisa, dessas que há nas gares de metro do Quénia.
Depois disso, era suposto irmos ver um modelo ao LNEC lá do sítio. Um modelo que fazia o mesmo tipo de remates para uma caixa idêntica, em condições semelhantes.
Cantaram-se, sim, canções estudantis.
Posso descrever-vos, quase de fio a pavio, a estação de metro no Quénia onde o antigo e anoréxico futebolista romeno rematou para dentro de uma caixa preta 900 bolas sem uma única falha.
Não o faço porque uma mulher parecida com a Tónia Carrero enquanto nova, me atirou para os pés os marcadores vermelho e preto que lhe devolvera.
Fê-lo com um ar insolente e divertido que não me incomodou. Mas impede-me de descrever a estação de metro lá no Quénia onde o antigo e anoréxico futebolista romeno rematou para dentro de uma caixa preta 900 bolas sem uma única falha.
De fio a pavio.

21/01/2007

Linha do eléctrico da Praia das Maçãs, 2006

Passatempo

Descobriu o Amigo Bic Laranja onde fica a obra de arte aqui deixada com o propósito de lançar um passatempo para a sua identificação.
É a ponte de Totenique, sobre a ribeira do dito nome também chamada de Luzianes e fica ao km 6 e tal da E.N. 266, como bem alvitrou aqui (sheet12 é a folha onde estão as estradas de 261 a 270 e o único marco ordinário - arredondado - lá constante é o da 266, todos os outros são da classe 10k).

Atente-se na ficha de arquivo da antiga JAE - DSP e já agora no erro de contagem do tempo que lá está.
Entre as datas constantes decorreram 654 dias e não 761 ou 701, se se tratar de um 0 o algarismo do meio.





E atente-se ainda aqui no extracto da Carta Militar como corrigi muito mal o tiro quando mudei a orientação do fotógrafo de Leste para Es-sueste.

20/01/2007

Crónica (dedicada e fotografável) da vida cá longe



Portugal, hoje na antemanhã

19/01/2007

Resolução

Nesse ano, resolveu que ia salvar o mundo de outra forma.
Daria aos outros a oportunidade de se salvarem, eles próprios, fazendo-lhe a ele favores insignificantes.

18/01/2007

Espólio (23)


espólio Campos Vilhena, foto atribuída a MSS

Lanço aqui um desafio aos meus leitores: alguém identifica esta ponte, esta estrada?
Digo-vos que a foto é ou de 1949 ou de 1950.


Adenda: o fotógrafo está virado para Leste Es-sueste.

Correcção e segunda adenda: O fotógrafo aponta a Es-sueste e não a Leste. A via que aparece em segundo plano a atravessar a imagem, é caminho-de-ferro.
O Amigo Bic Laranja anda perto com o seu palpite.

14/01/2007

14 de Janeiro

Há aquelas coisas que nos entram na cabeça inviamente.
Uma delas, apesar de ter plena consciência do disparate, foi e talvez ainda seja a de que o dia 14 de Janeiro é o dia em que faz mais frio em Portugal.
Ora isso para além de ser o disparate que é, carece ainda, se nos dermos ao trabalho disso, de decisão quanto ao significado de "ser o dia em que faz mais frio em Portugal".
Posto este intróito, apetece-me ir aos dados do INAG e ver a que conclusões posso chegar, já que os do IM não estão disponíveis gratuitamente.
Eu depois dou vaia.
Sei lá a propósito de quê vem isto

Na minha amostra de mulheres, que conta com aquelas a quem tive oportunidade de acompanhar raciocínios ao longo dos anos e que é maioritariamente composta por mulheres com instrução superior, verifico que as intelectualmente mais capazes - de muito longe as mais capazes - não têm de facto uma licenciatura.
Não retiro disto mais do que está expresso em cima.

12/01/2007

Um rosto na solidão

Os sítios têm, como todos sabemos, classe social. Mesmo que as fronteiras sejam, como em tudo no Universo, indetermináveis.
Vivi durante quase toda a vida numa determinada classe. Mudei-me para outra. Entre uma e outra, evitei a tempo passar por uma espécie de degrau intermédio.
Hoje vi um rosto que pertence a essa classe que evitei. No preciso local onde seria suposto que estivesse. Não gostei dele hoje como não gostei dos seus congéneres nesse tempo tal.

Ia nestas constatações pela rua quando me detive, por isso mesmo, no que poderia duma penada representar as minhas origens ao longo dos últimos ene séculos, a quem mo perguntasse na próxima esquina. Uma mistura de camponeses e terratenentes.

Por levar na memória imediata esta gaveta aberta, não estranhei que me chamassem pelo nome próprio do meu Avô paterno. Era eu carregando a minha história. Sequer estranhei que mais à frente me dessem como morto na gaveta ao lado da minha. Era eu carregando o meu futuro.

Sem classe.

11/01/2007

A pedra da Alice

A solta das pombas ocorria todos os dias da semana, a hora certa.
A irmã lá vinha no meio do bando branco de batas.
A pedra saiu-lhe da mão, a testar a queda dos graves, parafraseando um episódio de história ouvida.
E acertou no cocuruto de uma das que ele notara entre as tantas.
Caiu em cima de quem caiu - pois.
Não se safou do castigo, enquanto lhe via ser aplicado o curativo.

Muitos mas muitos anos depois, ela riu-se como se sempre o tivesse encontrado de pedra na mão, pronto a ser o portador, o lançador, do acaso ferente.

09/01/2007

Efeméride

Se não fosse esta para mim belíssima prenda, nem sequer me daria ao trabalho de descarregar aqui a passagem de ano, como não me dei o ano transacto.
A verdade é que o blogue acaba por funcionar, em parte, como o tal caderno de capa preta, biográfico. E quando não há motivo, não se assinalam as datas. Ou havendo motivo, não havendo talante.
Sei lá eu.
Apenas suspeito que Fidel não me acompanhará muitos mais anos nesta efeméride.
Apenas estou certo de que jamais ganharei qualquer Nobel, visto apenas que a probabilidade de duas pessoas nascidas no mesmo dia o receberem é ínfima, a menos que as duas pessoas sejam uma só, o que não é o caso.
Apenas afirmo que dizer mais é disparate.
Obrigado, Minha Neta.

07/01/2007

FOR Without NEXT in 1001

Podia dar a esta afirmação aquele ar metapoético que se sabe.
Mas - e é mesmo mas - vou usá-la para um lance mais de acordo com o que me assola.
E o que me assola, ainda me safando com o velhinho Basic nos casos em que este bate aos pontos outras ferramentas mais "amigas do utilizador", é ver à minha frente tal mensagem.
Significa ela, para quem está menos familiarizado com esta linguagem, que iniciei na instrução 1001 um ciclo que não fechei.
Ora, o grave da coisa é que, se tratando de um programa curtíssimo, com muito poucas linhas, ainda não descobri a falha.
Vejo lá o NEXT para o FOR da 1001. Ou seja, vejo o ciclo fechado. Nenhuma instrução dentro do dito, atira para fora dele por forma a justificar o erro.
Analisei outros ciclos e também estão fechados.
Considerando que há cerca de 25 anos que uso esta linguagem e que com ela já fiz largas centenas de programas funcionais, e que o erro a que se refere esta mensagem é dos mais facilmente identificáveis e ultrapassáveis, a única coisa que me ocorre é que o NEXT que falta tem a ver comigo.
Será isto metapoesia?


Adenda ainda a tempo: Não era de facto a 1001 que continha o erro. Era um outro ciclo que estava aberto, pois.

06/01/2007

Espólio (22)


espólio Campos Vilhena, foto de MSS

Mértola, anos 50, construção da ponte sobre o rio Guadiana.

05/01/2007

04/01/2007

O cão deprimido*

Foi agora mesmo. Estava a ser atendido quando tocou o telefone.
A cara da empregada transfigurou-se.
Quando ela desligou o telefone e dado ter ouvido inevitavelmente a conversa, perguntei: Foi o cãozinho?
Ela disse-me que sim e contou-me do aparato policial para pôr fim aos dias do cão deprimido.
E da ameaça de despedimento com justa causa que pende sobre ela e duas colegas. Segundo ela, por terem vendido aos clientes comida para o cãozinho.

Não sei se o cão alguma vez foi de alguém. Creio ter sido, dada a sua docilidade e expressão quando reagia às palavras e carinhos dos humanos.
A ser assim, foi abandonado. Estava quase permanentemente deitado à porta daquele estabelecimento, como se tivesse em si toda a infelicidade que têm os cães.
Foi levado hoje, com aparato policial.
Imagino que fosse um perigo terrível para a saúde pública. Quanto ao aparato, é óbvio que os imbecis que nos governam, nos mais variados níveis, têm que justificar o sugadouro de dinheiro que o Estado é.

Ah sim, os imbecis não têm culpa alguma de o ser. A culpa é obviamente nossa, ao nos demitirmos das responsabilidades e ao deixarmos assim as decisões para eles. E ao permitirmos que a organização do país seja aberrante e ridícula.

Estou revoltado, é claro. E não gosto nada de escrever a quente. E este caso foi a gota que fez transbordar o copo, hoje.


*andava há uns tempos para publicar algo sobre ele.

02/01/2007

Escrita em dia

Já sabia que era assim. Mas tirei a prova dos nove durante o mês em que o computador meteu baixa na caixa.
É-me estranho, cada vez mais estranho, o uso da pena. A comprová-lo o esmorecimento do calo no dedo médio direito.
A minha caligrafia, outrora quase de perfeccionista no que tocava à letra de imprensa, ganhou demasiada liberdade poética. Gatafunhou-se.
A escrita corrida, dita estenográfica, alcançou um período mnemónico ridiculamente curto. Algumas horas depois torna-se indecifrável.

Posto isto, e tal como pretendia há algum tempo, comprei um auxiliar de memória que substitui o tradicional caderno de capa preta.
SG delirou com o aparelho e furtou-mo por uns dias. Afirmou que não escreveu o poema abaixo, disse-o de uma assentada.
Eu revelei-lhe que gravadores de som são coisa velha e relha. Ele, lá das nuvens, retorquiu: Ah, sim? Deste tamanho?

01/01/2007

Sinceramente, brincando

Sincebrincando o boneco vector.
Pequenos companheiros
Admoestando poetas e pinheiros.
Sincebrincando a merenda do pastor,
Vemos vagueiros arrastando lamas e pinheiros.
Sincebrincando romenas e romeiros.
Voltamos inteiros,
Penas e sobreiros.
Sincebrincando, temendo torneiros.
Facas de lanceiros,
Copos de escudeiros,
Longe de terreiros,
Marcas de carreiros,
Prisioneiros.
Sincebrincando velas e veleiros.
Pélagos, pesqueiros.
Escasseia a vaga, é dia primeiro.
Sincebrincando um denso nevoeiro.

SG, inéditos, 2006
Deixa lá fazer umas previsões também



Na vizinhança da centena de baixas. Para aí.
Portugal, 2007



Antes do levante, do local de sempre.

31/12/2006

Na Mésia

Vejo-te de cerejas.
Vejo-te de flores.
Recebo-me contigo.
Há setecentos anos, hoje que seja. Hoje que sejas.

SG, inéditos, 2006

Ano velho

Na preguiça de quem carrega mais um ano às costas, como se fosse eu o único, socorro-me de mim próprio, em autocitações imodestas:

de 1 de Março de 2004
de 16 de Agosto de 2004
de 31 de Deezembro de 2004
de 19 de Novembro de 2003

Talvez devesse dizer-lhe, lembrar-lhe, que não me será indiferente que às 22:00 se dê a entrada da Bulgária na União. Talvez SG me socorra. Ele que me apareceu estes dias.

29/12/2006

Muitos ases de espadas num só baralho

Será que executam os duplos de Saddam Hussein junto com ele, à cautela?


actualização: Afinal, parece que não. Foi um só ás. Ainda discorrerei sobre a cópia de disparates que se escreveram e disseram à volta dos famigerados sósias.

28/12/2006

O funcionário (in)competente

O funcionário competente tem uma carta à frente. É nela ainda que identifica os prédios e anota o número dos respectivos processos.
Mostrou-me o meu. Nada. Nenhuma nota.
Não temos cá nada. O processo está no Arquivo Histórico.

Vindo do Arquivo Histórico, já com o processo identificado e copiado, lá fui dar o meu contributo para a desarticulada base de dados.
Quando disse que ia dar um contributo, o funcionário incompetente respondeu-me que ali não se aceitava tal.

Quando lhe expliquei que sabia que o colega competente anotava numa carta sobre os prédios os números dos processos e que o que tinha na mão era uma cópia do rosto de um processo, com a respectiva cota lem legível, respondeu-me que aquele número não podia ser de um processo.
Voltei a dizer-lhe que era a cota sob a qual se encontrava tombado no Arquivo Histórico, que era quanto bastava para que um terceiro que a seguir viesse o encontrasse de imediato.
Diz que não, que não podia ser o número do processo.
Paulo de tal e tal - gritou-me lá de dentro, depois de aparentemente ter ido consultar alguém ou qualquer coisa.
Disse-lhe que se o nome que me gritava era de um processo que tinham ali com um número igual, tal nome não tinha, à primeira vista, relação alguma com o processo que eu tinha na mão.
Voltou a dizer-me que aquilo não podia ser número de processo.

Apareceu então o funcionário competente.
Olhou para a cópia que eu lhe estendia e disse:
Ah, obrigado. Mas eu duvido que dessa zona ainda seja preciso anotar esses números.
Já não temos pedidos de licenças daí.

25/12/2006

O sismo de Rabate

Não será fácil esclarecer as circunstâncias em que me afastei tanto do tradicional caminho para casa.
Procurei por saídas em quase todo o lado onde entrei. Saídas de beco em beco, de rua em rua, tudo nas redondezas da minha casa.
Retenho apenas desse percalço três ou quatro notas.
Os agressores arbitrários que se encontravam num campo patrocinado pelo jornal "A Bola" e inaugurado em 25 de Maio de 1941.
O chinês que me queria vender uma craveira com canivete suiço, marcada a 2,30 euros por 200 ou mesmo 180 com o ar mais seráfico deste mundo e que me ainda me perguntou se eu não ia comprar nada quando me viu porta fora.
A dificuldade em sair do restaurante dos grelhados sem passar por baixo das competentes grelhas que, assando à brasa áerea, pingavam gordura fervente sobre quem se atrevesse. Depois uma simpática almoçante lembrou-me o que eu estava farto de saber. Os clientes não conseguiam sair por ali. Já os empregados tinham um sistema de passadeira levadiça que suplantava os grelhados, quando accionada.
A última e decisiva nota que me atirou para o iate de alguém, foi naquele salão de chá também achinesado em que entrei por uma estreita passagem e onde depois, mais uma vez, tentei achar uma saída e nada. Nem sequer conseguir voltar para trás já conseguia, não fosse a prima C. indicar-me o caminho, afinal aquela espécie de louceiro envidraçado e baixo.
Lá voltei não sem ter tropeçado num grupo de cromos que contemplava as pernas das balzaquianas. Ainda me detive numa ou noutra assinalada e quase parecia que um etéreo xis lhes era aplicado nas nádegas pelos ditos. Mas reparei que os seus rostos tinham perdido o viço.
Voltei a casa. Sabido que é que ficava na Praça do Pão. A praça era toda constituída pelas construções baixas de um infantário-colégio e a ocidente por um edifício mais alto onde se ouvia sempre a voz feminina que falava ao telefone.
A minha casa era um enclave. Não tinha vista para o rio, como a praça. Mas eram umas boas instalações, no dizer de PoliBruno.
Alguém me perguntou se eu não tinha saudades das reuniões de condóminos no prédio de sete andares. Disse que sim.
Depois disto tudo, já estava no iate da outra.
A volta era para ser curta, chegar antes da noite. Mas eu notei que ainda assim era melhor trazer uma roupa mais quente. Que isto de ir para o mar...
Claro que se alongou. Fez-se noite e frio. A prima C. num ataque de coragem inaudito lançou-se às escuras águas do golfo de Cádis para recuperar qualquer objecto perdido.
Talvez um gato. Talvez o gato transformista que adquiria forma a partir do nada. Talvez um dos dois gatos pretos protegidos - gata e cria - que se instalavam por detrás das quartas de água.
Mas o caso é que se lançou e trouxe uma espécie de marroquinaria na mão.
Deram-lhe roupa seca e tudo.
Pouco depois, teve lugar a cena dos candeeiros. Um amigo da dona do barco mantinha uma espécie de sala repleta de candeeiros e só de candeeiros. Não era uma mostra, era mais uma espécie de loja sem objectivo de venda.
Ali levados, ele começou a dar com um maço de madeira nuns candeeiros que semelhavam o boneco Michelin, uma espécie de elipsóides sobrepostos.
Quis com isso, suponho, dar uma ideia da robustez das suas criações.
E, posto que éramos chegados a Maiorca, passámos à sala de refeições onde, enquanto nos batíamos com as mais requintadas iguarias, me pareceu que o barco tremia sob qualquer efeito anormal.
Comentei com o meu parceiro de mesa que, se fosse em terra, diria que era um tremor da dita. Mas sendo no mar, estranho seria que a água se animasse da mesma forma. O certo é que, pouco depois dessa agitação, já se avistavam ondas mais altas e espumantes nada de acordo com o mar de minutos antes.
Era então um sismo, dizia eu, secundado por um partido.
No outro lado da sala, as opiniões eram contrárias. Os sismos não se sentiam assim no mar. Caso as águas se agitassem, seriam ondas com período muito maior e não as que corresponderiam à minha descrição.
A discussão pegou-se e morreu.
Passámos à parte do jogo.
Fomos para os aposentos do médico que, descuidadamente, tinha deixado sobre o pano verde da camilha uma embalagem amarela e preta de uma pomada cuja indicação, em letras gordas, eram as fístulas.
Aqui, o parceiro que liderava o partido anti-sísmico exorbitou. Começou a disparar na minha direcção com tal violência verbal que a coisa quase descambou.
Mas lá jogámos.
Quando voltámos à sala de jantar, alguém tinha aberto o móvel da televisão. Estava ligada num canal que dava cotações.
Em rodapé li sobre um sismo de grau 3,3 em Rabate. Já não me calei nessa noite.

22/12/2006

Gibalta, 2006

O Natal dos materiais

O material tem sempre razão.
Não resiste a um escalpelo mais aguçado esta lapidar frase. Pode, todavia, encimar a justificação da minha ausência.
Foi o material que cedeu, diriam os humanos.
Foram os humanos que não souberam o que e como fazer com os materiais, replicariam estes, cheios de razão.
Então e os humanos não serão um subconjunto dos materiais? - repensariam com ar grave, todos em conjunto.
Bem, atenta a época, um humano ateu* espera que o senso natalício dos materiais, a existir, o poupe a mais arrelias.
Até ver, estamos - eu, Manuel Vilhena, e o H Gasolim Ultramarino - de volta.

Boas Festas, mais uma vez, para os meus quatro leitores.



* também eu não consegui desligar-me desta dúvida

27/11/2006

À segunda levantou voo o franchisável (IV) Depois de um período de confusão, em que houve de tudo como compete em casos tais de homicídio, estabeleceu-se a discórdia. Os dois partidos, pró e contra o infanticídio acabado de perpetrar, digladiavam-se em plena bancada enquanto eu e o J.M. nos colocávamos numa pose de desafio, prontos a enfrentar todas as consequências que, de facto, achávamos que fossem nenhumas. Ora pouco depois, chegaram uns estranhos veículos séculos XXII, também eles azuis, também eles voando com as rodas em terra, que eu reconheci como da G.N.R.. Disse então ao J.M. que o melhor era a gente pirar-se. Recuámos para um corredor interior, passámos por vários gabinetes envidraçados, julgo mesmo que, ao passarmos de nível, nos cruzámos com o J.R. que estava ali para se despedir do meu irmão que afinal embarcara a horas e, nisto, perdi-os a ambos. Resolvi ir para o fim da pista e usar todo o combustível mental que me restava para levantar voo. Assim o fiz. Mas a energia era pouca e tendia a diminuir rapidamente. Ao fim de pouco tempo, já voava baixinho entre portas e travessas, até que cheguei à costa. Ali, rumei a sul. E pouco depois encontrei aquela exploração russa de peixes não-sei-quê. Foi ali mesmo que pedi asilo político, depois de contar sete versões sete do que tinha acontecido. Uma coisa que me surpreendeu e me fez desconfiar das boas intenções dos russos, foi o terem-me mostrado como estabilizavam as formas de vida que pretendiam preservar para memória futura, melhor dizendo para tempos de mais e melhores conhecimentos científicos. O depósito era uma espécie de grande estante SUC em plástico cinzento e rede metálica. Ali havia de tudo como na botica. E receei ir ocupar uma das gavetas vazias. Mas não. Chamaram as autoridades locais e fui informado que, encontrando-me eu à guarda deles, russos, havia uma negociação tendo em vista esconder-me num alçapão sob a câmara dos comuns em Londres e que isso seria um passo para ser eu trocado por quaisquer prisioneiros de guerra em qualquer zona remota que não vinha bem ao caso. Isto colocava-me, colocou-me, na directa dependência de uma coligação anglo-russa. E, acto contínuo, fui a julgamento por cumplicidade na morte do artista. Tive a meu lado, à esquerda, uma fila de defensores britânicos; e à direita, igual fila de russos. Deste caso, e das ameaças verbais que ouvi da boca dos pais da criança, não há muito a dizer. Abandonei a sala, pela porta que dava para o mar e mergulhei. Cheguei de novo a terra firme umas horas depois. O paradoxo está aqui: se eu de nada me lembrava quando saí das águas, como é que fui capaz de relatar agora os sucessos desta forma? Diende.
Alvor, 1989

26/11/2006

As cheias de 67

Lembro-me do Sábado todo a chover. Da água entrar por frestas de janelas mais expostas.
De ser chuva forte e de ouvir qualquer coisa ao meu Pai sobre a inevitabilidade de haver inundações.
É disso que me lembro e de nada mais.
Não tivemos consciência da gravidade da coisa, vivendo como vivíamos num sítio alto e inclinado, onde a água escoava rapidamente.
Na manhã de Domingo, 39 anos contados até hoje, lá saí com o meu Pai, ambos ainda alheados das consequências da chuva intensa e persistente da véspera.
É a um certo ponto do trajecto que, olhando para longe, para o local ilustrado na foto abaixo, diviso uma série de lençóis brancos alinhados. Nada disse. Mas recordo-me de me ter parecido que o meu Pai, nefelibata que era, não tinha dado por tal. Acho que só quando passámos por um magote de atiçados comentadores da desgraça, que apontavam para o monte e para o vale, ele se deu conta. Mas também nada disse.
Só mais tarde tivemos noção do que realmente acontecera.

Nesse dia a precipitação no Tojal foi de 137mm e em Sacavém, de 111mm.
Dos registos do INAG, é o segundo mais elevado. Só batido pelo de 19 de Novembro de 1983 (163,7mm e 130,9mm, respectivamente).
Hoje, caem 15 ou 20mm e é o alarido que se sabe.


Fotografia de Paulo Guedes in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Queluz, c. 1900


Foto esta que, por uma estranha coincidência, encontrei ontem no blogue do amigo Bic Laranja, notando que o aspecto que mostra é muito semelhante ao de 1967.

P.S. Sugiro que se elabore uma fórmula, com base nos períodos de retorno, que dê enquadramento às indemnizações que o Estado paga a quem se queixa de ter bens destruídos por inundações. É um roubo de igreja que alguém, cuja casa se inunda todos os anos pares, venha reclamar do Estado uma compensação.

24/11/2006

24 de Novembro de 1966

Um dia inesquecível.
À segunda levantou voo o franchisável (III)

Não posso precisar os detalhes da nossa chegada ao aeroclube. Mas uma coisa pode dizer-se e é certa: se fomos em meio aéreo, fizémo-lo com as rodas assentes no chão, taxiando.
Já à chegada, notava-se que o irrepreensível estado de limpeza da aeronave do meu amigo contrastava com o estado de sujeira em que se encontravam quase todas as demais. Como se o simples facto de andar no ar concorresse para o acumular de merda nas asas, na carlinga e em toda a fuselagem, enfim.
Mas depois de ziguezaguearmos pela frente e pela ré da reluzente máquina, agora exibindo o seu azul celeste ao lado da roulotte dos coiratos e das sandes de molho, e de eu ter medido bem os gestos e a pose do meu companheiro que em tudo se esforçava por estabelecer, sem a menor dúvida, o linque de posse entre ele próprio e o avião, enfrentámos as bancadas tribunícias onde algum público assistia à evolução de aparelhos e talvez até se despedisse de parentes e amigos embarcadiços.
Isto depois de um pequeno incidente de que fui protagonista, quando entrei numa área reservada e tirei algumas fotografias. Ele fazia-me gestos com a mão para que não avançasse mais e me abstivesse de fotografar, com medo de qualquer admoestação na sua qualidade de membro do aeroclube. Eu lá continuei mais um bocado mas acabei por retroceder, sem que alguém me tenha interceptado.
Foi entre a minha saída do portão gradeado da dita área e a chegada à bancada coberta, passando por uma ponte sobre um fosso na muralha que avistei, saltando de um baluarte, o franchisado.
E digo ainda que era o franchisado, por calcular que o detentor da originalidade de tão grande malícia em tão pequeno corpo não tivesse tido tempo de ali chegar, mesmo que se tivesse apressado a seguir no meu encalço. Era pois o diabo por ele. Um franchisado.
Fosse lá quem fosse, começou de imediato a arremessar-nos pedras assim que nos apanhou a tiro.
Nem sequer o facto de nos encontrarmos já então em animada conversação com duas companheiras de bancada foi impeditivo da sua maldade. Distribuía-se entre as pedradas que ora acertavam em nós ora em terceiros e as investidas com paus afiados e as vergastadas com canas verdes.
Acabámos por fazer uma retirada estratégica para a sala de espera, envidraçada, que ficava no topo da bancada e na qual havia uma abertura larga a oeste, do lado da pista de onde levantavam agora os aviões.
As nossas amigas tinham-nos acompanhado. E havia indignação maioritária entre a assistência contra o renegado infante, embora uma minoria achasse que a criança não merecia censura alguma.
Foi depois de mais uma investida pela tal abertura ocidental, que a coisa se deu. E deu-se rapidamente e da seguinte forma:
O miúdo investira com uma lança de madeira pontiaguda contra o J.M.. Este, num salto felino, apanhou-o pelo cu das calças e saindo com ele para a parte da bancada, arremessou-o contra os cabos de alta tensão enfeitados com balões vermelhos. O miúdo chamuscou-se e fez ricochete, ao som do trovão. Foi parar de novo às mãos do J.M.. Este não hesitou e arremessou-o uma segunda vez, com tais ganas que me pareceu a mim que ele também tinha sofrido na pele as agressões do primeiro. E que era o franchisável, ele próprio, que levantava voo. Talvez não me tivesse enganado. À segunda foi de vez. O ricochete que fez agora, deveu-se apenas à elasticidade dos cabos, já mortos. Já morto ele também, com o choque da primeira vez.

(continua ainda)