A natureza e o tempo
Tomemos como bom que o conceito de natureza é o conjunto da matéria original do planeta Terra e tudo a que ela deu origem, com o tempo.
Tomemo-lo inevitavelmente num sentido um pouco mais lato, incluindo os factores exteriores mais conhecidos e indispensáveis: os raios solares, a atracção gravitacional da lua e a matéria cósmica que penetra no sistema terreno.
Nada disto parece controverso.
Já o tempo, que é um elemento integrante deste conceito, é impossível de definir.
A Natureza é uma nomia inventada pelo homem para designar algo que compreendeu (no sentido matemático) - algo com o qual formou conjunto. Mesmo que os contornos desse conjunto não sejam muito precisos quanto aos factores externos e quanto à origem primordial dos seus elementos.
Mas o conceito existe, é universal e aceite.
Não sabemos então o que é o tempo.
Temos a ideia de que actua sobre a matéria e que a transforma.
Dizemos que as coisas
envelhecem naturalmente com o tempo.
Aceitamos assim que a natureza se transforma com o tempo, não deixando de ser natureza, como decorre do conceito.
Às vezes confundimos algumas coisas: foi a Natureza ou o tempo que destruiu os dinossauros? É claro que foi a Natureza. O tempo é apenas um dos factores que a integram e que dá sentido ao conceito.
De acordo com o que conhecemos e pensamos conhecer, se o tempo não fosse um factor integrante, toda a Natureza estaria no seu estado
natural, primordial. Haveria um momento natural, nada mais.
Aceitemos então definitivamente o conceito.
Ao fazê-lo, não podemos deixar de incluir o homem como elemento integrante do conjunto natureza.
E sendo-o, é, por agora, tão importante como os castores, as formigas, os abetos, o granito.
O tempo transformou coisas com outros nomes em castores, em formigas, em abetos, em granito.
Em homens.
São então formigas e castores
elementos naturais (elementos do conjunto natureza).
E os homens.
Sendo as formigas elementos deste conjunto, os formigueiros sê-lo-ão também?
Sendo os castores elementos deste conjunto, as barragens sê-lo-ão também?
Serão os expedientes de cada um dos elementos integrantes, elementos de outro conjunto que não o inicial?
A função
criação de será uma função em N (conjunto natureza)?
Não poderá deixar de o ser.
O conceito de natureza a isso obriga.
Vamos então ao homem.
É ele um elemento natural?
Não encontro nenhum argumento que o contradiga, a não ser a visão antropocêntrica do mundo, que coloca o homem numa dimensão à parte.
A verdade é que, mesmo para os dependentes desta maneira de ver, é necessário recorrer à classificação do homem como elemento natural (animal) para teorizar sobre certos fenómenos.
Passarei pois adiante sem me deter neste aspecto.
Outro argumento que me parece pouco polémico é que grande parte, diria quase a totalidade da massa de problemas com que nos debatemos, dos
fenómenos visíveis, é consequência da intervenção humana sobre o planeta, porventura será esta constatação, ela própria decorrente do antropocentrismo.
Assim, direi que para todos os que não têm uma ideia consistente do que é ou não natural, a maioria dos
fenómenos visíveis é de origem não-natural ou humana.
Ora, não havendo dúvida de que o homem pertence ao conjunto N, todas as suas criações não poderão também deixar de pertencer-lhe.
É aqui que desaparecem conceitos como
artificial, laboratorial, sintético(?!), nas asserções anti-naturais a que nos vimos habituando há algum tempo.