As idades
Todos nós temos uma disputa com a idade.
Quase sempre se inverte a certo ponto. Primeiro puxamos para a frente, queremos mais anos. Depois, para trás, à cata da juventude que se esvai como um sonho matinal.
Se não é assim com todos, é com uma maioritária maioria(?).
É certo que o ciclo solar faz sentido. Tanto o diário como o anual. O lunar já é de mais duvidosa utilidade, mas aceita-se que sirva a pescadores e a parteiras.
A uns com mais propriedade que a outros.
O certo é que, ambos, sol e lua foram precursores dos deuses.
A minha questão é só esta: o tempo passou ou não sobre a espécie humana?
Se passou, modificou-nos ou não?
Se nos modificou, em que é que o fez?
Terá sido em mostrar que os deuses eram de um tempo anterior?
Se foi, porque é que as religiões ainda fazem sentido?
Se não fazem, se são apenas instrumentos de controlo social, quanto tempo mais teremos de esperar para que se não temam deuses?
O tempo para percebermos que apenas devemos temer os nossos feitos?
E se assim é, quanto tempo até lá?
31 dezembro 2003
Convenções
Ver 2004 a partir de 2003
Tal como todos os dias podemos ver o dia seguinte. Nada de novo na frente.
imagem de câmara de tráfego na Finlândia, mais uma vez.
Ver 2004 a partir de 2003
Tal como todos os dias podemos ver o dia seguinte. Nada de novo na frente.
imagem de câmara de tráfego na Finlândia, mais uma vez.
Era velha
O céu já escondeu o último sol
Que a esta terra do verde ainda aqueceu.
Marca-se outro traço na angústia
Cimentada às quatro paredes gradeadas,
Véu que se abate ou se destapa,
Sol que renuncia ou se resolve,
Pré-destino que as calendas pretenderam!
Era uma era que outra era anunciava,
Elo em sequência, sem cadência
Que a marcar possa sem assaltos!
Era efémera, diluída na razão
Que a sua ponderação tem nos tempos todos.
E com a era, já eram satisfeitos
Tratos e contratos e outros aparatos
Que, na era nova, obsoletos,
São pesos-mortos no contar dos anos.
E cá estamos!
Reza o relógio no tique-taque baixo
Que se confunde com o cardiorritmo!
Sufraga-se a vela que se consome
Como a vida, era após era!
Rasguem a página que esta já era!
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
O céu já escondeu o último sol
Que a esta terra do verde ainda aqueceu.
Marca-se outro traço na angústia
Cimentada às quatro paredes gradeadas,
Véu que se abate ou se destapa,
Sol que renuncia ou se resolve,
Pré-destino que as calendas pretenderam!
Era uma era que outra era anunciava,
Elo em sequência, sem cadência
Que a marcar possa sem assaltos!
Era efémera, diluída na razão
Que a sua ponderação tem nos tempos todos.
E com a era, já eram satisfeitos
Tratos e contratos e outros aparatos
Que, na era nova, obsoletos,
São pesos-mortos no contar dos anos.
E cá estamos!
Reza o relógio no tique-taque baixo
Que se confunde com o cardiorritmo!
Sufraga-se a vela que se consome
Como a vida, era após era!
Rasguem a página que esta já era!
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Grrr... isto não é o cabo de Sagres
Mesmo que se trate de música sacra de Haendel
Este som não me preenche a lacuna
A que sal basta para ficar desinfecta.
Melodia de paisagens em língua desconhecida,
Concebida para audições solenes a desoras
De modo a que o ventre a que se refere
Se recorte vago numa qualquer parede de fundo.
Mensagem hidráulica e fetal
De vitais fluidos repleta
Ecoando sinais que remontam às origens
Num caldo de cultura viciado
Com os dados que o Operador manipulou.
A verdade esconde-se assim num retrato genético
Perpetuado em difusas multiplicações
Carentes de uma explicação arrumada e demonstrativa
De uma Lógica anciã e incorrupta
Que alinhe os pontos discerníveis
Numa emocionabilidade pura
Pelas convulsas contorções dos geniais cérebros.
A paz e a procura porque não compatíveis,
Subsistem em contempladas pausas de percurso,
Eivadas desta melodia simples e esmagadora
A que o céu não é estranho.
A noite é ainda madrinha desta encruzilhada
Em que a interrogação se levanta a cada passada
Como o pó dos caminhos velhos que já percorremos.
Embora a imagem que subsiste
Não se afaste muito do espectro embrionário que já fomos,
Começamos a vaguear cansados
Por sobre a História ou do que resta dela.
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Mesmo que se trate de música sacra de Haendel
Este som não me preenche a lacuna
A que sal basta para ficar desinfecta.
Melodia de paisagens em língua desconhecida,
Concebida para audições solenes a desoras
De modo a que o ventre a que se refere
Se recorte vago numa qualquer parede de fundo.
Mensagem hidráulica e fetal
De vitais fluidos repleta
Ecoando sinais que remontam às origens
Num caldo de cultura viciado
Com os dados que o Operador manipulou.
A verdade esconde-se assim num retrato genético
Perpetuado em difusas multiplicações
Carentes de uma explicação arrumada e demonstrativa
De uma Lógica anciã e incorrupta
Que alinhe os pontos discerníveis
Numa emocionabilidade pura
Pelas convulsas contorções dos geniais cérebros.
A paz e a procura porque não compatíveis,
Subsistem em contempladas pausas de percurso,
Eivadas desta melodia simples e esmagadora
A que o céu não é estranho.
A noite é ainda madrinha desta encruzilhada
Em que a interrogação se levanta a cada passada
Como o pó dos caminhos velhos que já percorremos.
Embora a imagem que subsiste
Não se afaste muito do espectro embrionário que já fomos,
Começamos a vaguear cansados
Por sobre a História ou do que resta dela.
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
30 dezembro 2003
Dias sem Brylcreem
Quase a dobrar a meta volante dos 2003 anos depois de uma data em que ninguém sabe o que aconteceu de relevante, reconheço que há dias sem Brylcreem.
Fiz aqui uma aposta de escrever o que me viesse à cabeça quotidianamente.
Logo com a condição de não comentar as actualidades.
E, se há quem me leia, é porque alguma coisa com interesse aqui venho gravando.
Mas há dias em que a coisa é chocha, muito chocha.
Vejo este blogue muitas vezes como o comentador lateral das coisas.
Como se num grande acidente rodoviário, apenas descrevesse com pormenor o símbolo da marca do automóvel cravado na retaguarda.
Outras vezes como o leitor de almanaques que sabe quantos parafusos tem a torre Eiffel. Memorizou o número, sem cuidar que provavelmente a torre nunca teve em dia nenhum da sua existência, esse exacto número de parafusos.
Outras ainda como a personagem sentada numa esplanada que faz perguntas sem sentido a quem passa perto.
E muitas vezes me ocorre a sapiência desregulada de um velho vizinho que teimava em dar explicações ao monarca, encomendar sandes de produtos químicos, fumar nos parapeitos e nadar em medicina. Disse-me certa vez que estava em Ceuta em '415, à espera das tropas de D. João I.
Às vezes estou como ele. Em dias sem Brylcreem.
imagem em www.anzwers.org/free/tackorama/ clipart_ads_2.htm (link perdido)
Quase a dobrar a meta volante dos 2003 anos depois de uma data em que ninguém sabe o que aconteceu de relevante, reconheço que há dias sem Brylcreem.
Fiz aqui uma aposta de escrever o que me viesse à cabeça quotidianamente.
Logo com a condição de não comentar as actualidades.
E, se há quem me leia, é porque alguma coisa com interesse aqui venho gravando.
Mas há dias em que a coisa é chocha, muito chocha.
Vejo este blogue muitas vezes como o comentador lateral das coisas.
Como se num grande acidente rodoviário, apenas descrevesse com pormenor o símbolo da marca do automóvel cravado na retaguarda.
Outras vezes como o leitor de almanaques que sabe quantos parafusos tem a torre Eiffel. Memorizou o número, sem cuidar que provavelmente a torre nunca teve em dia nenhum da sua existência, esse exacto número de parafusos.
Outras ainda como a personagem sentada numa esplanada que faz perguntas sem sentido a quem passa perto.
E muitas vezes me ocorre a sapiência desregulada de um velho vizinho que teimava em dar explicações ao monarca, encomendar sandes de produtos químicos, fumar nos parapeitos e nadar em medicina. Disse-me certa vez que estava em Ceuta em '415, à espera das tropas de D. João I.
Às vezes estou como ele. Em dias sem Brylcreem.
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O feijão tem bicho
Pois tem – dizia o Zé da dos Barros, confirmando.
Queres ver que tá todo assim – picava-o a mulher.
Tu nem me digas isso.
Mas estava.
Nessa tarde, depois de uns copos, já culpava o vizinho mais o tratamento que tinha dado às oliveiras.
O Jaquim da Moca meteu-lhe mais ferro, que era do efeito de estufa.
O cunhado que foi lá jantar, perguntou-lhe se ele tinha posto cabelos à roda da horta para afastar os ratos. Fez cara feia, pensou o que é que o cú tem a ver com as calças e não disse nada.
Mais à noite, depois do café e do bagaço, foi o Toino Moura que lhe veio dizer que andavam a pôr umas cercas na Herdade das Bichezas para criar avestruzes.
É dessa merda das avestruzes, podes ter a certeza! – concluiu o Zé, encostado ao balcão.
Quando chegou a televisão, já ele culpava também a falta de “subsílios”.
A culpa não morre solteira.
E todos os dias o feijão tem bicho.
Pois tem – dizia o Zé da dos Barros, confirmando.
Queres ver que tá todo assim – picava-o a mulher.
Tu nem me digas isso.
Mas estava.
Nessa tarde, depois de uns copos, já culpava o vizinho mais o tratamento que tinha dado às oliveiras.
O Jaquim da Moca meteu-lhe mais ferro, que era do efeito de estufa.
O cunhado que foi lá jantar, perguntou-lhe se ele tinha posto cabelos à roda da horta para afastar os ratos. Fez cara feia, pensou o que é que o cú tem a ver com as calças e não disse nada.
Mais à noite, depois do café e do bagaço, foi o Toino Moura que lhe veio dizer que andavam a pôr umas cercas na Herdade das Bichezas para criar avestruzes.
É dessa merda das avestruzes, podes ter a certeza! – concluiu o Zé, encostado ao balcão.
Quando chegou a televisão, já ele culpava também a falta de “subsílios”.
A culpa não morre solteira.
E todos os dias o feijão tem bicho.
29 dezembro 2003
O chefe e o técnico
Primeiro foi o chefe.
Todos tinham que ser chefes. Operário-chefe, maquinista-chefe, chefe de vendas.
Não havia restaurantes mais populares do que esses onde se ouvia um “Ò chefe!” a cada três minutos.
Depois, já não bastava.
Era preciso ser técnico. Técnico de vendas, técnico de compras, auxiliar técnico.
Uma certa necessidade de promoção semântica, desvalorizada rapidamente pela inflação.
Mas a moda há-de passar.
Se assim não fosse, ainda haveria reposteiros, almotáceis, aguadeiros, uns mores outros não.
Primeiro foi o chefe.
Todos tinham que ser chefes. Operário-chefe, maquinista-chefe, chefe de vendas.
Não havia restaurantes mais populares do que esses onde se ouvia um “Ò chefe!” a cada três minutos.
Depois, já não bastava.
Era preciso ser técnico. Técnico de vendas, técnico de compras, auxiliar técnico.
Uma certa necessidade de promoção semântica, desvalorizada rapidamente pela inflação.
Mas a moda há-de passar.
Se assim não fosse, ainda haveria reposteiros, almotáceis, aguadeiros, uns mores outros não.
O Colégio do Bom Senso
Às vezes penso que devia existir uma instituição assim.
Acima da Lei, derradeiro recurso em todas as circunstâncias.
Não existe ainda em certas sociedades o apelo à sabedoria dos velhos, para esclarecer questões mais complicadas?
Não seria um tribunal, não seria um senado, não teria que se sujeitar a lei escrita ou consuetudinária.
Apenas um colégio de homens-bons com o poder supremo de utilizar o bom senso e contrariar o Direito, se necessário.
Uma utopia. Eu sei.
Como escolher as pessoas certas?
Mas que faz falta, faz.
Alguém vê o bom senso por aí, seja lá isso o que fôr?
Às vezes penso que devia existir uma instituição assim.
Acima da Lei, derradeiro recurso em todas as circunstâncias.
Não existe ainda em certas sociedades o apelo à sabedoria dos velhos, para esclarecer questões mais complicadas?
Não seria um tribunal, não seria um senado, não teria que se sujeitar a lei escrita ou consuetudinária.
Apenas um colégio de homens-bons com o poder supremo de utilizar o bom senso e contrariar o Direito, se necessário.
Uma utopia. Eu sei.
Como escolher as pessoas certas?
Mas que faz falta, faz.
Alguém vê o bom senso por aí, seja lá isso o que fôr?
28 dezembro 2003
A natureza e o tempo
Tomemos como bom que o conceito de natureza é o conjunto da matéria original do planeta Terra e tudo a que ela deu origem, com o tempo.
Tomemo-lo inevitavelmente num sentido um pouco mais lato, incluindo os factores exteriores mais conhecidos e indispensáveis: os raios solares, a atracção gravitacional da lua e a matéria cósmica que penetra no sistema terreno.
Nada disto parece controverso.
Já o tempo, que é um elemento integrante deste conceito, é impossível de definir.
A Natureza é uma nomia inventada pelo homem para designar algo que compreendeu (no sentido matemático) - algo com o qual formou conjunto. Mesmo que os contornos desse conjunto não sejam muito precisos quanto aos factores externos e quanto à origem primordial dos seus elementos.
Mas o conceito existe, é universal e aceite.
Não sabemos então o que é o tempo.
Temos a ideia de que actua sobre a matéria e que a transforma.
Dizemos que as coisas envelhecem naturalmente com o tempo.
Aceitamos assim que a natureza se transforma com o tempo, não deixando de ser natureza, como decorre do conceito.
Às vezes confundimos algumas coisas: foi a Natureza ou o tempo que destruiu os dinossauros? É claro que foi a Natureza. O tempo é apenas um dos factores que a integram e que dá sentido ao conceito.
De acordo com o que conhecemos e pensamos conhecer, se o tempo não fosse um factor integrante, toda a Natureza estaria no seu estado natural, primordial. Haveria um momento natural, nada mais.
Aceitemos então definitivamente o conceito.
Ao fazê-lo, não podemos deixar de incluir o homem como elemento integrante do conjunto natureza.
E sendo-o, é, por agora, tão importante como os castores, as formigas, os abetos, o granito.
O tempo transformou coisas com outros nomes em castores, em formigas, em abetos, em granito.
Em homens.
São então formigas e castores elementos naturais (elementos do conjunto natureza).
E os homens.
Sendo as formigas elementos deste conjunto, os formigueiros sê-lo-ão também?
Sendo os castores elementos deste conjunto, as barragens sê-lo-ão também?
Serão os expedientes de cada um dos elementos integrantes, elementos de outro conjunto que não o inicial?
A função criação de será uma função em N (conjunto natureza)?
Não poderá deixar de o ser.
O conceito de natureza a isso obriga.
Vamos então ao homem.
É ele um elemento natural?
Não encontro nenhum argumento que o contradiga, a não ser a visão antropocêntrica do mundo, que coloca o homem numa dimensão à parte.
A verdade é que, mesmo para os dependentes desta maneira de ver, é necessário recorrer à classificação do homem como elemento natural (animal) para teorizar sobre certos fenómenos.
Passarei pois adiante sem me deter neste aspecto.
Outro argumento que me parece pouco polémico é que grande parte, diria quase a totalidade da massa de problemas com que nos debatemos, dos fenómenos visíveis, é consequência da intervenção humana sobre o planeta, porventura será esta constatação, ela própria decorrente do antropocentrismo.
Assim, direi que para todos os que não têm uma ideia consistente do que é ou não natural, a maioria dos fenómenos visíveis é de origem não-natural ou humana.
Ora, não havendo dúvida de que o homem pertence ao conjunto N, todas as suas criações não poderão também deixar de pertencer-lhe.
É aqui que desaparecem conceitos como artificial, laboratorial, sintético(?!), nas asserções anti-naturais a que nos vimos habituando há algum tempo.
Tomemos como bom que o conceito de natureza é o conjunto da matéria original do planeta Terra e tudo a que ela deu origem, com o tempo.
Tomemo-lo inevitavelmente num sentido um pouco mais lato, incluindo os factores exteriores mais conhecidos e indispensáveis: os raios solares, a atracção gravitacional da lua e a matéria cósmica que penetra no sistema terreno.
Nada disto parece controverso.
Já o tempo, que é um elemento integrante deste conceito, é impossível de definir.
A Natureza é uma nomia inventada pelo homem para designar algo que compreendeu (no sentido matemático) - algo com o qual formou conjunto. Mesmo que os contornos desse conjunto não sejam muito precisos quanto aos factores externos e quanto à origem primordial dos seus elementos.
Mas o conceito existe, é universal e aceite.
Não sabemos então o que é o tempo.
Temos a ideia de que actua sobre a matéria e que a transforma.
Dizemos que as coisas envelhecem naturalmente com o tempo.
Aceitamos assim que a natureza se transforma com o tempo, não deixando de ser natureza, como decorre do conceito.
Às vezes confundimos algumas coisas: foi a Natureza ou o tempo que destruiu os dinossauros? É claro que foi a Natureza. O tempo é apenas um dos factores que a integram e que dá sentido ao conceito.
De acordo com o que conhecemos e pensamos conhecer, se o tempo não fosse um factor integrante, toda a Natureza estaria no seu estado natural, primordial. Haveria um momento natural, nada mais.
Aceitemos então definitivamente o conceito.
Ao fazê-lo, não podemos deixar de incluir o homem como elemento integrante do conjunto natureza.
E sendo-o, é, por agora, tão importante como os castores, as formigas, os abetos, o granito.
O tempo transformou coisas com outros nomes em castores, em formigas, em abetos, em granito.
Em homens.
São então formigas e castores elementos naturais (elementos do conjunto natureza).
E os homens.
Sendo as formigas elementos deste conjunto, os formigueiros sê-lo-ão também?
Sendo os castores elementos deste conjunto, as barragens sê-lo-ão também?
Serão os expedientes de cada um dos elementos integrantes, elementos de outro conjunto que não o inicial?
A função criação de será uma função em N (conjunto natureza)?
Não poderá deixar de o ser.
O conceito de natureza a isso obriga.
Vamos então ao homem.
É ele um elemento natural?
Não encontro nenhum argumento que o contradiga, a não ser a visão antropocêntrica do mundo, que coloca o homem numa dimensão à parte.
A verdade é que, mesmo para os dependentes desta maneira de ver, é necessário recorrer à classificação do homem como elemento natural (animal) para teorizar sobre certos fenómenos.
Passarei pois adiante sem me deter neste aspecto.
Outro argumento que me parece pouco polémico é que grande parte, diria quase a totalidade da massa de problemas com que nos debatemos, dos fenómenos visíveis, é consequência da intervenção humana sobre o planeta, porventura será esta constatação, ela própria decorrente do antropocentrismo.
Assim, direi que para todos os que não têm uma ideia consistente do que é ou não natural, a maioria dos fenómenos visíveis é de origem não-natural ou humana.
Ora, não havendo dúvida de que o homem pertence ao conjunto N, todas as suas criações não poderão também deixar de pertencer-lhe.
É aqui que desaparecem conceitos como artificial, laboratorial, sintético(?!), nas asserções anti-naturais a que nos vimos habituando há algum tempo.
A discussão pendurada
Ainda faltavam oito anos para a campanha do PS de 95, e ainda não se discutia, sem se ler, a obra do Prof. Damásio.
Razão e emoção não andavam assim tanto nas bocas do mundo.
Discutia-se arquitectura. Na medida em que ela é discutível ou não.
E houve quem, no meio disso, dissesse que a Matemática, por ser uma ciência-ferramenta, de construção e complexidade humanas, e não ser uma ciência de exploração e desconstrução de complexidade universal, estava absolutamente dependente da razão, ao contrário das outras, da Física, da Química... mais sujeitas ao contributo da emoção.
Houve quem se levantasse e tentasse argumentar contra.
O professor entendeu que a discussão se desviava muito do tema. Ele próprio também tinha a sua opinião e o seu partido, mas que isso ficaria para depois da ordem do dia.
E ficou. Até hoje.
O que eu gostava de juntar as mesmas pessoas.
Ainda faltavam oito anos para a campanha do PS de 95, e ainda não se discutia, sem se ler, a obra do Prof. Damásio.
Razão e emoção não andavam assim tanto nas bocas do mundo.
Discutia-se arquitectura. Na medida em que ela é discutível ou não.
E houve quem, no meio disso, dissesse que a Matemática, por ser uma ciência-ferramenta, de construção e complexidade humanas, e não ser uma ciência de exploração e desconstrução de complexidade universal, estava absolutamente dependente da razão, ao contrário das outras, da Física, da Química... mais sujeitas ao contributo da emoção.
Houve quem se levantasse e tentasse argumentar contra.
O professor entendeu que a discussão se desviava muito do tema. Ele próprio também tinha a sua opinião e o seu partido, mas que isso ficaria para depois da ordem do dia.
E ficou. Até hoje.
O que eu gostava de juntar as mesmas pessoas.
Imagens e música
Primeiro foram os tele-discos, os clips ou o que quer que seja.
Agora, estamos na fase dos DVD.
Mas a ideia assombrosa é sempre a mesma: impingirem-nos umas imagens a acompanhar a música.
Como se cada um de nós não tivesse as suas imagens associadas a cada melodia. Como se tivesse alguma utilidade.
E não terá? Não será mais uma forma de uniformização?
Primeiro foram os tele-discos, os clips ou o que quer que seja.
Agora, estamos na fase dos DVD.
Mas a ideia assombrosa é sempre a mesma: impingirem-nos umas imagens a acompanhar a música.
Como se cada um de nós não tivesse as suas imagens associadas a cada melodia. Como se tivesse alguma utilidade.
E não terá? Não será mais uma forma de uniformização?
27 dezembro 2003
26 dezembro 2003
Iagos e Vídeos
Ainda não encontrei uma explicação satisfatória para haver Tiagos e não haver Tantónios.
Excepção feita a Tantónio Barbosa, o violinista, que não conheço.
Claro que confirma a regra.
Mas e os Tonofres? Os Teliseus? Apenas o Bonfim Machado, motorista suponho que em Rio Branco?
Não percebo. Porque é que os Tiagos proliferaram e os outros não?
Deve haver alguma conjura secreta.
Por aqui, vamo-nos contentando com o Santo Vídeo, ou Santo Bídeo. Ali para Gaia.
Em dia de São Testêvão.
imagem em
Ainda não encontrei uma explicação satisfatória para haver Tiagos e não haver Tantónios.
Excepção feita a Tantónio Barbosa, o violinista, que não conheço.
Claro que confirma a regra.
Mas e os Tonofres? Os Teliseus? Apenas o Bonfim Machado, motorista suponho que em Rio Branco?
Não percebo. Porque é que os Tiagos proliferaram e os outros não?
Deve haver alguma conjura secreta.
Por aqui, vamo-nos contentando com o Santo Vídeo, ou Santo Bídeo. Ali para Gaia.
Em dia de São Testêvão.
imagem em
Bifes e alcatrão
Lá vem mais uma vaga contra a vaca.
É assim de vez em quando.
Há, no entanto, um explicação que me falta:
Porque é que as pessoas que se eximem de comer carne de vaca, continuam a viajar de carro?
Não só não atinjo a lógica da coisa como tenho o palpite que, se seguissem a voz da razão, as estradas ficariam muito menos perigosas.
Ou não seria assim?
Isto não tem nada a ver com os vegetarianos, obviamente.
Lá vem mais uma vaga contra a vaca.
É assim de vez em quando.
Há, no entanto, um explicação que me falta:
Porque é que as pessoas que se eximem de comer carne de vaca, continuam a viajar de carro?
Não só não atinjo a lógica da coisa como tenho o palpite que, se seguissem a voz da razão, as estradas ficariam muito menos perigosas.
Ou não seria assim?
Isto não tem nada a ver com os vegetarianos, obviamente.
25 dezembro 2003
A noite de Natal
26 anos depois
Acordarem-nos naquela fase inicial do sono é o que dá.
A noite de Natal era apenas uma noite mais de diversão.
Um bailarico, as amigas do costume.
Ainda entrámos em palco mas não nos deixaram substituir os nossos amigos instrumentistas.
E à cama cheguei tarde e a más horas.
E fui acordado menos de uma horita depois, pela minha mãe (nem ouvi as pancadas na porta):
"Está ali um amigo teu que precisa de ajuda!"
Fui ver. O A.M. estava à porta, enregelado e a rir-se. Eu a tentar perceber porque é que ele não tinha ido para casa.
Como a noite era de forte geadão, eu já tinha saído do quarto equipado com samarra e botas caneleiras.
E ele a rir-se. "Eh, pá, tive dois furos..."
"Dois furos?"
Agora, era eu quem esboçava um sorriso: "Dois furos?"
"Sim! Desenrasca-me lá! Tive que vir à boleia numa bicicleta a motor."
Fui dizer ao meu pai que eram dois furos, que o rapaz precisava de ajuda: "Posso levar o carro outra vez?"
O meu pai a calcular outras aventuras mas admirado por me ver de pijama e samarra. Afinal...
Lá fomos.
O moço tinha saído da estrada numa recta, deu-lhe o sono e lá estava a carrinha com duas rodas na valeta.
O primo da namorada enregelado e enrolado no banco olhava para nós como para um filme que ele teimava em ver, lutando contra o sono.
Foi quando passou um matinal, fumegante e admirado motociclista que eu me dei conta que estava a começar o dia de Natal no meio do mato, em pijama.
Lá desmontámos as duas rodas, deixámos a carrinha ancorada nos macacos e ala para casa do M.V. que ele é que percebe de oficinas.
Mas ainda me lembrei de ir a casa vestir-me.
Quando chegámos a casa do outro, ainda eram sete e tal.
Relutantemente, lá nos abriram a porta e encaminharam para o quarto do moço.
Acordou connosco a abanar a cama.
Ria-se, ria-se, só se ria.
"Tal não foi o espectáculo?" - e sufocava ao rir-se deitado na cama. E a gente a baralhá-lo, a contar-lhe histórias.
É claro que foi depois preciso uma boa meia-hora para o convencer definitivamente de que o caso era urgente.
E lá o arrancámos da cama, a caminho da estação de serviço.
Depois de arranjar as cacetadas nas jantes e de remendar os furos, de voltar uns bons vinte e tal quilómetros até à carrinha e pôr tudo em condições, dei comigo ao meio-dia de Natal a beber conhaques e a fumar charutos espanhóis, no café das bombas de gasolina.
Mas já não estava em pijama.
Alguém devia estar à nossa espera para o almoço.
imagem em
26 anos depois
Acordarem-nos naquela fase inicial do sono é o que dá.
A noite de Natal era apenas uma noite mais de diversão.
Um bailarico, as amigas do costume.
Ainda entrámos em palco mas não nos deixaram substituir os nossos amigos instrumentistas.
E à cama cheguei tarde e a más horas.
E fui acordado menos de uma horita depois, pela minha mãe (nem ouvi as pancadas na porta):
"Está ali um amigo teu que precisa de ajuda!"
Fui ver. O A.M. estava à porta, enregelado e a rir-se. Eu a tentar perceber porque é que ele não tinha ido para casa.
Como a noite era de forte geadão, eu já tinha saído do quarto equipado com samarra e botas caneleiras.
E ele a rir-se. "Eh, pá, tive dois furos..."
"Dois furos?"
Agora, era eu quem esboçava um sorriso: "Dois furos?"
"Sim! Desenrasca-me lá! Tive que vir à boleia numa bicicleta a motor."
Fui dizer ao meu pai que eram dois furos, que o rapaz precisava de ajuda: "Posso levar o carro outra vez?"
O meu pai a calcular outras aventuras mas admirado por me ver de pijama e samarra. Afinal...
Lá fomos.
O moço tinha saído da estrada numa recta, deu-lhe o sono e lá estava a carrinha com duas rodas na valeta.
O primo da namorada enregelado e enrolado no banco olhava para nós como para um filme que ele teimava em ver, lutando contra o sono.
Foi quando passou um matinal, fumegante e admirado motociclista que eu me dei conta que estava a começar o dia de Natal no meio do mato, em pijama.
Lá desmontámos as duas rodas, deixámos a carrinha ancorada nos macacos e ala para casa do M.V. que ele é que percebe de oficinas.
Mas ainda me lembrei de ir a casa vestir-me.
Quando chegámos a casa do outro, ainda eram sete e tal.
Relutantemente, lá nos abriram a porta e encaminharam para o quarto do moço.
Acordou connosco a abanar a cama.
Ria-se, ria-se, só se ria.
"Tal não foi o espectáculo?" - e sufocava ao rir-se deitado na cama. E a gente a baralhá-lo, a contar-lhe histórias.
É claro que foi depois preciso uma boa meia-hora para o convencer definitivamente de que o caso era urgente.
E lá o arrancámos da cama, a caminho da estação de serviço.
Depois de arranjar as cacetadas nas jantes e de remendar os furos, de voltar uns bons vinte e tal quilómetros até à carrinha e pôr tudo em condições, dei comigo ao meio-dia de Natal a beber conhaques e a fumar charutos espanhóis, no café das bombas de gasolina.
Mas já não estava em pijama.
Alguém devia estar à nossa espera para o almoço.
imagem em
24 dezembro 2003
Gato persa
Elidir os factos
Submersos ou não
Empurrar os dados
Com as costas da mão.
Tombar registos
Evitar ciladas
Entrar pelos vistos
Nas noites veladas.
Semear percalços
Envoltos em pó
Contornar os traços
De rectas, a só.
Empilhar retratos
De outras idades
Vestir novos fatos
Em novas cidades.
SG, inéditos, 2002
Elidir os factos
Submersos ou não
Empurrar os dados
Com as costas da mão.
Tombar registos
Evitar ciladas
Entrar pelos vistos
Nas noites veladas.
Semear percalços
Envoltos em pó
Contornar os traços
De rectas, a só.
Empilhar retratos
De outras idades
Vestir novos fatos
Em novas cidades.
SG, inéditos, 2002
23 dezembro 2003
O nó da gravata
Há poucas coisas que sejam mais de homem para homem, de pai para filho, do que a transmissão da técnica do nó da gravata.
Todas as excepções confirmam a regra.
Um dia, sem se saber porquê, coloca-se uma gravata à volta do pescoço.
E de repente, damo-nos conta que não sabemos fazer o nó: “Pai!”
E o segredo transmite-se, frente a um espelho.
Pura magia.
Eu herdei o four-in-hand
imagem composta a partir de
Há poucas coisas que sejam mais de homem para homem, de pai para filho, do que a transmissão da técnica do nó da gravata.
Todas as excepções confirmam a regra.
Um dia, sem se saber porquê, coloca-se uma gravata à volta do pescoço.
E de repente, damo-nos conta que não sabemos fazer o nó: “Pai!”
E o segredo transmite-se, frente a um espelho.
Pura magia.
Eu herdei o four-in-hand
imagem composta a partir de
Um susto de morte
Mais uns envelopes a monte na caixa do correio.
Propaganda. Mas também alguns catálogos que eu pedira.
Fui abrindo, da embalagem mais mal apresentada à mais interessante, o tal fecho com chave de ouro.
O último envelope era gordo. Catálogos, tabelas, fichas técnicas.
Uma brochura sobre a fábrica.
Abri. Papel de qualidade, boas fotografias.
E um susto de morte ou algo parecido.
A páginas tantas, no laboratório da fábrica, estava eu a olhar atentamente para alguma coisa sobre uma mesa. Não, não era a imagem do espelho de fazer a barba. Era mesmo a minha fotografia, igual a tantas outras semelhantes.
Ainda hoje não sei quem era o homem da foto. Também nunca fui à procura dele. Talvez um irmão gémeo.
Mais uns envelopes a monte na caixa do correio.
Propaganda. Mas também alguns catálogos que eu pedira.
Fui abrindo, da embalagem mais mal apresentada à mais interessante, o tal fecho com chave de ouro.
O último envelope era gordo. Catálogos, tabelas, fichas técnicas.
Uma brochura sobre a fábrica.
Abri. Papel de qualidade, boas fotografias.
E um susto de morte ou algo parecido.
A páginas tantas, no laboratório da fábrica, estava eu a olhar atentamente para alguma coisa sobre uma mesa. Não, não era a imagem do espelho de fazer a barba. Era mesmo a minha fotografia, igual a tantas outras semelhantes.
Ainda hoje não sei quem era o homem da foto. Também nunca fui à procura dele. Talvez um irmão gémeo.
22 dezembro 2003
Em torno de um berbequim
Também já ninguém se lembra.
Eu próprio confesso que não me lembro dos intervenientes, nem do local.
Mas lembro-me do conteúdo.
Tratava-se do arranjo formal de uma determinada calçada à portuguesa (perdoem-me todas as incorrecções).
Creio que o autor do projecto pretendia incluir motivos da contemporânea idade no desenho da calçada.
Entre outros objectos, figuravam berbequins.
Levantou-se logo o habitual coro de protestos.
Continuo sem saber muito bem como é que se discute uma obra de arte, mas isso é outra história.
Agora que se levantassem contra os berbequins, é a habitual tacanhez pura e dura.
Não fazem eles parte da nossa vida quotidiana? Não precisamos deles todos os dias?
Não os mencionou António Lobo Antunes nos seus livros? Não está lá toda a nossa vidinha?
Os motivos manuelinos vieram de que século?
Arre macho, mais uma vez! Ponham lá os berbequins, os discos compactos, as jantes, os telemóveis, caramba!
imagem de acordo com o modelo 7152 da B&D, segundo catálogo
Também já ninguém se lembra.
Eu próprio confesso que não me lembro dos intervenientes, nem do local.
Mas lembro-me do conteúdo.
Tratava-se do arranjo formal de uma determinada calçada à portuguesa (perdoem-me todas as incorrecções).
Creio que o autor do projecto pretendia incluir motivos da contemporânea idade no desenho da calçada.
Entre outros objectos, figuravam berbequins.
Levantou-se logo o habitual coro de protestos.
Continuo sem saber muito bem como é que se discute uma obra de arte, mas isso é outra história.
Agora que se levantassem contra os berbequins, é a habitual tacanhez pura e dura.
Não fazem eles parte da nossa vida quotidiana? Não precisamos deles todos os dias?
Não os mencionou António Lobo Antunes nos seus livros? Não está lá toda a nossa vidinha?
Os motivos manuelinos vieram de que século?
Arre macho, mais uma vez! Ponham lá os berbequins, os discos compactos, as jantes, os telemóveis, caramba!
imagem de acordo com o modelo 7152 da B&D, segundo catálogo
Ainda as viagens de automóvel
Já não sou do tempo dos quilómetros de arranque.
Experimentei apenas as vertigens das rectas de Pegões e de Alcácer.
E consegui uma coisa de que eu próprio me admiro, atravessar a Península Ibérica cruzando, ultrapassando e sendo ultrapassado por uma escassa dúzia de automóveis. E sempre por estrada alcatroada.
Tenho a nostalgia do pouco trânsito. Um elitismo sem sentido e sem objectivo.
Possa eu traçar rotas ignotas que sempre encontrarei companhia. Já nada como dantes.
Mas ainda faço viagens só por fazer. Fora de época, em dias de semana e para sítios onde quase ninguém vai.
Cada vez mais, fujo da estrada se ela me irrita. E ela irrita-me em épocas destas. Não me mexo.
O menino Jesus terá de apanhar-me de outra maneira.
Já não sou do tempo dos quilómetros de arranque.
Experimentei apenas as vertigens das rectas de Pegões e de Alcácer.
E consegui uma coisa de que eu próprio me admiro, atravessar a Península Ibérica cruzando, ultrapassando e sendo ultrapassado por uma escassa dúzia de automóveis. E sempre por estrada alcatroada.
Tenho a nostalgia do pouco trânsito. Um elitismo sem sentido e sem objectivo.
Possa eu traçar rotas ignotas que sempre encontrarei companhia. Já nada como dantes.
Mas ainda faço viagens só por fazer. Fora de época, em dias de semana e para sítios onde quase ninguém vai.
Cada vez mais, fujo da estrada se ela me irrita. E ela irrita-me em épocas destas. Não me mexo.
O menino Jesus terá de apanhar-me de outra maneira.
No tempo em que os carros eram assim
E as estradas tinham marcos brancos nas curvas de montanha, os camiões fumegavam de velhice e as bombas de gasolina eram por vezes obras de arte, era difícil encontrar-se o que comer em certas zonas.
Naquela passagem de nivel havia uma taberna com maravilhosas sandes de presunto e paio.
Para a meia-hora que às vezes demorava o comboio, havia sempre o conforto do pão fresco e da carne bem curada.
Era vê-lo, ao dono da casa, de carro em carro, a fazer negócio.
Quando começaram as obras da passagem superior, amaldiçoava os pobres operários.
Houve até quem tivesse falado em apedrejamentos.
A obra ficou pronta há uns trinta anos.
No outro dia, fiz um desvio e fui espreitar a velha passagem de nível.
A taberna é agora um café.
Nada indica que haja saborosas sandes de paio e de presunto.
imagem adaptada do Armstrong Siddeley Saphire em
E as estradas tinham marcos brancos nas curvas de montanha, os camiões fumegavam de velhice e as bombas de gasolina eram por vezes obras de arte, era difícil encontrar-se o que comer em certas zonas.
Naquela passagem de nivel havia uma taberna com maravilhosas sandes de presunto e paio.
Para a meia-hora que às vezes demorava o comboio, havia sempre o conforto do pão fresco e da carne bem curada.
Era vê-lo, ao dono da casa, de carro em carro, a fazer negócio.
Quando começaram as obras da passagem superior, amaldiçoava os pobres operários.
Houve até quem tivesse falado em apedrejamentos.
A obra ficou pronta há uns trinta anos.
No outro dia, fiz um desvio e fui espreitar a velha passagem de nível.
A taberna é agora um café.
Nada indica que haja saborosas sandes de paio e de presunto.
imagem adaptada do Armstrong Siddeley Saphire em
21 dezembro 2003
Fahrenheit 451
Às vezes, tudo é cinema.
Naquela manhã, do alto da chaminé industrial, chamei pelo telefone um velho amigo do complexo fabril.
Precisava de energia. Vi-o chegar, desgrenhado como sempre, gesticulando para a direita e para a esquerda enquanto falava ao telefone com alguém.
Era um peão, uns bons metros abaixo.
Depois, o meu telefone tocou. Que estava tudo arranjado, dizia-me com o braço livre a desenhar gestos no ar.
Quando desci, já ele se retirara.
Mas passados minutos, chegou outra personagem, impecável no seu fato vermelho de bombeiro, capacete anos 60, ao volante de um pequeno jipe que trazia atrelado um gerador, tudo vermelho. Reconheci-o de imediato, era Montag.
imagem do filme em
Às vezes, tudo é cinema.
Naquela manhã, do alto da chaminé industrial, chamei pelo telefone um velho amigo do complexo fabril.
Precisava de energia. Vi-o chegar, desgrenhado como sempre, gesticulando para a direita e para a esquerda enquanto falava ao telefone com alguém.
Era um peão, uns bons metros abaixo.
Depois, o meu telefone tocou. Que estava tudo arranjado, dizia-me com o braço livre a desenhar gestos no ar.
Quando desci, já ele se retirara.
Mas passados minutos, chegou outra personagem, impecável no seu fato vermelho de bombeiro, capacete anos 60, ao volante de um pequeno jipe que trazia atrelado um gerador, tudo vermelho. Reconheci-o de imediato, era Montag.
imagem do filme em
20 dezembro 2003
Somos todos bonzinhos
E muito coerentes.
Caramba! Mas que coerência é que há na sobrevivência?
O homem, o animal, e os estados que criou regem-se pelo único critério possível: a sobrevivência.
Bonzinhos? Somos todos bonzinhos e muito coerentes.
Alguns não sobreviveram. É tudo uma questão de energia. Não é isso a lei do mais forte?
Alguma novidade à face da terra?
E muito coerentes.
Caramba! Mas que coerência é que há na sobrevivência?
O homem, o animal, e os estados que criou regem-se pelo único critério possível: a sobrevivência.
Bonzinhos? Somos todos bonzinhos e muito coerentes.
Alguns não sobreviveram. É tudo uma questão de energia. Não é isso a lei do mais forte?
Alguma novidade à face da terra?
Só me lembro disto
O Espírito de Natal
Por mais voltas que dê, não encontro o Espírito.
Todos os temos, julgo eu, enquanto crianças. Mesmo que seja humana a proveniência dos presentes.
Mas depois desse período, passou-me. Acho que de vez.
De cada vez que observo a cavalgada das compras a toque de caixa, mais se acrescenta o tédio.
Será por não haver crianças por perto? É possível.
O certo é que o espírito passa ao largo e não há rena que me dê coice.
Não me interessam presentes, nem dá-los nem recebê-los.
Gosto de dar uma prenda sem que haja uma data imposta para o fazer.
Não me importo nada de as receber de surpresa.
Mas de Natal, já só me resta a memória do T.P.F..
Sejam felizes.
O Espírito de Natal
Por mais voltas que dê, não encontro o Espírito.
Todos os temos, julgo eu, enquanto crianças. Mesmo que seja humana a proveniência dos presentes.
Mas depois desse período, passou-me. Acho que de vez.
De cada vez que observo a cavalgada das compras a toque de caixa, mais se acrescenta o tédio.
Será por não haver crianças por perto? É possível.
O certo é que o espírito passa ao largo e não há rena que me dê coice.
Não me interessam presentes, nem dá-los nem recebê-los.
Gosto de dar uma prenda sem que haja uma data imposta para o fazer.
Não me importo nada de as receber de surpresa.
Mas de Natal, já só me resta a memória do T.P.F..
Sejam felizes.
Direita e esquerda
Alguns autores afirmam que para algumas populações esquimós estes conceitos não existem.
Não faço a menor ideia se isso é extensivo a outros grupos humanos ou não.
Mas sei que, no sítio de onde venho, eram conceitos de utilidade muito acessória.
Muito poucas vezes se referiam as coisas na topologia doméstica ou rústica usando tais noções.
Usava-se recorrentemente o: ao pé de; por detrás de; à frente de; diante de; lado de cá; lado de lá; debaixo de; em cima de; para ao lado de. Todos referidos a lugares bem determinados quer no exterior, quer no interior das casas.
Também não faço a menor ideia de quais as razões que sustentam essa ausência nem sequer se tais características se repetem em zonas mais ou menos vizinhas.
Curiosamente, ao vir-me isto hoje à cabeça, também não encontrei nada sobre o assunto no mundo dos motores de busca. Apenas exercícios para ensinar os dois conceitos às crianças.
Alguns autores afirmam que para algumas populações esquimós estes conceitos não existem.
Não faço a menor ideia se isso é extensivo a outros grupos humanos ou não.
Mas sei que, no sítio de onde venho, eram conceitos de utilidade muito acessória.
Muito poucas vezes se referiam as coisas na topologia doméstica ou rústica usando tais noções.
Usava-se recorrentemente o: ao pé de; por detrás de; à frente de; diante de; lado de cá; lado de lá; debaixo de; em cima de; para ao lado de. Todos referidos a lugares bem determinados quer no exterior, quer no interior das casas.
Também não faço a menor ideia de quais as razões que sustentam essa ausência nem sequer se tais características se repetem em zonas mais ou menos vizinhas.
Curiosamente, ao vir-me isto hoje à cabeça, também não encontrei nada sobre o assunto no mundo dos motores de busca. Apenas exercícios para ensinar os dois conceitos às crianças.
19 dezembro 2003
Gaba-te, cesto - mais vale umas botas
Então não aprendi nada com as mulheres?
Aprendi, pois claro.
Sei o que é fazer pendant, parure ou toilette e muitas outras coisas que não são para aqui chamadas.
Certa vez, discuti até o classicismo no vestuário, à varanda de uma casa em obras, enquanto os pedreiros não chegavam.
Fui então rotulado de classicista trangressor, o que era muito interessante, na opinião dela. Talvez por usar botas caneleiras com fato e gravata.
Cá para mim, não fosse eu um mocinho jeitoso nessa época, haveria de servir de muito um par de botas.
Mas ainda não sei o que é um traje clássico.
imagem adaptada de http://www.cm-arraiolos.pt/artesanato/artesanato.htm
Então não aprendi nada com as mulheres?
Aprendi, pois claro.
Sei o que é fazer pendant, parure ou toilette e muitas outras coisas que não são para aqui chamadas.
Certa vez, discuti até o classicismo no vestuário, à varanda de uma casa em obras, enquanto os pedreiros não chegavam.
Fui então rotulado de classicista trangressor, o que era muito interessante, na opinião dela. Talvez por usar botas caneleiras com fato e gravata.
Cá para mim, não fosse eu um mocinho jeitoso nessa época, haveria de servir de muito um par de botas.
Mas ainda não sei o que é um traje clássico.
imagem adaptada de http://www.cm-arraiolos.pt/artesanato/artesanato.htm
Tíbia 7.11
Devo aos pára-quedistas um sem-número de dicas.
Fiquei a saber que se joga Tíbia e que há qualquer coisa de complicado com o Minotauro.
Que há uns jogos de carros ena ig sobre os quais o único sítio do mundo onde se pode encontrar informação é aqui, no H G U, segundo o MSN Brasil.
Que há um sítio estranho, chamado cave do totoloto, de onde aparentemente saem as chaves todas as semanas.
Que há uns calendários que são tios de alguém. Deve ser alguma família lá das minhas bandas, onde já existe o Pouco Tempo.
Mas há também quem procure coisas como nas páginas amarelas.
Da Holanda (vejam este post), chegou o pedido de informação sobre o endereço postal da garagem (?) Ford de Setúbal. Lamento, talvez a Ford Portugal tenha essa informação on-line.
E há quem queira saber da geometria no presépio.
E claro, continuam os pedidos para adivinhar as chaves dos habituais concursos da Santa Casa. É estranho que ninguém peça o número da lotaria do Natal.
Pedem-me ainda mapas. É escusado, não dou informações de trânsito. O trabalhão que me dá evitar as filas em época festiva. Nem pensar.
Houve até alguém que pensou que era eu o detentor do segredo do molho 365, o das bifanas. Francamente.
Não bata a cabeça à toa - acham que isto é pesquisa que se faça? Sem aspas?
Também um dos dois únicos sítios do mundo onde há referência a uma máquina de rolhar é aqui. Está certo. Mas de que informação precisa?
Em relação ao Sado, já percebi há muito que algumas pesquisas que aqui caem não se referem aos barrancos de onde procede, é qualquer coisa a respeito de um marquês. Paciência!
Já agora, porque é que não usam as aspas? Não é assim tão difícil encontrar o que se procura.
Fico com a impressão de que 99% das demandas são feitas por quem não tem a menor noção do que está a fazer, será assim?
Devo aos pára-quedistas um sem-número de dicas.
Fiquei a saber que se joga Tíbia e que há qualquer coisa de complicado com o Minotauro.
Que há uns jogos de carros ena ig sobre os quais o único sítio do mundo onde se pode encontrar informação é aqui, no H G U, segundo o MSN Brasil.
Que há um sítio estranho, chamado cave do totoloto, de onde aparentemente saem as chaves todas as semanas.
Que há uns calendários que são tios de alguém. Deve ser alguma família lá das minhas bandas, onde já existe o Pouco Tempo.
Mas há também quem procure coisas como nas páginas amarelas.
Da Holanda (vejam este post), chegou o pedido de informação sobre o endereço postal da garagem (?) Ford de Setúbal. Lamento, talvez a Ford Portugal tenha essa informação on-line.
E há quem queira saber da geometria no presépio.
E claro, continuam os pedidos para adivinhar as chaves dos habituais concursos da Santa Casa. É estranho que ninguém peça o número da lotaria do Natal.
Pedem-me ainda mapas. É escusado, não dou informações de trânsito. O trabalhão que me dá evitar as filas em época festiva. Nem pensar.
Houve até alguém que pensou que era eu o detentor do segredo do molho 365, o das bifanas. Francamente.
Não bata a cabeça à toa - acham que isto é pesquisa que se faça? Sem aspas?
Também um dos dois únicos sítios do mundo onde há referência a uma máquina de rolhar é aqui. Está certo. Mas de que informação precisa?
Em relação ao Sado, já percebi há muito que algumas pesquisas que aqui caem não se referem aos barrancos de onde procede, é qualquer coisa a respeito de um marquês. Paciência!
Já agora, porque é que não usam as aspas? Não é assim tão difícil encontrar o que se procura.
Fico com a impressão de que 99% das demandas são feitas por quem não tem a menor noção do que está a fazer, será assim?
18 dezembro 2003
Paris
A maior parte das vezes que qualquer de nós se encontra em meio desconhecido, o que é que sucede?
Ou temos connosco o micro-cosmos suficiente para fecharmos um universo próprio, independentemente de estarmos sòzinhos ou não, ou ficamos na defensiva a ver em que é que param as modas.
O que é invulgar e insólito é que, no mesmo lugar, se reúnam ao mesmo tempo, várias pessoas nas mesmas circunstâncias de alheamento ao local e às restantes, como que de um albergue nocturno se tratasse.
E que esse facto seja simultâneamente verificado por todos, dando lugar a uma aproximação estranha mas leal, como a que aparentemente temos sempre com o desconhecido não-invasor.
Foi de um ambiente desses, cada vez mais raro, que falámos há pouco. Não se trata de antecâmaras de aeroporto, de enfermarias de hospital de campanha, de carros parqueados em filas paralelas num grande engarrafamento, trata-se de Paris.
Da cidade das luzes ou da cidade-luz. Bizarrias.
imagem escandalosamente roubada aqui
A maior parte das vezes que qualquer de nós se encontra em meio desconhecido, o que é que sucede?
Ou temos connosco o micro-cosmos suficiente para fecharmos um universo próprio, independentemente de estarmos sòzinhos ou não, ou ficamos na defensiva a ver em que é que param as modas.
O que é invulgar e insólito é que, no mesmo lugar, se reúnam ao mesmo tempo, várias pessoas nas mesmas circunstâncias de alheamento ao local e às restantes, como que de um albergue nocturno se tratasse.
E que esse facto seja simultâneamente verificado por todos, dando lugar a uma aproximação estranha mas leal, como a que aparentemente temos sempre com o desconhecido não-invasor.
Foi de um ambiente desses, cada vez mais raro, que falámos há pouco. Não se trata de antecâmaras de aeroporto, de enfermarias de hospital de campanha, de carros parqueados em filas paralelas num grande engarrafamento, trata-se de Paris.
Da cidade das luzes ou da cidade-luz. Bizarrias.
imagem escandalosamente roubada aqui
A cadelinha plebeia
Estava prometida há anos, a cadelinha que os meus amigos nos deram há um ano e tal.
É filha de pais inscritos no Livro de Origens Português (LOP), logo poderia igualmente ter a sua inscrição no dito livro.
Sucede que, para tal e ao que me disseram, torna-se agora necessário submeter os animais a uma de duas intervenções: ou são tatuados ou se lhes insere um micro-chip.
Mais estranho: estando os pais já registados, para inscrever a ninhada era necessário fazer o mesmo aos pais, embora o regulamento não estivesse em vigor à data em que aqueles nasceram, tendo assim sido registados sem que nada disso fosse necessário.
Ninguém quis fazer isso aos cães, nem os donos dos progenitores nem os promitentes curadores dos elementos da ninhada. Logo, temos uma cambada de plebeus filhos de pais incógnitos, como era uso com os humanos nascidos em circunstâncias reprovadas, de pais fidalgos.
Só umas questões me atormentam o espírito:
Qual é o objectivo destas normas?
Se uma tatuagem é quase impossível de apagar, não é de todo impraticável viciá-la.
Um micro-chip é obviamente fácil de remover e recolocar.
E o que é que vale quando se registam cães, não é a palavra do dono?
Fazem-se alguns testes para confirmar a progenitura?
É certo que isto são banalidades, mas devem ter algum interesse para quem ganha dinheiro com estas coisas.
E sim, a cadela é um espectáculo. Mas o cão também é e desse não se sabe mesmo quem é o pai, nem sequer que tipo de cão era. Sabe-se que a mãe era boxer e que ele tem apenas vagas parecenças com a raça. E o que é que isso interessa?
Estava prometida há anos, a cadelinha que os meus amigos nos deram há um ano e tal.
É filha de pais inscritos no Livro de Origens Português (LOP), logo poderia igualmente ter a sua inscrição no dito livro.
Sucede que, para tal e ao que me disseram, torna-se agora necessário submeter os animais a uma de duas intervenções: ou são tatuados ou se lhes insere um micro-chip.
Mais estranho: estando os pais já registados, para inscrever a ninhada era necessário fazer o mesmo aos pais, embora o regulamento não estivesse em vigor à data em que aqueles nasceram, tendo assim sido registados sem que nada disso fosse necessário.
Ninguém quis fazer isso aos cães, nem os donos dos progenitores nem os promitentes curadores dos elementos da ninhada. Logo, temos uma cambada de plebeus filhos de pais incógnitos, como era uso com os humanos nascidos em circunstâncias reprovadas, de pais fidalgos.
Só umas questões me atormentam o espírito:
Qual é o objectivo destas normas?
Se uma tatuagem é quase impossível de apagar, não é de todo impraticável viciá-la.
Um micro-chip é obviamente fácil de remover e recolocar.
E o que é que vale quando se registam cães, não é a palavra do dono?
Fazem-se alguns testes para confirmar a progenitura?
É certo que isto são banalidades, mas devem ter algum interesse para quem ganha dinheiro com estas coisas.
E sim, a cadela é um espectáculo. Mas o cão também é e desse não se sabe mesmo quem é o pai, nem sequer que tipo de cão era. Sabe-se que a mãe era boxer e que ele tem apenas vagas parecenças com a raça. E o que é que isso interessa?
17 dezembro 2003
Valsas putrefactas em cima de uma mesa de pedra, lá no quintal
Ora evoluíam pelo roseiral bravio,
Ora se reorganizavam sob o zimbório que rematava o fundo do jardim.
Tudo isto numa intenção clara de apaziguar a primavera acendida
Sob o deleite que a alcoolemia lhes proporcionava no verde.
Mesmo que à porta lateral do pavilhão onde repousava o esquife
Chegassem acordes de música
Aos ouvidos dos correligionários enlutados
Que teciam pálidos encómios ao defunto
E exercitavam apetecidos conceitos de infelicidade.
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
Ora evoluíam pelo roseiral bravio,
Ora se reorganizavam sob o zimbório que rematava o fundo do jardim.
Tudo isto numa intenção clara de apaziguar a primavera acendida
Sob o deleite que a alcoolemia lhes proporcionava no verde.
Mesmo que à porta lateral do pavilhão onde repousava o esquife
Chegassem acordes de música
Aos ouvidos dos correligionários enlutados
Que teciam pálidos encómios ao defunto
E exercitavam apetecidos conceitos de infelicidade.
1985
SG, "Dizeres do Sul", 1993
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