Ano XV
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  • Carregando a cruz





    Café expresso

    Enquanto tirava mais um café, a televisão do outro lado da parede.
    Uma voz feminina pergunta:
    "Há uma tabela para a tristeza?"




    E o rock de Panóias?

    Ninguém se lembra já do famoso Festival Rock de Panóias, dedicado aos grupos portugueses emergentes na época.
    Precursor dos festivais de verão da actualidade, na linha do Vilar de Mouros primordial.
    Amplamente divulgado na rádio e nos jornais, falhou em cima da hora, já com espectadores no local.
    Ao que constou, porque os homens das bebidas se recusaram a deixar o material sem pronto pagamento.



    O meu tempo era de portões

    Nas viagens de infância, as estradas atravessavam os povoados.
    No sul, as povoações começavam com portões assim:






    O viaduto

    O viaduto é um dos chamados N.
    Um dos viadutos do acesso norte à ponte sobre o Tejo.
    Vence a avenida de Ceuta e o vale de Alcântara.
    Foi o palco trágico de um suicídio há anos.
    De quem se lançou dali para baixo.
    Apesar das imagens que passaram na televisão, toda a imprensa errou o alvo.
    Que tinha sido do viaduto Engenheiro Duarte Pacheco, umas centenas de metros a montante.
    E, como geralmente e infelizmente acontece nestas ocasiões, mais pessoas acorreram com o mesmo propósito. Desta vez ao Duarte Pacheco, conduzidas pelo erro.
    A tal ponto, que se altearam as guardas para evitar mais mortes ali.

    Isto é exemplar. De quê?




    Gasolim e o tráfego






    Gasolim e as memórias




    Preliminares

    O homem estava quase a acabar o trabalho.
    Antecipava a noitada que não iria acontecer, em terra desconhecida, enumerando os preliminares:

    Um banhinho
    Fazer a barba
    Um after-cheiro



    Algumas histórias sobre cores (1)

    João vestia uma camisa azul.
    Isabel só lhe disse:
    “Não gosto nada de camisas verdes. Que mania que tu tens com as camisas verdes.”





    Um saco no espólio

    Retirar cem anos de uma casa é o que é.
    No meio do espólio pode estar esquecido um saco de serapilheira com coisas menores:

    Uma máquina de rolhar
    Um forte do faroeste e seus soldadinhos de plástico
    Um candeeiro de desenho
    A primitiva fechadura da porta principal
    Uma tábua de passar gravatas a ferro
    Um berbequim manual
    Uma imagem de nossa senhora com a cabeça separada do resto
    Um molho de chaves de diversos tamanhos
    Um par de maçanetas originais em porcelana branca
    Um jogo da Majora
    Uma toalha de praia
    e algumas outras coisas, todas elas menores, todas elas abandonadas




    A rogo

    ... e tendo por madrinha Nossa Senhora da Assunção, que por não saber escrever, não assina...

    (extracto de uma certidão de nascimento do séc. XIX)





    O buraco do mundo

    Raramente observado, raramente fotografado





    Horas de





    O Alquimista

    é o complemento para os sons de Rafael Correia. Uma visão estrangeira sobre os nossos lugares.



    Por aí, não. Por aí.

    Há mais de vinte anos que ouço esta frase.
    Todos os sábados de manhã. Antes, entre as 7 e as 10, por vezes suscitando resmungos compreensíveis de uma mulher mal dormida.
    Agora, entre as 9 e as 11.
    Um dos mais notáveis programas de rádio sobre o sul de Portugal. Houve um tempo em que exorbitou, chegou a Trás-os-Montes e a Marrocos. Sempre à procura de sons perdidos.
    Se quiserem, entre as 9 e as 11 (TMG) de um qualquer sábado, cliquem aqui. Depois é escolher a opção audio. Mas para quem pode ouvi-lo na rádio é na Antena 1, o "Lugar ao Sul", de Rafael Correia.




    Não foi

    "Chatices da vida" o que eu escrevi na caixa de texto do Google.
    Mas o resultado foi este:



    Adivinhem.



    Destinos



    Grande parte das minhas rotas se decide de forma semelhante aquela como compro os meus livros.
    Um dia acordo e decido ir a Albergaria dos Doze.
    Noutro, espreitar o rali do Algarve e as coisas à volta.
    Ou ir a Safara, dando um salto à antiga Aldeia Nova de São Bento, hoje vila.
    Abalar para os Pitões e passar sobre a ponte da barragem das Salas até à testa de ponte, além de Tourém.
    Terreiro das Bruxas e Meimão.
    Almoster e Maçussa.
    Fazer o quê?



    Tudo o que deseja saber
    sobre isto (não, isco para motores de busca):

    Logaritmos neperianos
    Sopa de rabo de boi
    Praias da ilha do Gozo
    Claras em castelo
    Cúmulo-nimbos
    Cunhagem de moedas gregas na Finlândia
    Utilização de cortiça como calço num dínamo de um Citroën 2 cv
    Um livro chamado “A Terra não é redonda”
    O pavilhão do CDUL
    A estrada que vai de São Vicente à Ribeira da Janela
    Emissões experimentais de televisão
    Barreiras sonoras multicor
    O tempo e o modo
    Uma janela com vista para o periférico
    As rectas de Montálban
    Dióspiros maduros
    Omeletes de caranguejo
    Tiro aos pratos
    Mantas de retalhos
    Casas para alugar
    A Crítica da razão pura
    Dioptrias
    Salmos
    Gigantes
    Deambulatórios
    Tout-venant

    Não me pergunte, é escusado.
    Nem procure aqui.



    Eu posso explicar

    Esta página (H Gasolim Ultramarino) terá sido uma grande desilusão para todos aqueles que aqui caíram por acaso, lançando-se ao mar em terror pânico, ao verem os motores de busca falharem por falta de comburente, que não de combustível.
    Não encontraram nada do que pretendiam.
    Mas eu posso explicar. E entretanto, explico a mim mesmo a razão de ser de tais visitas.

    No dia 6 de Setembro, alguém quis "corrigir sotaque português". Uma suspeita terrível me assolou.
    Porque é que alguém haveria de querer semelhante coisa? E onde? Algum espião português, na melhor tradição da época seiscentista, quereria disfarçar o seu sotaque em terra inimiga? Mas aí, a escolha natural seria "disfarçar sotaque português".
    Então estou enganado, trata-se de alguém que quer aperfeiçoar o seu sotaque. É um ataque à Pátria, um pérfido emissário de qualquer potência inimiga que se quer infiltrar insidiosamente entre os nossos, tentando que o olhemos como igual.
    Um amigo meu, que às vezes dá palpites, disse-me que era outra coisa completamente diferente. Que eu só via conspirações em todo o lado.

    Mas eu posso explicar ao espião do sotaque, que tudo não passa de um grande engano, que aqui não vai aprender nada a respeito.
    Quando escrevi aquelas palavras referia-me a um amigo meu, nascido na Alemanha que é Polónia, educado em Portugal, vivendo nos Estados Unidos e casado com uma senhora brasileira.
    Como é que ele conseguia manter o seu irrepreensível sotaque português?
    Quero dizer, como é isso possível estando casado há tantos anos com uma senhora brasileira?




    Mas eis que logo três dias depois, uma estranhíssima procura, lançada do Brasil, revistou este local.
    "H de homem" era a chave.
    Tudo bem, pensei. Esta é uma página de um homem com H.
    Mas isso não terá água no bico? Estará relacionado com o espião do sotaque? Então ele anda pelo Brasil? Quererá afinal disfarçar o seu sotaque português?
    Quererá ele saber se o homem aqui, é adversário para ele?
    O meu amigo continua a dizer-me que eu vejo muitos filmes.
    Não sei porquê.

    Eu posso explicar: H é de Gasolim. Homem sou eu. Nada mais a esclarecer. Não insista.



    E passam dois dias, e a coisa começa a revestir-se de contornos preocupantes.
    Agora é da Galiza. Uma búsqueda en Google com palavras portuguesas, só pode ser da Galiza.
    E já se buscam fotografias. "fotografias de gente de viana do bolo", mais precisamente.
    Começa a fazer sentido.
    Os galegos falam português, mas como a nossa língua foi reprimida por muitas décadas, o castelhano é uma espécie de pano de fundo, em algumas palavras e no sotaque.
    Está cada vez mais claro. O nosso amigo é galego, quer corrigir o sotaque e por alguma razão pretende identificar alguém em Viana do Bolo.
    Ou será já a contra-espionagem que tenta detectá-lo? Sabendo que ele anda pelos lados de São Cibrão.

    Eu posso explicar: a gente é outra, é a gente que conhece certo homem dos telefones. E para ir a Viana do Bolo não precisei de fotografias que me chamassem.



    E, de repente, uma manobra de diversão.
    Ou uma ameaça.
    Alguém, no dia 29 de Setembro, depois de uma ausência de 18 dias, finge procurar "montijo na blogger".
    Montijo, huuuuuum. O cerco aperta-se.
    É uma pesquisa feita em Portugal, decerto o Montijo que se pretende é a Aldeia Galega.
    Lá está. Tudo se relaciona.
    O nosso amigo galego desceu em busca de contactos.
    A esta hora ri-se de mim na área de serviço da ponte Vasco da Gama.
    Começo a temer pela minha integridade física.

    Eu posso explicar: Montijo é o destino da mulher que fala com o homem dos telefones. E Blogger não é da minha responsabilidade. É da responsabilidade de alguém que me quer pôr fora da circulação, não me deixa editar, nem postar...



    E a 2 de Outubro, já do Brasil, usando o Cadê?, testa-me:
    "Porque existe diferença de alqueires? "
    Acho que a coisa não podia ser mais directa.
    Sabe bem que eu estou familiarizado com a pouca precisão desta medida.
    Sabe até que em miúdo me acusavam de não ter "os sete alqueires bem medidos".

    Eu posso explicar: Não sei na realidade porque existe tal diferença. É como nas léguas e nos tiros de espingarda ou de besta. É pensar nos tempos em que essas medidas surgiram e se difundiram, e não é difícil perceber que haja discrepâncias. Basta ver que aqui em Portugal, tal como em Cabo Verde, o alqueire é acima de tudo uma medida de volume ou capacidade, embora também se aplicasse a áreas (radicando na relação volume semeado ou produzido / área), enquanto no Brasil parece ser só de área.



    No dia seguinte, vejam bem, sai-se com esta: "SALSAPARRILHA FOTOS".
    Ainda no Brasil e usando o Cadê?
    Na certa, pretende disfarçar-se com ramos de salsaparrilha. Sabe que eu aqui de Portugal não tenho acesso à planta. Nem lhe conheço bem a fisionomia.



    Por isso, usa o truque vil de se camuflar com ela. E enfatiza o facto, usando maiúsculas.
    O meu amigo confidenciou-me, baixinho, que nada do que eu dizia fazia sentido.
    Isso é lá com ele.

    Eu posso explicar, ou melhor, me justificar: Que culpa tenho eu que o LP em «Palavras de Dom Goda» se entretenha com palavras difíceis?



    E logo um dia depois, "ilhadomel fotos". Já em Portugal.
    Ilhadomel tudo pegado.
    Ilhadomel tudo pegado é uma directoria do Terravista. Logo do Terravista, onde a minha password não funciona.
    Não funciona a password, não consigo apagar o registo, não me posso registar com o mesmo e-mail.
    Explica-se agora porquê. O nosso amigo infiltra-se e já vai longe o tempo em que precisava de corrigir o sotaque.

    Eu posso explicar: o carro que o meu avô me deu, foi comprado a alguém que o fotografou e que, anos mais tarde, cedeu a foto a um site que está alojado no Terravista. Chega?



    Deixou passar oito dias e ei-lo na Alemanha. Google Suche. "hillman imp fotos".
    Repararam na insistência nas fotos?
    Um Hillman Imp? Da Germânia, a busca de um carro originariamente escocês?



    Traz água no bico.
    É que eu tive um fraquinho por duas proprietárias de tal viatura. Como tudo se sabe.

    Eu posso explicar: o SG gosta de carros com classe, contaminou-me o site com essas referências nos seus poemas, não há (não havia) aqui nenhumas fotos de Hillmans.



    No mesmo dia, 12 de Outubro, já de volta a Portugal: "fontaínhas, setúbal".
    A mensagem é clara.
    Para quem não sabe, o comboio do sul passa pelo túnel das Fontaínhas, em Setúbal, de luzes apagadas nas carruagens. São as trevas por segundos inquietantes. É aí que ele vai perpetrar a sua ameaça. E não vacila ao avisar assim, em público.
    Como era de esperar, não voltou a entrar aqui.

    Eu posso explicar: é o medo do escuro.



    Aqui chegados, devo dizer que o meu amigo já não sabe que mais dizer-me para me tirar estas ideias da cabeça.
    Eu só lhe respondo:
    Se ele não andasse a perseguir-me, tinha usado aspas em algumas das buscas, como "fotografias de gente de viana do bolo" ou "corrigir sotaque português" ou ainda "Porque existe diferença de alqueires?" o que o afastaria de mim, que nunca escrevi tais frases. Mas não. E repara bem, que sentido faz uma busca como Montijo na Blogger?
    E já agora, porque é que esta página já não aparece nas buscas do Cadê?
    Não me respondeu.

    fotos em:
    salsaparrilha: http://www.plantaservas.hpg.ig.com.br/arquivos/ervas1.htm
    Hillman Imp: http://www.imps4ever.info/algemeen/birth.html






    Começo pela capa



    o resto se verá



    Gasolim e las carreteras





    Gasolim e as estradas




    Grrr... isto não é o cabo de Sagres

    Mesmo que se trate de música sacra de Haendel
    Este som não me preenche a lacuna
    A que sal basta para ficar desinfecta.
    Melodia de paisagens em língua desconhecida,
    Concebida para audições solenes a desoras
    De modo a que o ventre a que se refere
    Se recorte vago numa qualquer parede de fundo.
    Mensagem hidráulica e fetal
    De vitais fluidos repleta
    Ecoando sinais que remontam às origens
    Num caldo de cultura viciado
    Com os dados que o Operador manipulou.
    A verdade esconde-se assim num retrato genético
    Perpetuado em difusas multiplicações
    Carentes de uma explicação arrumada e demonstrativa
    De uma Lógica anciã e incorrupta
    Que alinhe os pontos discerníveis
    Numa emocionabilidade pura
    Pelas convulsas contorções dos geniais cérebros.
    A paz e a procura porque não compatíveis,
    Subsistem em contempladas pausas de percurso,
    Eivadas desta melodia simples e esmagadora
    A que o céu não é estranho.
    A noite é ainda madrinha desta encruzilhada
    Em que a interrogação se levanta a cada passada
    Como o pó dos caminhos velhos que já percorremos.
    Embora a imagem que subsiste
    Não se afaste muito do espectro embrionário que já fomos,
    Começamos a vaguear cansados
    Por sobre a História ou do que resta dela.

    1985

    SG, "Dizeres do Sul", 1993



    Motores de busca

    Os motores de busca são um dos mistérios mais fascinantes da rede.
    Porque embora buscando uma coisa, se acaba por cair noutra completamente diferente.
    Já me caíram (no H Gasolim Ultramarino) aqui pessoas em busca das mais fantasiosas coisas.
    Hoje caí eu, sem saber como, num e-book.
    E surpresa das surpresas...



    Das traseiras da casa que me invejo

    Vejo a minha casa ao longe. E não habito aqui.




    Na Lua

    Em 1969, já a televisão se espalhava pelo país.
    Ainda não chegava a todas as casas, mas havia já uma diferença grande em relação aos primeiros anos da década.
    Naquela noite, meio mundo ficou acordado à espera de ver a Lua de perto e os homens a passearem-se na sua superfície.
    No dia seguinte, a velhota entrou lá em casa como de costume.
    E em tom reprovador, disse:
    "Estive eu acordada até tão tarde para ver a Lua e afinal não há lá nada. Nem um jardim bonito como há em Alhandra."



    Livros

    Um dia ainda hei-de perceber qual é o critério que sigo na compra de livros.
    Uma coisa estranha é não ter o ímpeto de comprar uma obra que não conheço de um autor que aprecio.
    Outra coisa estranha é sair de casa, manhã cedo, com o fito de ir comprar determinada obra publicada há anos.
    Já entrar num shopping porque é o único sítio das redondezas onde se pode almoçar e sair carregado de livros, entende-se porque havia uma feira de livros velhos.
    Comprar numa bomba de gasolina, desnoitado, porque estava lá um livro perseguido é normal.
    Comprar porque sim, é assim mesmo.
    Mas não descortino o critério.



    Actualidades

    Um dos pontos dos estatutos deste blogue é não falar de actualidades.
    Actualidades entendidas aqui como os assuntos do dia na imprensa e nas conversas de café.
    Que quase sempre são repetições de histórias velhas. Nada de novo na frente.
    Muitas vezes nem sequer são actuais.
    São histórias congeladas nas redacções à espera de um dia sem manchete.
    Coisas novas precisam-se.



    Memória II

    Não me perguntem quem foi, não me lembro.
    Mas alguém um dia disse que uma das características do nosso tempo que colidia com a essência atávica humana, era a eliminação das memórias.
    Dizia isto tendo como pano de fundo as cidades.
    Onde os homens nelas nascidos rapidamente vêem destruir as suas referências espaciais.
    Uma avenida onde havia uma azinhaga. Uma grande praça onde havia umas casas velhas e uma quinta. Um edifício altíssimo onde existia um palacete.
    A somar a tudo isto, o bombardeamento constante da informação. Muita informação fragmentária e pouca assimilação.
    Sei que, por enquanto, tenho uma memória privilegiada, como já referi. Ainda que não me lembre do autor da sentença, mas só da sentença.
    Por vezes, sinto-me no meio do nevoeiro sem ninguém à vista. Falo de coisas que vi e que outros decerto viram mas não recordam.
    Uma porta de taberna, uma curva de estrada, uma janela ornamentada, uma árvore de grande porte que já não estão lá.
    Morreram também na memória pública.
    Nem uma fotografia, nem uma citação.
    É por isso que gosto de ouvir quem se lembra.



    Gasolim informa

    A feira de Castro é já no próximo domingo.



    Memória

    A minha não é má.
    Lembro-me bem de palavras que ouvi e não me agradaram. Mas que devem ter ficado gravadas para futuro escrutínio.
    Muitas delas julgo-as hoje com a devida vénia. Chapeau.
    Nem sempre as pessoas que as disseram ainda se lembram de as terem proferido. Por vezes, já nem as subscrevem.
    Mas também já aconteceu alguém me ter lembrado de algo que eu disse.
    Poucas vezes é certo.
    Mas em uma delas, uma sensação estranhíssima. Não por eu me não lembrar das circunstâncias em que dissera tais palavras, antes por, por muitos anos que se tivessem interposto, as circunstâncias se terem fechado num círculo.
    Não contava que as palavras fossem lembradas.
    Não contava encontrar-me de novo em condições tão semelhantes.
    Não contava ser lembrado disso.
    Muito menos contava que as palavras tivessem transmitido a exacta força de que eu as animara.
    Mas o facto é que de repente fui confrontado com elas, quando já não esperava.
    E foi nesse exacto momento que o círculo fechou, e sem saber como, me encontrei do lado de fora.



    O paradoxo final

    A ideia de unificação em ciência é um tanto ou quanto vaga.
    Mas suponhamos que significa um estado do conhecimento em que, por serem conhecidos os mecanismos básicos, se torna possível a ligação entre escalas diferentes: a física, a química e a medicina; a química, a física e a engenharia e por aí fora. Não esquecendo que estas divisões são imprecisas e volúveis.
    O conhecimento dos mecanismos básicos pressupõe um domínio universal sobre os factores intervenientes. O conhecimento exacto e total das condições iniciais bem como das formas como se alterarão com o tempo.
    Suponhamos que assim é, e que tal é possível atingir.
    Haja formas expeditas de proceder aos cálculos necessários e teremos todas as previsões com a suprema exactidão.
    O que nos coloca frente ao paradoxo final:
    O homem dissecado em impulsos eléctricos, átomos, ácidos, células e o mais que fôr.
    Uma máquina previsível.
    Cada gesto, cada palavra, cada pensamento, apenas fruto das condições iniciais. Nada mais do que isso.



    Os posts que se seguem






    Algures

    Algures estão os conhecimentos essenciais para este dia.
    Não se trata de arte, nem de técnica.
    Trata-se do sumo de tudo aquilo que já somámos às observações das coisas.
    E do ponto em que as teorias ficaram penduradas na parede.
    E resistiram ao tempo.
    Algumas estão erradas, não importa.
    Gostava de saber em que ponto estamos.
    Uma inutilidade essencial.

    postado algures a 22 de Setembro, mas ainda válido



    Gasolim sempre entre baias

    Um destino em tons de cinzento-estrada




    Estatutos (de 20 de Agosto)

    O estatuto aqui é mais ou menos este (a ordem dos artigos é completamente arbitrária):
    Não recomendar restaurantes, praias ou blogues.
    Não comentar a actualidade.
    Não criticar nem sublimar (nos diversos sentidos) os outros.

    Em suma, um rol de negações.

    Lembrar-me-ei de outros no futuro e tentarei cumprir estes.


    Quase dois meses depois e muita palavra aposta, já transgredi todos os artigos.




    Estruturas




    Intemporalidade ou não

    Pensava eu que eram intemporais as entradas que ia fazendo no blogue que abandonei.
    Agora que era minha intenção para aqui trazer algumas delas, vejo que não é o tempo através das coisas, mas o tempo das coisas que as macera.
    Muitas delas valem tanto hoje como então. Mas não as quero repetir.



    Gasolim e as encruzilhadas

    marco de entrada antigo que aqui se coloca




    A um ritmo muito menos intenso do que publicava em H Gasolim Ultramarino alojado em outro local, irei recuperando selectivamente o que lá está, esperando poder manter as imagens.