Ano XV
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  • Um dia

    explicarei o contrato que tenho com SG, que me leva a deixar aqui coisas que editou.
    Hoje, é dia de borrasca e de voltar ao Cabo Carvoeiro do oeste (ele há um no sul) e lugares adjacentes.
    Dizem no entanto as estatísticas do IM, se não estou enganado, que as maiores borrascas não ocorrem aqui, mas em Sines.

    Baleal

    Um destes dias,
    Bem ou mal,
    Hás-de ir comigo
    Ao Baleal.

    Tem que ser de Inverno
    E ao fim do dia
    Para passar de carro
    Na maré vazia.

    Tem que haver mau tempo,
    Ventos a uivar.
    Chuvas inundantes,
    Desgraças no mar.

    Tem que haver alguém
    Que no velho café
    Acenda um candeeiro
    De bicha e chaminé.

    Tens que olhar p'ra mim
    Com teus olhos ternos
    E dizer-me assim:
    Dá-me mais invernos!

    Um dia destes
    Afinal
    Vais ver a borrasca
    Lá no Baleal.

    SG, "2ª Escolha", 1993



    Vulgar

    É vulgar que quando por alguma razão um determinado local se torna importante na nossa vida, por ser um local de trabalho, um local de encontro ou o lugar de uma paixão, nos venha à lembrança o primeiro contacto que tivémos com o sítio, muito antes de sabermos o que ele iria significar mais tarde.
    Já muitas vezes dei comigo a relembrar essas primeiras inocentes experiências.
    Serve a presente para falar de uma casa.
    Era uma casa de que guardo a primeira lembrança, ao passar por ela de carro de molas, em direcção ao monte da minha bisavó.
    Recordo-me de mais tarde ter entrado nela uma só vez, de ver que não havia portas mas sim cortinas, que a única luz era a do postigo entreaberto. Morava lá uma família que eu conhecia.
    O que eu nunca soube é que aquela casa pertencia à família e que um dia havia de ser da minha mãe.
    Nem imaginava que a havia de mostrar a alguém e que daí nasceria um encanto.
    Era apenas uma casa velha, um palheiro agora. Mas qualquer coisa prendeu a minha companheira àquelas ruínas.
    Entrámos, onde dantes havia cortinas agora arcos vazios. Onde havia o fogo, restos de ninhos. Onde imaginei queijos a curar, canas secas.
    Um pássaro perturbado entre telhas.
    E no rosto dela, o fascínio.
    Aprendi a gostar da casa com ela.
    Quem sabe um dia...






    Duas de estradas

    O que é que há de fantástico

    Quando a 220 entronca na 221? E na recta que segue para ENE?

    Voando sobre Puentedeume

    A espanhola A-9 passa sobre Puentedeume. Aguardem por um dia de inverno, com cúmulo-nimbos deixando passar escassos raios de sol e verão.



    A foto misteriosa




    Os diamantes do C.



    A conversa era sobre África.
    Dos que, como eu, nunca lá puseram os pés.
    Dos que lá nasceram e tinham lá voltado ao fim de vinte e muitos anos.
    Era isto.
    O R.C. lembrou-se então do C. e dos seus diamantes. Fez uma breve resenha do encontro de ambos e avançou com o desafio, para os que não conhecendo o C., ficaram cheios de curiosidade: “E se a gente o chamasse aqui?”
    Como a coisa com ele nunca pode ser linear, o plano era o seguinte:
    O F., que nasceu em África e imita bem o sotaque da cidade do Roque Santeiro fazia um telefonema enigmático, dando-lhe algumas pistas para nos encontrar. Depois, era esperar. Segundo o R.C., não seriam precisos mais do que vinte minutos.
    O dono do café ouviu toda a conversa sobre os preparativos e decidiu adiar um pouco a hora de fechar, afinal a gente também estava a fazer despesa.
    Saímos para a rua (já se verá porquê) e o F.:
    “É o sinhô C.? Boa noite. Estou a ligar-lhe por causa daquele assunto.”
    O outro deve ter perguntado qual assunto.
    “O assunto. Cheguei hoje de lá e disseram-me para falá consigo.”
    O C. já em pulgas, decerto.
    “Não posso dizê munto, tem muita pulitica.”
    O outro a perguntar onde é que você está.
    “Tou aqui no parque de estacionamento, atrás de uma carrinha Toyota, matrícula Ai-eice.”
    Deve ter pedido mais pormenores. O F. deu-lhos, no registo confuso que se adequava.
    E depois disse:
    “O meu nome é Pálo. Mas tu pergunta pelo Caldo. Eu vou agora em casa buscar o material”
    Ora o Caldo é a alcunha do nosso amigo que estava a ler «A Bola» e não ligou muito à conversa. Foi por isso que saímos do café.
    Não foram precisos vinte minutos. Ao fim de um quarto de hora, já o C. parava o carro à porta, deixando a número um (lembram-se da fotografia?) lá dentro, enquanto investia para o café.
    Eu e o R.C. escondidos à esquina da rua, mas vendo tudo pela montra lateral.
    Entrou logo direito ao balcão, devia estar a perguntar pelo Paulo ou pelo Caldo.
    O homem respendeu-lhe e ele de sopetão sobre o outro, que estava a milhas, a ler o jornal.
    Quando vimos o Caldo a olhar para ele de lado (o que é que este quer?), entrámos a correr, a tempo de evitar um quid pro quo.
    Posso vos dizer que ninguém se decepcionou com o C..
    Foi buscar a número um ao carro, sentou-se connosco à mesa e travou um debate, em que saiu claramente derrotado, com a M., que nasceu em África, esteve lá mais ou menos ao mesmo tempo do que ele e é um bocadinho mais bem informada. Para além de ter um génio dos diabos.
    Como eu bem viria a saber, se não sabia já.
    O C. no fim perguntou: “E o Paulo?”

    imagem retirada de



    Gasolim com a pedra




    Registo que

    Ninguém se interessou pela continuação de:
    Crónicas de um quarto balnear
    ZX Spectrum - 1X2

    Lá se vai a auto-estima (do Sr. Estima, ali em Deixa-o-Resto)



    Gasolim a caminho






    Diamonds

    Há expressões de rosto que são indescritíveis.
    O nosso amigo C. tem uma maneira muito particular de fazer olho malandro que escapa às mais ilustres penas.
    Não se consegue dar uma pálida ideia daquele misto de esperteza saloia, de trangressão, de tentativa de observar o impacto que produz nos outros com a sua lábia.
    Não vi a cena. Foi-me contada pelo R.C.. Mas conhecendo os dois, já a reconstituí vezes sem conta no meu imaginário.
    Encontraram-se num café, após uma estadia do primeiro em terras africanas, de onde enviou aos pais, devidamente etiquetada, uma fotografia sua em traje de luces (era parecido) sendo servido por uma dama, de um cálice de vinho sul-africano.
    Encontrava-se rodeado de mais quatro, todas elas com uma seta e um número a vermelho apostos.
    A do vinho era a número um.
    E nessa tarde, à mesa do café, C. estava particularmente entusiasmado.
    Depois de saudar efusivamente o amigo, puxou de um papel e de uma caneta e escreveu "DIAMANTES".
    Como se o outro não soubesse ler às avessas, virou o papel e sem o largar, colocou-o em frente do R.C..
    Depois de uma pausa sigilosa e com o tal olho malandro activo, mandou às ortigas o segredo e disse bem alto: "DIAMANTES!"
    O R.C. ficou à espera, já entusiasmado com a encenação, e nada disse.
    Ele puxou o papel para o pé da caneta e acrescentou por baixo: "10.000 dólares"
    A cena repetiu-se, voltou a colocar o papel ao alcance dos olhos do outro e após a pausa, quase um berro: "10.000 dólares!"
    O R.C. conseguiu conter o riso.
    Mas já arquitectava uma partida das dele.



    (contarei mais tarde)



    Outono



    da janela de um quarto qualquer



    Ainda os carros

    Já contei a estapafúrdia história do carro estacionado no mesmo local.
    Já contei a agitante epopeia de um sogro receoso.
    O que relaciona as duas, é tão só isto:
    Esse Ford Escort da segunda história, acompanhou-me em muitas paragens, incluindo certa praia do sul.
    Um belo dia, fazendo a minha tradicional inspecção aos escaparates daquelas lojas de praia que se caracterizam pelo amálgama de chinelos de praia, jornais estrangeiros, bóias, livros de bolso e postais ilustrados, o que vejo eu?
    O meu Ford estacionado ali a poucos metros. Só que em postal ilustrado.
    Tirei o postal do expositor e chamei a minha comadre, que andava a rondar o artesanato, na porta ao lado.
    “Vê lá se não é o nosso carro?”
    “É muito difícil distinguir a matrícula toda.”
    “Pois é, mas está lá tudo, as letras são as mesmas, os primeiros dois algarismos também. O terceiro é quase certo, as dúvidas só surgem no quarto.”
    “Como é que consegues ver assim tão bem?”
    “Já te esqueceste de que a minha vista vê ao perto aquilo que não vê ao longe?”
    “Pois é! Havemos de ver isso à lupa.”
    “De qualquer forma, matrículas consecutivas a carros iguais, é a regra. Não há nada de estranho que a matrícula quase coincida. Agora a forma do último algarismo também não tem muitas alternativas, parece que é mesmo o nosso carro!”
    “Olha lá, que chapéu é este aqui no vidro de trás?”
    “Não é teu? Não, não é. Nunca tiveste nenhum chapéu assim.”
    “Não, tive agora cá chapéus com flores.”
    “Repara numa coisa, esta casa aqui está pintada de novo... e agora olha lá para a casa, já viste? A pintura já está queimada e descascada. Isto não tem nenhuma data, mas deve ser já de há uns anos. Olha, este poste já cá não está.”
    “Pois é, então quando é teria sido tirada?”
    “Não sei, mas com um chapéu destes lá dentro, foi no tempo do primitivo dono.”
    “Acho bem que tenha sido.”
    “Alguma dúvida?”
    “Não, nada.”
    Depois das férias, lembrei-me do postal.
    Fui buscar uma lupa e disse-lhe para ela vir ver.
    Confirmou o que eu tinha dito. As dúvidas só incidiam no último algarismo. Mas também não havia grandes hipóteses de ser outro. E ela, com aquela intuição feminina:
    “Mas é o nosso carro. Nem preciso de confirmar a matrícula.”
    Tenho pena de nunca mais ter visto o tal militar da força aérea para lhe perguntar:
    “A sua mulher ainda usa aquele chapéu com flores, quando vai à praia?”




    A propósito de carros, de sogras e do Muro de Berlim

    Ia eu a caminho de Paris mais o R.C. quando as notícias começaram a cair vertiginosamente.
    Era agora. O muro ia abaixo.
    Ainda pensámos entrar para a história, virando à direita no próximo cruzamento, mas concluímos que não nos deixariam atravessar até Berlim sem os competentes vistos.
    Uma oportunidade perdida.
    Serve esta introdução para relembrar um comentário então atribuído ao falecido presidente francês François Mitterand: “Gosto tanto da Alemanha que se existirem duas, tanto melhor!”
    Qualquer coisa assim.
    O que nos leva à minha afirmação congénere:
    “Gosto tanto de sogras que quantas mais tiver, tanto melhor!”
    De facto, não me posso queixar do meu quinhão.
    Com uma honrosa excepção, revelaram-se do mais fino trato, gentileza e simpatia.
    Creio ter-lhes retribuído, longe vá a modéstia.
    Adiante.
    Para felicidade minha, delas, das respectivas filhas e principalmente do próprio, todas elas trouxeram um sogro atachado (linguagem neo-náutica).
    Todos eles igualmente cordiais.
    Um deles era um indivíduo excepcionalmente íntegro.
    Homem de uma rectidão a toda a prova. Não menosprezando os outros, igualmente honrados.
    Sucede que certa vez, por ocasião de um falecimento na família, cessou um arrendamento de uma casa de férias que mantinham na praia.
    Havia por lá muita coisa para retirar. Os objectos mais frágeis e valiosos foram retirados de carro e não no tradicional transporte.
    Requisitaram-me e ao meu velho Ford Escort.
    Quando me apercebi que uma das coisas que era para trazer, só cabia na mala de qualquer dos carros desde que viesse com uma nesga aberta, ofereci-me para a transportar.
    Sabia que para ele era um melindre vir a desrespeitar o código da estrada, ainda que isso não fosse uma evidência. Bastava uma nesga de uns dez centimetros de abertura para a coisa vir acondicionada. Nada que perturbasse a visibilidade traseira ou causasse perigo para os demais.
    Assim se fez.
    Andados uns quilómetros, a corda que contrariava a mola da tampa da mala partiu-se.
    A mala abriu.
    Nada de preocupante. Parámos e voltámos a atar.
    Estávamos nisto quando pára um carro em travagem brusca à frente do meu.
    Sai de lá um indivíduo novo com ar de polícia, cabelo curto, cara rapada, etc.
    Dirige-se ao meu sogro e pergunta-lhe, olhando para o meu Ford:
    “Este carro é seu?”
    Não vos vou contar a cara que ele fez, nem a modificação que se operou quando o homem continuou, com a mão a acariciar os faróis traseiros:
    “Este carro era meu. Foi o meu primeiro carro, um grande carro. Nunca mais o tinha visto. É uma alegria voltar a vê-lo. Os senhores são de aqui perto? Eu sou militar ali na base aérea.”
    Isto a propósito de carros. E de comprar carros em segunda mão. E de sogros íntegros. E já agora, de sogras.




    O carro

    Não compro carros novos.
    Nos tempos do meu pai, só se compravam carros em primeira mão. Porém, o mercado alterou-se e agora é possível comprar um carro em estado muito razoável por um preço muito inferior ao de um novo.
    O meu amigo B. sabe disso. Vendeu-me o último carro há nove anos e agora acha que está na altura de eu trocar.
    Conheço o B. há muito, ainda ele não sonhava em comerciar automóveis. O grau de confiança não é por isso o mesmo do que com um qualquer vendedor de automóveis.
    Bem sei que amigos, amigos, negócios à parte. É certo que sim. Mas por alguma razão que provavelmente ele próprio desconhece, o carro que me vendeu (bato na madeira) tem sido o que menos problemas me deu em toda a história de vinte e seis anos de estrada e dos anteriores cinco de fora-de-estrada.
    Ora isso faz recair sobre ele a particular responsabilidade de só me vender um carro à altura deste que agora tenho.
    Como ele está estabelecido aqui perto de casa, muitas vezes chama-me para dois dedos de conversa ou para me mostrar alguma viatura que ele julga ser o que me interessa.
    Estamos numa de quatro lugares e motor diesel.
    Um certo dia, chamou-me com particular insistência, sem cuidar do meu esforço em transportar a cárrega habitual do supermercado.
    Lá fui.
    Que era uma óptima compra. Um Peugeot 206, quatro portas, motor diesel, etc.
    Lá me fez pousar os sacos e ir com ele ao depósito onde guarda os carros que ainda não estão encerados para exposição.
    Assim que entrei, correu logo a mostrar-me as menos-valias do carro. Estás a ver, tem este risco aqui e esta mossa ali, mas isso também se repara. De resto, está impecável. Vá, senta-te lá dentro.
    Foi então que eu lhe fiz a pergunta demolidora:
    “Aquele ali também é para vender?”
    “É! Mas não é meu, é de um tipo conhecido que também guarda aqui os carros.”
    “Sabes quanto é que ele quer por ele?”
    “Acho que é xis (1).”
    “Xis? Mas isso é um preço porreiro!” – e abeirei-me do automóvel, abri a porta e sentei-me – “Ò pá, isto é que é um grande negócio. Quanto é que tu dizes que queres pelo Peugeot?”
    “Xis sobre dois (2).”
    “Tás a ver” – eu a vê-lo patinar – “Este carro é que é uma bela oportunidade!”
    “Pois, mas para ti o que é bom é aquele ali”
    Nisto, chega um dos ajudantes dele. Vendedor.
    Viu-me sentado no carro que não era e começou logo a gabar o outro:
    “Cinza metalizado, jantes especiais, uma côr bonita...”
    Não gosto muito de cinzento brilhante e jantes especiais, são especiais porquê? Mas não disse nada.
    Só disse:
    “Eu pouco me importa a côr, amigo. Quero é um carro que não me dê chatices.”
    “Ah, mas se fôr uma côr bonita...”
    “Isso o bonito ou não, é para outras coisas. Estamos a falar de carros. O seu patrão tem que me vender é um carro tão bom como o último que me vendeu. Isso é que me interessa.”
    Aí, o meu amigo B. retomou as cores da esperança.
    “Olha que ficas bem servido.”
    Com esta conversa quase que me tinham obrigado a sentar-me no Peugeot. Anuí. Já agora via por dentro.
    “Não duvido, mas tens que reconhecer que em matéria de preço, aquele ali é um bom investimento.”
    “Tá bem. Mas tens a certeza de que precisas de um Silver Cloud III para as tuas idas ao monte?”
    Calei-me.
    E não lhe comprei o carro.



    Notas 1 e 2: Ninguém tem nada que saber quanto é que eu estava disposto a pagar pelo Rolls e não estava pelo Peugeot. Mas podem ver a proporção.

    foto em http://guesthome.rollsrw2k1.userarea.co.uk/R-R%20Cars.htm



    Heranças na paisagem

    Saber fazer




    Linha do Sul

    Era entre lençóis de inverno cru
    Que escutava a angústia a apitar-me
    De comboios rumo a Sul,
    Que eu sabia entre sobreiros,
    Alargando a distância.
    Era entre portas
    Que ao sair de casa
    Me deixava cortalhar
    Por facas de frio barbeiro,
    Para devagar ir
    Amaciando a tristeza
    Em cigarros com paisagem em fundo




    SG, "Inéditos", 1995



    Morrinha

    A chuva que chora no teu rosto
    Tem cheiro a Agosto.
    E a madrugadas de relento
    Sem nenhum vento.
    A sonhos insomnes
    Em noites desertas,
    A horas cansadas
    Em noites directas.
    E esta morrinha
    Que da praia vem
    Acha-te sozinha
    No sonho de alguém.

    SG, "inéditos", 1994



    Gasolim entre castelos





    O perseguidor ataca de novo

    Sabe tudo sobre mim.
    Até deve ter fotografias minhas ao volante da Datsun Sado azul.



    De facto, não posso explicar.

    Veja as outras entradas aqui e aqui.



    Gasolim em antigo




    Actualidades

    Prometi a mim mesmo não falar de actualidades.
    Por isso, não direi senão o seguinte:
    Faz-me muita confusão que, entre gente com uma certa formação, se repita a ideia absurda de que é possível alguém fazer prova cabal de que desconhece um facto ou uma pessoa (contemporânea).
    Se esta impossibilidade não é um dos axiomas do direito, então como o meu chapéu de Chaves.




    O concurso radiofónico

    Lembro-me de que íamos a chegar aquela curva que considero ter a mais vasta panorâmica em Portugal.
    O rádio ia sintonizado no que se apanhava.
    Primeiro, uma entrevista com um oftalmologista.
    "Quando chego a qualquer sítio, tenho sempre o instinto profissional de olhar as pessoas nos olhos. Vejo logo qual é a côr dos olhos de cada um."
    Depois o concurso.
    A ideia básica é pôr duas pessoas à conversa sobre as suas casas durante um curto período.
    Depois cada um responde a perguntas sobre a casa do outro. São perguntas a que se facilita a resposta em escolha múltipla.
    A dado passo, alguém pergunta a outrem quantas peças de artesanato tem em casa.
    "Eu? Eu odeio artesanato!"
    Foi quanto bastou para o R. ficar fã do programa.
    Devem ter-se passado muitas manhãs de trabalho em que ouvimos o dito concurso no carro.
    Um dia, um dos opositores quase não fez perguntas ao outro.
    O apresentador admirado comentou.
    Ele disse que já tinha uma ideia.
    Quando chegou a vez de responder ( julgo que eram cinco as perguntas ), não falhou uma.
    O apresentador à rasca:
    "Então como é que foi isto?"
    "Fácil. Já ouço isto há uns dias e as respostas certas são sempre a-e-d-b-b."
    "Ah! Um ouvinte assíduo!"



    E ouço na rádio

    Um anúncio.
    Uma voz feminina diz:
    "Acredito na ordem natural das coisas"

    E eu lembrei-me logo do J.
    "É muito difícil educar um povo"



    Gasolim e as opções



    o cinzento e o branco a chamarem-me lá de baixo



    Filme Disney de inundação



    Pensava eu que o meu perseguidor já tinha chegado à conclusão de que jamais conseguiria intimidar-me.
    Mas não.
    Hoje avisa-me de novo: "Filme Disney de inundação."
    Usa agora métodos catastróficos portanto.
    E está muito bem informado ou leu o post lá atrás.

    Eu já não posso explicar.




    De São Rústico
    meu padroeiro



    só se sabe que, antes de (des)falecer aos pés de uma mulher, teve tempo para beijar a própria cabeça que recolhera do chão.

    imagem neste sítio



    O Carlos



    O Carlos era eu.
    Fui sempre Carlos para aquela mulher, esposa do Zé Povinho sem barba.
    Não desde a altura em que me apresentei, depois de ter descrito a curva da casa e avistado o Zé Povinho barbeado sentado num banco à minha espera.

    Na taberna ondia bebia uma cerveja perguntei ao empregado por casas para alugar ao mês.
    Um mês de praia para gozar em solitude.
    Disse-me que não sabia.
    Duas cervejas depois, mostrou-me o Zé Povinho, de cara rapada, e disse-me:
    "Aqui o Ti Lebre tem uma casa para alugar."
    O homem cumprimentou-me e apreciou-me. Devo ter um ar confiável, pois de imediato, me indicou o caminho e lá foi, dizendo que ficava à minha espera.
    Bebi ainda mais uma, agradeci ao rapaz e meti-me no carro.

    Entrei com o Zé Povinho na casa. Apresentou-me a mulher. Tomou nota do meu nome até ao momento de receber o dinheiro, a casa agradara-me. Eram dois quartos, sala com cozinha e casa de banho.
    No dia seguinte, ouvi chamar pelo Carlos.
    Só liguei o nome à pessoa quando a vi a espreitar pela janela da cozinha e perguntar-me: "Carlos, não quer comprar peixe fresco?"

    imagem do Zé Povinho barbudo em http://manuelcarvalho.8m.com/




    Apenas um quadro romântico



    é uma pena que a vedação que se distingue em baixo à direita seja de uma auto-estrada.



    The perfect oven

    Há alguns anos li um artigo sobre um investigador americano que se dedicara a estudar a forma do forno perfeito para cozinhar um dado peru.
    Ocorreu-me que ninguém, que eu saiba, se dedicou a estudar os mecanismos que conduzem ao fim de uma festa.
    Quando é que a festa termina e como.
    Se termina com os donos da casa a fecharem as portas depois de se despedirem da última sogra, se termina quando o amigo bêbedo vomita no corredor da casa de banho e porque é que quatro convidados saiem aos pares no auge do bródio.
    Todos estes mecanismos estão mal estudados, sabe-se ainda muito pouco sobre o assunto, mas estou convencido de que quem se abalançar a tal empresa, será bem sucedido.
    Terá um best-seller na mão.



    O nascimento de uma lenda

    Não sei se é uma dávida das probabilidades assistir ao nascimento de uma lenda.
    O que quer que seja que a incorrecção e a falta de sentido da frase acima queira dizer.
    Mas aconteceu-me.
    Encostado ao varandim do meu castelo (a designação não é minha, é dos militares da cartografia), vi entrar pelas muralhas um conhecido.
    Digo isto apenas porque talvez as lendas nasçam em castelos.
    Não como o meu, que é de muralhas baixas, mas nos outros mais a sério.
    Depois de alguns cumprimentos e de conversa circunstancial, vi-a nascer da boca dele, do conhecido que chegara.
    Sob a forma de anedota, o que não é muito lisonjeiro para a própria.
    Mas lá estavam todos os ingredientes: a façanha, o façanhudo, o desfecho e a moral da história. Tudo um tanto ou quanto anedótico.
    Não fora o caso de o protagonista nomeado ser um velho amigo meu, era apenas mais uma anedota.
    Mas a certeza de que a história tal como a ouvi, se vai repetir por aquelas serras, contada por aqueles que nunca ouviram falar do meu amigo, muitos anos depois de já estarmos eu e ele etiquetados em pedra, foi logo inabalável.
    Já agora, a história não era verdadeira.
    Não sei se os circunstantes sabiam que ele é meu amigo, talvez não. Talvez o conheçam só de fama.
    Fama que se encarregam de propagar.




    Mudanças

    Os meus avós estavam cá ainda existia o Reino de Portugal.
    Os automóveis eram pouco mais do que uma experiência.
    O avião também.
    A energia eléctrica dava os primeiros passos.
    O telefone.
    A água canalizada.
    A rádio.
    E viveram até o homem chegar à Lua, os aviões transformarem o mundo longínquo em terra próxima, a televisão mostrar o que se está a passar nos antípodas.
    Viram as refeições prontas-a-comer, as grandes migrações de verão, o computador doméstico e o telefone móvel.

    Eu ainda pressenti os carros de mulas, as terras sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem telefone.
    As estradas a rasgarem-se em tapetes de alcatrão e os aviões a hélice.
    O leite de porta em porta, os amoladores de facas e tesouras, os jornais atirados às janelas, o plástico a mostrar as suas virtualidades em carrinhas de modernos camelots.
    O que é que verei mais, se alcançar a mesma longevidade?
    Será um mundo tão diferente do primeiro que vi, como foi o deles?
    Os gráficos da evolução dizem que sim.
    A ver vamos.




    Tempo gasto

    Já gastei os últimos cartuchos
    Que um sentimento perdurador me permitira guardar
    E vi voar alto as aves que gritavam o teu nome inacessível
    Sobre pinheiros de beira-praia.
    Já não sei do tempo fácil em que a música era feita de estalidos de fogo
    E do marulhar das searas e do mar.
    Já a estrada que tinha significados de ti
    Foi adulterada por tapetes sucessivos que esconderam memórias em traços contínuos contidas.
    Já o teu sorriso envelheceu longe de mim.
    Qual de nós pedirá perdão desta distância que mensagens trai?
    Qual de nós ouvirá o silêncio que o outro lhe propõe?

    1986

    SG, "Dizeres do Sul", 1993



    Garranos do Gerês



    Já me disseram que é quase uma impossibilidade ver tais cavalos.
    Mas atravessaram-se-me à frente...



    Só digo

    que não é em Brasília, mas algures no Império do Cruzeiro do Sul.
    Uma conversa ultramarina dura horas de prazer.
    Não digo mais nada.