A noite de Natal
26 anos depois
Acordarem-nos naquela fase inicial do sono é o que dá.
A noite de Natal era apenas uma noite mais de diversão.
Um bailarico, as amigas do costume.
Ainda entrámos em palco mas não nos deixaram substituir os nossos amigos instrumentistas.
E à cama cheguei tarde e a más horas.
E fui acordado menos de uma horita depois, pela minha mãe (nem ouvi as pancadas na porta):
"Está ali um amigo teu que precisa de ajuda!"
Fui ver. O A.M. estava à porta, enregelado e a rir-se. Eu a tentar perceber porque é que ele não tinha ido para casa.
Como a noite era de forte geadão, eu já tinha saído do quarto equipado com samarra e botas caneleiras.
E ele a rir-se. "Eh, pá, tive dois furos..."
"Dois furos?"
Agora, era eu quem esboçava um sorriso: "Dois furos?"
"Sim! Desenrasca-me lá! Tive que vir à boleia numa bicicleta a motor."
Fui dizer ao meu pai que eram dois furos, que o rapaz precisava de ajuda: "Posso levar o carro outra vez?"
O meu pai a calcular outras aventuras mas admirado por me ver de pijama e samarra. Afinal...
Lá fomos.
O moço tinha saído da estrada numa recta, deu-lhe o sono e lá estava a carrinha com duas rodas na valeta.
O primo da namorada enregelado e enrolado no banco olhava para nós como para um filme que ele teimava em ver, lutando contra o sono.
Foi quando passou um matinal, fumegante e admirado motociclista que eu me dei conta que estava a começar o dia de Natal no meio do mato, em pijama.
Lá desmontámos as duas rodas, deixámos a carrinha ancorada nos macacos e ala para casa do M.V. que ele é que percebe de oficinas.
Mas ainda me lembrei de ir a casa vestir-me.
Quando chegámos a casa do outro, ainda eram sete e tal.
Relutantemente, lá nos abriram a porta e encaminharam para o quarto do moço.
Acordou connosco a abanar a cama.
Ria-se, ria-se, só se ria.
"Tal não foi o espectáculo?" - e sufocava ao rir-se deitado na cama. E a gente a baralhá-lo, a contar-lhe histórias.
É claro que foi depois preciso uma boa meia-hora para o convencer definitivamente de que o caso era urgente.
E lá o arrancámos da cama, a caminho da estação de serviço.
Depois de arranjar as cacetadas nas jantes e de remendar os furos, de voltar uns bons vinte e tal quilómetros até à carrinha e pôr tudo em condições, dei comigo ao meio-dia de Natal a beber conhaques e a fumar charutos espanhóis, no café das bombas de gasolina.
Mas já não estava em pijama.
Alguém devia estar à nossa espera para o almoço.
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