Não
Não. Não há algo de novo na barbárie.
Nem na barbárie maciça, nem na fragmentária.
Nem na dos números às centenas, nem na do um de cada vez.
Nem na morte de crianças, nem na guerra.
O que há de novo é que, nesta civilização do meio da Europa para cá, com os seus prolongamentos a outros continentes, desde a Segunda Guerra Mundial, que não se vê coisa assim.
Não que não tenha já acontecido aqui, em outras épocas.
Não que não tenha acontecido bem depois disso nesta mesma Europa, mas na outra.
Não que não tenha acontecido no seio da nossa civilização mas em lugares outros.
Mas aconteceu e aconteceu vezes e vezes.
E acontecerá.
Estamos muito longe de deixarmos as armas, se é que alguma vez isso irá acontecer.
Estamos muito longe de não disputarmos territórios, palmo a palmo, vida a vida.
Quando estas imagens nos entram pelas casas a dentro, o pior que podemos fazer é acreditar que o mundo se resume e se resumiu ao que vimos na televisão.
Há umas guerras, uma guerra, lá fora. E o lá fora pode ser ao virar da esquina.
E não há botão de Cancel.
04/09/2004
O Mago
Já há cinco dias consecutivos que me surgia à frente sempre na mesma curva do túnel do Metro.
Via-se que seguia com passo determinado, com alguma tarefa urgente para realizar.
Estatelou-se, depois de chocar contra o meu ombro.
Bateu com a cabeça nos mosaicos de vidro. Sangrava.
Não há rede - gritava o homem da pasta, secundado pela mulher dos cabelos falsamente ruivos.
Não houve recriminações. Fora um acidente.
O rapaz com ar de estudante disse que já conseguira ligar.
Um quarto de hora depois, depois de dois lenços ensopados em sangue, ouviu-se a sirene na boca do Metro.
Os socorristas fizeram o seu trabalho, levaram o homem.
Por ali caído no chão estava um cartão:
Guardei-o, sem que ninguém percebesse que não me pertencia.
Corri todos os hospitais, pedi todas as informações ao 112, ninguém me soube dizer onde estava o Mago.
O cartão não tinha qualquer número de telefone.
Já há cinco dias consecutivos que me surgia à frente sempre na mesma curva do túnel do Metro.
Via-se que seguia com passo determinado, com alguma tarefa urgente para realizar.
Estatelou-se, depois de chocar contra o meu ombro.
Bateu com a cabeça nos mosaicos de vidro. Sangrava.
Não há rede - gritava o homem da pasta, secundado pela mulher dos cabelos falsamente ruivos.
Não houve recriminações. Fora um acidente.
O rapaz com ar de estudante disse que já conseguira ligar.
Um quarto de hora depois, depois de dois lenços ensopados em sangue, ouviu-se a sirene na boca do Metro.
Os socorristas fizeram o seu trabalho, levaram o homem.
Por ali caído no chão estava um cartão:
Guardei-o, sem que ninguém percebesse que não me pertencia.
Corri todos os hospitais, pedi todas as informações ao 112, ninguém me soube dizer onde estava o Mago.
O cartão não tinha qualquer número de telefone.
Pós-Homem
Não me satisfazem a maior parte das ficções prospectivas.
Não que eu tenha a veleidade de saber como hei-de julgar as criações de cada um.
Mais porque, na maioria dos casos, não há homens diversos dos que conhecemos.
E lá num futuro longínquo, a nossa espécie será tão diferente do que conhecemos como o é daquilo que supomos ter sido um Australopithecus.
Podemos deitar-nos a adivinhar quais serão os aspectos mais diferenciados daquilo que é o Homem de hoje. Será sempre em vão. Mas supor que será o mesmo Homem é um crasso erro.
Não me satisfazem a maior parte das ficções prospectivas.
Não que eu tenha a veleidade de saber como hei-de julgar as criações de cada um.
Mais porque, na maioria dos casos, não há homens diversos dos que conhecemos.
E lá num futuro longínquo, a nossa espécie será tão diferente do que conhecemos como o é daquilo que supomos ter sido um Australopithecus.
Podemos deitar-nos a adivinhar quais serão os aspectos mais diferenciados daquilo que é o Homem de hoje. Será sempre em vão. Mas supor que será o mesmo Homem é um crasso erro.
01/09/2004
31/08/2004
30/08/2004
Falando de cor (as décadas)
Claro que me lembrei. Foi há dez anos.
30 de Agosto de 1994. 17:00. O sítio é que poderia suscitar algumas dúvidas. Resolveram rasgar com alcatrão as dunas onde fizemos a promessa.
Esta minha velha mania de que os outros não se lembram...
Nesse dia, ainda olhei de lado para as chaves do carro. Ia até lá só para poder depois dizer com propriedade que vocês se esqueceram.
Quando acabar de escrever este post terão passado trinta anos sobre a nossa combinação. A que eu falhei há exactamente dez anos.
E de que vocês também se lembraram. Mas pensaram como eu. Não pensamos todos?
Se não tivéssemos então a certeza de que jamais nos voltaríamos a ver, teríamos feito tal promessa?
Claro que me lembrei. Foi há dez anos.
30 de Agosto de 1994. 17:00. O sítio é que poderia suscitar algumas dúvidas. Resolveram rasgar com alcatrão as dunas onde fizemos a promessa.
Esta minha velha mania de que os outros não se lembram...
Nesse dia, ainda olhei de lado para as chaves do carro. Ia até lá só para poder depois dizer com propriedade que vocês se esqueceram.
Quando acabar de escrever este post terão passado trinta anos sobre a nossa combinação. A que eu falhei há exactamente dez anos.
E de que vocês também se lembraram. Mas pensaram como eu. Não pensamos todos?
Se não tivéssemos então a certeza de que jamais nos voltaríamos a ver, teríamos feito tal promessa?
29/08/2004
Vale por nove
O banho do 29.
Por quem raramente faz referências a livros, aqui vai um interessante trabalho de António Martins Quaresma sobre a Vila Nova dos anos 60.
Disponível em pdf.
Não se limita a Vila Nova de Milfontes, e aborda aspectos de anos mais longínquos.
Nas entrelinhas, lá está o autor deste blogue, entre canas, polvos a secar, estradas de areia e candeeiros a petróleo.
O banho do 29.
Por quem raramente faz referências a livros, aqui vai um interessante trabalho de António Martins Quaresma sobre a Vila Nova dos anos 60.
Disponível em pdf.
Não se limita a Vila Nova de Milfontes, e aborda aspectos de anos mais longínquos.
Nas entrelinhas, lá está o autor deste blogue, entre canas, polvos a secar, estradas de areia e candeeiros a petróleo.
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