31 dezembro 2006

Na Mésia

Vejo-te de cerejas.
Vejo-te de flores.
Recebo-me contigo.
Há setecentos anos, hoje que seja. Hoje que sejas.

SG, inéditos, 2006

Ano velho

Na preguiça de quem carrega mais um ano às costas, como se fosse eu o único, socorro-me de mim próprio, em autocitações imodestas:

de 1 de Março de 2004
de 16 de Agosto de 2004
de 31 de Deezembro de 2004
de 19 de Novembro de 2003

Talvez devesse dizer-lhe, lembrar-lhe, que não me será indiferente que às 22:00 se dê a entrada da Bulgária na União. Talvez SG me socorra. Ele que me apareceu estes dias.

29 dezembro 2006

Muitos ases de espadas num só baralho

Será que executam os duplos de Saddam Hussein junto com ele, à cautela?


actualização: Afinal, parece que não. Foi um só ás. Ainda discorrerei sobre a cópia de disparates que se escreveram e disseram à volta dos famigerados sósias.

28 dezembro 2006

O funcionário (in)competente

O funcionário competente tem uma carta à frente. É nela ainda que identifica os prédios e anota o número dos respectivos processos.
Mostrou-me o meu. Nada. Nenhuma nota.
Não temos cá nada. O processo está no Arquivo Histórico.

Vindo do Arquivo Histórico, já com o processo identificado e copiado, lá fui dar o meu contributo para a desarticulada base de dados.
Quando disse que ia dar um contributo, o funcionário incompetente respondeu-me que ali não se aceitava tal.

Quando lhe expliquei que sabia que o colega competente anotava numa carta sobre os prédios os números dos processos e que o que tinha na mão era uma cópia do rosto de um processo, com a respectiva cota lem legível, respondeu-me que aquele número não podia ser de um processo.
Voltei a dizer-lhe que era a cota sob a qual se encontrava tombado no Arquivo Histórico, que era quanto bastava para que um terceiro que a seguir viesse o encontrasse de imediato.
Diz que não, que não podia ser o número do processo.
Paulo de tal e tal - gritou-me lá de dentro, depois de aparentemente ter ido consultar alguém ou qualquer coisa.
Disse-lhe que se o nome que me gritava era de um processo que tinham ali com um número igual, tal nome não tinha, à primeira vista, relação alguma com o processo que eu tinha na mão.
Voltou a dizer-me que aquilo não podia ser número de processo.

Apareceu então o funcionário competente.
Olhou para a cópia que eu lhe estendia e disse:
Ah, obrigado. Mas eu duvido que dessa zona ainda seja preciso anotar esses números.
Já não temos pedidos de licenças daí.

25 dezembro 2006

O sismo de Rabate

Não será fácil esclarecer as circunstâncias em que me afastei tanto do tradicional caminho para casa.
Procurei por saídas em quase todo o lado onde entrei. Saídas de beco em beco, de rua em rua, tudo nas redondezas da minha casa.
Retenho apenas desse percalço três ou quatro notas.
Os agressores arbitrários que se encontravam num campo patrocinado pelo jornal "A Bola" e inaugurado em 25 de Maio de 1941.
O chinês que me queria vender uma craveira com canivete suiço, marcada a 2,30 euros por 200 ou mesmo 180 com o ar mais seráfico deste mundo e que me ainda me perguntou se eu não ia comprar nada quando me viu porta fora.
A dificuldade em sair do restaurante dos grelhados sem passar por baixo das competentes grelhas que, assando à brasa áerea, pingavam gordura fervente sobre quem se atrevesse. Depois uma simpática almoçante lembrou-me o que eu estava farto de saber. Os clientes não conseguiam sair por ali. Já os empregados tinham um sistema de passadeira levadiça que suplantava os grelhados, quando accionada.
A última e decisiva nota que me atirou para o iate de alguém, foi naquele salão de chá também achinesado em que entrei por uma estreita passagem e onde depois, mais uma vez, tentei achar uma saída e nada. Nem sequer conseguir voltar para trás já conseguia, não fosse a prima C. indicar-me o caminho, afinal aquela espécie de louceiro envidraçado e baixo.
Lá voltei não sem ter tropeçado num grupo de cromos que contemplava as pernas das balzaquianas. Ainda me detive numa ou noutra assinalada e quase parecia que um etéreo xis lhes era aplicado nas nádegas pelos ditos. Mas reparei que os seus rostos tinham perdido o viço.
Voltei a casa. Sabido que é que ficava na Praça do Pão. A praça era toda constituída pelas construções baixas de um infantário-colégio e a ocidente por um edifício mais alto onde se ouvia sempre a voz feminina que falava ao telefone.
A minha casa era um enclave. Não tinha vista para o rio, como a praça. Mas eram umas boas instalações, no dizer de PoliBruno.
Alguém me perguntou se eu não tinha saudades das reuniões de condóminos no prédio de sete andares. Disse que sim.
Depois disto tudo, já estava no iate da outra.
A volta era para ser curta, chegar antes da noite. Mas eu notei que ainda assim era melhor trazer uma roupa mais quente. Que isto de ir para o mar...
Claro que se alongou. Fez-se noite e frio. A prima C. num ataque de coragem inaudito lançou-se às escuras águas do golfo de Cádis para recuperar qualquer objecto perdido.
Talvez um gato. Talvez o gato transformista que adquiria forma a partir do nada. Talvez um dos dois gatos pretos protegidos - gata e cria - que se instalavam por detrás das quartas de água.
Mas o caso é que se lançou e trouxe uma espécie de marroquinaria na mão.
Deram-lhe roupa seca e tudo.
Pouco depois, teve lugar a cena dos candeeiros. Um amigo da dona do barco mantinha uma espécie de sala repleta de candeeiros e só de candeeiros. Não era uma mostra, era mais uma espécie de loja sem objectivo de venda.
Ali levados, ele começou a dar com um maço de madeira nuns candeeiros que semelhavam o boneco Michelin, uma espécie de elipsóides sobrepostos.
Quis com isso, suponho, dar uma ideia da robustez das suas criações.
E, posto que éramos chegados a Maiorca, passámos à sala de refeições onde, enquanto nos batíamos com as mais requintadas iguarias, me pareceu que o barco tremia sob qualquer efeito anormal.
Comentei com o meu parceiro de mesa que, se fosse em terra, diria que era um tremor da dita. Mas sendo no mar, estranho seria que a água se animasse da mesma forma. O certo é que, pouco depois dessa agitação, já se avistavam ondas mais altas e espumantes nada de acordo com o mar de minutos antes.
Era então um sismo, dizia eu, secundado por um partido.
No outro lado da sala, as opiniões eram contrárias. Os sismos não se sentiam assim no mar. Caso as águas se agitassem, seriam ondas com período muito maior e não as que corresponderiam à minha descrição.
A discussão pegou-se e morreu.
Passámos à parte do jogo.
Fomos para os aposentos do médico que, descuidadamente, tinha deixado sobre o pano verde da camilha uma embalagem amarela e preta de uma pomada cuja indicação, em letras gordas, eram as fístulas.
Aqui, o parceiro que liderava o partido anti-sísmico exorbitou. Começou a disparar na minha direcção com tal violência verbal que a coisa quase descambou.
Mas lá jogámos.
Quando voltámos à sala de jantar, alguém tinha aberto o móvel da televisão. Estava ligada num canal que dava cotações.
Em rodapé li sobre um sismo de grau 3,3 em Rabate. Já não me calei nessa noite.

22 dezembro 2006

Gibalta, 2006

O Natal dos materiais

O material tem sempre razão.
Não resiste a um escalpelo mais aguçado esta lapidar frase. Pode, todavia, encimar a justificação da minha ausência.
Foi o material que cedeu, diriam os humanos.
Foram os humanos que não souberam o que e como fazer com os materiais, replicariam estes, cheios de razão.
Então e os humanos não serão um subconjunto dos materiais? - repensariam com ar grave, todos em conjunto.
Bem, atenta a época, um humano ateu* espera que o senso natalício dos materiais, a existir, o poupe a mais arrelias.
Até ver, estamos - eu, Manuel Vilhena, e o H Gasolim Ultramarino - de volta.

Boas Festas, mais uma vez, para os meus quatro leitores.



* também eu não consegui desligar-me desta dúvida

27 novembro 2006

À segunda levantou voo o franchisável (IV) Depois de um período de confusão, em que houve de tudo como compete em casos tais de homicídio, estabeleceu-se a discórdia. Os dois partidos, pró e contra o infanticídio acabado de perpetrar, digladiavam-se em plena bancada enquanto eu e o J.M. nos colocávamos numa pose de desafio, prontos a enfrentar todas as consequências que, de facto, achávamos que fossem nenhumas. Ora pouco depois, chegaram uns estranhos veículos séculos XXII, também eles azuis, também eles voando com as rodas em terra, que eu reconheci como da G.N.R.. Disse então ao J.M. que o melhor era a gente pirar-se. Recuámos para um corredor interior, passámos por vários gabinetes envidraçados, julgo mesmo que, ao passarmos de nível, nos cruzámos com o J.R. que estava ali para se despedir do meu irmão que afinal embarcara a horas e, nisto, perdi-os a ambos. Resolvi ir para o fim da pista e usar todo o combustível mental que me restava para levantar voo. Assim o fiz. Mas a energia era pouca e tendia a diminuir rapidamente. Ao fim de pouco tempo, já voava baixinho entre portas e travessas, até que cheguei à costa. Ali, rumei a sul. E pouco depois encontrei aquela exploração russa de peixes não-sei-quê. Foi ali mesmo que pedi asilo político, depois de contar sete versões sete do que tinha acontecido. Uma coisa que me surpreendeu e me fez desconfiar das boas intenções dos russos, foi o terem-me mostrado como estabilizavam as formas de vida que pretendiam preservar para memória futura, melhor dizendo para tempos de mais e melhores conhecimentos científicos. O depósito era uma espécie de grande estante SUC em plástico cinzento e rede metálica. Ali havia de tudo como na botica. E receei ir ocupar uma das gavetas vazias. Mas não. Chamaram as autoridades locais e fui informado que, encontrando-me eu à guarda deles, russos, havia uma negociação tendo em vista esconder-me num alçapão sob a câmara dos comuns em Londres e que isso seria um passo para ser eu trocado por quaisquer prisioneiros de guerra em qualquer zona remota que não vinha bem ao caso. Isto colocava-me, colocou-me, na directa dependência de uma coligação anglo-russa. E, acto contínuo, fui a julgamento por cumplicidade na morte do artista. Tive a meu lado, à esquerda, uma fila de defensores britânicos; e à direita, igual fila de russos. Deste caso, e das ameaças verbais que ouvi da boca dos pais da criança, não há muito a dizer. Abandonei a sala, pela porta que dava para o mar e mergulhei. Cheguei de novo a terra firme umas horas depois. O paradoxo está aqui: se eu de nada me lembrava quando saí das águas, como é que fui capaz de relatar agora os sucessos desta forma? Diende.
Alvor, 1989

26 novembro 2006

As cheias de 67

Lembro-me do Sábado todo a chover. Da água entrar por frestas de janelas mais expostas.
De ser chuva forte e de ouvir qualquer coisa ao meu Pai sobre a inevitabilidade de haver inundações.
É disso que me lembro e de nada mais.
Não tivemos consciência da gravidade da coisa, vivendo como vivíamos num sítio alto e inclinado, onde a água escoava rapidamente.
Na manhã de Domingo, 39 anos contados até hoje, lá saí com o meu Pai, ambos ainda alheados das consequências da chuva intensa e persistente da véspera.
É a um certo ponto do trajecto que, olhando para longe, para o local ilustrado na foto abaixo, diviso uma série de lençóis brancos alinhados. Nada disse. Mas recordo-me de me ter parecido que o meu Pai, nefelibata que era, não tinha dado por tal. Acho que só quando passámos por um magote de atiçados comentadores da desgraça, que apontavam para o monte e para o vale, ele se deu conta. Mas também nada disse.
Só mais tarde tivemos noção do que realmente acontecera.

Nesse dia a precipitação no Tojal foi de 137mm e em Sacavém, de 111mm.
Dos registos do INAG, é o segundo mais elevado. Só batido pelo de 19 de Novembro de 1983 (163,7mm e 130,9mm, respectivamente).
Hoje, caem 15 ou 20mm e é o alarido que se sabe.


Fotografia de Paulo Guedes in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Queluz, c. 1900


Foto esta que, por uma estranha coincidência, encontrei ontem no blogue do amigo Bic Laranja, notando que o aspecto que mostra é muito semelhante ao de 1967.

P.S. Sugiro que se elabore uma fórmula, com base nos períodos de retorno, que dê enquadramento às indemnizações que o Estado paga a quem se queixa de ter bens destruídos por inundações. É um roubo de igreja que alguém, cuja casa se inunda todos os anos pares, venha reclamar do Estado uma compensação.

24 novembro 2006

24 de Novembro de 1966

Um dia inesquecível.
À segunda levantou voo o franchisável (III)

Não posso precisar os detalhes da nossa chegada ao aeroclube. Mas uma coisa pode dizer-se e é certa: se fomos em meio aéreo, fizémo-lo com as rodas assentes no chão, taxiando.
Já à chegada, notava-se que o irrepreensível estado de limpeza da aeronave do meu amigo contrastava com o estado de sujeira em que se encontravam quase todas as demais. Como se o simples facto de andar no ar concorresse para o acumular de merda nas asas, na carlinga e em toda a fuselagem, enfim.
Mas depois de ziguezaguearmos pela frente e pela ré da reluzente máquina, agora exibindo o seu azul celeste ao lado da roulotte dos coiratos e das sandes de molho, e de eu ter medido bem os gestos e a pose do meu companheiro que em tudo se esforçava por estabelecer, sem a menor dúvida, o linque de posse entre ele próprio e o avião, enfrentámos as bancadas tribunícias onde algum público assistia à evolução de aparelhos e talvez até se despedisse de parentes e amigos embarcadiços.
Isto depois de um pequeno incidente de que fui protagonista, quando entrei numa área reservada e tirei algumas fotografias. Ele fazia-me gestos com a mão para que não avançasse mais e me abstivesse de fotografar, com medo de qualquer admoestação na sua qualidade de membro do aeroclube. Eu lá continuei mais um bocado mas acabei por retroceder, sem que alguém me tenha interceptado.
Foi entre a minha saída do portão gradeado da dita área e a chegada à bancada coberta, passando por uma ponte sobre um fosso na muralha que avistei, saltando de um baluarte, o franchisado.
E digo ainda que era o franchisado, por calcular que o detentor da originalidade de tão grande malícia em tão pequeno corpo não tivesse tido tempo de ali chegar, mesmo que se tivesse apressado a seguir no meu encalço. Era pois o diabo por ele. Um franchisado.
Fosse lá quem fosse, começou de imediato a arremessar-nos pedras assim que nos apanhou a tiro.
Nem sequer o facto de nos encontrarmos já então em animada conversação com duas companheiras de bancada foi impeditivo da sua maldade. Distribuía-se entre as pedradas que ora acertavam em nós ora em terceiros e as investidas com paus afiados e as vergastadas com canas verdes.
Acabámos por fazer uma retirada estratégica para a sala de espera, envidraçada, que ficava no topo da bancada e na qual havia uma abertura larga a oeste, do lado da pista de onde levantavam agora os aviões.
As nossas amigas tinham-nos acompanhado. E havia indignação maioritária entre a assistência contra o renegado infante, embora uma minoria achasse que a criança não merecia censura alguma.
Foi depois de mais uma investida pela tal abertura ocidental, que a coisa se deu. E deu-se rapidamente e da seguinte forma:
O miúdo investira com uma lança de madeira pontiaguda contra o J.M.. Este, num salto felino, apanhou-o pelo cu das calças e saindo com ele para a parte da bancada, arremessou-o contra os cabos de alta tensão enfeitados com balões vermelhos. O miúdo chamuscou-se e fez ricochete, ao som do trovão. Foi parar de novo às mãos do J.M.. Este não hesitou e arremessou-o uma segunda vez, com tais ganas que me pareceu a mim que ele também tinha sofrido na pele as agressões do primeiro. E que era o franchisável, ele próprio, que levantava voo. Talvez não me tivesse enganado. À segunda foi de vez. O ricochete que fez agora, deveu-se apenas à elasticidade dos cabos, já mortos. Já morto ele também, com o choque da primeira vez.

(continua ainda)

22 novembro 2006

Espólio (21)



A minha visão do 22 de Novembro de há 43 anos, obtida em cima do acontecimento.
Política há

Ideias é que não.
Há muito que é assim.
A última ideia política de que dei conta - condicionada pelas circunstâncias da época - foi a da integração europeia. Daí para cá, um deserto.
Um deserto em que só os que se encontram dentro das clientelas encontram diferenças de rumo. Como se houvesse até um rumo.
Dá este governo, na linha que vinha embora mais ténue de outros anteriores, uma ideia de querer pôr a casa em ordem, o que é dizer tino nas contas.
Faz bem. Faz muito bem.
E é por isso que as costumeiras corporações já se queixam. Como se isto não dissesse respeito a todos.
Não tenho, como já disse, pachorra para ouvir as lamúrias e os queixumes de tais corporações quase sempre representadas por inenarráveis criaturas bradando por tenças, alcavalas, comedorias e acrescentamentos.
Há, porém, uma brecha grave pela qual podem acometer os protestantes - é a falta de autoridade moral dos governos, da qual é ridículo exemplo a publicação a rogo e a contragosto da lista de credores do Estado.
Como disse, no deserto não há ideias. Nem rumo que se possa mudar.
Mas há muitos pobrezinhos deslumbrados, convencidos de que vão não sei onde, com a arca que carrega o nosso dinheiro. Pobres de espírito.
Ericeira, 2006

21 novembro 2006

Como daquela vez em Bariloche

A mulher que não gostava de ser comentada encontrou-se, no dizer de Godard, com o homem que não gostava de ser lincado.
Foi ali naquela esquina e não chegaram a dar um pelo outro.
Como daquela vez em Bariloche.
Queluz, 2006

20 novembro 2006

À segunda levantou voo o franchisável (II)

Sei lá eu por que é que, no meio de tanta pressa, havia de me deter naquela sala. Mas detive-me o suficiente para reparar neste e naquele, no inevitável dr. azul acinzentado e nesta ou naquela figura feminina de fino recorte.
Uma delas era portadora de uma criança amável e comportada que se encontrava sob ataque de uma outra, desbragada, quezilenta e maliciosa. A coisa descambou quando esta acertou aquela com um troço de pau de vassoura, deixando-a desmaiada.
Os pais do agressor encolhiam os ombros.
E a até ali morna atmosfera, toldou-se duma vez.
Comentários reprovadores do dr. azul acizentado, como é que esta gentinha educa os filhos, e outros reparos sobre a gravidade do galo.
Embrenhava-me eu em discurso mudo sobre os eventos junto de um homólogo quando fui acometido pelo pequeno malfeitor, que me acertava com o mesmíssimo pau de vassoura nas pernas.
Dirigi um olhar fulminante à mãe da criança, certo de que nada adiantaria, e retirei-me, lembrado da urgência da abalada.
Foi então que já não vi nem o meu irmão nem o J.R.. Procurei o carro, de ribeira abaixo, seja lá o que fôr que isto significa, a par de ser a descer a rua, e nada.
Meti por uns atalhos sob o caminho-de-ferro, era daqueles viadutos com os encontros revestidos com silhares, e lá encontrei alguém que me deu indicações muito pouco preciosas.
Desisti do comboio para voltar para casa e voltei à procura do carro, ribeira acima.
Avistei-o mais ou menos a meio caminho. Vinha com ar de quem não quer a coisa mas era certo que já me tinha escolhido como vítima, mesmo porque não se via vivalma a mais por ali.
Acertou-me primeiro com uma pequena pedra. Depois com um punhado de areia que me atirou aos olhos. Logo com uma pedra maior.
Ainda encaixei mais sete ou oito ataques, ignorando-os como se nada fosse, até alcançar de novo o pórtico das instalações.
O pequeno meliante tinha ficado para trás. Julguei infrutífero travar conversa com a mãe dele que se encontrava sentada no mesmo sítio, em amena cavaqueira com a parceira do lado.
Saí de novo e de novo fui atacado com paus e pedras.
A um certo ponto reagi, dando uma valente bofetada na cara do bandidote. Este retomou o ataque com fúria redobrada, como seria de esperar.
Para evitar exceder-me com ele, resolvi entrar pelos tais corredores de vidro e utilizar o truque de mudar de nível, calculando que, pela sua reduzida estatura, não lhe seria possível agarrar a barra que possibilitava o balanço.
Assim fiz e vi-me ao pé do velho J.M. a quem não via há uns bons tempos.
Estranhei o facto de o ver envergando um dólman de piloto e respectivos cachecol e óculos.
Sossegou-me. Era apenas o traje de aeroclube.

(continua)
Rio Tejo, 2006

19 novembro 2006

Co' a breca

Duas notas, para mim curiosas, a propósito da publicidade televisiva.
O anúncio do Montepio cortou a parte do convite para jantar.
O anúncio do Ponto Verde manteve a frase "Co' a breca [...] não lembra ao careca!"
O politicamente correcto não se aplica às criancinhas, tá visto.
Para a próxima ousarão "...mariquinhas pé-de-salsa", "... do que um coxo", "... o zarolho", "... para o maneta" ?
Furacões

Parece-me muito pouco próprio que esta época de furacões tenha sido tão fraquinha.
Coitados dos mensageiros da desgraça.
Filhos e penteados

Ainda não consegui perceber por que é que não teremos nós, todos os portugueses, direito a um emprego vitalício e respectiva tença, com valorização anual nominal positiva e valorizações extraordinárias garantidas a intervalos regulares.
É a tal parábola dos filhos e dos penteados. E eu cada vez tenho menos pachorra para ouvir e para pagar estas cobóiadas corporativas. Eu e mais quantos?

18 novembro 2006

À segunda levantou voo o franchisável (I)

O conceito era o de levantar voo. Claro. Expresso através das minhas inúmeras olhadelas ao relógio que simbolizavam a preocupação em depositar a horas o mano na aerogare.
Em boa verdade, preocupava-me mais do que ele.
Talvez numa perspectiva de optimizar, maximizar a satisfação do cliente.
O certo é que, com o J.R. atrelado a nós, fomos buscar umas coisas que lhe faltavam, a saber uns maços de notas de euro e de dólar, e arrumar umas outras lá no gabinete dele.
Ora ele trabalhava num sítio onde, a partir de uma interessante instalação industrial dos anos 40, um edifício cor-de-rosa, se implantou num canto vago uma edificação mimética muito, mas muito, bem desenhada.
É mesmo pelo vértice do lote que se entra. Por um pórtico algo rebuscado.
Estacionámos o carro - de marca e modelo inidentificáveis - logo após a entrada.
E lá fomos, pelo intrincado labirinto de vidro que dá acesso aos diversos gabinetes.
O gabinete do homem era assim: rectangular, entrando-se por um dos lados menores; no lado oposto, uma porta; à direita de quem entra, janelas altas, uma secretária ao fundo e uma cama de sentar imediatamente antes, sobre a qual havia uma série de acessórios espalhados: cabos, cêdês, discos rígidos, etc. Do lado esquerdo, umas estantes com livros e papelada.
O monitor estava pendurado do tecto e era nele que devíamos observar a sétima maravilha em aplicações não-sei-para-quê, mas um incómodo erro no arranque - em casa de ferreiro... - que arremedava a genérico da TV Globo impedia-nos de a ela ter acesso.
A vizinha do lado, da qual não fiquei a saber se era interessante ou não, disse e trouxe quaisquer coisas que, em primeira análise, seriam necessárias para a viagem. Não sei mesmo se não as notas.
Depois de mais uns minutos daquela penosa permanência em locais de trabalho alheios, a título de visita, apareceu uma espécie de dr. das empresas, fato azul acinzentado escuro, óculos de griffe, essas coisas que sabemos. Disse ou deu, com o tal ar, timbre e asserção a condizer, uma série de bons e banais conselhos de como se comportar com um gordo maço de dólares em qualquer país da América do Sul.
Achei que esta figura era indispensável em qualquer empresa que se preze.
Mais ou menos ao mesmo tempo que achava tal, chegou o big boss - o que é o que de pior pode acontecer a quem se encontra de visita a um local de trabalho alheio, excepto se se tratar de uma grande loja de materiais de construção no Parchal, por ocasião da visita de Natal - e chegado este, urgiu ouvi-lo.
Disse uma sucessão de banalidades igual à do orador anterior, embora com o ar de quem dispõe de uma vasta colecção de automóveis "de colecção". O que era verdade, suponho. Diria até que ele começou uma frase assim: "Indo eu no meu Ferrari Dino..."
Creio que o meu irmão se desculpou com as horas e lá zarpámos.
De volta ao labirinto, lembro-me do J.R. ter mudado de nível como quem está na barra fixa. Havia uma espécie de tecto de abrir e ele, por via de uma tal barra imaginária, saltou para o corredor imediatamente acima.
Assim nos aproximámos da porta e de um salão onde decorria algo entre uma espécie de festejo e de espera por consulta ou atendimento, visto que o ambiente geral era morno e indivisível, por não ser avisado dizer indizível.
E foi aí o meu primeiro contacto com o franchisável.

(continua)

15 novembro 2006

A internacionalização da coisa

Avisado pelo João Espinho, a quem agradeço, de que os pop-ups que andavam aqui a arreliar as visitas provinham do Webstats4u, cortei cerce o alimal.

Mas aqui fica a lista dos países e regiões especiais, primeiro por ordem de visitas, depois por ordem alfabética em português, que o contador, desde Novembro de 2003, registou:



Quase metade dos considerados pela ONU.

14 novembro 2006

Os 28 pontos de Scolari - o que falta dizer

Disse aqui há dias que os 28 pontos (7 vitórias em casa e 7 empates fora - dos quais um já falhou) que o Seleccionador Nacional estabeleceu como meta para a qualificação para a fase final do Campeonato da Europa não garantiam apuramento algum. Mantenho. É coisa de facto. Até este momento e com os resultados já verificados, nada garante que 28 pontos cheguem para garantir o apuramento. Porque ainda é possível que um conjunto de duas equipas outras ultrapasse esse número, ainda que empatem em casa connosco e percam em Portugal. É, como disse, uma questão de facto, de contas. Que se alterará à medida que os jogos venham a ser disputados.

Porém, e aqui é que a porca torce o rabo, é muito provável que os ditos 28 pontos sejam suficientes.
Para o afirmar, procurei grupos de apuramentos de selecções nacionais que, em competições recentes, fossem igualmente formados por 8 equipas. Não encontrei.
Mas encontrei dois com 10 equipas e um com 9. Todos dos últimos três campeonatos do mundo e da fase de apuramento sul-americana.
O que fiz depois foi para cada conjunto de resultados, eliminar os jogos de 2 equipas de cada vez, nos apuramentos a 10; e de 1 equipa no apuramento a 9.
Deu isto uma série de 99 casos (2 x 10 C 8 + 9 C 8). Em todos eles se verificou que o segundo classificado obteve 28 (4 vezes) ou menos pontos. Parece-me suficiente e dou a mão à palmatória, sem retirar uma vírgula ao que disse então.
O homem mau

Já é sabido que Jorge Duplo Vê Bush é o responsável pela extinção dos dinossauros.
Ficou provado por estudos desenvolvidos por um grupo de cientistas independentes e por diversas organizações não-governamentais constituídas exclusivamente por voluntários.
Já se estudam, entrementes, as suas intervenções no advento da Pequena Idade do Gelo e na erupção de Cracatoa.

Este post era para ser autobiográfico. Mas havendo um Jorge Duplo Vê Bush, aproveita-se e descarrega-se - sacode-se o capote - em cima dele.
Que homem mau!

12 novembro 2006

Céus de Portugal, esta tarde



As palavras parece que o vento as leva. Não as encontro por aqui.

11 novembro 2006

Os Combatentes da Grande Guerra



Já pouco lembrados são.
Perderam-se em Paz, ano a ano, vulto a vulto, na Avenida. A 11 de Novembro.



Imagem daqui.
Mais imagens aqui e aqui.

08 novembro 2006

O comboio (X)



E.N. 2 - Estação C.F. de Castro Verde - Almodôvar (Carregueiro), 1996

07 novembro 2006

Sem mais comentários



As cartas correm
Velozes com' as rodas
Ind' agora aqui passou
O ás de espodas
*



* quadra popular?

Mais sobre a matéria, por Martin Rowson no Guardian: aqui e acolá.
Rio Tejo, 2006



06 novembro 2006

Lisboa, 2006

As catástrofes que não aconteceram

Sabe-se lá quantas são, foram. E raramente se perde tempo a analisar o que propiciou que quase acontecessem, seja o acaso ou a intervenção humana a evitá-las.
Vi ontem e hoje as imagens do troço da Linha do Norte que ficou suspenso. Tal como há nove anos aconteceu na Linha do Sul, perto de Panóias. Dessa vez com maior aparato.
Sobre este caso, não faço ideia do que se passou. Como é que se evitou que um comboio terminasse ali a viagem em tragédia.
Mas o simples facto de acontecer já é perturbador. Não é preciso muito esforço mental para perceber que a sorte influiu. Se o assentamento da linha se houvesse produzido pouco tempo antes de por ali passar um Alfa ou outro qualquer de passageiros, era certa a catástrofe.
Sabemos todos que as coisas são calculadas para resistir a solicitações até a um limite improvável no seu tempo de vida. Parece-me é que estes limites calculados estão muito aquém da realidade.
Um dia destes, não há sorte.


imagem da SIC N
O comboio (IX)


Estação C.F. do Setil, 2006

04 novembro 2006

Declaração



Eu, ponte sobre a Ribeira de São Domingos na E.N. 390, vinda a este mundo entre 5 de Agosto de 1957 e 4 de Agosto de 1958, há portanto mais de 48 anos, e aqui em foto tipo passe, venho por este meio reputar, como Twain, de muito exageradas as notícias sobre o meu desaparecimento que alguns, incapazes de reconhecer a olho nu os livores da morte, se encarregaram ontem mesmo de difundir.

03 novembro 2006

02 novembro 2006

01 novembro 2006

O comboio (VI)



Automotora NOHAB na Estação C.F. de Beja, 2005

31 outubro 2006

O comboio (V)



Estação C.F. de Alcácer do Sal, 1993
E como é que o homem se sente?

Como se estivesse numa colectividade de bairro, com pretensões, dirigida, na falta de melhor, pelos mais burros dos apanha-bolas*.
É assim que ele se sente.


*os lambedores de caricas que lhes almejam o lugar são iguaizinhos, é claro.
O comboio (IV)



Estação C.F. do Barreiro, 1993

30 outubro 2006

O meu mau feitio - episódio n+1

Depois de terem ensinado aos papagaios que o prefixo alegado deveria figurar sempre, mas sempre, que se falasse de alguém em vias de ser julgado, chegou o dia em que eu ouvi alguém dizer, na SIC Notícias, que aqueles (os indivíduos supostamente* "alcaidas", mortos pelas forças armadas paquistanesas) eram alegados inocentes.
Não me pareceu só bem. Pareceu-me muito bem dito.


* ou alegadamente
A minha campanha



Estudos MUITO científicos indicam que a redução para metade da população humana elimina TODOS os problemas ambientais.
O comboio (III)



Passado - Estação C.F. de Sines, 1995

29 outubro 2006

28 outubro 2006

O comboio



Creio que o comboio não será indiferente à maioria dos que já o viram.
A mim não o é, seguramente. Como não o será aos velhos que ainda se reúnem, onde isso lhes é permitido, a vê-los passar.
Conheci pessoas, algumas da minha idade, que só quase adultas o viram pela primeira vez. O comboio e o mar, acrescentam por vezes. E colocam-nos a ambos em pé de igualdade no deslumbramento.
O comboio nasceu-me. Estava nos meus pais, nos meus avós, bisavós. Ao lado de uma casa onde cresci, audível em silvo e em atrito nos carris, nas noites da outra onde me fiz.
Estava por ali, fugindo nas terras da família, roubando o nome do Monte de um bisavô.
Estava por detrás da escola. Estava ao atravessar a linha todas as manhãs, todas as tardes, para cá e para lá.
Estava nas tragédias da gente que ali ficava para sempre, trazida pelo suicídio ou pelo fado, deixada debaixo de um oleado, horas sem conta, à nossa vista de miúdos curiosos da morte.
Estava nas viagens. Nas ambulâncias militares com grandes cruzes vermelhas que dele se viam ali em São Domingos de Benfica, apeadeiro morto e enterrado há muito. Nas mudanças geológicas das paredes cavadas antes de Campolide. Nas entranhas do túnel. Nos quiosques da estação.
Nos bilhetes. Nos horários desactualizados que arrematei há uns anos a um velho amigo que mos cedeu com agrado, a troco de um aperto de mão.
No apito de partida, nas bandeiras, nos petardos de paragem raramente ouvidos.
No cheiro das travessas e do metal. Nos armazéns de mercadorias, escuros e aromáticos também. Etiquetas de todas as proveniências que imaginar se possam.
Nos abrigos de madeira, nas calçadas com nome, nos edifícios de projecto idêntico.
Nas locomotivas.
Nos comboios de quase luxo, com sinetas para a segunda leva do jantar e respectivos bifes com mostarda abanando a compasso em cima da mesa.
Nos sons da buzina ao passar das estradas canceladas.
Nas descidas das vertentes do desaterro da linha. Na árvore do Stingray.
No túnel entre medronheiros, em terras do meu Tio.
Nas idas de bicicleta a ver passar e parar o Rápido. Nas bifanas da estação comidas no horário do comboio correio. No dito, com os militares a dormir na cochia (em vez de coxia).
Nas noites do último. No afugentar de El-Rei.
Nas mãos do louco que se interpôs em abraço entre mim e a morte, a troco de um maço de cigarros e de um outro ingente abraço.
E no final, chegando a casa, sempre a casa. Quando os cumprimentos na gare semelhavam a apoteose e a searas secas, à espera da debulha*.
E, talvez, um dia ao fundo do quintal uma vez mais passe o comboio.


Os próximos dias serão aqui de consagração do cavalo de ferro.



*SG, "Seara seca", 1985
Comboios em Portugal



Hoje há comboios de borla.

27 outubro 2006

Eleições II

A esse concurso entre vivos e mortos, do qual se diz que os mortos estão a levar a palma aos vivos, prometi ou não voltar fazendo campanha. Aí está:



É uma senhora.
Aturou o Zé Povinho uma vida inteira (dizem).

Bastam estas duas alíneas para merecer o meu voto.

imagem original do Museu Bordalo Pinheiro
Eleições I

Se o meu velho amigo benfiquista V.H. me encontrar daqui por uns tempos, à mesa do café, é bem capaz de dizer que, por estes dias, Luís Filipe Vieira ganhou a Luis Inácio da Silva.

26 outubro 2006

Isabelle

Ele há mistérios. Se não era a mesma, era o Diabo por ela.
Na bomba de gasolina.
De Peniche.
Ontem ao cair da noite.
Pergunta

Uma maldade que se não pode fazer a este governo, bem como se não poderia fazer a todos os outros que contribuíram para este desfecho, é perguntar qual é a vantagem para Portugal de vender Cabora Bassa.
Pobre, triste País que tais políticos alberga.

25 outubro 2006

Andanças do mirone (I)









Esta tarde, entre Peniche e o Baleal