1958A coisa mais terrível ou uma das coisas mais terríveis de quem se deixa envelhecer é a tendência para evocar memórias que essa lassidão promove.
Tanto mais quando ao afastamento da juventude e da força acresce o de outros meios, o chamado caminhar de cavalo para burro.
Lá por ter consciência do cilício que uso, não me abstenho de remexer no baú.
1958 é o ano em que me fiz. Apareci por cá nos primeiros dias de 59, quando Fidel chegava a Havana. E, tal como ele, preparei ao longo de 58 essa chegada.
Nos 50 anos dessa data, tenho que anotar o fechar de portas que aqui anunciei vai para uns anos também. Portas que estiveram abertas durante exactos 50 anos. Desde esse ano de 58.

50 anos depois, fechei a porta da casa onde me fiz. Deixei a rua da minha infância, olhei pela última vez da minha janela os horizontes largos que me proporcionou e que vi povoarem-se de casas nesse entretempo.
Na rua, julguei divisar os meus amigos correndo de calções atrás da bola, emboscados algures de rifle em riste, talvez no óculo da escada do prédio do canto, talvez atrás do único carro estacionado.
Do alto, vi aviões de guerra em manobras intimidatórias e um êxodo quase bíblico por campos e estradas.
Senti ali o cheiro das manhãs e o ruído das tardinhas.
Os gritos dos meus colegas de escola no recreio.
Fiz um horário dos comboios a desoras pelos seus apitos de marcha e pelo respectivo doppler.
Entrevi a morte que ali, antes de metade da jornada, veio ao fim da tarde de um dia quente de Primavera.
Há um ror mais de coisas que são tão importantes agora. Umas esquecem-se de propósito, outras não se ousa dizê-las, outras ainda têm a distinção da memória sorrida, sem pretensões.
Tudo isso revi, senti, toquei. Este ano de 2008 pela última vez. Exactos 50 anos depois de a porta ter sido aberta.
Também o guarda-redes na fotografia fez 50 anos em 2008